Ninguém ensina uma mulher a viver para o mundo
Em um momento de introspeccção, acabei me recordando de um ocorrido que aconteceu quando eu tinha quinze anos. Era o meu primeiro ano no ensino médio e meu primeiro dia em uma escola nova, eu e meu irmão estávamos animados pela possibilidade de iniciar um novo ciclo após dez anos de ensino fundamental em uma única instituição de ensino público; Ir para uma escola estadual era um novo universo que estávamos animados para desbravar, devido à isso, caminhávamos há alguns passos a frente de nossa tia, enquanto ela logo atrás nos dizia para sermos mais cautelosos. Em dado momento, passamos animadamente por um senhor que estava sentado em frente a um estabelecimento, e contentes com a conversa pouco nos importamos com a presença dele ali. Enfim, chegamos a parte que mais me aflige de toda esta lembrança, logo após passarmos em frente a esse senhor, minha tia me chamou estando furiosa e sem entender seu tom bravo e hostil eu retornei ao seu lado questionando o por que de ela estar tão braba, surpreendentemente o motivo de ela estar chateada era por que o suposto senhor de antes estava "me cuidando como quem olhasse uma mulher". Quando a questionei a quem se referia ela resmungou algo como "o velho sentado lá atrás", e começou a me reprimir por andar sorridente e mais a frente com meu irmão, pois eu deveria andar ao seu lado e sem me "aparecer" tanto. Naquele momento, minha alegria se esvaiu e eu pensei que ela deveria estar certa, sendo a mais velha e experiente e fato daquilo ter ocorrido era realmente culpa minha. Hoje, com mais idade e mais conhecimento sobre a realidade de uma jovem mulher na sociedade, eu entendo o que ela fez. Por mais que quisesse me proteger ela me culpou por algo que eu não era unicamente responsável (se é que eu realmente tinha uma parcela de culpa por ser uma jovem sorridente naquela manhã de segunda), e durante os dias seguintes a essa reflexão, me perguntei o "por que" de minha tia ter sido tão rude comigo, e então aclaramento se fez evidente quando compreendi que minha tia apenas repassava algo que provavelmente já havia acontecido com ela. Deveria estar acostumada a ser acusada por qualquer reação de um homem que não lhe agradasse, e de provavelmente era o que ela achava ser certo. Seguindo essa premissa, imaginem o quanto de mulheres que nasceram entre as décadas de 60' e 70' que pensam iguais à ela? (Seguindo o pensamento de que minha tia nasceu em 65'), eu adivinho o tanto de vezes que a mãe dela ou as próprias irmãs a culparam pela atitude desrepeitosa ou indecente de um homem, e o quanto ela não remoeu isso dentro dela se forçando a aceitar que se fosse mais fechada algo do tipo jamais ocorreria novamente. No fim, nada é culpa dela, e sim culpa da forma como nós educamos nossas filhas. Nossa sociedade não sabe criar suas mulheres. Primeiramente, o pensamento inicial é evitar ter filhas para não passar "tanto trabalho" cuidando, vestindo ou ensinando. Quando o indivíduo tem sua "princesa", ele a cria para não ser uma mulher, própriamente. Vamos pensar em quando seus pais tentaram te moldar ao repararem que não era mais uma "guriazinha"? Tentaram te reprimir e dizer como uma "moça" deveria falar, fazer ou agir? Brigaram contigo quando notaram que falava palavrão ou queria beber? Não criamos as mulheres para o mundo, mas as criamos para ficarem dentro de casa e quando elas ousam tomar algo que as negamos nós a odiamos. Por que ensinamos nossas mulheres a odiarem umas as outras desde crianças, para evitar que elas pensem em conjunto e entendam que não precisam se submeter as "regras da básica convivência da sociedade". Ponto de culminação: O fato de minha tia ter reprimido a mim e não ao velho abusivo na rua, foi por que ensinaram à ela que a mulher está sempre errada. E em hipótese alguma podemos repassar esse machismo disfarçado de proteção adiante. Está na hora de rever nossa educação as nossas jovens, para que elas possam se tornar mulheres fortes e independentes em um futuro próximo. Se a sociedade reprime a mulher desde o ventre, cabe a quem entende isso se negar a prosseguir com esse ciclo vicioso que reprime tudo que nós somos.











