Angèle de la Barthe.
Eram tempos de inverno, o frio se apoderava do vilarejo que futuramente seria presenteado pelo mal. A Peste negra estava sendo alastrada por toda a Europa, causando terror aos reinos e aldeias, mas nada seria mais perigoso do que ela, Angèle de la Barthe. Uma adolescente reclusa, promíscua, sombria e violenta. Todos temiam Angèle, dizia-se que ela era filha do Diabo, o que seria apenas um equivoco causado pela sua personalidade bastante misteriosa.
Poucos sabem de sua vida, mas muito sabem da mente doentia e assassina desta adolescente. Seus pais morreram misteriosamente, justamente no dia em que ela viera a nascer, sendo assim, como pedidos da mãe, os tios da garota iriam cuidar dela. Os anos se passaram, a menininha apelidada de Angel era violentamente, espancada, forçada a ter relações sexuais com seu tio, um lenhador nojento da vila. Sua tia poderia sim ser chamada de Diabo, torturava a menina, obrigava a pequena realizar os serviços mais pesados o possível, enfim, uma mulher desnaturada cuja consciência nunca se pesava perante a sua atitude tão brutal.
Dezesseis anos se passaram, e a partir daí, as coisas mudaram tanto para Angel, quanto para a vila.
Angel desapareça dentro da floresta, junto com ela, foi-se a vida de seus únicos parentes. Os homens da vila estranhando a ausência da família pela vizinhança, resolveram procurá-los em sua casa. Sem duvidas, nunca irão esquecer a cena horrenda que contemplaram.
A casa estava abafada, nada de estranho encontraram na sala, então resolveram adentrar mais profundamente a casa da família. A Cozinha estava imunda, um liquido pegajoso estava espalhado no chão por toda extensão do cômodo, mas nada completamente preocupante. Decidiram então vasculhar o quarto de Angel e foi neste momento em que eles desejaram ter morrido ao invés de ver uma cena tão brutal.
Dois pentagramas desenhados com sangue estavam no centro do quarto, no meio dos pentagramas, estavam às cabeças do casal violentamente escalpeladas. Nas paredes a seguinte mensagem: “Estou sendo carregada pelo diabo, vocês podem ouvir a melodia do nosso amor, não podem?”
Durante semanas, os homens da vila ficaram atormentados com o assassinato da família Barthe, e estava à caça da assassina, Angel. Deveras não teriam que procurar muito, pois durante uma noite de frio intenso, uma misteriosa mulher de cabelos negros como o céu noturno entra na igreja da vila para se confessar para o Padre.
- Padre, me perdoe, eu pequei...
- Não sou eu quem deve lhe perdoar minha filha, diga-me o que houve.
- Eu me casei, me casei com o Diabo.
Um silencio avassalador se apoderou do solo sagrado. Surpreso com a confissão da mulher misteriosa que estava do outro lado do confessionário, ele diz.
- Quem é você?
- Não se lembra de mim Padre? Não se lembra da pequena e adorável garotinha que perdeu sua família?
- A-A-ANGEL?!
- Xiiiu, cuidado com o que você grita padre, você pode acordar os compatriotas da vila.
- BRUXA, VOCE PAGARÁ PELO ASSASSINATO DOS SEUS TIOS
Risadas desenfreadas dominaram aquele salão tão belo.
- Você não sabe o quanto sofri padre, não sabe das torturas, dos espancamentos diários, dos estupros. Não sabe de nada Padre?
Parecia que nada abalava o tom de voz sereno e macabro de Angel.
- Mentira! Seus tios eram boas pessoas, sempre educados e tementes ao bom Senhor. Você queimará viva, deve ser purificada!
As risadas de deboche continuam incontroláveis, cada vez mais violentas e desrespeitosas.
- Padre, meu querido, deixe-me contar um segredo. Todos me esqueceram, Deus se esqueceu da minha existência, deixou-me apodrecer com aqueles animais que eu era forçada a chamar de familiares. Exceto ele, meu querido marido pelo qual sou tão fiel. Ele me deu poderes inimagináveis, incontroláveis... Deliciosos.
-Não blasfeme neste recinto, bruxa insolente!
Os olhos de Angel mudaram de cor, ficaram ensangüentados e uma voz demoníaca e ensurdecedora saia de sua boca.
- QUEM PENSAS QUE É PARA FALAR ASSIM COMIGO? SEU HUMANO IMUNDO!
- Você sabia dos estupros, das torturas, sabia de tudo, mas nada fez para me ajudar, nada fez para me salvar. Sabe o que você merece? O mesmo destino dos meus tão amados tios...
A garganta do Padre se seca, dificulta a saída de palavras. Ele sabia que sua morte era iminente, sabia que nada, nem ninguém poderiam salva-lo da mulher de Lúcifer.
-O que pretende fazer? Murmura o futuro defunto.
O olhar de Angel volta a sua cor original, sua voz torna-se doce e afável novamente.
- Ora querido, perdoe-me de todos os meus pecados, garanta o meu lugar no descanso ao lado o pai. Diz Angel, debochando dele.
- Não posso fazer isso minha filha, não posso te perdoar. O Senhor deve fazer isso, somente ele. Não mate mais, peça perdão, purifique-se. Só desta maneira você será perdoada...
Angel diz com a maior serenidade possível:
- Querido, não posso fazer isso, meu marido não me permite entrar em contato com o seu Deus. Infelizmente terei que completar os meus planos para essa noite tão bonita.
Lágrimas começam a escorrer do Padre, já sabendo do seu destino, ele reza loucamente, como se nada fosse lhe abalar naquele momento. Angel abre a pequena porta que a separava do padre. Olha profundamente os olhos dele, tão profundamente que ela poderia contemplar a alma assustada do coitado.
-Et dormiant somnum sempiternum Venite! considerandum est sola virtus meAAAH
As palavras ditas por Angel foram ouvidas por todos os aldeões, que assustados correram para a igreja com o intuito saber o que se passava. Na porta da igreja eles vêm pela ultima vez a esposa de Lúcifer.
Ao verem aquela mulher, automaticamente associaram seu rosto ao da desaparecida Angel, porém, com uma expressão mais cadavérica, mais endiabrada...
Angel desceu tranquilamente às escadas, foi seguida com olhares até os limites da vila, onde desaparecera outra vez. Ninguém se quer pensava em segui-la, sabiam que ela era uma bruxa muito poderosa, então apenas entraram na igreja e novamente desfrutaram de uma cena mais horrenda do que a ultima.
O Padre estava caído no centro de outro pentagrama, suas tripas estavam expostas, seus olhos perfurados, sua boca costurada. O mais estranho da cena era a pequena mensagem escrita em sangue na testa do mesmo: “occidere omnes nigrum plaga...”
E assim, durante três dias o vilarejo foi torturado pela peste negra que tanto temiam. Os Aldeões sabiam que aquilo era a obra de Angel e nada poderiam fazer, a não ser rezar, pagar pelos teus pecados e esperar o descanso eterno ao lado daquele que não os protegeu.












