“A criança não escolhe a identidade de gênero. Ela já é.” Confira na íntegra a entrevista com a médica pediatra Ana Carolina Novo.
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“A criança não escolhe a identidade de gênero. Ela já é.” Confira na íntegra a entrevista com a médica pediatra Ana Carolina Novo.
Mas você é menino ou menina?
Todas as pessoas transgêneras passam por essa pergunta indelicada, que pessoas insensíveis ou até mesmo sem informações o suficiente sentem-se no direito de perguntar. Aposto que nesse momento uns peçam em se isolar, sair correndo, outros até querem mandar ir bem pra aquele lugar, outros ainda não sabem a resposta também, até certo momento.
Ser menino ou menina galera, não está relacionado com o órgão genital, nem com a cor da roupa e estilo que te impuseram a usar desde criança ou mesmo o que você aparenta ser, mas sim com o que a sua mente lhe diz! O universo trans nos apresenta uma nova possibilidade de ser, pessoas que lutam para terem o direito de ser quem realmente são. Desde de criança, uma pessoa transgênera, nota que não se adapta ao que sua família, por exemplo, que é seu primeiro âmbito social impõem; Meninas de vestido e laço na cabela, com bonecas nas mãos e meninos de shorts e camisetas com carinhos nas mãos. E eu me pergunto sempre, por que existe essa divisão?
“Em uma academia mista, crianças se preparavam para começar mais uma aula de natação; Algumas meninas conversavam para decidir qual seria a brincadeira até que a criança diferente se aproximou e disse: - Posso brincar também? - Você não! E assim, a criança diferente foi sentar-se sozinha sem entender porque não podia participar da brincadeira, será pelo fato dela ser chamada por Rosa e sua aparência ser de Rodrigo? Cabelos curtos, roupas largas, mochilas de super heróis, esse era Rodrigo, em sua imaginação feliz.”
Sabem qual o maior medo de uma criança transgênero? CRESCER! PUBERDADE! OBRIGAÇÕES DO SEXO!
Thamirys Nunes, 30, que mora no Paraná, é mãe de uma criança que nasceu menino, mas, desde muito cedo, não se identificava com o próprio gênero. Com apenas 5 anos, o pequeno, ou melhor, a pequena se apresenta como menina e usa nome social feminino. Hoje, a história virou um livro: "Crianças trans existem!", afirma ela
Quando Thamirys Nunes, 30 anos, uma paulista que mora em Curitiba, no Paraná, decidiu ser mãe, ela tinha uma certeza: queria um menino. O tão esperado filho chegou em 2015, mas, menos de dois anos depois, ela começou a notar algo estranho: "Nosso filho não se encaixava, tinha alguma coisa errada". Conforme foi crescendo, o desejo de Bento por roupas e brinquedos femininos só aumentava.
Foi um longo caminho até que a mãe encontrasse orientações e explicações para o que estava acontecendo com o filho. E mais uma longa batalha até a aceitação de familiares e pais e coleguinhas da escola. Hoje, aos 5 anos, Bento é Agatha, com direito à nome social, roupas, brinquedos e tudo o que uma menina gostaria. Mas o mais importante: é uma criança feliz! Foi, então, que a mãe resolveu escrever sobre todas as suas angústias, medos, conquistas e alegrias vividas com essa experiência. "O livro é uma tentativa de convidar as pessoas para ver, ouvir e sentir tudo que eu vivenciei e, assim, para que possam entender a certeza que eu tenho: crianças trans existem!", disse.
Em entrevista à CRESCER, Thamirys contou um pouco sobre o que é ser uma "criança trans", o sentimento de culpa que sentiu e ainda sente por, muitas vezes, não ter ouvido os desejos da sua criança e os desafios que a família ainda tem pela frente.
CRESCER: Muitas pessoas afirmam que uma criança não tem maturidade para “escolher” se quer ser menino ou menina. O que você diria sobre isso? Thamirys: Primeiramente, é preciso entender que ser trans não é uma escolha e, sim, uma condição de existência. Ou seja, a pessoa só consegue viver com qualidade se respeitada naquele gênero com o qual se identifica. Superado esse entendimento inicial, é preciso entender também que as crianças olham para seus familiares, sociedade e amigos e se identificam, é um processo natural. Conforme se desenvolvem, vão se descobrindo e percebendo o lugar que ocupam dentro do eixo familiar, escolar e social. As crianças trans sentem um incomodo na forma com que as pessoas as reconhecem, pois não coincide com o que elas entendem de si e com o gênero no qual elas se sentem semelhantes.
CRESCER: As primeiras orientações profissionais que vocês receberam foram completamente equivocadas. Na sua opinião, a psicologia deveria estar mais preparada para receber esses casos? Thamirys: Infelizmente, os cursos de psicologia não abordam como temática obrigatória a transgeniradade infanto-juvenil. Pelo menos, até hoje, não encontrei nenhuma faculdade que tivesse essa temática abordada com a atenção e cuidado que precisa e de forma obrigatória. O que temos são professores e coordenadores de cursos que acreditam na importância da matéria e trazem isso para a sala de aula. Assim como eu, muitas outras familias tiveram experiências com profissionais de psicologia que não tinham qualificação para abordar essa temática e acabaram, por vez, trazendo para suas avaliações clinicas, seus próprios valores, religiões, preconceitos e despreparo técnico. Por isso, sim, acredito que é preciso mais preparo e conhecimento para que o profissional de psicologia seja capaz de olhar para o seu paciente de forma isenta de preconceitos pessoais.
CRESCER: Você comenta que, no início, foi bastante dura com seu filho. Acha que essa fase, em que ainda não entendia o que estava acontecendo, pode ter causado algum tipo de prejuízo a longo prazo? Thamirys: Não, até porque foi na primeira infância. Dificilmente lembramos dessa época. Ela terá muito mais memórias de apoio, acolhimento e amor para se lembrar do que esses acontecimentos pontuais. Mas, para mim, esses momentos estão cravados na memória e é difícil me perdoar por não ter dado o que minha criança precisava por conta do meu medo e desconhecimento.
CRESCER: Durante vários momentos do livro, você comenta que se sente “culpada” e “arrependida”. Hoje, você já conseguiu se perdoar? Como as mães podem se livrar desses sentimentos? Thamirys: Acho que a culpa é um sentimento muito forte na maternidade, mas na maternidade de uma criança trans isso é intensificado. Eu tento ser gentil comigo e busco racionalizar minhas atitudes. Por exemplo, muitas vezes, penso: “Fiz porque não tinha conhecimento” ou “Fiz o melhor que eu podia com as informações que possuía”. Esse tipo de gentileza ajuda a amenizar esse arrependimento de algumas ações pontuais, mas jamais poderei esquecer porque é parâmetro para eu saber o que não quero ser para minha criança. Quando está tudo muito dificil, lembro de uma mãe carrasca e uma criança oprimida; isso me fortalece para saber que hoje sou uma mãe companheira, que escuta e tenho uma criança livre e feliz.
CRESCER: Tem uma frase do livro bastante forte, que você diz: “Sentia que tinha dois filhos: um que tinha morrido ainda vivo e um que tinha nascido vivendo”. Ainda hoje, você enxerga Bento e Agatha como duas crianças completamente distintas ou consegue ver o Bento de alguma forma? Thamirys: Bento foi meu filho primogênito tímido, calado, obediente, de bochechas quadradinhas e olhos puxadinhos. Por ele, senti o amor de mãe mais romântico, assim dizendo. Um amor intenso e cheio de expectativas futuras, com viagens, faculdade, casamento, netos, enfim. Mas é preciso deixar o Bento no passado, não é justo com a Agatha. Não posso olhar para minha filha buscando algo nela que já não lhe pertence mais, só para satisfazer a minha saudade. Agatha é espoleta, vaidosa, tagarela. Com ela tenho que contar até 5 várias vezes ao dia. Ela não me traz nada do Bento e eu respeito muito isso. Olho para a criança que está na minha frente e é para ela que entrego o meu amor, um amor mais maduro, de quem quer proteger, bem leoa mesmo.... Ela desperta em mim, um amor muito diferente, mas tão intenso e incondicional quanto o que eu tenho pelo Bento. Dizem que nunca sentimos o mesmo amor por duas pessoas diferentes. Pois, nesse caso, eu me sinto assim. Sou mãe de duas crianças, uma a qual vive nas minhas lembranças e visito nos meus momentos de nostalgia e saudades; e a outra que me entrego todos os segundos do meu dia.
CRESCER: Quais serão os próximos desafios, a curto e longo prazo? Thamirys: Acredito que a escola seja o espaço mais desafiador para a Agatha. Lá, ela tem que aprender a lidar com comentários, olhares e questionamentos sobre sua existência. Nos demais espaços, ela costuma ser muito bem recebida por famíliares e amigos, mas se encontra algum conflito, eu ainda sou um escudo e consigo blindá-la, como em banheiros públicos, exames médicos e viagens.
CRESCER: Na sua opinião, quais mudanças na sociedade são mais urgentes? Thamirys: É preciso amparar a família para que a família possa amparar a criança/adolescente. As mães e pais precisam de grupos de apoio e espaços seguros para poderem se informar sobre a condição de existência de seus filhos e seus direitos fundamentais. Espaços livres de preconceito e com muita formação qualificada. Precisamos dar publicidade à temática trans infanto-juvenil e só assim vamos naturalizar essa existência. O Estado precisa incluir as crianças e adolescentes trans nos seus projetos sociais, esportes e cursos para que, cada vez mais, tenhamos pessoas cisnormativas em contato com pessoas trans. Quanto mais contato, mais natural essa existência ficará. Dizer simplesmente que "acolhe" não é, de fato, acolher. Vamos lá, receber uma criança trans em uma escolinha de balé, mas sem fazer com que ela se sinta segura para usar o banheiro, é acolher? Receber uma criança no curso de robótica, mas sempre errar seu nome social, é uma boa acolhida? Quando digo "acolher", refiro-me à forma universal, possibilitando uma vivencia saudável nesses espaços. O dificil é ser a única criança da escola, do bairro, da cidade, do estado...
CRESCER: Hoje, sua filha já tem um documento com o nome social? Thamirys: Sim, Agatha tem RG, CPF e cartão do SUS com nome social, assim como prevê seu direito, previsto em lei. Estou solicitando ainda a inclusão do nome social na carteirinha do plano de saude e no passaporte, via judicial. Na escola, minha filha também é recebida única e exclusivamente pelo seu nome social.
CRESCER: Por que você decidiu escrever o livro? E para quem? Thamirys: Decidi escrever porque, no início da transição da Agatha, eu me senti muito sozinha, abandonada e sem informações. Não encontrava pares para conversar e saber se aquela dor que eu estava sentindo iria passar. Escrevi o livro para as mães que passam por esse momento, para que elas saibam que não estão sozinhas, que a dor vai passar, mas que é preciso coragem para seguir adiante. E, em segundo plano, escrevi, pois, muitas pessoas me perguntavam: “Mas como?”; “O que você viu/ouviu para ter certeza?; "Você tentou de tudo?”; “Será que não influenciou de alguma forma?”. Então, o livro é uma tentativa de convidá-las para ver, ouvir e sentir tudo que eu vivenciei e, assim, para que possam entender a certeza que eu tenho: crianças trans existem!
CRESCER: Você escreveu um livro, realiza lives sobre diversidade... A Thamirys redirecionou sua vida profissional com a chegada da Agatha? Thamirys: Minha vida mudou de ponta cabeça e isso não foi programado (risos). A ideia era escrever um livro, depois, a página para vendê-lo, já que, por conta da pandemia, não conseguia colocá-lo nas livrarias. Depois, recebi convite para algumas lives e, quando vi, veio o convite da ONG, um grupo de acolhimento para mães de crianças e adolescente trans. Às vezes, penso: Será que preciso mesmo fazer tudo isso? Afinal, hoje é tudo de forma voluntária. Mas e se eu não fizer, quem vai fazer? Quem vai gritar para o poder público que as crianças trans existem? Quem vai tentar um diálogo com escolas, pedagogas e psicólogos? E o principal, quando vejo que consegui ajudar uma família a entender sua criança, a se libertar da dor, a lutar pelos direitos de seus filhos, eu fico bem grande e tenho a certeza de que vale a pena investir meu tempo. Estamos mudando vidas reais! Não são milhares, mas uma por vez.
O livro "Minha Criança Trans" está disponível para venda através do perfil oficial no Instagram. Você também encontra mais informações sobre o livro e sobre crianças trans no site.
Se você é um jovem trans ou pai/mãe/responsável por um jovem trans, você pode encontrar atendimento especializado para crianças e adolescentes nos seguintes locais:
AMTIGOS - Hospital das Clínicas USP (São Paulo/SP)
GIEDDS - UNICAMP (Campinas/SP)
PROTIG - Hospital das Clínicas (Porto Alegre/RS)
Pouco, né? Pois esses são os únicos lugares no Brasil que possuem um projeto de pesquisa interdisciplinar para atender transgêneros menores de 18 anos. Precisamos que nossos filhos, parentes e amigos trans tenham mais visibilidade e sejam abraçados por mais políticas públicas para que o atendimento de saúde para esta comunidade possa ser ampliado. Você está comigo nesta luta?
Novas regras do CFM sobre terapias hormonais geram polêmica e reações críticas de especialistas
Nesta segunda-feira, cinco entidades médicas se uniram para emitir um posicionamento crítico em relação à recente resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), que foi divulgada na semana anterior. Essa norma estabelece restrições rigorosas ao acesso de crianças e adolescentes trans à terapia hormonal, além de limitar a realização de certas cirurgias no Brasil. Em seu comunicado, as associações expressaram sua "preocupação" com a nova diretriz, ressaltando que ela pode acarretar "danos significativos à saúde dessa população que já enfrenta condições de vulnerabilidade".(...)
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A mãe britânica conta que aos 3 anos, pegou Logan tentando cortar seu próprio pênis com uma tesoura. Desde então, deixou a criança ser quem
Questões como família, escola e saúde mental se tornam muito mais complexas, além da falta de políticas para essa população causar grande desamparo e vulnerabilidade