Quatro (ou Infância)
Li o mesmo parágrafo pelo menos umas cinco vezes. Desembacei as lentes dos meus óculos outras três. Aparentemente, não me concentrarei (e realmente não quero ter de recorrer ao Clonazepan), então decido fazer outra coisa que não necessite tanta aplicação.
Na verdade, não encontro o que fazer.
Quando se é moleque, tu vai sempre achar algo para passar o tempo.
Olívia já me chamou de moleque algumas vezes. Não na melhor das intenções.
A minha mãe também o fazia. Mas quando eu era mesmo moleque.
A gente nunca envelhece, para os pais. Eu até gosto disso.
Corro para o armário num impulso à procura de uma leitura mais dinâmica, talvez uma revista ou um livro de contos, e acidentalmente alcanço um álbum de fotografias. Tem uma foto nossa – da minha família – na capa dele. Ele data de 1994 e sinto como se eu voltasse para, no máximo, o ano de 1995, deixando São Borja e a casinha da vó Sofia para trás. Confesso que, na época, eu fiquei preocupado mesmo em deixar aquele terreno enorme, logo ali, a alguns metros da casa.
A mãe ficava louca gritando para que eu e Caleb não trouxéssemos lama para dentro de casa. A Sarah não conseguia acompanhar nossas corridas, então ela sempre julgava. Ela costumava alternar as vitórias para não decepcionar nenhum dos dois. Só depois de algum tempo eu percebi isso. Eu costumava pensar que ela tinha medo de nós, os irmãos mais velhos. Na verdade, ela estava o tempo todo prestando atenção nos formigueiros e nas suas bonecas de pano.
Resolvo voltar para meu ninho (como dizia a mãe) com aquela passagem de volta para São Borja e meus dias de piá.
O pai falava que só foi parar lá, em São Borja, porque achou que era a Argentina. No fundo, ele nunca gostaria da Argentina como gosta daqui. Ele não diz, mas eu sei disso. No começo, conta minha mãe, que ele tinha essas manias de “não sei o que russo, Rússia pra lá, Rússia pra cá...”. Ela dizia que essa coisa de subestimar tudo que não vinha da Rússia (ou de qualquer outro país que não o nosso) era mania de estrangeiro metido a besta. Não era mania exclusiva de estrangeiro não, mãe.
Se meu pai tivesse frequentado as aulas de geopolítica do meu colégio, teria criado algum atrito com um antigo professor.
“O que tem a Rússia, hoje? Tem bêbado velho, caído nas praças enchendo a cara de vodka e esperando morrer de cirrose.”
Lembro-me de ter dado uma risada, apesar de a situação não ser das mais espirituosas. No mesmo dia, o professor corou-se de tal forma ao ler meu nome completo, que acabei ficando sem jeito também. Só havia eu de Mikhailov na sala – e obviamente não era um nome brasileiro. Só pude pensar no meu velho e em como não teria ficado vermelho de raiva ao ouvir tais impropérios.
Fomos morar na capital depois de sair da cidadezinha fronteiriça. Com exceção da tia Mia e a vó, não havia muito do que sentir falta. Mãe e pai conosco, o Branco, nosso labrador preto, também. Tia Mia aparecia em casa vez ou outra e fazia aquele chimas e meus primos nos visitavam constantemente. Eu cresci achando que a Sarah adotaria nossos hábitos de moleques arteiros. Não aconteceu. Por algum motivo.
Foi quando, em maio de 1995, meu pai decidiu que São Paulo seria melhor negócio para dar forma aos seus planos, se considerasse a sua permanência em Porto Alegre. Era a última coisa que a minha mãe faria na vida. Dizia que já fizera um baita sacrifício em se mudar para a capital - já que não havia nada que equiparasse à terra de Getúlio, que a vó ia ficar sozinha e que os meninos não se adaptariam.
No outro mês, estávamos nós, a bordo do primeiro voo do dia.
Destino: São Paulo.
A gente ainda era pequeno, então não foi difícil fazermos novos amigos na nova escola.
O Caleb até que sabia jogar futebol bem, então foi ainda mais fácil.
Acho que todos os garotos de seis anos jogam bem.
A Sarah não falava, mas eu sei que ela sentia falta da vó.
Elas se davam bem. A vó a ensinava a costurar aquelas bonecas que ela tanto gostava, sem contar as tardes que passavam na cozinha, falando sobre deus e o mundo. Não sei o que tanto tinha uma senhora sexagenária para mexericar com uma miúda de cinco anos.
Talvez eu meio que tivesse um ciúme.
E provavelmente eu era o único filho desgarrado, já que o Cacá era grudado na mãe.
Depois que viemos para Sampa, voltávamos a São Borja somente uma vez ao ano. O Nikolas e o Caio nem gostavam mais de se juntarem a nossas corridas. A tia não sabia sobre que assunto tratar. A vó continuava sendo a vó. Então a mãe decidiu que não precisávamos nos submeter àquilo todo ano.
Continuamos na cidade cinza, até que, passados sete anos, em março de 2002, minha mãe sentiu mais falta ainda da terra de Getúlio e tentou convencer o véio. Em vão. Separaram-se. Assim, sem mais cerimônias. Imagino como não teria sido se eu tivesse um centésimo da maturidade dela. Certamente teria me poupado de um ou outro mal estar.
Eu tinha quinze anos. Já era maduro o suficiente para decidir com quem ficar. Escolhi permanecer com o meu pai, já que havia passado a adolescência e, consequentemente, moldado uma parte do que eu sou agora, aqui mesmo, na terra da garoa. Caleb também, apesar do amor que sentia pela mãe (ou talvez pela gozação dos meninos do colégio sobre os gaúchos serem afeminados – o que seria dele, numa casa cheia de moças?). A Sarita resolveu ir com ela e voltar a morar com a vó.
Sinto falta da miúda. Talvez eu não fosse tão desgarrado, quando o assunto era a pequenina. Ela sempre teve medo de dormir sozinha, então, durante a noite, vinha ao meu encontro. Eu nunca me importei. Na verdade, sempre me importei. No melhor dos sentidos.
Continuo aqui, mas meu irmão voltou para Porto Alegre.
Não nos falamos há um tempo.
É complicado.
Vou ligar pra mãe. Ela deve estar acordada. Ainda não são 23h.
E eu havia prometido a mim mesmo.
Oi, mãe.
To sim.
E aí? A Sarita, o Lucas?
Ele deve estar enorme mesmo. Já fez quatro anos?
Pois é. Natan que não tome conta.
Nada, não, senti saudade.
To bem sim, mãe.
De verdade.
Minto não.
Dá um beijo nas meninas.
Te amo.
Não demoro a desligar. Tarifa telefônica ainda ta um pouco cara.
Coisa mais linda ouvir a vozinha dela.
Por um instante, sinto falta até mesmo das broncas que levava, por comer algum doce escondido ou demorar horas no banho – ainda mais quando o que eu mais gostava era de embaçar todas as paredes com aquela névoa rarefeita.
O Caleb adorava aprontar em casa.
Ele chegou ao ponto de quebrar as vidraças da janela do quarto, um vaso na sala e o braço da miúda num dia só.
E adorava por a culpa em mim.
O relho estralava no meu lombo.
Não era bem assim, mas talvez a sombra disso.
E eu sinto falta.
Antes tudo ainda fosse como nesse álbum.
É que tudo já foi assim.
É que tem coisa que muda até não poder mais. Um milhão de vezes, e parece que ainda não é suficiente. Continua em mutação, pra sempre.
É irreversível.
Um turbilhão de memórias me atravessa a mente. Alguma delas faz com que meus olhos lacrimejem.
Eu não gosto disso. Nunca gostei.
É que na verdade eu nunca soube lidar.
Talvez por causa da lembrança da vó e o terreno em São Borja.
Talvez o Cacá e a Sarita...
Talvez a Carla.
Talvez eu deva tomar mais um gole de café.
Talvez eu deva tentar ler mais algumas páginas, até pegar no sono.
Talvez eu deva apenas me esforçar para pegar no sono.
Eu tenho que trabalhar logo cedo.











