Ainda estou sob os efeitos da biografia “Elis Regina: Nada será como antes” (Editora Master Books), do jornalista Júlio Maria.
Terminada a leitura, saio sem fôlego dessa vida que nada mais foi do que intensidade e paixão. Elis tinha gana de viver, por isso não calculava perdas e danos, apostando sempre no que acreditava e permitindo-se mudar de opinião para reinventar-se sempre que sentia necessidade. Uma mulher que não viu da areia nem boiou no raso: Elis mergulhou fundo como que prevendo a curta vida que teria. Fez um disco a cada ano (às vezes dois), realizou espetáculos memoráveis a cada temporada e, entre discos e temporadas, três filhos.
Amou, danou-se, acertou e errou no ritmo de um ciclone, sem tempo para ficar em cima do muro ou ver a banda passar. Absurdamente insegura apesar de ser a maior cantora do país (ou justamente por ser a maior), Elis se revelava a cada interpretação - uma estranha entrega onde a cantora e a mulher eram perigosamente postas em cena, sem concessões. Muito longe do proscênio, a artista se dissipava com os aplausos e dava espaço à mãe de dedicada vida doméstica e à esposa (por vezes tão dilacerada pelos traumas de um coração sempre em conflito).
Agora que terminei o livro, saio com uma certa sensação de urgência de vida, de amor, de realização de antigos desejos. A consciência da fugacidade das coisas pode ser tão desesperadora quanto libertária. Elis foi dona dessa sapiência e quando cantava que queria "destilar as emoções" não estava de brincadeira. Ela teve uma trajetória tão ligeira quanto profunda, de falsos e verdadeiros brilhantes, capaz de cantar o Brasil e a si mesma com tamanha plenitude que deixou suas digitais na História como a mais completa cantora que se teve notícias por aqui. Ninguém duvida, meu caros: Elis foi, e é, a melhor de todas.