Há muitos e muitos anos, antes que a luz do progresso iluminasse o sertão o povo simples da roça fazia o que podia para se livrar das coisas estranhas que espreitavam na escuridão.
Vista à vagar pelas matas e pastagens do interior do Brasil a mula sem cabeça é uma dessas criaturas bizarras, que muitos acreditam, estar presente apenas no imaginário popular, nas lendas e no folclore de povos crédulos.
Normalmente se trata de uma bela mulher, fadada ao triste destino de se transformar em um monstro com forma equina, sem a cabeça, que cospe fogo pelo pescoço e assombra as pessoas e animais desavisados que atravessam seu caminho, noite a dentro. As causas para que essa transformação aconteça, geralmente permeiam o limiar entre a paixão e o pecado, aonde moças que perdem sua virgindade antes do casamento, ou se apaixonam por padres, sofrem tal maldição. Existem, também, versões da história que narra a transformação da sétima filha, não batizada, de um casal, na mula sem cabeça, ou burrinha, como é chamada em algumas regiões.
O pensamento lógico logo nos diria que se trata apenas de uma lenda, mas o que dizer quando encontramos uma fotografia e ouvimos o relato de um testemunho ocular? Uma senhora, chamada Marlene dos Passos, do distrito uberlandense de Cruzeiro dos Peixotos afirma: sua mãe e sua avó já viram e, inclusive, foram atacadas por tal criatura.
“O povo de antigamente morava em uns ranchos de madeira, e as portas eram fechadas com um pedaço de pau; as portas eram assim. E minha avó morava em uma casa dessas. Aí, contava ela que tinha ido na casa do irmão, levando os filhos pequenos, e eles voltaram tarde da noite. Quando estavam voltando, pelos caminhos do mato, ela escutou barulhos de casco e falou para os filhos correrem, por que a mula chegava atacando as pessoas até machucar... Até matar.
Então eles correram, minha avó com minha mãe ainda pequena e os outros filhos. E isso minha mãe contava, apesar de ser uma mulher muito séria; ela contava que até que tirou todos os paus que fechavam a porta, que entrou e jogou os meninos lá dentro, que entrou e colocou o último pau fechando de volta ela chegou, mandando os cascos na porta e do outro lado minha avó e seus filhos podiam ver o fogo saindo do corpo do bicho. Isso ela chegou a contar pra mim, ela contava pra nós.”
Fogo, medo e pecado permeiam a vida e as relações de quem vive nesses lugares e nos levam a questionar: Onde termina a história e onde começa a lenda?