Angèle de la Barthe - Parte 2
Diante das majestosas parreiras de uva da Itália, um homem incumbido de grande poder e responsabilidade caminha junto de seus servos para completar um serviço dado pelos grãos senhores do santo oficio. Já em seus últimos dias de vida, Erike, o Sigiloso, já contemplou as mais perversas abominações humanas e não humanas, viajou por toda a Europa em busca de completar a missão à qual lhe foi concebida pelo papa e pelo Senhor.
O vento gelado das cordilheiras descia e irrompia pelas estradas de terra batida, ainda úmidas devido à chuva do dia que passou, suas memórias de quando era o filho mais novo de um senhor inglês lhe fluía pela mente, uma corte cercada de ódio, alimentado de irmão para irmão, pois cada qual queria o trono de seu pai, aquela atmosfera sempre lhe inundara a mente, mas um bispo o salvou daquele mundo de loucura e perjúrio, ele foi ensinado para se tornar um padre e talvez um bispo, mas seu senso de justiça era valoroso. Mergulhado um dia em seu silencio costumeiro um inquisidor italiano veio àquela escola onde ele estudava, não demorou muito para os sacerdotes e monges mencionarem seu nome. Uma semana depois ele estava a caminho de Roma onde prestaria seus serviços.
Estudou dedicadamente e se destacou, quando ele completou seus 21 anos o santo oficio o chamou e o nomeou inquisidor da santa igreja, ele trabalharia em nome do papa e do Senhor.
“... meu sinhorê, esta bem?” sua linha de raciocínio foi cortada por um servo.
“Por favor, o senhor precisa se recolher na carruagem, esta começando a garoar.”
Ele não era mais novo como antes, devido à sua idade ele teve que se recolher, mas contra sua vontade.
Passou-se meses até chegarem em um vilarejo na França assolado pela peste e por uma bruxa. Durante o entardecer uma carruagem escoltada por cavaleiros em armaduras completas, carregando um estandarte com o símbolo de são Pedro chegou. Um grupo de 50 homens escoltavam o inquisitor. De dentro de uma carruagem riquíssima em detalhes uma figura resplendorosa chegou, com cabelos já grisalhos e compridos, porem com olhos vivos e atentos e uma vestimenta vermelha como o sangue com alguns trabalhos em dourado se apresentou àquela população desolada, prometendo-lhes o fim de seu sofrimento, convidou os camponeses a irem à uma missa para que seus pecados fossem lavados.
Dentro daquela pequena igreja com detalhes maravilhosos de anjos e querubins sua missa começou, seus sacerdotes que o seguiam pediram ao povo repetir a frase “Ave Dominus Lux” enquanto ele se sentava em uma cadeira observando à todos. Como a igreja era pequena de mais para suportar todos os camponeses outros salões improvisados da vila foram usados como lugar de orações regidas por outros sacerdotes jovens.
Ave Dominus Lux, Ave Dominus Lux, Ave Dominus Lux, Ave Dominus Lux...
A porta se abriu com um vento gelado.
- Ave Dominus Nox. Retumbou a voz de uma jovem em trajes compridos e cabelos tão negros como o véu da noite.
-Quem ousa vir à casa do Senhor e pronunciar tais palavras? Proclamou o sacerdote em roupas brancas que estava ao centro do templo.
Enquanto a jovem andava para dentro daquele templo, a população se encolhia de medo, o jovem sacerdote foi em sua direção sem levar em consideração o perigo daquele ato, proclamando salmos e cânticos contra a mulher. Ele parou, colocou a mão em seu estomago e ele se ajoelhou, a jovem passou ao seu lado, enquanto tocava seu próprio cabelo com a mão. Quando ela já estava a alguns passos longe dele sua túnica ficou vermelha na área do estomago como se tivesse sido rasgada, suas entranhas pintaram o chão daquele templo. E ela continuou andando até a frente do povo.
-Meus caros cidadãos, vocês não estão felizes, tiveram que trazer um cadáver da igreja para brincar comigo? Diz Angel em deboche a Erike
O homem de vermelho se levantou e disse:
-Seu marido me conhece de muitos anos, sou o flagelo do senhor contra os impuros que caíram em desespero, sou a luz que ilumina a noite dos povos. Pergunte à seu marido quem sou, pergunte sobre Erike, o Sigiloso!
Ela tinha um sorriso de curiosidade no rosto, que se desvaneceu enquanto ela notou algo.
-Muito bem velho, me procure, veremos qual fé é maior. Angel retruca
Ela se retirou e foi embora, quando não se podia mais vê-la o velho se sentou na cadeira e as pessoas começaram a entrar em histeria, os sacerdotes e cavalheiros tentaram acalmar as pessoas, uma menina à porta da igreja gritou mais alto do que tudo, as pessoas se levantaram e foram ver. A histeria recomeçou, porém, mais forte, o velho se levantou e foi acompanhado até a porta, seu rosto não demonstrou nenhuma comoção ou espanto.
Havia no centro três estacas de madeira com pessoas amarradas neles. Em cada canto do centro da vila, formando um pentagrama gigante de sangue, corpos de seus soldados estavam desmantelados e estilhaçados. As outras rezas pararam e vislumbraram aquilo, Erike olhou para um cavalheiro, balançou a cabeça, o homem gritou para os outros soldados, eles organizaram as pessoas em suas casas, ninguém sairia, dali até tudo se acabar, convocaram homens experientes que conheciam o lugar.
No meio da noite os sacerdotes, cavalheiros e camponeses pegaram em tochas e seguiram para dentro da floresta. Perdidos há muitas horas os mais de quarenta homens encontraram um forte há muito tempo abandonado, à beira de um lago. Eles usaram machados para arrebentarem o portão de madeira já apodrecido, e adentraram. Na porta de entrada para aquele castelo encontraram Angel. Erike pediu para alguns camponeses cortarem algumas árvores, enquanto os soldados cercavam a bruxa e os sacerdotes ecoavam um cântico sagrado... Angel ria daquilo.
- Você venceu velho tolo, você venceu. Dizia a bruxa, chorando de rir.
Os camponeses trouxeram uma estaca de madeira, enfincaram-na no chão. Erike balançou a cabeça e seus cavaleiros atacaram a bruxa, ela ria com os cortes das laminas e lanças. Angel estava de joelhos e seu sangue se espalhava pelo chão, parecia formar um pentagrama grosseiro com aquela poça de sangue, os cavaleiros arrastaram-na para a estaca enquanto ela ria e ria histérica. Amarraram-na estaca.
Enquanto apertavam os nós, ela conseguiu se desprender e segurar a túnica do velho, puxando-o para perto de seu corpo. Erike, sem aparentar medo, pediu para que todos se acalmassem, pois nada iria acontecer.
-Agora eu entendo tudo... Dizia Angel, enquanto soltava bruscamente Erike, se não fosse pelo auxilio de seus soldados, o inquisidor seria arremessado ao chão.
-Que o senhor tenha piedade de sua alma. Dizia Erike com um olhar de desdém para a bruxa.
Em coro os sacerdotes cantavam freneticamente. Neste momento, a neve começou a cair junto com o raiar do dia.
- Nonscutum fideia suis. Gritou a bruxa rindo enquanto as chamas começavam a se levantar e a queimá-la.
-Scioquidfeceris. Rindo mais e mais, até que somente o som das chamas crepitando podia ser ouvido.
Eles voltaram à vila depois de enterrarem o corpo da bruxa devidamente. Os novatos e camponeses que estavam com eles estavam atônitos. Pois pessoas da vila estavam loucas, as casas em chamas, elas se atacavam umas às outras em uma loucura bizarra, elas corriam de um lado para o outro tentando matar elas mesmo como animas, alguns corpos eram devorados por outras pessoas, naquele frenesi de insanidade durante o amanhecer. Havia até mesmo crianças se banqueteando da carne dos mortos, matando e morrendo. Os olhos das pessoas eram negros, elas tinham se cortado, formando marcas satânicas no corpo. A igreja estava rodeada de corpos mutilados, com vários mortos com crucifixos de ponta cabeça por toda parte, Erike ordenou a seus homens para trazerem paz a aquelas pessoas.
Uma criança correu em direção do inquisidor, atacou-lhe a mão direita, como ele era frágil, caiu no chão, os guardas dele mataram o pequeno endêmoniado.
Ele se levantou com a ajuda de seus servos, encarou sua mão, a mordida não fora profunda, retirou sua luva e uma cicatriz apareceu, um pentagrama que ele tinha adquirido em sua primeira missão. Com medo da morte, ele entregou sua alma a lúcifer. O acordo era que o único jeito de ele morrer era durante uma de suas missões, ele sempre manteve aquilo em sigilo, por isso seu legado.
Seus cavaleiros estavam com dificuldade com os possuídos, ele levantou sua mão nua e todos os camponeses possuídos seguiram-no, enquanto ele corria para dentro da igreja, la dentro ele derrubou as tochas que em instantes incendiaram a igreja junto com todos os demônios, ouviu-se gritos de desespero daqueles seres, menos do sigiloso, ele se manteve parado no centro da igreja enquanto encarava seus homens surpresos do lado de fora, os demônios em ódio tentavam corta-lo, mas ele ignorava suas feridas, os demônios não conseguiam resistir àquele símbolo.
A igreja desmoronou junto com os demônios e Erike, o Sigiloso.
Este texto foi criado em parceria com Cleyfson Angelo
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