Domingo, 5 de setembro de 2021 (23:50)
Eu acabei de ter uma conversa muito interessante com o Marcos que eu acho que seria bom registrar.
A conversa surgiu porque eu fiquei com vontade de comprar um teclado mecânico muito bonito que estava na Amazon por R$ 680,00. Como eu achei caro, eu liguei para o Marcos para ele colocar um pouco de razão na minha cabeça e a partir daí surgiu a conversa interessante sobre a importância do elemento “éstetica” no que a gente consume e do papel das redes sociais na promoção da estética como um aspecto quase que essencial da vida.
(Eu não vou colocar aqui tudo o que gente discutiu mas só as partes e reflexões que eu achei mais importantes)
Muitas das coisas que eu quero fazer ou quero consumir vem da influência das redes sociais. Algumas delas são:
- Eu quero tentar os “30 dias de desenho” porque eu vi um vídeo no YouTube e achei legal.
- Eu quero determinadas roupas porque eu vi no Pinterest/Instagram/Tumblr meninas bonitas usando o suas roupas
- Eu quero ir em tal restaurante porque vi um anúncio no Insta/artigo no Facebook.
- Eu quero tentar algo nas redes sociais porque as pessoas que fazem isso ganham dinheiro, tem tempo livre e parecem muito felizes.
- Eu quero um Macbook/Iphone/Ipad porque aquela pessoa gringa que parece ter uma vida escolar bem organizada e ser feliz também tem.
- Eu quero ir em um determinado restaurante porque o ambiente é legal e as comidas são bonitas e eu quero tirar fotos para mostrar para as pessoas.
Todas são coisas que inicialmente não passariam na minha cabeça se eu não tivesse visto, mas que as redes sociais criam como um desejo na minha cabeça.
Eu sempre achei que eu não fosse uma pessoa tão influenciada pelas redes sociais, mas na verdade quase tudo o que eu quero fazer foi sugerido por elas.
Eu também achava que eu não era uma pessoa que queria mostrar o que eu tenho, que eu não tinha essa insegurança de querer dizer para o mundo que eu tenho uma coisa legal e me sentir bem por ter a coisa. Mas na verdade meus desejos de ir em muitos lugares, de ter os produtos da Apple, ou de me vestir de certa maneira estavam muito arraigados em querer que as pessoas vissem isso. Eu queria ser uma das “cool kids” que tinham todas essas coisas ou iam para esses lugares. Mesmo as fotos de viagens com tag de lugares não eram só pelos lugares bonitos, mas para dizer que eu fui em tal lugar. Então, assim como muitas pessoas, eu também tentei usar as redes sociais como uma forma de me sentir bem comigo mesma mostrando o que eu poderia fazer/ter.
Também preciso falar sobre o meu desejo por “coisas bonitas” . A maior parte das coisas que eu acho bonitas, seja papelaria, roupas ou os produtos da Apple, são sugeridas pra mim por pessoas cujas vidas eu acho legais. YouTubers bonitas e aparentemente bem sucedidas, artistas (ilustradores, fotógrafos, modelos, idols) no Instagram, pessoas aleatórias nas redes sociais que tem poder de compra em países desenvolvidos e podem elaborar fotos bonitas para o feed. Eu vejo todas essas pessoas e quero ser como elas, felizes e com vidas maravilhosas. Quando eu vejo essas imagens de objetos bonitos é como se na minha cabeça que girasse uma chave que associa a coisa a uma vida feliz e satisfatória e aí surge uma necessidade por ter essa coisa.
Alem disso, é preciso lembrar que as redes sociais criaram uma crença de que todos os aspectos do dia a dia devem ser esteticamente bonitos. Isso não só porque as pessoas que compartilham isso parecem ter uma vida maravilhosa e feliz, mas também porque pensamos que em algum momento vamos compartilhar aquilo com os outros e eles devem pensar que a nossa vida também é bonita, maravilhosa e feliz. Só que isso não é real. As coisas que fazemos, os lugares em que vamos, os produtos do nosso dia a dia não precisam ser bonitos. Isso porque (e aqui que está a sacada) os objetos bonitos não vão fazer acontecerem coisas boas na nossa vida que nos deixem felizes, tampouco a nossa vida precisa ser compartilhada com os outros para que eles achem agradável.
Toda essa reflexão me fez pensar que eu devo ficar mais atenta para as coisas que eu consumo nas redes sociais e como elas me influenciam, tanto nas coisas que eu quero consumir como nas que eu gostaria de fazer. Eu não gosto da sensação de estar sendo manipulada, principalmente quando isso significa que as pessoas estão ganhando dinheiro as custas de me manipular.
Eu deletei todas as contas que tinham fotos da vida esteticamente bonita de outras pessoas do meu celular. Ver essas fotos me fazia querer ter coisas, então não vou mais ver. No YouTube, a vida glamourosa de alguns criadores de conteúdo também faz isso, mas como o YouTube é uma plataforma muito útil de adquirir conhecimento eu só vou ficar atenta para não consumir mais esse tipo de conteúdo ou só pensar muito sobre os desejos que surgem depois desses vídeos.
Vou continuar com o Tumblr porque é divertido e para acompanhar ilustradores e pegar inspirações para os meus desenhos, estou usando o Twitter.
Por fim, acho que o Marcos falou uma coisa que faz sentido (se bem que não foi isso exatamente que ele falou): o desejo por coisas bonitas deve ser algo secundário (vir depois de coisas como durabilidade, necessidade, qualidade, valor), mas as redes sociais fizeram a estética ser um elemento essencial na tomada de decisão das pessoas por associar beleza a uma vida feliz. Por isso é importante estar em constante alerta nos nossos desejos e pensar nos critérios mais úteis e importantes na hora de decidir o que consumir.










