Quem é que vive no lixo? A podridão do mundo devastado pela tristeza de cada amanhecer desesperançado para cada ser sucinto sem perspectiva de melhora cotidiana. Aquele lixão mistura às lágrimas de remorsos a falta de um pão-com-manteiga à beira da mesa da cozinha. Tudo que veem à frente são extensos rios que deságuam e mares de sujeira e humilhação; isso não é vida nem para o ninguém. Mas ali, aos sorrisos, alguns trabalham pelo anoitecer que traz o aconchego de um amor que espera na cama. O lixo nada mais é do que a representação de uma escória que é muito mais rica do que empresários fétidos que lucram através da exploração incessante de quereres bem. Aquele ali, parado, trabalhando, está lá pelo querer bem de si mesmo, de sua família, daquele pequeno, ou do amor de braços abertos. Muito mais digno de que qualquer sujo que abre a boca para proclamar besteiras. Aquele que vos fala também é um hipócrita que se alimenta do capitalismo ininterrupto. Mas um hipócrita que apenas compreendeu a imensidão da vida após estar à sete palmos da terra, onde se iniciou uma linha de pensamento insistente - que fazia vezes ao meu cérebro degradante - de que deveria ter comido mais ovos mexidos. Lamentei essa amargura e desejei nascer nos “estrangeiros” na sua próxima vida. Depois de todas minhas lamentações, os ovos mexidos transformaram-se em pensamentos aleatórios de meus funcionários que viviam à custa do meu sagrado amigo dinheiro; sagrado este que nada me ajudava nesse momento desconfortável e simplório. Pelo menos o caixão era de mogno. Meus funcionários voltaram a minha mente. Gente pobre e miserável, sucintos à um mal que eu lhes fornecia e que eram totalmente dependentes, escravos eternos da sociedade que lhes submetiam a humilhação. Percebi que no final iríamos para o mesmo lugar: um lugar abafado debaixo da terra sufocante. Contudo, o pensamento de que o caixão era de mogno ainda consolava minha mente. Postumamente, falo. E desse modo, conto minha viril história de crescimento humano: Não tenho nome ao certo. Quando nascido, um papel velho onde disseram que haveria de ser minha certidão de nascimento foi dado às mãos de minha progenitora, que nada fez além de jogá-lo ao longe. Sou um inominável. Nascido servo, morrido suserano. Ascendi na sociedade inescrupulosamente, e nem ao menos respeitei as leis atuais. Podem me chamar de Seu Dória. Era assim que os peões me chamavam - sim, os peões, aqueles que se sacrificavam, em vão, para manter a realização intacta e proeminente. Para manter minha riqueza em crescimento graduado. Para morrer lavando meus pés. Eles, tão grotescamente, adaptaram um velho apelido que um amigo meu da mocidade me forneceu, devido à minha vaidade incessante - Dorian (Gray). E aqueles inglórios apenas, que nem a razão do nome, sabiam, me chamavam indiscretamente pelos campos arredores por esse nome, que se tornou empobrecido. Seu Dória. Fui pobre. Nasci pobre, vivi metade da minha vida pobre. Meu sentimento de inferioridade que aflorou dentro de mim levou-me a eterna procura de uma realização interior que consegui através de um casamento desalmado. Sem amor, entretanto, com dinheiro. Casei-me com dinheiro, não fui feliz, mas estava confortável. E a minha vaidade cada vez mais se enaltecia com a perspectiva dos miseráveis que antes nada me davam e agora com um escravo respeito – escravo, pois corriam o risco de perder seu custoso emprego – me tratavam como o verdadeiro senhor. Tão proporcional à vaidade, a luxúria se mantinha crescente, também. A luxúria, a mais pútrida dos males carnais. Eu me considerava superior e tão exacerbado, perdido nos braços desleais das mulheres perdidas da vida, por motivos que nunca procurei saber. E as julgava impuras, bastardas, sem merecimento do meu respeito, que deveria receber de mim nada além do meu gozo insatisfeito; traia a minha mulher com aquelas desprovidas de alma. Sim, digo alma, pois mesmo assim, elas ainda resguardavam sentimentos. A alma que era vendida. Nesse sistema de escambo, acabei vendendo a minha alma também por alguns míseros trocados e mais algumas carícias infundadas. Sempre fui um perdido. Quem é que vive no lixo? O luxo fez eu me perder, não tinha mais a consciência da pessoa que eu era. Não havia mais humanidade, não havia consciência, não havia simpatia. Havia apenas dissabores, vícios, perduras. Eu era um pobre de espírito, afogado na lama de meus pecados transformado em areia movediça, que me levavam cada vez mais para o fundo do poço. Eu era um trem lotado e desgovernado, preenchido pelas lágrimas de tantas pessoas que sofreram – direta ou indiretamente – pelos meus atos inconseqüentes. A morte me surpreendeu. Eu estava reluzente em meu terno novo, preenchia o novo cargo de assistente chefe da empresa, era um novo em tudo. E todo pomposo, orgulhoso, encontrei-me tão confiante que me fiz de tolo, desatento. No meio das máquinas compactadoras de lixo, prendeu-se meu mais novo terno, fui levado, cortado, dilacerado. Adeus vida. E agora, aqui, penso. Minhas últimas sinapses permitem que eu raciocine pelo menos uma vez na morte. Não fui nada, não sou nada. Somos todos tolos iludidos pela vida facínora que nos envolve. Sempre me julguei superior, mas agora cá estou eu com minha carcaça sendo devorado vagarosamente, sem um amanhã confirmado. Vejo o caixão sendo decomposto pelos ínfimos vermes. Quebra-se muito facilmente. Não deve ser realmente mogno. Prazer! Sou Seu Dória. Um vaidoso nada. Afinal, quem é que morre no lixo? male.