Bright Leaf, distrito 6. Desafio 10 (Final)
A claridade foi aos poucos se tornando incomoda, o suficiente para fazer com que Bright abrisse os olhos e despertasse do sono mais pesado que teve durante toda sua estadia na arena. Os ferimentos em seu corpo insistiam em arder irritantemente. Não conseguiu encontrar água e aparentemente não tinha impressionado patrocinador nenhum, porque nem remédio ou comida haviam aparecido num pequeno para-quedas, como era de costume nos jogos. A noite trouxe um pequeno alivio ao perceber que dormir sem as roupas e sentir a brisa noturna em sua pele abrandava suas queimaduras, mas ainda assim o corpo estava a um passo da tênue linha conhecida como limite. Por alguns minutos o garoto fitou o céu de mentira e teve relances dos últimos dias, ele não tinha nem ideia de quanto tempo fazia desde que seu nome saiu da urna no distrito 6, da viagem com Ruby e os dias que passaram juntos, da família despedaçada que deixou para trás, da nova que viu aos poucos ser construída, algo muito parecido com aquilo que chamam de primeiro amor começando a crescer em seu peito, tudo aquilo fora roubado dele com a mesma velocidade que veio. Ao seu lado, Annabeth ainda mergulhava num sono tranquilo, sabe-se lá num sonho bom. Contando com os dois, ainda haviam 5 tributos lutando por suas vidas na arena. Os jogos estavam atingindo seu clímax, isso acendeu em Bright um de seus primeiros pensamentos de quando tudo aquilo havia começado, apenas um sobrevive, apenas um ganha. Ele não se sentia esperançoso ou vitorioso, e aquele medo que a morte trás bagunçou seus pensamentos outra vez. Toda sua vida, desde uma tenra infância interrompida foi preparada para este momento e com certeza, seu pai estaria orgulhoso em casa. Bright Leaf, tributo do distrito dos transportes, entre os 5 últimos, ninguém poderia supor, nem ele mesmo.
Ao que pareceu esforço excessivo, ele se levantou e se vestiu com cuidado, evitando tocar o próprio corpo. Mais uma vez encarou Annabeth adormecida. Não conseguiu conter as lagrimas que escapavam de seus olhos quando se lembrou dos rostos de sua nova família, um após o outro aparecendo no céu. O ultimo golpe foi ver que não puderam nem ao menos reencontrar Giovanna, e ele só pode pedir que tivesse sido rápido, e que ela não tivesse sofrido. E que não fosse pelas mãos de outro tributo, porque se houvesse um culpado, Bright iria garantir que o aerodeslizador viesse buscar o que restou do corpo numa caixa de fósforos. Era doloroso pensar que a vontade de viver era menor que a necessidade de manter aquelas garotas vivas, e mais do que zelar por si mesmo, tinha que protege-las. E doía ainda mais pensar no quão miseravelmente havia fracassado naquilo. Seu fluxo de pensamentos foi interrompido quando Annabeth despertou e antes que ela lhe encarasse, ele se virou e fingiu estar ajeitando o estojo de facas. Deu tempo suficiente para que ela finalmente acordasse e ele se recompusesse, então se olharam e apenas com olhares decidiram recomeçar a caminhada atrás de água ou comida. 10 passos ainda não haviam sido dados quando um tremor assustador quase os fez cair no chão. Primeiramente, pareceu apenas uma sensação, mas o tremor não só continuou, como se intensificou. Bright segurou Annabeth perto de si, e tentou o melhor que manter os dois de pé quando percebeu do que se tratava. Depois de furacões e meteoros, a GMakers os presentavam com um terremoto. O abalo sísmico foi forte e durou muito, na perspectiva dos dois, mas nem de longe foi tão assustador quanto o que veio a seguir. Novamente, foi Anabeth que chamou a atenção de Bright para mais uma surpresa na arena. Como num passe de mágicas, paredes começaram a crescer, e ao que parecia, fechando toda a arena. Eram tão imensas que chegava a ser ridiculamente impossivel, mas estavam lá, e pareciam crescer ainda mais. Então, sem aviso, começaram a se fechar sobre a arena, arrastando e destruindo a cidade fantasma. Não houve nem necessidade para argumentação. Bright se soltou de Annabeth e os dois dispararam na direção contraria ao muro colossal que agora estava no encalço dos dois. Não havia outra alternativa, nem plano que pudesse funcionar. e não importava o que pudessem encontrar pela frente, eles não podiam parar nem diminuir o ritmo. Enquanto o corpo aguentou, Bright correu em disparada, seguido de perto por uma Annabeth ofegante e muito assustada, mas imensamente empenhada em continuar sua fuga do monstro de concreto que avançava imponente por toda a arena. Aos poucos o cenário começou a se modificar e Bright pode ver a cidade se transformando em floresta e muitos metros a frente um grande e selvagem rio se estendia. Quilômetros adiante, montanhas. Parecia que existiam duas arenas, o que explicava a ausência de 12 dos 24 tributos na cornucópia e ao que parecia, as duas arenas tinham se tornado agora uma só. Annabeth puxou Bright pela camiseta e ao virar para trás ele pode ver que o grande muro havia parado e que parecia estar acontecendo o mesmo dos outros lados, como se o cerco estivesse se fechando, e isso mostrou outra coisa.
Bright não conseguiu esconder a surpresa e ficou boquiaberto ao ver que duas meninas e um garoto também chegavam ao rio. Ao que parecia, estavam juntos. Como ele e Annabeth, os 3 estavam sujos, feridos, aparentemente exaustos e famintos, extremamente ofegantes e o garoto pode entender que passaram pela mesma experiencia assustadora com o terremoto e com as paredes de erguendo. Ele conseguiu entender o que estava acontecendo. Por muito tempo tinham evitado um confronto e as GMakers queriam exatamente o contrario. Sangue que se faz rolar trás mais audiência que ''acidentes''. Unir os últimos sobreviventes da arenas e obriga-los a se enfrentarem, até restar somente um. Não havia para onde correr, os muros agora os cercavam. Instintivamente, Bright se colocou a frente de Annabeth e posicionou as mãos, já se armando com as facas de arremesso. O grupo a sua frente mantinha uma distancia bastante cautelosa. As duas tributos do distrito 11 ladeavam o garoto do distrito 1. A mais nova parecia assustada e confusa armada com duas adagas tremulas em suas pequenas mãos, sua parceira tentava não demonstrar o nervosismo, encarava os rivais a sua frente com a respiração ainda muito pesada brandindo um tridente. O garoto tinha olhos azuis gelados e pareceu a Bright que ele estava estudando a situação, fazendo a mesma expressão costumeira de Annabeth quando elaborava um plano brilhante, ele também segurava um tridente e tinha preso na calça um facão. '' Não existem inocentes, eles não são crianças indefesas. Vão nos matar se puderem, e matar uns aos outros se conseguirem. '' Bright pensava consigo mesmo enquanto os dedos seguravam as laminas com firmeza. Ainda com os olhos fixos no trio, ele sussurra para Annabeth com o canto dos lábios: - No treinamento, eles ensinaram sobre pontos fracos Anna, se lembra? Pense nos seus, e não deixe eles perceberem quais são. Use a faca que eu te dei, fique o mais longe que puder, não se aproxime... Foi uma honra. -
Bright não esperou uma resposta. Flexionou os joelhos e começou a correr novamente. Avançou direto para os 3 que pareceram surpresos com sua atitude, mas não se mostraram intimidados. Como pode prever, o primeiro a retribuir sua investida foi o garoto, que arremessou o tridente contra Bright, que precisou rolar no chão para conseguir desviar do golpe. Com as laminas em mãos, teve tempo apenas de lançar uma delas que atingiu o braço de Helena de raspão quando Leo desferiu um soco forte em seu queixo. O impacto foi forte o suficiente para tirar sua concentração, mas ele revidou. Com a mão fechada, imitou o movimento do garoto a sua frente, lhe socando o rosto da mesma forma. Enquanto Leo cambaleava com o golpe, Helena partiu logo de trás dele, tentando golpear Bright com seu tridente, mas ele conseguiu ser mais rápido, aparentemente a garota não sabia dominar uma arma daquele porte tão bem, felizmente para ele. Bright segurou o tridente pela base e com um puxão forte o tomou das mãos de Helena, jogando-o longe na direção oposta. O impulso fez a garota recuar e cair sentada. Leo se recuperou rápido do golpe e dessa vez, avançou contra Bright usando o facão que estava antes em sua cintura. Instintivamente, Bright tentou parar o golpe com a lamina que ainda estava em uma de suas mãos. Embora fosse perfeita com pequenos cortes e feita para golpes de longa distancia, a faca escapou de sua mão com o forte impacto do facão que teve sua potencia freada mas não o suficiente para que Bright saísse ileso. Um corte profundo e extremamente doloroso fez jorrar sangue de seu anti-braço direito. Ele ainda conseguiu erguer uma das pernas e chutar Leo bem no meio da barriga, mas a dor que sentia o fez recuar , usando a mão esquerda para tentar conter o sangue e a dor, apertando firmemente o corte. Ele arfava de um lado. Helena parecia assustada demais e ainda não tinha se levantado. Leo apertava os braços contra a barriga, mas ainda segurava o facão e em minutos, sabia que viria em sua direção com um segundo golpe certeiro. A grande surpresa partiu de Collen. Bright jamais podia imaginar o que se seguiu. A menininha ergueu suas armas e veio em sua direção com o que parecia ódio em seu olhar. Quase que por reflexo, Bright soltou o braço cortado e enfiando a mão livre no estojo de facas, encaixou duas delas entre os dedos e com um movimento rápido as lançou contra a garota. Uma delas atingiu um dos ombros próximo ao pescoço, mas foi a lamina que atingiu o centro do tórax que fez Collen perder o ritmo e com os olhos desfocados, cair no chão. Helena gritou e correu para a parceira no que parecia uma tentativa de reanima-la enquanto Leo partia novamente na direção do garoto. Ele pensou em desviar outra vez, ou até mesmo correr e tomar distancia, mas não chegou a se mover. Antes que pudesse se aproximar o suficiente Leo parou a corrida e levou uma das mãos a cabeça, urrando de dor. Bright se virou e viu atrás dele Annabeth com pedras, as atirando descoordenadamente contra Leo, que agora recuava novamente, esbravejando xingamentos contra a menina. No outro lado, Helena tinha o rosto manchado por lagrimas mas carregava fúria na expressão. Ela estava com as adagas de Collen nas mãos, e as arremessou com força. Bright só conseguiu golpear Annabeth com um dos ombros, com força suficiente para derruba-la quando uma das adagas passou zunindo à centímetros de sua cabeça. Annabeth estava prestes a ofender o garoto quando se assustou ao vê-lo engasgar e tossir expelindo sangue pela boca. A segunda adaga arremessada tinha o atingido em cheio no meio das costas. Ele tentou ignorar o olhar assustado da parceira e tentou se posicionar rápido outra vez. Sentia como se eletricidade cercasse o lugar onde a lamina fria havia sido enterrada e seu sangue agora escorria pelas costas. A visão começava a anuviar e ele voltou a ajeitar a mão que a ainda funcionava no estojo de facas. Segurou uma delas firmemente mas Helena estava em cima dele antes que pudesse joga-la. A garota o golpeava com socos pelo rosto o fazendo perder equilíbrio. Num movimento de defesa, Bright crava a faca no abdome da garota que se afasta cambaleante, até cair ajoelhada, com as mãos na barriga. Bright mal conseguia se manter de pé quando viu Helena perder a luz nos olhos e tombar de lado. Poucos metros dela, Leo tinha o rosto parcialmente coberto de sangue resultado de uma das pedradas certeiras de Annabeth. Ele olhava a dupla a sua frente com o mesmo olhar gélido, e para surpresa dos dois um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios finos. - Você garota, eu imaginei que pudesse aguentar o tranco por um tempo... Eu vi seu treinamento. Esperta, muito esperta. Mas numa luta mano a mano, não teria a menor chance, nem mesmo com as mais novas. É covarde demais... Agora, você?! Eu pensei que o padrão das GMakers tivesse se tornado um lixo quando as notas individuais saíram.Eu sabia que seria o melhor, mas você ficar logo abaixo de mim? Só podia ser piada. Foi isso que fez para convence-las? Jogar facas? Isso pode servir no circo de onde você veio, mas não vai mais te ajudar aqui. Eu sou mais rápido, inteligente e forte que você. Vai pegar sua ultima lamina idiota mas não vai ter tempo de joga-la. Eu vou terminar o que Helena começou, e você vai estar morto antes mesmo de poder ver eu finalizando sua amiga genial, exatamente como eu fiz com a canibal nojenta do distrito 10. Se não tivesse perdido tempo fazendo amigos e levado seu treinamento a serio... Mas agora não faz a menor diferença! -
Leo avançou mais uma vez, com o facão em punho, preparado para cumprir o que prometeu. Bright levou a mão novamente ao estojo e sentiu uma ultima lamina solitária em seu interior. Ironia do destino havia mostrado seu significado. A corrida de Leo se passou em câmera lenta. Bright podia sentir sua respiração enfraquecendo, os olhos pesando, a dor tomando conta de seus pensamentos. Annabeth se levantava desajeitada gritando para que ele tomasse cuidado, mas Leo estava certo. Não haveria tempo de lançar a faca, mas talvez, se ele conseguisse ferir o garoto, Annabeth poderia ter alguma chance. Então foi tudo tão rápido como num piscar de olhos. Leo estava a frente de Bright, que erguia sua ultima lamina pronto para golpear. Mais rapido e mais forte, Leo empurrou a lamina pesada contra a barriga de Bright, a enfiando ali. O garoto cuspiu sangue uma segunda vez e sentiu a faca lhe escapar por entre os dedos. Os olhos se fecharam enquanto ele sentia as pernas tremendo. Um grito de Annabeth o fez manter a ultima fagulha em seu corpo e trazendo a mão para baixo, segurou com firmeza o braço que Leo usava segurando o facão. O encarou segundos eternos, ganhando tempo precioso para que Annabeth reagisse. - Está errado. Fez toda a diferença... -
No momento decisivo, Annabeth retirou a unica arma que tinha do bolso e sem pensar, enterrou a pequena, mas letal, lamina de arremesso que Bright havia lhe dado antes, no pescoço de Leo. O garoto cambaleou e gritou enquanto levava as mãos ao pescoço tentando conter o sangue, que jorrava como uma fonte. Ele caiu e seu corpo se contorcia em agonia e desespero. Annabeth ficou a frente de Bright e lhe puxou o facão da barriga. Ele sangrava tanto quanto Leo. Bright tentou se manter erguido e pediu em pensamento '' pés, não me falhem agora. Preciso chegar a linha final... Eu senti meu coração se partindo a cada passo que eu dava. Eu só não queria ficar sozinho, é como uma tortura.'' Annabeth o olhava atônita sem saber o que fazer, e lagrimas escorriam pelos seus olhos. Muito fracamente, Bright toca o rosto da menina com a ponta dos dedos - Vá pra casa menina esperta, vá pra casa... -
A ultima palavra quase não pode ser ouvida quando o braço tombou de lado e os olhos de Bright se fecharam para sempre. Ele ainda pode ouvir Annabeth pedindo que ele não morresse e pensou que era o sentimento mais bonito que alguém já havia demonstrado para ele. Milhões só queriam vê-lo morrer, mas ela pediu que ele vivesse. Não importava, sabia que ela ficava irritada quando não obedecida, mas estava segura agora, e era isso que importava. Bright caiu de bruços no chão em frente a sua aliada e assim que tocou o solo, um canhão pode ser ouvido e em seguida as vozes amplificadas das GMakers anunciavam: - Annabeth Chase do distrito 5, campeã dos jogos vorazes! -











