As paredes desta casa conhecem o meu silêncio melhor do que eu mesmo. O caminho para o trabalho é um filme que já vi tantas vezes que as imagens se confundem, perdem a cor, tornam-se apenas um borrão de deveres e horários. A sensação de estagnação não é apenas uma ideia; é uma presença física, um peso que se senta à mesa comigo e me pergunta: "É só isto?".
Quero gritar para o mundo que sou feito de mais do que tarefas cumpridas e noites solitárias. Quero crescer, expandir, ser melhor do que a sombra que este lugar me permite projetar. Mas, aqui, tudo parece conspirar para a imobilidade. Olho para fora e, na distância, o horizonte parece um cenário pintado num cartão que não consigo alcançar.
E, no entanto, existe um refúgio. Quando a tua presença entra no meu espaço, ou quando me transporto para a tua companhia, o relógio para de ser um juiz impiedoso. Os problemas, que antes pareciam montanhas intransponíveis, tornam-se pó ao vento. É curioso como a felicidade tem a pressa de quem sabe que é rara; "o que é bom acaba depressa", dizem as vozes, e eu sinto o pânico de ver o relógio a avançar assim que o sol se põe.
Mas levo comigo uma esperança teimosa. Esta "mini distância" que hoje nos separa é, talvez, apenas o intervalo necessário para que a nossa história ganhe fôlego. Que este ciclo de casa-trabalho seja apenas o rascunho de uma vida que, em breve, vamos escrever juntos, num lugar onde o "bom" não tenha de acabar, mas apenas começar a ser eterno









