Eram duas da manhã de um dia de semana qualquer. Tinham sido dias frios aqueles últimos. Congelantes, na verdade. A estação invernal estava encontrando o seu auge, então tudo o que a menina sabia sentir era frio, daqueles bem gelados, que queimam os lábios e ressecam a pele do rosto.
Se bem que havia muito tempo que a menina não sentia calor, a reflexão surgiu suavemente, no fundo dos seus pensamentos. Nos últimos meses, a sua vida tinha virado de cabeça para baixo, era como se um furacão tivesse passado por ela e levado absolutamente tudo o que ela acreditava ser firme pra bem longe. Ou um tsunami. O que for mais forte. A menina via graça quando as pessoas dizem que estão no olho do furacão quando a vida delas ta um caos porque, ela sabia, que o centro é justamente o lugar mais seguro para se estar. Todos dizem como se fosse algo ruim, mas, veja bem, se você está no lugar mais seguro, existe um momento para reflexão, para acolhimento, para cura, ainda que as coisas estejam girando descontroladamente ao seu redor. Mas você está em paz, existe o medo, claro. Mas você pode alcançar a estabilidade em buscar uma saída.
Falando no olho do furacão, a moça invejou aqueles que conseguiam alcançar esse lugar. Porque, ela mesma, se sentia girando e girando e girando sem parar. Aliás, não só ela, mas tudo o que ela acreditou, tudo o que ela amou e se esforçou pra construir. Tudo estava girando descontroladamente com o furacão que a sua vida tinha se tornado.
E, nos míseros segundos em que ela conseguia olhar pra fora, tentando enxergar ao redor de si, tudo o que ela via era um rastro de destruição e desolação. Não havia mais nada de pé. Não havia sequer uma sombra para se esconder quando, enfim, a chuva a alcançasse e o furacão fosse embora. Porque é sempre assim. Primeiro o furacão. Depois a chuva. E por último, raios de Sol.
Foram poucos os momentos de Sol ao longo de sua vida, mas a menina é teimosa e corre todos os dias, tentando alcançar esses mesmos fugazes raios solares. Mas, mais que o Sol, o brilho lunar - seja o radiante durante a noite ou o discreto durante o dia - sempre foi o objeto de admiração da menina. Contraditório não? Veja bem, caro leitor, todos os dias a nossa menina levanta, tentando encontrar raios solares. Pode-se dizer que é quase uma obsessão. Mas, por muito tempo - uma quantidade bem maior do que o esperado ou recomendado - tudo o que houve como resposta era a escuridão noturna e, veja só, o único corpo celeste que ilumina, de alguma forma, é a Lua. Então, por muito tempo, tudo o que houve em sua vida para iluminar e guiar, foi a Lua - é compreensível então que este mesmo corpo celeste seja o objeto de fascínio da nossa protagonista, certo? Quando não havia nada, nem pessoas ou formas, ainda assim, o brilho lunar se fazia presente. A única constância no meio do desamparo eternamente noturno.
Mas quando se está girando e girando e girando e girando e girando e girando, não há Sol. Muito menos Lua.
Tudo o que existe é o grande enjoo que vem, a desilusão de acreditar que, em algum momento, esse ciclo vai acabar.
A dor de olhar ao redor e perceber que nem mesmo a Lua, sua eterna companhia, se safou da vertigem que o furacão trouxe dessa vez. Tudo fica tão tão confuso e bagunçado. Borrado.
Os limites de repente não fazem mais sentido e, tudo o que se era conhecido, se torna um grande breu, arrastando a menina para um grande vazio, onde tudo parece estar suspenso, parado no tempo e, mesmo assim, em constante mudança.
E então, tudo o que ela pode fazer é esperar.
Não sentada, porque não há lugar para sentar. Tampouco em pé, pois também não há chão para se apoiar. A espera acontece enquanto ela gira, tentando sobreviver a todo custo. Desejando o brilho lunar como consolo, já que o solar parece simplesmente inalcançável agora. Agarrando o restinho de fé que há em si, que há para acreditar na melhora, que esse mesmo brilho solar inalcançável, um dia, há de chegar para si também. Tudo o que resta é esperar. Ainda que girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando sem parar.
Mari.









