As narrativas de pretensão universal (o cristianismo, o iluminismo — e, portanto, a ciência —, etc.) não nos servem. Como tampouco serve a pretensão pós-moderna de fazer do desejo, juízo e vontade individuais um projeto com sentido em si mesmo.
A pós-modernidade não emancipa, assim como a modernidade não emancipou. A única narrativa de pretensão universal de onde se pode retirar algo que nos sirva à emancipação é a narrativa anticapitalista porque ela se firma, sobretudo, em negar o capital (ocidental e moderno), mas ainda assim com a tarefa de arrancarmos do postulado tudo aquilo que pretende explicar, pelo mesmo vértice, tudo o que não seja capitalismo.
As narrativas pré-capitalistas não são nem de pretensão universal e nem repousam sobre o pensamento liberal pós-moderno e, por isso, eu poderia remeter-me a ancestrais indígenas e olhar as notícias que se escondem, sobre povos que expulsam não-índios, na Amazônia brasileira ao tempo em que declaram sua plena autonomia. Quando perguntaram a um deles o que era autonomia, ele respondeu: “É se virar sozinho”². Poderia até parecer idiota que alguem lutasse contra forças de repressão oficiais e pára-oficiais para ter de “se virar sozinho”. Mas é exatamente nisso que encontrei a dissonância como proposta: nós não queremos dizer como se deve viver, nós não sabemos explicar como é certo viver, sós só queremos viver, redescobrir um modo de fazê-lo reativando antigos dispositivos de harmonia sincrônica entre histórias, tempos e arranjos da vida humana e não humana.
Esses povos restam e resistem, sincronizados ou sincretizados, em modos de organização da vida arranjados de maneira que a pergunta não precisa e nunca pode responder a todas as dissonâncias, abrindo espaço ao desajuste que gera outros arranjos, que se produzem, empareados.
(…) Essa questão se desdobra em outra: a ciência ocidental autocrítica condena a relação sujeito/pesquisador/cientista X objeto/alienado/receptor. Ela busca deslocar-se a ver, naquilo que procura entender, sujeitos/pesquisadores/cientistas, e não receptores. Isso é louvável (desde a minha opinião), mas ainda carregado de certa arrogância iluminista de fundo, por onde se inscreve a marca do conferir algo a alguém, essa generosidade ocidental superior. Presos à chave de que algum reconhecimento ocidental seja necessário para tudo o quanto se apresenta selvagemente alheia às lógicas de pensamento e ação aceitas.
Eu aprendi com os adolescentes pichadores das florestas de pedra por onde caminhei, que não interessa se não entendemos o que eles escrevem. Eles não escrevem a quem não quer entender, e quem quer entender picha. Eles não tem nenhum projeto de que isso seja político, apenas o é, pela total selvageria do ato e do processo. Eles não acham que essa seja uma alternativa e não propõe nada; e ainda assim se organizam e picham. Recusam a sociedade capitalista, e não propõe outra, e não se importam que não gostem, ou que não entendam. Não querem explicar, simplesmente querem pichar em paz. Eu descobri os idiotas de Bartleby, em favelíndios urbanos, que praticam alquimia produzindo tintas para marcar paredes e portões. Eles são fabricantes de cores e materiais que são pensados em sua interação com o meio ambiente. Algumas tintas chegam ao tom desejado apenas quando expostas ao sol intenso, são cores que fritam.
O olhar englobante vai apontar por todas as partes, mas não alcançará ver a profunda conexão entre os pichadores e os indígenas. Eles constituíram da dissonância uma comunidade, mas não querem propor nenhuma ideia, não acham nada sobre o que não consideram um problema seu — a sociedade que eles condenam. Eles só querem pichar em paz. Mas não podem. Está nisso seu próprio corpo inteiro em risco, junto com as suas ideias.
Helena Silvestre, Nota 14 - Carta Não Entrege à Filósofa da Exigência, em "Notas Sobre a Fome" (2019)
² https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/01/09/apos-expulsarem-de-madeireiros-a-professores-indios-defendem-autonomia-total-no-maranhao.htm












