Dois (ou Elevadores)
Não durmo bem. Acordo antes que o despertador possa iniciar seu habitual show matinal. São 6h34. Cambaleante, levanto da cama, procuro meus chinelos, vou até o banheiro. Encaro o reflexo do meu recém-acordado semblante por longos instantes e realizo que a última noite definitivamente não foi das melhores. Física e emocionalmente falando. Estou com a barba por fazer. Corro minha mão pelo rosto; acho que não tem problema se eu adiar só até amanhã – esse é o lado bom de ocupar um alto cargo na empresa.
Caminho bocejante em direção à cozinha (por que ainda tenho esse quadro afixado à minha parede?) e abro a geladeira à procura de não sei bem o quê. Encho um copo com leite frio, ainda sem saber o que poderia saciar minha fome.
Não sinto fome, aliás. Talvez eu passe numa farmácia (para evitar filas muito exageradas) e compre uma barra de cereal com gosto de qualquer coisa. Lembrei que tenho alguns chicletes. Podem servir para enganar meu estômago (ou arruiná-lo, a longo prazo).
Tomo o leite frio e volto para o banheiro. Tomo um banho, escaldante e ligeiro. Vou até o quarto – choque térmico – procuro alguma camisa que não esteja completamente amarrotada. Essa está de bom tamanho (essa é horrível, mas na verdade eu não me importo). Abro a gaveta e puxo a primeira calça da pilha – hoje realmente não é um dia para se importar. Continua a garoar e o vento parece tentar me dizer algo que não compreendo. Essa jaqueta há de me servir para alguma coisa.
Hoje é vinte e seis. Procuro distrair minha mente.
Faltam alguns minutos para que eu saia de casa.
Decido ouvir algum disco do Pink Floyd (ou apenas uma faixa, considerando a extensão das obras em si). Sonhei com o Waters – pois é, mas não sei dizer com precisão o que ocorreu na minha cabeça essa noite. Eu nunca sei com precisão o que ocorre na minha cabeça. Vou de Dark Side.
Mal “Time” começa a tocar, tenho de sair. Desligo o som. Casaco, pasta, chaves, celular.
Vou até a porta. Lembro-me dos chicletes. Volto para apanhá-los e novamente me encontro à saída.
Deixo meu apartamento. Tranco a porta.
Tomo o elevador – odeio elevadores.
Garagem.
Sobre elevadores: eles me assustam.
Procuro meu carro e aciono seu controle remoto. Ele não destranca.
Semi-infarto.
Realmente. Eu não sou o único dono de um Accord no prédio.
Carro certo, desta vez. Despejo minhas ferramentas de trabalho no banco do carona. Algo cai no assoalho e não me dou ao trabalho de conferir. Porta, cinto, retrovisores. Tenho vinte minutos para chegar. Fecho os olhos, imagino o estado do percurso. Toneladas de metal sobre rodas, tudo enfileirado e imóvel, e ainda mais chuva que antes. Abro os olhos. Tenho que encará-lo. De novo.
Escolho Copeland no player. Não há nada melhor para botar ordem nas minhas ações e me fazer arcar com o que quer que eu tenha de arcar, seja o trânsito ou a insônia. Eu juro.
É um tipo de idolatria irremediável que eu edifiquei pelo Aaron.
Resolvo mascar um desses chicletes. O sabor oscila entre menta e hortelã – eu nunca soube diferenciá-los, nem sequer, por alguma vez, tenha me esforçado para tal.
I just know that sheee warms my heart...
Saio da garagem.
Aparentemente, atingirei a Rebouças sem muito esforço. Isso não pode ser verdade.
E não é.
Congestionamento.
Nem me importo, na verdade.
Não estou mais surpreso.
Sheee changes your mind.
Na última sexta-feira, peguei meu carro na oficina. O lado bom de ser privado do seu próprio veículo é ter de tomar o metrô para apresentar-se em compromissos e não ser forçado a respirar a densa e cinza fumaça dos escapamentos. Por outro lado, eu o tomava quase sempre em horários de pico, com um infinito de corpos por metro quadrado e acabava por respirar... Bem, estou chegando.
Finalmente, a Paulista.
Meu escritório é quase na travessa com a Luís Antônio.
Já posso recordar do letreiro discreto e minimalista que meu pai mandou que fizessem e colocassem na recepção há alguns meses.
“Mikhailov Corporação – Direito trabalhista”.
Nunca pensei que pudesse me satisfazer tanto apenas por chegar ao trabalho dentro do horário – ou quase.
Venho tentando lidar com minhas constantes crises de ansiedade.
Só eu e mais três outros colegas guardamos o carro aqui. Os outros se viram como podem para conseguir guardar os seus em algum lugar que lhes seja confiável.
Estaciono.
É um prédio comercial, como todos os outros da região.
Junto minha dúzia de artefatos do trabalho. Saio do carro.
Eu devo ocupar o cargo mais alto desse edifício. Desvantagem? Elevadores.
Eu usaria as escadas, se eu não tivesse de ir até o nono andar. Diariamente.
Geralmente eu prendo a respiração até chegar à minha sala. Pessoas normais distraem-se entre si, comentando sobre a chuva ou como foi difícil sair da Marginal Pinheiros. Claramente, eu não sou uma pessoa normal.
O único problema é quando tentam interagir comigo. É embaraçoso prender a respiração e ao mesmo tempo ignorar quem me falou. Então utilizo as respostas mais curtas possíveis para as observações dos meus colegas, que envolvem desde “bom te ver, Andrei” ou “como está Seu Ivan?”.
Isso não significa que eu seja totalmente ignorante. Eu só não consigo suportar essas caixas móveis das quais, de certa forma, depende meu trabalho.
Passo ileso pelo trajeto até minha sala.
Bom dia, Olivía (transformo o nome da secretária em paroxítono só pela piada – ou tentativa de).
Recebo apenas um “bom dia, Andrei”. (pela expressão, talvez ela não aprecie meu humor requintado – ou só me ache um completo fracassado).
Ela deve ter razão. Hora de assumir o papel de um cara sério.
Em poucos segundos, transformo minha mesa num porta-treco.
Aliás, ando farto de ter de carregar esse monte de coisas. Mas não vivo sem elas, de qualquer forma. Pelo menos aqui.
Mal entro na minha sala e é como se outro Andrei tomasse lugar. Eu prefiro pensar assim. É como se fosse eu, num modo automático. Se eu pudesse ou tivesse paciência de contar todas as ligações que me são transferidas e quantas vezes não ouço meu nome, o expoente assustaria o mais experiente dos físicos e matemáticos.
Diariamente me canso do meu nome – esse é o lado ruim de ocupar um alto cargo na empresa.
Nesse “modo automático”, eu me esqueço de tudo que não diz respeito ao trabalho e obrigações da companhia, então: modo automático.
Ajo como um bom funcionário. O melhor, eu diria. A corporação é do meu pai, o que me obriga a, mais que todos, me esforçar para ser o melhor. Quando eu saio do modo automático?
Horário de almoço.
Geralmente, eu como qualquer coisa que o pessoal do RH me traz sem que eu peça. Não hoje. A chuva deu uma trégua e eu prefiro sair.
E mais: vou de escadas. Mas só dessa vez.
Tem um lugar que eu costumava ir, há não muito tempo, com meu pai.
Saguão, atravessa, esquerda, direita, segue – certas coisas não mudam.
E voilà.
“Xis Paulistano”.
Na verdade, deve fazer uns quatro ou cinco anos que não venho aqui, mas o cheiro continua o mesmo. Cheiro de chuva, cheiro do casaco do meu pai, de risadas, vinagrete e de fritas.
Sinto falta do velho. Talvez ele sinta falta de mim, ou do garoto que eu fui.
Eu não o culpo.
Ninguém é obrigado a aturar um cara que vive na merda e nunca fez questão alguma de sair dela (por algum motivo eu me lembro daqueles lemas de programas de recuperação, que dizem que reconhecer o problema é o primeiro passo a ser dado).
Peço um cheese burger acompanhado de fritas e um daqueles sucos meio naturais.
O lugar não tem muitas mesas, então prefiro permanecer no balcão.
Na televisão, o noticiário local. Nada que possa ser, de alguma forma, relevante para mim.
Meu pedido chega.
Exatamente como eu me lembrava.
Eu me perdia nas batatas e, saciada a minha fome, acabava entregando meu lanche para o meu pai. Havia dias em que ele o comia, outros em que pedia para que embrulhassem para viagem, sempre da maneira mais cordial possível.
Uma senhora nos fundos da lanchonete me chama a atenção. Passo a observá-la. A maneira com que gesticula, e supostamente dá alguma bronca no garoto que suponho ser seu filho, me lembra de alguém. Provavelmente alguém bem próximo a mim.
Eu sonhei com a minha mãe essa noite. Nada teve com a parte do Roger Waters, de qualquer forma. Devo ligar pra ela.
Uma hora pode passar voando quando o que mais quero é que ela delongue.
Devo voltar ao escritório agora.
Segue, esquerda, direita, atravessa, saguão.
Afrontar o elevador – prender a respiração. Um dia eu supero tudo isso.
Sorrir gentilmente para a Olívia, sem piadas dessa vez.
Recolocar a máscara de bom funcionário.
Tentar não surtar cada vez que ouço o telefone ou o meu nome.
E esperar que o tempo passe.












