O trabalho não passa de uma droga como as outras. É humilhante que os homens não possam viver sem drogas, sobriamente; é humilhante que eles não tenham a coragem de ver que o mundo e eles mesmos são o que realmente são. Têm necessidade de se narcotizar com trabalho. É imbecil. O evangelho do trabalho é simplesmente o evangelho da estupidez e da covardia. Trabalhar pode ser orar; mas é também esconder a cabeça na areia, é também fazer tanto ruído e tanta poeira que a gente não possa ouvir a própria voz nem ver a própria mão diante do rosto. É escondermo-nos de nós mesmos.
Não admira que os Samuel Smiles e os grandes homens de negócios sejam tão entusiastas do trabalho. O trabalho lhes dá a ilusão confortadora de que eles existem e até de que são importantes.
Se parassem de trabalhar, haveriam de perceber que a maioria deles simplesmente não existe.
São apenas buracos no ar, nada mais. Buracos talvez um tanto malcheirosos. A maioria das almas smileanas deve ter um certo mau cheiro, acho eu... Não admira que elas não ousem deixar de trabalhar. Poderiam descobrir o que realmente são, ou antes o que realmente não são. É um risco que não têm a coragem de enfrentar.
Aldous Huxley, in: Contraponto











