“Se todos podem ouvir os gritos da cidade, os barulhos que ela faz, por que não ouvir os gritos dos outros?”.
Conhecida como cerebral e hermética, “O grito”, novela controversa de Jorge Andrade, precisa ser reavaliada e revista com entusiasmo. Não apenas por ser uma obra audiovisual de Andrade, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, autor de peças fundamentais como “Vereda da salvação” e “A moratória”, mas também por se mostrar, hoje, atemporal e visionária tanto temática quanto esteticamente.
Ambientada em uma São Paulo estranhamente contemporânea e nunca mais igualmente retratada na televisão, a novela debateu os principais problemas da atualidade (entre 1975, ano de estreia d'O grito, e 2015 nada mudou): invasão de privacidade, questões ambientais, repressão à homossexualidade, liberdade feminina, solidão na metrópole e a incomunicabilidade nos grandes centros. Ou seja, conflitos agudos que iam do social ao mais íntimo de cada personagem. A abertura lembra uma típica vinheta jornalística da época, remetendo-nos ao caráter investigativo, analítico e denunciativo da estória.
Com tempo diegético absurdo (a trama, apesar de seus 125 capítulos, passava-se em apenas uma semana!), revela uma jogada de quem saca de dramaturgia e sabe como romper com os vícios do gênero. Veja: a telenovela já foi mais ousada e interessante que o mero folhetim.
A protagonista de “O grito” é Marta, vivida por Glória Menezes, uma freira que abandonou o convento, casou-se e, já viúva, torna-se uma mulher angustiada às voltas com um drama pesado: seus vizinhos querem expulsá-la do prédio onde vive porque seu filho doente mental grita durante a noite. Era uma crítica à ausência de solidariedade e uma observação quanto ao esgarçamento da fé no homem. Marta diz: “Quando eu vivia em uma cela e ouvia os barulhos lá fora, os sinos, os carros, os passos, as pessoas conversando, eu tinha vontade de saber como era o homem. Agora eu sei. E sabendo é que posso me tornar uma verdadeira religiosa. Eu não podia sentir Deus sem me sentir uma pessoa humana, como não podia compreender sem sentir na carne o sofrimento, a dor. Agora eu sinto como espinhos circulando em meu sangue”.
A novela se passava quase que inteiramente em um prédio, o claustrofóbico Edifício Paraíso, que funcionava como uma pirâmide social: pobres no térreo, ao meio uma gradação à classe média e, no topo, os ricos. Ao batizar ironicamente o lugar de “paraíso”, Andrade destila uma metáfora poderosa sobre a sociedade. “É verdade que você construiu esse prédio, Edgar, e permitiu a venda de apartamentos a toda espécie de gentinha. Mas não é pelo fato de morarmos no prédio que vamos, agora, viver em promiscuidades”, diz Mafalda (Maria Fernanda), a elitista e segregadora moradora da cobertura.
Outro achado é o choque entre realismo e surrealismo que o enredo propunha. Ao mesmo tempo que fazia uma análise cruel sobre a sociedade, preenchia seus personagens de sonhos, desejos e delírios nada realistas (única chance de sobreviver ao caos da cidade?). Porém, nem da atmosfera onírica o julgamento passou ileso: em uma das cenas fantásticas, a família paulista/paulistana vai à rua e senta à mesa com máscaras de gás. Por que não podem respirar o mesmo ar? Por que a poluição de São Paulo invadiu, inclusive, nossas casas? É coisa de gênio.
Passados exatos 40 anos de sua estreia, a novela “O grito” é digna de estudos como o de Sabina Anzuategui (a tese de doutorado "O grito de Jorge Andrade: a experiência de um autor na telenovela brasileira dos anos 1970") e deve voltar à tona devido à sua ambição e audácia tão raras hoje em dia. O mais impactante é o quanto o enredo é atual, o quanto a denúncia de Jorge Andrade continua perene e tristemente vigorosa.