Você não me conhece mais.
Você já não reconheceria minha risada, a velocidade da minha fala, nem o cheiro do meu perfume, não me encontraria nos lugares que eu frequentava.
Você já não conhece mais meus medos, minhas manias, nem acreditaria, se eu contasse que agora tomo 3 litros de água por dia, ou até mesmo se eu contasse que hoje não importo em dormir com as luzes apagadas, acho que, no fundo, o que me incomodava era aquele quarto, que não era nem escuro, nem claro, era aquele quase escuro que me apavorava, assim como todos os outros quases da minha vida.
No começo eu não conseguia mudar nada, porque você passou a fazer parte de quem eu era, e eu me machuquei muito tentando arrancar da pele a parte de ti que ficou em mim, mas quanto mais eu tentava, mais doía, eu não conseguia mais parar de tocar em todas as feridas que foram causadas, deixando tudo cada vez mais difícil de cicatrizar.
Até que um dia eu descobri o quanto você tinha mudado, percebi como eu nem te conhecia mais, como se cada vez que falassem de ti, estivessem falando de um estranho, você já era outra pessoa, uma pessoa que eu não amei, uma pessoa que nunca conheci.
Foi aí que entendi muito sobre a dor que é superar, entender que de fato teve fim.
Mas também vi a beleza em se redescobrir.
Eu percebi que não fazia mais sentido ainda te amar, porque você já não era quem eu tinha amado.
Aquela pessoa ficou no passado, e eu não podia continuar lá.
Depois que eu pensei sobre isso, eu me curei, eu me reinventei, mudei de endereço, de filosofias, de hábitos, de bares, de gírias.
E hoje você nem sabe mais meu filme favorito, os novos shows que decidi ir, meus hobbies, que, quase nem eu acredito, mas, não incluem beber até cair.
E eu não sei mais seu endereço, não sei se ainda tem a mesma música favorita, ou se enjoou dela de tanto ouvir, não sei mais da sua rotina, nem ao menos se ainda escuta lo-fi pra dormir.
Sim, no fim, nós dois mudamos,
mas eu só consegui mudar quando eu percebi que você tinha mudado,
e que eu tava presa no passado esperando alguém que já não mais existia,
você mudou porque não queria voltar atrás,
eu mudei porque precisava seguir em frente














