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Puppy! #atheistpilgrim #fatima2017 #etapa1 (em Pancas, Santarem, Portugal)
.Narrativas Visuais.
.Sequência de Imagens.
.Narrativas Visuais.
Post 4 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 1 - Parte 2
Dia 1 – PARTE 2
Data 29/04/2017
Etapa: Sevilha à Guillena, Espanha
Distância: 22,2 km
Tempo: Nublado à sol
Vejo novos ciclistas vindo e faço um sinal de X com meus bastões de caminhada indicando bloqueio. Com o holandês convencido com nossos argumentos de que haveria um jeito de dar a volta, retornamos pelo primeiro trecho alagado onde os ciclistas nos aguardavam. Aparentemente, era um casal de irmãos alemães perto dos seus 50 anos.
Lembro que perto do jipe abandonado, havia um caminho em direção à uma propriedade rural próxima da Autovía A-66, esta rodovia ia paralelamente à trilha oficial da etapa do dia.
O holandês olha em seu guia do caminho em alemão, o ciclista italiano olha um mapa em seu celular e os irmãos alemães pensavam no que fazer. Sim, um deles informa, havia uma saída até a rodovia. Os ciclistas partem enquanto o holandês e eu caminhamos até a propriedade rural onde havia um grande galpão onde deveriam guardar tratores e outros equipamentos.
Minutos depois, havia uma bifurcação. À direita, um caminho em meio às plantações. À esquerda, a rodovia. Então, o holandês decide verificar o caminho à direita para ver se esse seria nosso “atalho”.
Fico aguardando quando de repente ouço latidos, então, vejo o holandês caminhando lentamente para trás. Quem diria, o melhor amigo do homem agindo como treinado e para o seu “homem” e não para qualquer homem. Felizmente, logo aparece alguém para evitar que o cachorro ataque meu “amigo” holandês. Aproveitamos para perguntar sobre o caminho para Guillena, o dono do cão nos diz que deveremos pegar a rodovia. Penso o que eu faria se o cachorro nos atacasse, pois cada um carregava alguns quilogramas nas costas, bem, melhor não.
Quando menos esperamos, o ciclista italiano parece voltar para nos dar as boas novas. Ele nos avisa que há um túnel por debaixo da rodovia A-66 para depois seguir numa estrada secundária em direção ao término da etapa.
Os ciclistas seguem viagem enquanto, nós, os peregrinos a pé, seguimos em nosso passo. Já no outro lado da rodovia, paramos numa área de repouso para comer e descansar. Após 15 minutos, continuamos caminhando até ver outro túnel para voltar ao lado “certo” da trilha.
Para ficar claro, a autovía A-66 está a alguns metros acima da plantação, pelo menos uns 5 metros, para permitir o tráfego entre os 2 lados através de túneis por onde pessoas, tratores e carros podem passar (quem sabe até para evitar inundações nela).
No entanto, após dar a volta numa plantação para chegar ao tal túnel de retorno, que estava bem enlameado e ainda molhado, vimos que era um túnel que não dava para lugar algum.
Sentimos na pele que cada passo errado para trás são 2 para frente. Voltamos à estrada secundária ainda no lado “errado” da rodovia e caminhamos mais um pouco até avistar outro túnel. Esse deve ser o certo, pensava eu. Depois de mais um tempo caminhando, defrontamo-nos com mais lama e água com alguns centímetros de profundidade. Novamente, o túnel não levava a lugar algum. É provável que os túneis tivessem sido feitos prevendo a expansão das estradas rurais no futuro, mas, no momento, não serviam para nada, exceto como abrigo ou armadilha para peregrino.
Desta vez, doeu o peso da realidade. Estávamos tão próximos, mas não dávamos conta de achar o caminho. É difícil ficar dependente das flechas para guiar.
Hora de parar e pensar. Decidimos seguir pela estrada secundária até o fim, pois ela precisava levar-nos até Guillena conforme o ciclista nos disse. Enquanto o holandês perdia suas esperanças, eu ganhava bolhas, pois desde minha aventura passando o banhado uma hora antes, eu não usava meias com as sandálias e isso foi suficiente para aparecer bolhas devido ao atrito sandália-calcanhar (olha a dica).
Um passo por vez...
Decido repor os esparadrapos para evitar novas bolhas, meus pés estavam uma lástima. Molhados, inchados, enrugados e agora bolhas. Meus esparadrapos eram fracos e finos, o holandês, então, oferece um mais reforçado. Aceito e agradeço.
Ao devolver o esparadrapo, o holandês me avisa que decide se separar novamente. Por quê? Ficaria sozinho até o fim desta etapa? Bem, sozinho nunca estamos, mas a presença de outro peregrino naquele momento faria muita diferença.
Meio que perdendo os nervos, digo para ele que não deveríamos nos separar até cruzarmos a rodovia, ainda mais depois de tudo que passamos nessas últimas horas de ajuda mútua, cada um ajudando o outro nem que somente pela presença. E assim, de repente, seria largado ou abandonado (sim, bateu o desespero). Mais ou menos como um trato, ele concorda, depois de passar a rodovia, se ele assim quisesse, ele poderia se desgarrar do grupo e seguir só. Mas o futuro breve mostraria ao holandês suas limitações.
Alguns poucos minutos se passaram e enfim chegamos num viaduto que passava por cima da Autovía A-66 e uma placa de trânsito nos mostrava a direção certa. Sim, bastava-nos tomar a estrada indicada para em 4 km chegar em Guillena. Isso me confortou como um banho quente num dia de frio. Não víamos setas amarelas, mas chegamos num ponto de “certeza” novamente, aquela que todos buscam enlouquecida e cegamente.
Nesse trecho, basicamente todo de asfalto, caminhamos no acostamento. Apesar de não molhar os pés ou enchê-los de barro, por incrível que pareça, andar no asfalto é péssimo. Ele é duro, muito duro, fazendo que seus pés sintam todo os impactos da caminhada. Normalmente, isso não ocorre em nosso cotidiano, mas lembremos, eu já havia caminhado quase 18 km naquele dia.
Quem diria, o futuro se tornou presente e o holandês por vontade própria reduz sua velocidade e fica atrás de mim. Seu vigor físico foi extenuado pelo mental e nada mais o fez desgarrar deste “grupo” até a chegada em Guillena. Seu individualismo me foi claro, esse peregrino não é quem espero ter como parceiro de caminhadas. Era só o primeiro dia, porém, tais atitudes vieram a se repetir com ele e outros caminhadores. Acredite, até o último dia me rendeu... Bem, vamos por partes.
Outro problema das estradas de asfalto é o seu trânsito. Fora todo o desconforto do corpo após esse dia, o som dos carros passando a metros de vocês é horrível. Felizmente, segundo meus cálculos de cabeça, menos de 10% do Caminho Vía de la Plata é em piso asfáltico.
Faltando menos de dois quilômetros para a cidade-alvo, um refúgio? Uma trilha lateral à rodovia, um alento para os pés? Que nada, mais lama e alagamentos devido às chuvas, por consequência, mais cansaço desnecessário. O holandês teimou e foi por lá, eu com os meus problemas físicos de até então, decidi que sentiria a dureza e secura do piso da estrada. Haveria muito chão de terra pela frente (quase 980 km) e não seriam esses que me deixariam mais iluminado na peregrinação.
Era final da tarde, chegamos no vilarejo de Guillena, casas baixas e vielas estreitas em seu centrinho e alguns prédios pequenos ao redor. Hora de encontrar o albergue privado, pois o municipal estava fechado (que bom! A ser explicado amanhã).
O guia em alemão do holandês apontou para o lugar correto. Havia um senhor de barba comprida em frente à porta. Mal perguntamos se poderíamos entrar, ele nos responde de forma direta: “o albergue está cheio”. O quê? Depois de tudo que passamos, teríamos chegado tão tarde assim a ponto de não conseguir ficar no albergue? Realmente, comecei o caminho com o pé esquerdo.
Bem, respirar fundo e ver o que o guia do holandês dizia. Deveria haver outro lugar. Quando estávamos prestes a sair, o senhor de barba comprida diz: “esperem”. Ele olha para os lados, um outro grupo de peregrinos chega 2 minutos depois de nós e pergunta se há vagas. O senhor de barba informa que o albergue está cheio e fala que há uma pousada privada logo a frente.
Fico impaciente, há vagas ou não? O senhor de barba pergunta: “só são vocês dois?” Respondemos que sim. Ele, então, abre a porta do albergue e põe uma placa na porta dizendo que não havia mais vagas.
Enfim, ele se apresenta. Informa seu nome e, sem querer, sua origem. Seu sotaque alemão quando falava inglês era carregado. Ele diz que é um cuidador voluntário do albergue e que ficaria ali alguns meses. Também notei seu estilo meio louco, matuto, piadista e chato. Tudo que ele falava tinha um ar com essas características do momento que eu pisei no albergue até minha saída na manhã seguinte. Ele mesmo era um peregrino muito experiente, ele viria a nos contar que já havia feito o caminho diversas vezes, mais de 5!
Como era de praxe, ele nos mostrou onde deixar as botas/calçados sujos, enlameados e cheios de chulé na entrada. No primeiro piso, alguns quartos e banheiro, no segundo piso, igual e, no terceiro, um terraço onde poderíamos pendurar nossas roupas recém-lavadas e molhadas.
O albergue possuía várias regras. Um banheiro era só para mulheres e para o cuidador, um pequeno luxo que ele se dava já que o outro banheiro era para os peregrinos homens. Estes estão geralmente em bem maior número do que as mulheres no caminho, desta forma, um banheiro bem mais “usado”, se é que você me entende. De toda forma, o lugar parecia novo e bem arrumado. E como todo albergue, havia horários para entrada e saída.
Tudo foi novidade para mim, chegou enfim o primeiro fim de dia no caminho. Fila para tomar banho e “limpar” o banheiro com rodo, fila para o tanque onde iria lavar minhas meias e roupas usadas neste longo dia e depois arrumar minha “cama”. O cuidador piadista arma a minha cama dobrável e a do holandês no corredor no primeiro piso. Essas camas-estepes salvaram nossa noite.
Ao redor vejo uma mulher grande de origem dinamarquesa com quem troco algumas palavras. Ela diz que já está em seu segundo caminho após ter feito o caminho Francês anos antes. Ela me dá várias dicas valiosíssimas, inclusive sobre bolhas nos pés, elevação da trilha, grampos (que ela me empresta) e alfinetes (que ela me doa) para pendurar suas meias e roupas de baixo ainda não secas em sua mochila enquanto você caminha. Sim, bater foto de um peregrino de trás no meio da peregrinação é meio engraçado, o que menos se vê é a tal concha famosa com a cruz de Santiago pendurada, ela fica escondida atrás de cuecas, calcinhas e meias. É a vida, somos varais com pernas. Também avisto um peregrino sul-coreano que me chamou a atenção com seus equipamentos ultramodernos.
Depois de tudo ajeitado, o holandês e eu saímos para comprar suprimentos para o dia seguinte. Encontramos um mercado aberto cuja atendente era uma representante da Andaluzia com cabelos compridos e negros, sorriso largo com um batom rojo (vermelho) da cor vermelha da bandeira espanhola que poderia ser avistado a quilômetros de distância. Comprei algumas barras de cereal enquanto o holandês procurava por chocolate. Achamos outro lugar aberto onde comprei frutas e água.
Voltando ao albergue, encontramos alguns peregrinos (poloneses?) que recém-chegaram e puderam entrar pois haviam reservado um quarto. Eles estavam todos molhados e nos confessaram que eles haviam cruzado o “rio” que engoliu a estrada rural. Assim como o holandês havia planejado, eles colocaram as mochilas sobre as cabeças e cruzaram o rio com a água no peito. Heróis! Porque sobreviveram para contar a história.
O sol começava a descer, os dias eram longos na primavera espanhola e era hora de pensar no jantar, a grande refeição do dia. O cuidador matuto disse que iria na praça central a 100 metros do albergue onde havia um restaurante, o holandês, a dinamarquesa e eu decidimos ir também. O cuidador decide ficar em uma mesa sozinho (ele era estranho), enquanto nós, os peregrinos, ficamos em outra do lado de fora.
Ali jogamos conversa fora falando do dia e das próximas etapas. Novamente a dinamarquesa serviu de guia adiantando como seria as refeições. Falarei mais delas em breve, mas o que eu posso adiantar é a quantidade. Muita comida. Na entrada, um prato de salada com uma cabeça de alface e tomates cortados. O prato principal foi bisteca com batatas. E, por fim, a sobremesa. Para o arremate final, um cafezinho solo (preto ou sem leite) que foi recusado pelos demais da mesa pois tiraria o sono deles. Eu aceitei porque depois do que havia passado hoje, nada tiraria meu sono.
O vento da primavera do final da tarde soprava gelado. Hora de voltar para o albergue para começar a operação sono. Subo no terraço para verificar as roupas que, apesar do vento andaluz, continuavam geladas e úmidas. Torcer para a lua dar uma mão durante a noite. Lá de cima havia uma bela vista do entorno de Guillena.
Última passada no banheiro, escovar os dentes e deitar. Ao me deitar, colocar o celular para despertar às 6 da manhã e me preparo para pôr os protetores auriculares para dormir quando vejo o holandês reclamar de alguma luz e barulho. Vejo-o levantando e indo para a cozinha desrosquear a lâmpada e mexer no aquecedor de água. Quem diria, dia seguinte você “faria” luz.
Hora de dormir com satisfação de missão cumprida. Passou a pressão do primeiro dia (passou mesmo?) e tive vários aprendizados de “sobrevivência” de peregrino. Ponho a venda nos olhos e protetor auricular nos ouvidos.
PS: Calma, apesar dos desafios desse primeiro dia, não desista de ler a continuação ou de fazer o caminho até Santiago de Compostela, caso assim deseje. Na próxima publicação irei explicar muitas coisas.
Post 3 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 1 - Parte 1
Dia 1 – PARTE 1
Data 29/04/2017
Etapa: Sevilha à Guillena, Espanha
Distância: 22,2 km
Tempo: Nublado -> sol
Volto ao diário depois de 2 dias (eu disse que escreveria em todo final de noite, mas nem sempre era possível), pois a primeira etapa foi muito difícil e durou mais tempo que o previsto como será comentado a seguir.
Acordei às 7 e pouco da manhã (normalmente peregrinos se levantam às 6 horas) porque queria passar na catedral de Sevilha perto das 9 da manhã quando já estaria aberta para pegar meu primeiro carimbo. Depois de arrumar minha mochila, comer e tomar café, era hora de dar o primeiro passo, o primeiro de muitos.
Ao chegar à porta do albergue e ver o dilúvio que caía no lado de fora, dei meia volta e papeei com a recepcionista do albergue que me perguntou sobre onde eu iria daquele jeito e tão cedo. Claro, num albergue turístico como aquele, quem acordaria àquela hora e usaria aqueles trajes “estranhos” para um turista? Botas, casaco corta-vento, chapéu legionário, bastões de caminhada e uma concha branca presa à mochila. Pode parecer óbvio, mas ela era venezuelana e não sabia que o caminho poderia partir dali.
Essa conversa de quase 30 minutos me fez evitar o temporal que caiu na região, ou talvez nem tanto (efeitos dela em breve).
Faço uma segunda tentativa de começar o caminho.
A chuva aliviou, era hora de ir. Admito que senti um receio para concretizá-lo, pois uma vez fora do hostel, não haveria mais volta. Sairia do conforto do mundo moderno. Claro que a civilização não ficaria intocável e inacessível, ela sempre estaria ao meu redor, no entanto, com uma relação mais fria do que o habitual. Afinal de contas, a caminhada não é no Alasca e que bom que não o é, que bom que é na Espanha.
Dado o primeiro passo, tudo ficaria mais fácil. O próximo seria dado na catedral de Sevilha a poucas centenas de metros do albergue para que a minha credencial de peregrino fosse selada ou simplesmente carimbada. Passo pela catedral todo equipado e em meio aos fiéis que estavam numa missa. Um segurança/assistente carimba minha credencial e me deseja “buen camino”. Saio pela puerta San Miguel, a porta do peregrino segundo o segurança, com muita vontade, uma mochila pesada e 1000 km pela frente, sim HUM mil quilômetros.
Começo a caminhada no perímetro urbano de Sevilha, indo à esquerda da porta. Sigo em direção ao primeiro rio que será cruzado pela puente (ou ponte) de Triana que me leva ao bairro com o mesmo nome. Depois dela, pego a calle (ou rua) San Jorge à direita e depois a Castilla. O interessante deste trecho é perceber como nossas cidades são poluídas visualmente. Fora das cidades, as famosas setas amarelas indicando o caminho ao peregrino quase que brilham por se destacarem em meio a natureza ou vilarejos espanhóis. Na cidade, elas se escondem, o que torna a vida do peregrino de primeira viagem, e pouco confiante, mais confusa.
Passando por aqui, continuo a ver a cidade acordando, bares e lojas abrindo, carros passando e eu destoando com minhas vestimentas e objetivos para o dia. Enquanto caminho nesta rua curva à esquerda, passo pela a sede da associação dos Amigos del Camino de Santiago de Sevilla onde eu adquiri alguns itens dias antes que valem a pena serem citados.
Além de tirarem todas as dúvidas sobre o caminho e tentarem tirar o medo (sem sucesso) que abate o inexperiente peregrino, a associação vende o guia deste caminho (algo que não consegui encontrar em livrarias e que será falado com mais detalhes no futuro) e a famosa concha do peregrino com a cruz de Santiago. Já a credencial do peregrino, uma espécie de passaporte utilizado para carimbar os pontos de passagem e comprovar que você é um peregrino (também será explicado em breve), não tem custo, no entanto, os voluntários da associação pedem uma contribuição voluntária para manter o espaço.
Sigo “curvo” na calle Castilla até a carretera (rodovia, aproveite, a aula de espanhol é grátis) Cádiz-Huelva. Antes de cruzá-la, passo pelo primeiro miliário do caminho, ou seja, marco de distância dali até Santiago de Compostela. O número era grande, 1.000 km. Bato uma foto (que acho ter perdido) e sigo para Camas, primeira cidade fora de Sevilha.
O caminho segue ao lado da rodovia por pouca distância até a puente de la Señorita, antiga ponte ferroviária, que me fará cruzar o Río Guadalquivir.
Ali acontece o primeiro encontro com outro peregrino. Ao me deparar com a sinalização de bifurcação do caminho após a ponte, entre “Río” e “Camas”, um holandês da minha idade se aproxima e se apresenta e, depois de um breve diálogo, ele decide tomar o caminho “Río” que seguia quase rente ao rio. Eu, com o calcanhar de Aquiles fatigado e uma recém-adquirida tendinite no pé direito, prefiro o caminho urbano, possivelmente menos acidentado (sem saber, a providência iria me dar uma mão por ter sido conservador). Com um “até mais tarde”, nós nos despedimos.
Passo por Camas onde faço um rápido descanso e como uma banana (uma das milhares por vir). Ali vejo o segundo peregrino, talvez o maior estereótipo deles. Um senhor idoso, com barba comprida e branca, bastão de madeira e ... um par de tênis de corrida alaranjados novos! Por essa não esperava. Talvez eu nunca mais o veja pois ele estava num passo muito lento (sem saber até então, ele era um gênio por seguir nesse ritmo).
Continuo a caminhada, passo pela cidade, transeunte ou outro olha para mim e um senhor num bar berra para mim “buen camino”. Chegando em Saltiponce, próxima cidade, eu faço a segunda parada de descanso numa praça quando de repente vejo o peregrino holandês, aquele da ponte, de bermuda e sandálias e com suas botas penduradas em sua mochila. O que houve? Logo mais seria explicado.
Volto a caminhar, minutos se passam e vejo o holandês vindo de uma rua lateral ao do caminho. Apesar de seu passo mais rápido, creio que ele se perdeu. Conversamos um pouco e, como já era perto do meio-dia, decidimos parar em algum lugar para que ele pudesse almoçar e eu tomar algo.
Foi ali, então, que ele me contou que o caminho do “Río” estava alagado a ponto de molhar toda a sua roupa até a cintura. Providência? Quem diria, a minha tendinite me tirou dessa, mas só dessa. Ele me diz que esse é o seu segundo caminho até Santiago de Compostela após ter realizado o caminho Francês anos antes. Além disso, ele não havia se perdido minutos antes, mas sim desviou seu trajeto para ver um monumento romano. Eu mesmo havia passado por um teatro romano no centro da cidade (dica de turismo: se você gosta de caminhar e história, esse é o lugar. Não seriam poucos os conjuntos arqueológicos avistados).
Depois do almoço, sinto o calcanhar latejar após 3 horas de caminhada. Decido calçar as sandálias que são mais leves e, quando vestidas com meias, evitam as bolhas (olha a dica). O problema é transferir os quilos das botas que estão no pé para a mochila.
Novamente, com seu passo mais rápido, o holandês decide se soltar de nosso grupo recém-criado após alguns minutos caminhando, o que faz todo o sentido, já que cada um deve ir em seu próprio ritmo. Dizemos “até logo” mais uma vez.
Os próximos quilômetros na avenida Extremadura seriam monótonos se não fosse pela dor no calcanhar que se anunciava a cada passo com o pé direito. O que me acompanhava era o “tec tec” das varas de caminhada batendo no asfalto dessa avenida, som que irrita após alguns minutos apesar da grande ajuda que elas fazem para poupar suas pernas. Esse trecho ainda era urbanizado, principalmente por galpões de indústrias.
Aqui acontece o primeiro momento de “desligamento” mental do presente. Dizem que é preciso de algumas semanas para entrar no estado de meditação enquanto se caminha, mas em poucas horas eu já entro no estado de “autoflageção” mental. O cérebro nunca para, somente nós mesmos. Acredite, não é preciso estar numa sala quieta, escura e de olhos fechados para meditar, o processo repetitivo e lento de uma caminhada é mais do que o suficiente.
Eram passadas das 13 horas, fazia quase 2 horas que estava com as sandálias nos pés e, enfim, após passar por baixo da Autovía A-66 (rodovia), cheguei na primeira parte de caminho de terra deste primeiro dia de caminhada (foto). Deixaria a civilização para trás e entraria no caminho de isolamento entre plantações de hortaliças (ou algo similar). Esse caminho rural era, na verdade, o caminho da companhia de água e esgoto de Sevilha. Daqui em diante, seguiria em linha praticamente reta e em terreno com poucas elevações (tópico a ser muito bem explorado nos dias seguintes).
Caminhava só até Guillena. A saída tardia de Sevilha para o selo inicial me fez perceber que eu talvez fosse o último a chegar no albergue e, por consequência, não haveria vaga para mim (sim, isso ocorre). Porém, como o mantra já oficializado por mim dizia, e eu em voz alta o repetia, “um passo por vez”. Primeiro, chegar em Guillena. Chegar?
Depois de algumas centenas de metros desse estágio rural, lembro-me de fazer algo que me foi dito enquanto estivesse na Espanha, berrar no meio da cidade. Não tive coragem até então, no entanto, os campos de hortaliças e outras plantas cujos nomes nunca saberei eram as testemunhas perfeitas. Meus pulmões não tão fortes soltaram mais do que voz presa, porém, não suficientes para assustar os veículos da carretera a 200 m à minha esquerda.
Sandálias não pareciam muito eficientes, pois parece que elas escorregam por não ficarem tão presas aos pés, sem contar as micropedras que entram entre a sandália e seu pé. Eu sempre acostumado a usar tênis fechado fora de casa, teria que me adaptar e acostumar.
Então, como que por força externa ao da natureza, o vento sopra, mas desta vez a favor. Lembro-me de inúmeras vezes quando ao andar ou pedalar, essa ajuda não vinha, ou se vinha, era vento contra. Parece que sabendo da condição deste peregrino coxo, o vento pôs-se no sentido norte, facilitando os passos deste que vos escreve. Por 15 min ou mais, um sopro divino, previsto ou inevitável, empurrou-me para o passo da vez e, depois, ao próximo...
Leves subidas e descidas desse caminho quase plano impediam uma visão ampla do que estava por vir. E por que deveria sabê-lo?
Com meias e sandálias, agradeci por conseguir saltar algumas poças, porque se há algo que me tira do sério é ter o pé molhado (ah se eu soubesse o que estaria por vir). Parei para repousar os pés, comer algo. Um ciclista, aparentemente italiano, passa e pergunta se estou bem. Respondo que sim e digo "buen camino".
Pouco tempo depois, chego a um ponto um pouco mais alto de onde avisto a primeira “pedra” no caminho. Bem, antes fosse pedra.
Vejo a caixa d'água prevista no guia, porém, também vejo um espelho d'água de algumas centenas de metros que juntara os dois lados da plantação. No meio dele, o tal ciclista empurra sua bicicleta. Desespero? Calma, ainda estava longe para definir a situação.
Vou me aproximando da “pedra” molhada. Um jipe de vidros quebrados está abandonado na margem esquerda da estrada, no lado direto, uma cerca elétrica delimitando um terreno. Também passo por um caminho de terra na esquerda logo depois do jipe. Sigo reto em direção ao espelho d'água, ou melhor, à inundação que engoliu 200 a 300 metros da estrada rural com alguns pontos de terra aparecendo como micro ilhas aqui e ali. Sim, as chuvas dos últimos dias, e provavelmente desta manhã, que caíram na região de Sevilha encheram o rio local.
Não pensei duas vezes, tiro as meias dos pés, recalço as sandálias, levanto as calças até os joelhos, guardo os documentos num lugar seguro e preparo os bastões. Eu iria cruzar o alagamento. Talvez, em outros momentos, bater-me-ia o desespero e refugaria. Não desta vez. Claro que pensei que o acaso, ou a providência, poderia me dar sua graça com um trator para salvar o dia, no entanto, ele não veio.
Cruzo a inundação com água pelo joelho. Nada muito forte, mas um tropeço custaria uma mochila 2 vezes mais pesada. Logo mais, sinto um pouco a correnteza da esquerda para a direita, bastões dão apoio e, após quase algumas centenas de metros, atravesso a primeira e mais longa parte inundada.
Caminho mais uns 50 metros em trecho de terra e avisto o ciclista italiano, ele estava parado esperando algo ou alguém em outra parte alagada do caminho. Desta vez o alagamento não possuía mais de 20 metros de extensão, mas sua profundidade era indeterminada.
O que o ciclista estava olhando ou aguardando? Quando do nada, vejo no lado esquerdo, em meio a mata ciliar, um homem vem pela margem do rio/alagamento com água quase pelo peito. Eu o reconheço, era o holandês! Pela segunda vez a água lhe pregaria uma peça e, pela terceira vez, o veria.
O holandês vinha segurando um galho de quase 2 metros de comprimento, ele me diz alguma coisa e depois parte novamente em direção ao “rio”, que na verdade era a estrada rural, para verificar quão fundo era esse alagamento. Ele entra e a água barrenta chega a bater em seu peito (estimo que o holandês possuía quase 1,80 m de altura) antes de começar a baixar quando a estrada se elevava. Quem diria, tão perto, mas tão longe.
Ele volta e decide cruzar esse “rio” reforçado pelas chuvas com sua mochila sobre a cabeça. O ciclista e eu o desencorajamos devido ao perigo de se afogar, ou no mínimo pisar em falso deixando sua mochila ser levada pela correnteza.
Por que o primeiro dia estava sendo tão duro? Em breve, aceitaria o significado de que a vida é o caminho e o caminho é a vida.
(Continua...)
#Etapa1 #Motos: Primer abandono del #Dakar2020 en carrera: Se trata del piloto veterano francés Willy Jobard, tuvo una dura caída a pocos kilómetros de largar la especial y se despide así de la carrera. https://www.instagram.com/p/B68WWpciPAM/?igshid=z3sw1ev1k0tj
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