YOU SHOULD SEE ME IN A CROWN
Se o patamar da perfeição realmente existe, CJ Han com certeza é a pessoa o habitando e governando como seu melhor espécime. E antes mesmo de aprender a falar, ela já entendia que falhar não era uma opção na família dela.
Crescer a sombra de uma irmã sem defeitos e com pais que exigiam ainda mais dela, a deixou doente antes mesmo dela entender quem ela era, e entender que as coisas não precisavam ser sempre daquele jeito.
— Por que preciso acordar tão cedo, se a escola começa no mesmo horário pra todo mundo? — Sua versão de sete anos questionou a mãe uma vez, observando o céu escuro de Los Angeles pela janela enorme do quarto cor-de-rosa, enquanto a mulher mais velha não parava de puxar seu cabelo e o enrolar no babyliss. — Isso é tão chato…
— Você pode achar chato e ruim agora, e preferir realmente dormir mais, mas um dia vai me agradecer por fazer de você a menina mais arrumada da sua classe, e a aluna mais impecável de todas.
Ter um complexo com a própria aparência e achar que precisava ser sempre sua versão arrumada e alinhada, não era exatamente um motivo que faria CJ agradecer a atenção dos pais quanto a ela, mas tinha coisas piores pra se preocupar.
— Não gosto dessa roupa. Pinica e as sapatilhas estão me machucando e eu só quero ir pra casa. — Ela resmunga com a mãe mais uma vez, agora tinha dez anos, e não via a menor graça em se apresentar em palcos na liga kids. Preferia mil vezes andar de bicicleta, jogar baseball com seu vizinho, e se sentia exausta depois de passar horas repetindo a mesma rotina sem parar. Ela acha que vai começar a chorar, quando a mãe agarrou seu rosto com força e a fez olhar pra ela.
— Sua irmã está passando por coisas muito mais desafiadoras agora mesmo num corpo de ballet de verdade, sabia? E se quiser ser como ela, vai ter que se acostumar com isso aqui, porque é o que você está destinada a fazer, até ser como ela.
A postura da mãe era tão ameaçadora e enorme em comparação ao tamanho sutil dela, que ela não se lembra de ter reclamado outra vez, nos quase treze anos que aquilo se estendeu. Era sobre ter uma vida inteira dedicada a orgulhar pessoas que diziam a amar, suficiente pra que as mesmas lhe dessem atenção e carinho e reconhecessem o quanto ela trabalhava duro, mas era tão difícil ver os outros a superando quando ela parecia tão perto de ter resultados, tão difícil se sentar lá e fingir que estava feliz por eles, até dizerem pra ela que ela não precisava, e não devia se contentar com pouco.
— Você tem que lutar pelo que é seu, defender o seu lugar como uma leoa, devorar todos os seus inimigos se for preciso. Porque é isso que eles são, são seus inimigos, e todos eles são uma ameaça que você tem que exterminar e fazer se arrepender de ter cruzado o seu caminho. — A irmã dizia, num tom tão duro e frio quanto os pais uma vez tinha feito aquele discurso pra ela, e CJ só soube que era assim que as coisas tinham que ser.
Não bastava ser bonita e talentosa ou ter carisma, precisava ter algo que as pessoas jamais esperariam dela.
Precisava ser o próprio caos, um milagre ruim.
◇
Quando anunciam que ela teve a pontuação máxima na última competição do ano, Han desvia de cada um dos participantes que se dirigem até ela para parabenizá-la, e só tem olhos pro troféu enorme que o apresentador está segurando na frente dela. Os pais estão vibrando em seus lugares na primeira fila, enquanto ela ergue aquela estrutura de metal pesada, e não dá mínima quando Mia e Hana, respectivamente, têm seus segundo e terceiro lugar anunciados. Aquele momento era seu, e ninguém iria tirar aquilo dela.
— Você foi bem lá. — Mia murmura pra ela, meio sem interesse, mas ainda assim em um tom educado quando Han se aproxima da sala cedida pra academia no corredor. — Parabéns.
— Eu não preciso do seu reconhecimento, lindinha. Não é como se você estivesse surpresa, não é? Não depois daquelas apresentações horríveis. — A loira comenta, sem nem se importar que a maior parte dos jovens que estavam competindo naquela noite, estavam no mesmo espaço que elas, ouvindo tudo. — Nem uma de vocês teve a menor chance e quanto mais rápido vocês todas entenderem, melhor vai ser.
— Bom, eu não sei. É você a adulta que não consegue segurar uma vaga em uma companhia, e precisa competir com meninas do ensino médio pra ter algum sentido na sua vida e não aceitar que é uma fracassada. — Smythe-Lee solta uma risada no meio do comentário, se divertindo com a maneira como começa a fuzilar ela com o olhar. — Como se sente com chances cada vez mais limitadas?
CJ aperta o troféu nas mãos, e pensa em usar ele pra abrir um buraco na cabeça de Mia, e nem mesmo o corredor cheio a impede de pensar que ia ser muito fácil, preferindo fazer o que ela sabia de melhor.
Destilar ódio e veneno.
— Eu não vou perder meu tempo com uma vadia desesperada por atenção e sexo igual a você. — A loira começa, sabendo que tinha tocado em um ponto, quando viu a mais jovem congelar diante dela. — Tão fácil de levar, sempre com as pernas abertas e pronta pra dar pra qualquer pessoa que ache você bonita, assim como seu irmão, que não pensou duas vezes em me botar pra mamar enquanto chorava pelo viadinho do Damian. É assim que vocês conseguiram tudo? Oferecendo todos os buracos do corpo pras pessoas importantes de verdade… Ou nem isso faz com que gostem de vocês?
Ela não espera nem um segundo antes de jogar um beijinho no ar pra ela, e andar até Hana Park no final do corredor, que nem parecia ter ficado em terceiro lugar com a quantidade de pessoas já a bajulando. Aquilo só deixa ela ainda mais brava e enciumada, mas não suficiente pra perder a oportunidade de esfregar seu mérito no rosto daquela menina minúscula.
— Ah, porquinha, achei que você já tinha ido pra casa sem se despedir de mim. — Han comenta, não dando a mínima pro quão tensas as meninas estavam na presença dela. — Eu só queria que você soubesse…
A voz enfurecida de Mia soa bem atrás dela, e ela precisa se virar no mesmo instante pra entender o que está acontecendo. Até acontecer.
Quando ela se vira pro corredor, é recebida pelo primeiro dos quatro golpes que Mia mira direto no rosto dela, acertando o nariz com a parte de gesso da sapatilha e CJ jura que consegue ouvir ele se quebrando e os pedaços se mexendo debaixo da pele quando a mais jovem a atinge de novo, de novo e de novo, até ela se desequilibrar e cair no chão.
Dói tanto, sangra tanto, e ela quer chorar mas não consegue, porque o ar é bloqueado em sua garganta quando Smythe-Lee se ergue sobre ela; uma perna dobrada no chão enquanto a outra faz força com o pé sob a garganta de Han, que tem o olhar mais aterrorizado de todos observando aquela menina parecer tão tranquila enquanto atenta contra a vida dela.
— Eu juro por Deus que se ouvir meu nome ou de qualquer outra pessoa perto de mim, sair pela sua boca imunda, vou quebrar a sua cara com mais força ainda e acabar com a sua raça. — A morena ainda tem a pressão persistente em cima dela, a prensando pra baixo, no chão sujo, onde ela pertencia, enquanto aponta a sapatilha ensanguentada pra ela. — Não é uma ameaça, é um aviso. Você é uma vadia psicopata do caralho, mas eu juro que posso ser ainda mais louca que você.
Harvey e Damian aparecem em seu campo de visão removendo a garota que a tinha atacado ali, e mesmo quando ela está de pé e as amigas de CJ se juntam a sua figura desfigurada e encolhida no chão, uma não tira o olhar da outra, e a loira jura que nunca vai esquecer do medo que sentiu naquele dia, e nem o quão mortal aquela garota parecia.
Na sala de Mrs. Donovan entre os pais, ela se recusa a admitir isso ou concordar quando os dois adultos falam que agora ela não tem paz pra estudar, que se sente ameaçada e exposta, e que tem medo daquela delinquente repugnante. CJ sempre foi a valentona, nunca a vítima, e não era uma rata insignificante como Mia Smythe-Lee, que resolveu voar alto demais, que ia tirar isso dela.
Ela tinha uma coroa pra manter, e ia defender ela até o fim com o único propósito de ser a maior.
— Os pais daquela garota não dão a mínima sobre como nossa filha se sente. — A mãe é a primeira a apontar, uma mão apoiada no ombro da loira, a outra apontando um dedo na direção de Donovan. — Eles acham que pagar pelos gastos médicos e psicológicos vai ser suficiente?
— Na verdade, foi um acordo bastante justo, ainda mais agora que o caso foi pro conselho e não parece que eles têm intenção de absorver a Mia da decisão de proibir ela de competir em solo nacional, o que ela concorda e promete ser paciente e respeitosa com qualquer que seja o final da análise. — Alexandra comenta, tentando manter a calma e não parecer tão cínica quanto soa em sua cabeça, quando abre um sorriso mínimo pro casal. — Mas por que a gente não fala do histórico de comportamento da CJ? O conselho é muito rígido com dança competitiva, e as fichas de ética e bom comportamento é o pilar de continuidade da carreira de alguém no nosso meio. Então, quando iam nos contar que a CJ tem um 5, numa escala de 1 a 5, e que ela não é mais apta pra estar numa escola dessas, e muito menos competir?
O casal fica em silêncio, e CJ também, então Alexandra escolhe se aprofundar mais no assunto que tinha agora em mãos, tão físico e presente quanto o histórico de Han, acumulado de todas as outras academias que ela frequentou desde criança antes dali.
— Bullying, perseguição, agressão verbal e psicológica. Ninguém com um 5 devia ser aceito em qualquer estúdio ou conservatório ou academia, então vocês resolveram omitir todas essas informações e jogar a filha de vocês aqui como se ela fosse um anjo, e não uma bomba pronta pra explodir nos meus alunos. — A mulher continua, e quando mais uma vez eles não tem uma resposta, ela continua, se voltando a garota no meio deles. — Eu liguei pras companhias que ajudamos você, CJ, a entrar nos últimos semestres, e todas elas te mandaram de volta porque você apresentava uma ameaça a integridade emocional e física dos seus colegas. Quando você ia contar que tinha sido chutada, e não voltado por que não se adaptou a vida de bailarina profissional?
CJ quer sorrir quando Alexandra direciona aquela pergunta pra ela, mas o rosto dói tanto, e os curativos no nariz não estavam fazendo o mínimo pra ela conseguir mexer o rosto sem sentir ainda mais dor, então ela segue olhando pra janela atrás de Alexandra, fingindo não se sentir atacada.
— Nós falamos com a mãe da Hana Park, e depois das nacionais, ela parece decidida a levar o caso de intimidação constante pra polícia. A filha de vocês disse pra uma garota deficiente que ela nunca vai ser capaz de ser tão boa quanto ela, porque ela é surda. Uma porca gorda e surda. — Alexandra sente um gosto amargo na boca ao recitar as palavras da própria CJ, vendo os pais dela se focarem na própria filha, antes de continuar. — Então considerem a ajuda dos pais da Mia Smythe-Lee um milagre, porque as coisas não vão ser fáceis pra vocês daqui pra frente, e essa academia não tem a menor intenção de proteger a filha de vocês durante o caminho. A Academia Moon vai cortar todas as relações com você, CJ, e esperamos que você entenda o grau da situação e como nós decidimos isso. Nós não vamos comprar a sua briga.
A sala se torna um caos. Os pais de CJ querem que Hana Park seja processada por inventar mentiras, querem processar as vítimas das companhias porque a filha jamais seria capaz de fazer aquilo, por mais que eles saibam exatamente do que ela é capaz, e cada atitude sua que a levou àquela posição, mas a maneira que eles ainda tentam é divertida, quase hilária pra CJ, que começa a rir por cima da discussão, jogando a cabeça levemente pra trás quando eles param de gritar pra dar atenção a ela.
— Você nunca comprou uma briga minha. Nem um de vocês. Porque vocês nunca tentaram fazer de mim alguém melhor ou maior, e sempre que o semestre virava e vocês abriam as audições de novo, eu era trocada por algum novato nojento e mais jovem que eu. — Han começa a falar, as mãos em cima do colo enquanto brinca com os dedos, ainda soltando risinhos a cada constatação. — Não importava o quanto eu me esforçasse ou desse o meu melhor, ia ser sempre substituída e massacrada por alguém que vocês escolhiam amar e enaltecer e admirar, sempre me esquecendo e que eu estava ali, desesperada por um minuto de atenção, torcendo pra ser notada de novo.
— CJ… — Alexandra solta um suspiro cansado, que faz a mais jovem se levantar com raiva, a cadeira se afastando dela pelo impulso num barulho alto.
— Não, não! Você sabe que é verdade, sabe que não estou mentindo! Eu sempre fui descartável, sempre fui um apoio, e quando tentei tomar a situação do meu jeito, você fala que fui má eles, que fui violenta com eles, mas a verdade é que sou a única que sei o que é melhor pra mim. Sou a única que sabe do quanto sou capaz, e de tudo que precisei fazer pra chegar até aqui.
— CJ, por favor, se acalme. Você não quer ter essa conversa agora. — O pai tenta deter ela, pessoalmente não gostando do tom que a conversa estava levando, deixando Alexandra um tanto confusa e curiosa ao mesmo tempo.
— O que? Vocês também têm pena daquela pobre coitada? Vocês também preferiam ela acima de mim? As coisas só ficaram bem quando a Jaime saiu da minha vida, e eu só fui a estrela quando ela não era mais, e eu só fui importante quando ela deixou de ser. Vocês amavam ela, e eu queria que me amassem também, mas só uma podia andar por esses corredores com o mundo aos seus pés, e tinha que ser eu. Eu! — A loira solta, apontando o dedo indicador pra si mesma enquanto grita e afasta os pais os empurrando com os ombros, tendo a certeza que parecia louca agora. — Eu briguei com aquela vagabunda naquele dia, e se ela não tivesse se fingido de desentendida e como se o mundo não girasse ao redor dela, eu não ia ter que empurrar ela do telhado! Eu sabia que você ou Mrs. Moon nunca iam olhar pra mim, como olhavam pra ela, mas ainda queria fazer ela pagar por destruir a minha vez, queria que ela sentisse dor e fosse machucada, porque ela merecia. E quando soube que ela nunca mais ia acordar do coma ou voltar a se mexer, eu festejei porque ia ser menos uma pirralha egoísta e metida pra ter que lidar. — CJ apoia as duas mãos na beirada da mesa de Mrs. Donovan, sorrindo pra ela com todo o orgulho que tinha dentro de si depois de expor aquilo tudo. — Fiquei olhando o sangue dela se espalhar pela calçada e cuspi no corpo dela, lá do alto, antes de começar a chorar e chamar todo mundo. Gritar pra alguém ligar pra ambulância, dizer que eu estava arrasada e nós éramos melhores amigas quando a polícia nos interrogou, e concordar quando disseram que só podia ter sido um acidente. A Jaime estava voando alto demais, como Icarus, e ia acabar perdendo as asas e caindo, mesmo. Eu não me arrependo de nada.
A loira toma fôlego, abrindo mais um sorriso inocente e gentil, antes de olhar pros pais por cima do ombro, e depois se voltar a Alexandra.
— E mesmo assim você me substituiu na primeira oportunidade que você teve, pela Mia. Mesmo se eu tivesse batido a cabeça dela no banheiro e fingido ser um acidente, você ainda ia escolher outra pessoa acima de mim. Você nunca compra as minhas brigas, me obriga a ter todas elas sozinha desde que cheguei aqui. Você não se importa, e a culpa é toda sua.
Os seguranças da escola chegam no minuto seguinte, ela nem percebe quando Alexandra aciona o botão de pânico e os pais se afastam dela no processo daqueles homens a retirando dali. Foi a última vez que ela viu Mrs. Donovan e esteve dentro daquele prédio, e não se importava se tivesse sido naquelas circunstâncias e ela estivesse chorando e aterrorizada quando ela saiu.
Ela não se arrependia, e tinha plena consciência que faria tudo de novo se precisasse pra chegar ao ponto mais alto da perfeição.








