N O C E L E S T I A L
LOS ANGELES, 2018.
Alexandra sente que se não fizer algo, vai se arrepender pro resto da vida, e que se for mesmo viver tanto mesmo com Ethan debaixo do mesmo teto que ela, ela definitivamente não quer ficar se lembrando daquele dia: o dia que não foi atrás de Jihyo Lee, depois dela praticamente fugir do palco em que ia competir quando anunciaram seu nome.
Ela tinha conseguido ser a última da lista, era seu último ano competindo entre aquelas pessoas incluindo Moon, como ela tinha coragem de jogar tudo fora? Crise de nervos, ansiedade ou o que fosse, verificou todas as salas do corredor enorme achando muito difícil enxergar com todo aquele glitter colado em seus cílios, e quando finalmente a encontrou, era como uma mãe exigente a puxando pelos ombros pra ficar de pé e se recompor.
— Você deve ser a vadia mais burra que eu já conheci, e olha eu aqui, ajudando você a tentar pegar meu troféu. — Moon reclamou o caminho inteiro, achando patético como a outra soluçava e tentava puxar a mão pra longe da sua.
— O meu pai…
— É só um pai, não pode e não vai te tirar daquele palco, e se ele não ficar feliz depois de te ver… Bom, é melhor não chamar ele mais de pai.
Alexandra para bem atrás das cortinas, então olha pra fileira imensa de pessoas que tinham ido prestigiar Lee como seu fã-clube pessoal e fiel. Ficou feliz por ela ter apoio de alguém, esperava que ela ficasse também, mas não ia admitir isso em voz alta. Nunca. Nunquinha.
— Vamos, Ji. Vá lá e tente, só tente tirar o que é meu, eu vou te esperar bem aqui.
E tudo bem que ela fosse sua nemesis, ela ainda esperaria por ela pra ter certeza de que ela estava bem.
◇
Hana sabe que vai sentir muita falta de Damian, e consegue sentir que ele também vai sentir muita falta dela, e por mais que os dois queiram ser egoístas e simplesmente puxar um lado pra seguir pelos próximos meses, eles sabem que não podem.
— Promete, de dedinho, que não vai se esquecer de mim só porque voltei pra academia da minha mãe e vou voltar a ser seu rival por tabela. — Damian ergue o próprio dedo, esperando a garota mais baixa fazer o mesmo, segurando o tom dramático o máximo que conseguia. — Hana, juro por Deus, se você não me responder…
— E pra quem eu vou contar as fofocas da comunidade coreana e do conservatório? Damian, você é minha alma gêmea e sabe disso! — Ela se defende, então enrolando o dedo mindinho com o dele, e no momento seguinte, eles estão se abraçando como se nunca mais fossem se ver. Como se não tivessem celulares pra mandar mensagem, como se não morassem na mesma cidade.
Pirralhinhos dramáticos e pegajosos, mas ainda assim era uma amizade sincera.
— Por favor, se tiver algum problema, me diga e eu juro que eu vou vir correndo te socorrer, Hana. Você sabe que não está sozinha.
— E você, por favor, sempre que precisar conversar e falar sobre a vida, me procure. Você sabe que eu sempre vou ouvir, Damian.
Ji acha que vai começar a chorar enquanto observa os dois só alguns passos de distância, e Alexandra jura que já está chorando dentro do carro vendo a interação dos dois jovens em cima da calçada.
Nell e Connor II se entreolham no banco de trás, então começam a tecer comentários entre si.
— E ele quer que a gente adivinhe que eles não namoram. — Ela diz, indignada.
— Se eu não tivesse visto coisas que gostaria de desver, eu juro, até acreditava que ele gosta de mulher. — Ele então rebate, ainda mais indignado, e os dois forçam vômito quando veem a dupla começar a soluçar enquanto acenam um pro outro em despedida. Como duas criancinhas se despedindo na caixa de areia no final do verão, mas no fim, só eles iam entender tudo o que tinham vivido nos últimos seis meses.
— Mrs. Montgomery, não quero que o Damian se torne minha Nemesis. — Hana sussurra para Ji quando a mais velha apoia uma mão em seu ombro, e as duas assistem o carro dobrar a esquina e sumir pela rua.
— Tudo bem se ele for, vocês ainda podem se apoiar e se admirar mesmo assim. — E ela a consola, abrindo um sorrisinho no processo. — É mais fácil do que parece, eu juro.
◇
Na sala de Mrs. Donovan, Mia se sente tão leve quanto uma pluma a ouvindo falar que ela tinha sido expulsa pelo conselho, que não podia competir nacionalmente e muito menos internacionalmente, e que mesmo sua permanência em qualquer escola de dança e companhias no futuro era incerta, incluindo a Academia Moon.
— Eu queria comprar a sua briga e dizer pra eles que você só estava se defendendo…
— Mas eles jamais iam acreditar, e tá tudo bem, eu nem quero continuar sendo bailarina mesmo.
A morena dá de ombros no mesmo instante que vê a mulher mais velha ficar chocada, porque a verdade é que queria dizer aquilo fazia muito tempo, e aquela só calhou de ser a oportunidade perfeita.
— Fiz aquilo porque eu quis, sabia quais eram as consequências, me senti bem batendo nela, e se tivesse outra oportunidade, faria de novo. Eu nem conseguiria mentir na cara daqueles velhos e a senhora sabe disso, então é melhor nem reservar esse tempo e esforço, porque ele vai ser desperdiçado. — O tom era honesto e as palavras sinceras, porque depois de uma longa conversa com os pais sobre seu futuro, sentia que devia isso aquela mulher também. — A senhora ainda vai ser uma das minhas maiores inspirações, e eu sinto muito por ter colocado o nome da academia em notícias ruins e ter falhado como uma solista…
— Se você sente que sou mesmo sua influência, já deve saber que eu também não sou a pessoa mais tranquila do mundo, e que teria feito o mesmo que você se estivesse no seu lugar, senhorita Smythe-Lee. — Alexandra a interrompe abrindo um sorriso mínimo, fazendo um esforço pra não sair do papel de adulta responsável e que não tinha feito pior na idade dela, vendo a garota relaxar na cadeira. — Você foi bem, trabalhou duro, entregou o que se propôs e fez o que devia, da melhor maneira possível. Foi um prazer recebê-la e ensiná-la enquanto eu podia, mas… Eu só fiquei curiosa, sobre qual caminho decidiu seguir agora.
Mia contempla as palavras dela por um tempo, os olhos castanhos viajando por toda sala, antes de se voltar a Mrs. Donovan.
— Bom… Vamos só dizer que eu escolhi um outro tipo de palco.
Era um ringue, sendo bem específica, mas ela só soube de verdade depois de passar pelas portas da academia de luta e ver todos aqueles adolescentes e jovens adultos socando sacos de areias ou uns aos outros, bem diante dos olhos dela, e saber de quem pertencia aquele espaço na hora também.
— Você não me disse que seu pai era o Beau Donovan, tipo, Beau Donovan A Besta do MMA.
— Meu nome é literalmente Damian Donovan.
A garota continua espiando tudo o que acontecia ao mesmo tempo atrás do garoto mais alto, que parecia muito confortável naquele lugar pra alguém que passou a vida em estúdios de ballet, mas com certeza passava boa parte do tempo ali também por causa do pai.
— Isso é… Insano. — Ela diz mais pra si mesma, apertando a aula da mochila.
— Você não disse que fez taekwondo quando era criança? — E ele a questiona, batendo o ombro contra o dela, a provocando como se conhecessem a anos, e não desde o dia que ela flagrou ele e o irmão dela dando uns amassos numa sala vazia.
— Eu disse que meu tio obrigou a família toda a fazer taekwondo quando criança. E ainda assim é muito diferente porque eu nunca nem ganhei uma faixa!
— Mas conseguiu destruir a cara de uma garota com o dobro do seu tamanho sem nem suar ou dar uma chance pra ela revidar ou perceber que você ia ser uma praga na vida dela. — Damian então se separa dela, dando passos largos pro meio do ambiente, os braços abertos como se apresentasse todo um universo pra ela. — Mia, eu acho que esse é um lugar perfeito pro seu recomeço.
E a verdade é que ela fica encantada, no sentido mais puro e genuíno da palavra, consegue sentir as mãos tremendo de ansiedade no bom sentido e os pés já se movendo sozinhos pra explorar todo aquele lugar e aprender a fazer o que aquelas pessoas faziam. Talvez ele estivesse certo.
— E você ainda vai me agradecer muito. — Ele diz, parecendo ler os pensamentos dela, ao que ela simplesmente concorda.
— Talvez, um dia.
◇
Harvey observa, bem de longe e da maneira mais discreta que consegue, a volta dos irmãos Donovan pra Academia e como a fofoca do processo judicial de CJ Han não segue mais de maneira sigilosa depois dela confessar tudo que tinha feito, em todas as escolas que já tinha passado, pra quem quisesse ver e ouvir e tivesse um smartphone pra ver as notícias mais rápido.
A essa altura, ele sabe de três coisas: é muito difícil ficar ali sem a irmã e sente falta dela, tomou todas as decisões erradas cedendo a CJ todas as vezes que ela se ofereceu pra ele e ele mesmo se ofereceu pra ela, Hana Park era a garota naquele dia que ele surtou, e depois de compreender que ela não passava de uma amiga para Donovan, se sentiu culpado por pedir ao universo que ela fosse atropelada desde então.
Ele sabe que Damian vai acabar sentindo os olhos dele em suas costas, e quando ele se vira e olha pra ele, dá meia volta em torno de si mesmo e simplesmente sai andando como se não fosse com ele e tivesse alto de muito importante pra fazer. No último dia de aula, quando todo mundo só estava juntando os pertences pra levar pra casa no recesso de inverno pós nacionais.
Nem ele acreditava nisso, e nem Damian, mas não custava tentar.
— Ei…
— Foi mal por achar que você era hetero e tinha uma namorada e ter surtado daquele jeito. — Smythe-Lee começa, enfiando as mãos nos bolsos pra Donovan não ver ele tremendo, não por finalmente conseguir falar com ele depois de tudo, mas porque acha difícil olhar pros olhos dele enquanto faz isso e torce pra que ele não o odeie quando termine seu discurso. — Não faz ideia de quantas vezes passei por isso e eu sei que foi ridículo da minha parte criar todo esse terrorismo na minha cabeça, sem nem falar com você, ou deixar você me explicar… Eu fui um idiota, você não merecia ter ouvido aquilo, e nem precisa aceitar as minhas desculpas, é só que…
— Foi um ano do caralho pra todo mundo e eu mais do que ninguém entende isso, Harvey. — Damian completa, encolhendo os ombros.
— Então, você não me odeia? — Harvey quase acha que é bom demais pra ser verdade, só pra ter as esperanças tiradas dele no mesmo instante.
— Não odeio você, estou apaixonado por você, mas não acho que posso ter um relacionamento agora porque meu ano foi do caralho, e você não foi justo comigo. — O mais novo responde, achando difícil, também, olhar nos olhos dele enquanto diz aquilo. Porque queria beijá-lo, fazer o melhor sexo de reconciliação da vida dos dois, mas tinha responsabilidades com o próprio processo de cura, e não tinha o menor interesse de fazer aquilo com toda a história de CJ tão recente também. — Não quero que você seja minha Nemesis agora que estamos no mesmo lugar.
Harvey fica tão chocado com as palavras dele que quase esquece como se fala e que realmente precisa respondê-lo.
— Eu também estou… Eu também não quero que você seja minha Nemesis agora que voltou.
Vamos Harvey, você consegue. Diga a ele que também está apaixonado por ele, diga a ele que o apoia na decisão de se afastar de você mesmo que isso doa e que entende que ele precisa de ajuda psicológica acima de tudo, diga a ele que sente muito e que gostaria de recomeçar as coisas e que vocês podem ser amigos primeiro de tudo, diga a ele, só diga qualquer coisa.
— Vocês dois não precisam se preocupar em ser a Nemesis um do outro, eu sou o sol que vai destruir os dois. — Connor II comenta, uma mão apoiada em cada ombro dos outros dois garotos, enquanto abre um sorriso enorme. — Vocês sabem disso, não sabem?
Damian tinha até se esquecido do inferno que era ser solista debaixo do mesmo teto que o próprio irmão, e Harvey só quer que aquele cara tenha outra crise de identidade antes que seja obrigado a bater nele, quando Connor deixa os dois ali e sai pelo corredor, mas não sem antes os alertar, mais uma vez, que os dias de paz tinham terminado.
— Espero que o recesso de vocês seja incrível, porque o próximo semestre vai ser do caralho.
◇
Jamie solta um suspiro quando desliga a TV e contempla a parede de riscos atrás dela. Ela agora estava vazia, como se tivesse dado um reset, não porque ela não pertencia mais àquele lugar, mas porque tinha outro pra ir. As luzes piscando em cima de sua cabeça só deixavam claro que estava na hora, e ela não tinha mais tempo pra perder.
Vou sentir falta da comida gratuita, e das roupas sempre meu dispor, de fazer a linha recepcionista de pessoas perdidas no espaço tempo, e de assistir os desfechos como se fosse uma série, mas estou mais cansada agora, cansada demais pra pensar que isso era bom a ponto de eu me importar.
Ela tira o crachá do uniforme de recepcionista, e o deixa por ali, mesmo que não faça diferença, ela quer que as coisas sejam assim, e simplesmente vai pra direção da porta que ela costumava fugir desde que tinha chegado naquele lugar, com o corredor escuro que sempre se mostrava disponível pra ela passar e chegar do outro lado, pra porta iluminada e aberta 24 horas por dia.
Ela está pronta, ela quer isso, ela não só mais precisa ir, como está bem com a ideia de… Bom, ir.
— Por favor, que não seja uma entidade ruim me esperando do outro lado, eu sempre fui tão legal… — Ela sussurra pra si mesma, sentindo um arrepio subir por todo corpo quando uma lufada de ar a atinge assim que ela abre a porta, os olhos tampados com as mãos, com tanto medo do que poderia ver do outro lado.
Até ela conseguir espiar entre os dedos finos, e sentir um alívio sem igual.
— Mrs. Moon!
Ela ia ficar bem, sabia que sim, podia simplesmente deixar aquele lugar e provar por si mesma. Ela não precisava mais do Muro.









