A EXTERNALIZAÇÃO DE CUSTOS COMO BASE DO LUCRO
A ordem natural é formada por um conjunto maravilhosamente complexo de ciclos intrincados, intimamente relacionados. Se uma borboleta pode mudar o curso dos ventos, não é apenas pela teoria do caos, mas porque, como uma célula em um imenso organismo que é a Terra, tem uma função específica que garante um funcionamento geral. Uma borboleta é imprescindível no processo de polinização de plantas e árvores, que estão intimamente ligadas com o regime de chuvas e ventos.
O exemplo dos lobos que movem rios do parque Yellowstone é uma boa ilustração disso. Em decorrência da caça pelo homem, a população de lobos decaiu drasticamente, aumentando animais herbívoros, como veados que, em grande número, conseguiram praticamente acabar com a vegetação rasteira do local. Sem as raízes que seguravam a terra, os ventos e a água a levavam consigo, e, em alguns anos, até os rios mudaram seu curso.
A natureza construiu, aos mais delicados detalhes, um império de fragilidade, levado a cabo de centenas de milhares de anos, erguido na pequenitude das moléculas empilhadas pelo tempo geológico. Pois bem, se se perturba um elemento sequer na teia, os abalos se repercutem pesadamente para seus entornos e adiante, podendo tornar insustentável a vida até que se restabeleça novamente o equilíbrio.
Há de se entender que uma das leis não pronunciadas da natureza é o seu tempo. A vida, a princípio, parece ser indestrutível. Suas transformações drásticas caminham a passos largos e milenários. A ação do homem ocidental, nos últimos séculos, infringiu tal lei, impondo ao ritmo natural o ritmo da produção. Ou seja, ao explorar seus recursos, utilizá -la como depósito de detritos ou limpá -la donde atrapalha o desenvolvimento, o Homem engendrou mudanças radicais que, na perspectiva da temporalidade geológica e natural, se deram como um único evento imediato, sem precedentes os processos contínuos. ~dados~. A velocidade com a qual o capitalismo impõe sua marca na natureza rouba dela a oportunidade de se reajustar suas dinâmicas a uma nova ordem que se segue. Mesmo as mais intensas mudanças ambientais na história do planeta, como a reprodução das bactérias aeróbias (no plestoceno? Sla), ou a jfjwhdjd e jfjsksjs, que resultaram em extinções em massa, foram resultado de processos centenários e graduais, ou mesmo infortúnios pontuais, sempre seguidos de séculos livres de adersidades no qual a natureza se reajusta. Ou seja, ou as mudanças seguem a lei do tempo natural, os sua adaptação a segue.
No caso da atividade capitalista, as duas categorias se somam, fazendo de seus impactos naturais radicalmente pontuais, mas que apontam para uma continuidade potencialmente infinita. A fome insaciável do capitalismo por expansão e consumo de recursos não aponta um fim próximo, continuando seu avanço até que lha seja permitido. E não apenas parece contínua sua atividade, como também a intensificação desta. Conforme cresce, a necessidade de produção aumenta mais rapidamente do que o desenvolvimento de tecnologias limpas. Isso expõe a Terra a mudanças radicais e a priva de um tempo suficiente para se reorganizar. O capitalismo avança numa velocidade muito mais rápida que permitiria o mandamento natural, e está longe de mostrar indícios de pontualidade.
Como aponta Karl Polanyi, a terra, seja como espaço ou recurso natural, é um dos elementos que deve ser imprescindivelmente transformado em mercadoria para que uma economia de mercado (capitalista) funcione. Deve ser objetificada, loteada, precificada e manipulada pela mão do Homem, de outra forma, a produção capitalista não pode se consolidar. Porém, se sua administração for deixada unicamente às dinâmicas de mercado, a velocidade irrefreada da atividade industrial iria devorar a natureza e a terra, consumindo-a por completo, e, assim, destruindo a base absoluta do capitalismo. Essa tendência autodestrutiva do capital de eliminar as bases sob as quais se edifica foi apontada perspicazmente por Polanyi, e indica que, para que o capitalismo se sustente, é necessário aplicar medidas de manejo da natureza que fogem as leis do livre mercado.
Como aponta Karl Polanyi, a terra é um dos elementos que deve ser imprescindivelmente transformado em mercadoria para que uma economia de mercado (capitalista) funcione. Deve ser objetificada, loteada, precificada e manipulada pela mão do Homem, de outra forma, a produção capitalista não pode se consolidar. Porém, se sua administração for deixada unicamente às dinâmicas de mercado, a velocidade irrefreada da atividade industrial iria devorar a natureza e a terra, consumindo-a por completo, e, assim, destruindo a base absoluta do capitalismo. Essa tendência autodestrutiva do capital de eliminar as bases sob as quais se edifica foi apontada perspicazmente por Polanyi, e indica que, para que o capitalismo se sustente, é necessário aplicar medidas de manejo da natureza que fogem as leis do livre mercado.
Mas o que existe na dinâmica de geração de lucros que impede, estruturalmente, que o capitalismo e a natureza consigam coexistir, sem que travem uma luta mortal e potencialmente suicida? Ora, se o capitalismo funcionasse de modo a garantir o tal equilíbrio natural, haveria de ter uma etapa da produção que se dedicasse ativamente na compensação dos danos gerados pela própria produção, em suas etapas anteriores. Ou seja, em um universo ideal, em que a produção capitalista não impactasse negativamente o equilíbrio natural, a destruição e a recuperação da natureza teriam de ocorrer a ritmos equivalentes, dentro da velocidade de geração de lucro.
Porém, na prática, o que ocorre é a chamada externalização de custos. A atividade empresarial de produção, transporte, processamento e até na etapa do consumo de produtos gera custos, muitas vezes altíssimos, mas que, por mais que as empresas sejam responsáveis por eles, não são contabilizados como gastos empresariais. Ou seja, as empresas geram efeitos no meio ambiente (e também no âmbito social, que depois trataremos mais afundo) que, para que se mantenha uma estabilidade mínima, deverão ser lidados por alguém. A reversão desses efeitos jamais é lidada pela empresa propriamente responsável pela origem deles, muito pelo contrário: ou os gastos necessários para a reparação dos danos produtivos são arcados por órgãos não-empresariais, como o Estado ou mesmo ONGs, ou os problemas são simplesmente ignorados, sem que nenhum ente social se responsabilize, fazendo com que as consequências sejam experimentadas por quem as sofre. Em outras palavras, para todo mal causado (ambiental, social, da saúde, etc), alguém há de pagar por isso. Se há desembolso, este nunca vem diretamente das empresas, e, se não há, a própria natureza ou a população tem que lidar com as consequências da cadeia de produção capitalista.
A externalização de custos não ocorre como fruto de uma má conduta ética capitalista, ela não é uma exceção. É, em verdade, a própria regra. A externalização de custos é a base que permite que os mercados de peso sejam radicalmente lucrativos e extensos, ou até mesmo economicamente sustentáveis. Afinal, se os custos ambiental e social fossem contabilizados, o lucro líquido final teria uma queda colossal. Não é a toa que as maiores e mais lucrativas indústrias do planeta, como a indústria bélica, o tráfico, a moda, os alimentos (carne e monoculturas), o petróleo, mineração, entre outros, são os maiores praticantes da externalização de custos, e os que, muito provavelmete, contribuem para a existência desses custos.
>>SERÁ QUE O LUCRO DAS EMPRESAS CONSEGUE COBRIR OS GASTOS AMBIENTAIS?
Tomemos por exemplo a cadeia da produção de petróleo e as emissões de gases poluentes liberadas no processo. Um vídeo publicado pelo Center for Investigative Reporting fez uma análise das externalidades envolvidas no mercado do petróleo utilizado como combustível. Um galão de gasolina produz, em toda sua cadeia de produção, cerca de 11 kg de gases que contribuem para o efeito estufa, e um motorista estadunidense consome em média 457 galões de gasolina por ano. Este consumo elevado traz consequências diretas ao meio ambiente e à sociedade, que, para arcar com eles acaba tendo que gastar, indiretamente, um preço muito alto. Além da poluição inerente gerada no consumo do combustível, também são consequências diretas de sua produção vazamentos em oceanos, poluição aquática vinda de tanques de armazenamento, redução da produção agrícola nos arredores e aumento de doenças respiratórias. Em Los Angeles, foi estimado que cada habitante gasta, por ano, cerca de $1 250 como consequência de poluentes, seja no tratamento de doenças, dias perdidos de trabalho e escola, ou até mesmo morte. O custo total das externalidades geradas pela indústria do petróleo é estimado entre $550 000 000 e $1 700 000 000 por ano, apenas nos EUA. Se esse preço fosse propriamente contabilizado na mercadoria, o preço do galão de gasolina iria de $3 ou $4 para incríveis $15.
Em outros mercados, os efeitos podem ser ainda mais complexos e variados, o que torna difícil sua contabilização. A indústria da carne, por exemplo, é uma das principais emissoras gases poluentes, porém, além disso, ela resulta em desmatamento, poluição de rios e ecossistemas por eliminação de resíduos sólidos ou líquidos, grilagem, contaminação por uso de antibióticos e químicos, uso excessivo de água. Para a produção de ração, entra-se na cadeia da monocultura de extensão, como o milho e a soja, responsáveis pelo uso de agrotóxicos em grande escala, contribuição para uma estrutura fundiária desigual, exportação e importação de água não contabilizadas, etc. E, para além do consumo, existem os gastos em saúde pessoal derivados do consumo indevido de carne vermelha (que levam a doenças cardiovasculares e câncer). A alta produtividade do abate em frigoríficos obviamente não leva em conta o bem estar animal, o que, por uma visão contra especista, também pode ser considerada como um custo não monetarizado.
Os custos ambientais, sociais e até mesmo animais são amplamente difusos, o que torna difícil sua contabilização e responsabilização. A externalização pode, muitas vezes, alcançar escalas internacionais, fazendo com que outros países estejam arcando com a irresponsabilidade de outros. Mas, por mais que algumas empresas ou Estados saiam prejudicados com a irresponsabilidade de outras cadeias produtivas, quem acaba sendo mais afetado, no final, é a população humana, animal, ou o meio ambiente.
>> E A INDÚSTRIA BÉLICA? QUANTO SE PAGA POR UMA MORTE?
Se os responsáveis tivessem que arcar com as próprias ações, é muito provável que a maior parte desses mercados deixasse de ser sustentável economicamente, e tivesse que fechar as portas. Assim, a externalização de custos, como já dito antes, é o que permite que grande parte da produção e consumo capitalista seja possível. E, do mesmo jeito, se uma empresa desejasse por sua espontânea vontade ser ética ambiental e socialmente, no contexto atual, ela seria simplesmente insustentável, pois não poderia competir com a produtividade e lucratividade de suas concorrentes irresponsáveis.
O capitalismo é, por definição, um incentivo a irresponsabilidade social, animal e humana.