Meus livros de 2020: Frankenstein, Mary Shelley
Mas é assim; o anjo caído torna-se um diabo maligno.
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Meus livros de 2020: Frankenstein, Mary Shelley
Mas é assim; o anjo caído torna-se um diabo maligno.
Mas, nas palavras da minha mãe, eu era do contra e gostava de questionar o que todo mundo aceitava com entusiasmo.
Em Algum Lugar nas Estrelas (Clare Vanderpool)
The brazilian book cover for The Scarlet Gospels is the best!
Resenha: Ed & Lorraine Warren: Demonologistas.
Nunca poderíamos esperar um casal que deu tão certo quanto Ed e Lorraine Warren. O que? Nunca ouvi falar? Ed e Lorraine Warren: Demonologistas é na verdade montado a base de uma entrevista, mostrando desde diálogos diretos a falas dos acontecimentos, além de ser uma biografia e tratar detalhadamente algumas histórias vividas como Amityville, Annabelle, Beckford, Enfield, além de outras situações presenciadas pelo casal. Se você espera que seja uma literatura de terror, este não é o caso. O livro é leve de uma leitura rápida para absorver informações reais sobre a demonologia, o intuito aqui não é provocar o medo e sim conhecimento sobre fatos, este é seu livro.
Temos aqui explicações sobre espíritos, inumanos, demônios, diabos, exorcismos, sobre diferenciar, tipos de cada um, porque de tudo acontecer, o que é capaz de atrair, como prevenir. Parece até um guia completo de como lidar com seu amiguinho imaginário que te atormenta não é? Deixa só eu relembrar que esse livro se trata de FATOS, quando você ler e começar a imaginar as cenas deixe bem fixo na sua cabeça que são situações reais e comprovadas. Esse é o “terror” do livro.
“...Fechar a mente ao conhecimento é irracional.”
Começamos um pouco com a história de cada um, Ed Warren como demonologista e Lorraine como médium clarividente. O que aconteceu até chegarem ao ponto de se encontrar e a incrível sintonia do casal tanto na vida conjugal quanto ao trabalho.
O casal inicialmente se interessava pela gravidade do caso para salvar a vida das pessoas, começando com uma pequena série de perguntas para descobrir o que aconteceu para ter tal situação ali, dependendo do caso é bolado estratégias para expulsar o mal do local. Lorraine utiliza sua clarividência para sentir e se comunicar com determinada entidade enquanto Ed faz a expulsão.
”O lixo de um homem é o tesouro de outro.”
Depois de alguns anos, com seu trabalho sendo reconhecido apesar de serem um dos pouquíssimos demonologistas existentes, decidem apresentar algumas palestras para orientar as pessoas, explicando sempre através de provas concretas.
''Temos um acordo. Eles não me incomodam e eu não jogo água benta neles.''
É importante ressaltar que Ed sempre dá descrições minuciosas, datas, porém nunca informa, por exemplo, o livro utilizado que ocasionou tal informação, além de seu modo de trabalhar sabendo diferenciar exatamente o que está dentro da casa, ou de pessoas sem mencionar nenhuma religião como foco, mostrando diferenças entre wicca, bruxaria, satanismo entre outros, apenas demonstrando como algo pequeno pode se tornar no maior poltergeist inimaginável independente de sua religião.
Autor: Gerald Brittle Editora: Darkside Ano: 2016 Páginas: 272 Gênero: Biografia, Suspense Este livro foi muito bem feito pela Editora Dark Side, que sempre usa e abusa da beleza entre capa, folhas e ilustrações. Ou vocês pensaram que o livro não teriam algumas imagens reais dos casos do casal? Apesar de a escrita estar leve, a experiência de leitura é tão boa que se fechar os olhos é muito fácil de imaginar e sentir o que foi vivido por Ed e Lorraine em cada capítulo, e em cada um as coisas pioram. Se você é uma pessoa descrente, porém curiosa, este livro vai lhe trazer pelo menos o mínimo de noção que existem coisas ruins, e que não se deve brincar com eles.
O Rei de Amarelo, Robert W. Chambers
Minha nota: 8/10 Sinopse: Nos dez contos que compõem O Rei de Amarelo, Chambers compõe um mundo muito próximo do nosso, mas com leves toques de distopia e perseguido pelo omnipresente Rei de Amarelo, personagem de uma peça de teatro de mesmo nome que parece trazer desgraça, paixão cega e loucura a tudo e todos que toca. Num clima onírico, cada conto nos leva aos Estados Unidos ou a Paris do fim do século 19, com personagens que, em sua maioria, sofrem de amor e de terror - e quem sabe, às vezes os dois sejam a mesma coisa.
Eu comecei a ler O Rei de Amarelo com expectativas bastante altas, já que como fã de Lovecraft eu já tinha ouvido falar que O Rei de Amarelo tinha sido uma inspiração para o terror cósmico. Aqui, eu não diria que o terror (quando ele está presente, mas já chego nisso) é cósmico - ele é onírico. Esse com certeza é o melhor adjetivo para a escrita de Chambers em todos os contos.
Falando um pouco mais sobre a estrutura do livro, nós temos aqui dez contos, sendo que há uma divisão temática bem grosseira entre os cinco primeiros e os quatro últimos, com a coletânea de poemas "O paraíso do profeta", que é o sexto conto, servindo mais ou menos de transição entre essas duas metades. Nos primeiros quatro contos, conhecemos vários personagens tocados pela peça de teatro O Rei de Amarelo, uma peça que supostamente enlouquece quem a lê.
Eu fui particularmente muito fã desses primeiros quatro contos, era exatamente isso que eu esperava encontrar quando comecei este livro. Nós nunca conhecemos de fato o conteúdo do Rei de Amarelo, só temos alguns vislumbres de seus personagens e cenários, e isso é o que deixa tudo tão bom. Conforme via os personagens enlouquecendo, se tornando paranoicos, passando por acontecimentos bizarros, o desconforto vinha sempre de tentar imaginar o que diabos está escrito nessa peça de teatro? Por que ela foi escrita, e por quem? Há algo de realmente sobrenatural na peça, ou é tudo um caso de histeria coletiva?
De propósito, tentei ler um conto por noite, para amplificar esse calafrio na espinha, e funcionou. Não senti medo meeedo medo, mas sim esse tal desconforto, essa tensão de não entender o porquê de as coisas estarem degringolando desta forma. Eu achei o final do primeiro conto bem pesado, então logo de cara eu fui comprada pela premissa da história, e nunca duvidei do poder do Rei de Amarelo. Um aspecto engraçado deste primeiro conto - e algo que é aludido em alguns outros também - é que ele se passa numa espécie de distopia, onde os EUA passaram por uma espécie de "purificação" eugenista e agora existe numa sociedade bastante militarizada, que me lembrou um pouco o início de V de Vingança. Essa distopia não é muito aprofundada, e talvez exista uma conexão mais sutil entre a distopia e a peça de teatro, mas isso é deixado para a interpretação do leitor. (Obs: engraçado o Chambers falar de eugenia com um alerta, com um tom crítico, e depois ele ter influenciado.... Lovecraft, que era um enorme de um racista).
Por outro lado, os últimos quatro contos se passam exclusivamente na França, e falam principalmente da vida boêmia dos estudantes e artistas que viviam no Quartier Latin e Montparnasse por volta da década de 1870. No sétimo conto, "A Rua dos Quatro Ventos", ainda há algum elemento sobrenatural, mas depois disso, até o fim do livro, somos apresentados às histórias de grupos de jovens, em sua maioria artistas, que por um motivo ou por outro sofrem profundamente por amor. Embora aqui o amor, a inocência e a loucura estejam associados, já não tem nada de sobrenatural, e surpreendentemente, a peça do Rei de Amarelo deixa de ser mencionada explicitamente, e acabamos tendo apenas menções a nomes de personagens da primeira metade do livro, mas sem estabelecer relações explícitas sobre os acontecimentos dos diferentes contos.
Eu não esperava encontrar essa mudança temática e confesso que fiquei um pouco decepcionada. Os quatro primeiros contos foram tão envolventes que fiquei viciada, e só queria mais e mais.
Os contos românticos não são ruins em si - eu acho interessante ler sobre essa vida artística e boêmia de Paris, que parece alimentar o estereótipo que nós temos da cidade, mas é baseado em uma época real, em pessoas reais - mas eu achei eles um pouco repetitivos, e não entendi porque Chambers decidiu incluir eles neste livro. Eu imagino que sejam um pouco autobiográficos, e talvez Chambers estivesse usando sua própria vivência como jovem sem preocupações, vivendo da arte e do senso de liberdade francês para nos trazer uma visão mais ponderada desse estilo de vida: por um lado, era ideal para geminar ideias e produzir arte; por outro, todos viviam intensamente, as paixões se misturavam e isso os deixava muitas vezes miseráveis.
Mas o que para mim trouxe uma sensação de unidade a todo livro foi a maneira como Chambers descreve as situações, os ambientes e as ações. Com poucas descrições físicas, nos focamos muito mais no mundo interno dos personagens, e vemos suas ações como meros espectadores, impotentes e passageiros, infiltrados neste ambiente tão diferente dos nossos tempos modernos.
Talvez o melhor jeito que eu tenha de descrever a sensação de tontura, delírio e sonho que O Rei de Amarelo me trouxe seja com uma anedota pessoal.
Meus avós moram no centro da cidade, num prédio já antigo e num andar alto. Quando eu era criança, com uns 4 ou cinco anos, eu me lembro de ir dormir na casa deles com frequência nas férias ou nos fins de semana. Eu dormia na cama com a minha avó, ou quando queria brincar de "festa do pijama", num colchão da sala, e sempre me lembro de haver pelo menos uma TV que ficava ligada em algum lugar, seja porque ajudava meus avós a pegar no sono, seja porque esqueciam de desligar. Nessas noites no apartamento deles, eu me lembro de acordar de madrugada, ainda meio tonta de sono, e perambular sozinha pelos cômodos. Meus avós sempre dormiram como pedras, então mesmo que meus passinhos no chão de madeira ecoassem pelo apartamento todo, eles não acordavam. Eu me orientava pelos aparelhos eletrônicos: a TV, onde estava passando algum desenho animado dos anos 1960, com os traços e a dublagem claramente muito mais velhos do que eu, fora de lugar ali na minha realidade de criança nos anos 2000; o microondas, com os dígitos brilhantes sendo a única luz da cozinha; o zumbir da geladeira, do ventilador e o tic-tac do relógio delineando os limites dos cômodos.
Eu gostava particularmente de fazer minha pequena marcha, geralmente do colchão da sala para o quarto da minha avó, para olhar o centro da cidade pela janela. Durante o dia, o som dos carros, do comércio, da escola, das pessoas, dos restaurantes é constante, mas agora era de madrugada, e as ruas estavam desertas e iluminadas pela luz amarelada e esparsa dos postes. As árvores verdejantes do dia, agora balançavam com o vento que uivava e me assustava. As sombras dos móveis no apartamento poderiam ser monstros ou fantasmas, e o piscar de luzes nos outros prédios estava tão distante quanto as estrelas. Eu era criança, estava num quarto que não era o meu, sem nenhum adulto de pé, em silêncio, vendo a cidade vazia.
Eu me sentia a única pessoa no universo, como se aquele conjunto de circunstâncias tivesse me transportado para outra dimensão, paralela ao mundo que eu conhecia durante o dia, com os adultos acordados e com tudo bem iluminado e reconhecível. Naquele momento, qualquer som estranho ou sombra mal definida me assustaria, porque eu acreditava que as coisas já não eram como eu as conhecia, no meu mundo diurno; mas, ao mesmo tempo, eu perambulava pela casa e espiava pela janela porque a curiosidade falava mais alto, e eu queria experimentar a antecipação de testemunhar algo fora do comum.
Durante os quatro primeiros contos de O Rei de Amarelo, foi exatamente essa lembrança que sempre me vinha à mente ao final de cada conto, e daí eu achar que onírico é exatamente o sentimento que essa peça de teatro fictícia conseguiu causar até em mim, que sou uma pessoa de verdade e sei que ela não existe. Eu também tenho plena certeza de que se eu encontrasse uma peça de teatro estranha, e todos ao meu redor me dissessem que ela iria me deixar maluca, isso só me faria lê-la mais rápido, porque eu sou curiosa assim mesmo. Talvez por isso O Rei de Amarelo me fascinou tanto - acho que no fim das contas, eu facilmente seria uma de suas vítimas.
Ouça-os, os filhos da noite. Que melodia!
Drácula, Bram Stoker, página 50
Só compreendemos a verdadeira dimensão de certos horrores quando nos vemos face a face com eles.
Drácula, Bram Stoker, página 45