"E você sempre quis, quis até demais, ter alguém que não te quer?"
Fresno, Evaporar.
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"E você sempre quis, quis até demais, ter alguém que não te quer?"
Fresno, Evaporar.
O rio fica lá A água é que correu, Chega na maré Ele vira mar, Como se morrer Fosse desaguar, Derramar no céu Se purificar, Ahh, deixa pra trás.
Fresno - Evaporar
a vida NÃO é uma festa
Passou cinco minutos na frente da festa, lá de fora, podia ouvir o barulho da música, das conversas e gargalhadas. Não tinha certeza se devia estar ali. Aliás achava que não, sentia-se melancólica. Sentia que sua melancolia era um plus one que ela levava para qualquer evento. Mas achou que deveria tentar.
Tentar às vezes é tudo que temos. Tentar às vezes é tudo que podemos nos segurar. Eu prometo tentar me divertir, bom, a gente se diverte ou não, não pode se forçar. Nosso cérebro não funciona assim. Mas entrou, ela e sua melancolia, pagou a comanda, e viu o salão cheio de pessoas das quais ela conhecia, colocou um sorriso na cara. O melhor que possuía. Sabia que estava bonita, roupa estilosa, sapato lustroso, maquiagem no ponto, cabelos sedosos. Comprimentou todo mundo com um sorriso no rosto, empolgada por encontrar toda sua galera.
Pegou um cerveja, como quem pega uma gota de salvação. Vai que depois dessa lata, um banho de alegria e empolgação revestisse seu corpo como uma graça dos céus?
- Ta boa né, a festa? - um cara desconhecido tentou puxar papo.
Continuou a beber a cerveja, não era postura blasé, ela não sentia vontade de conversar. Na verdade, vontade ela tinha, mas não tinha forças de abrir a boca e desenvolver palavras. Mas tinha prometido tentar, né. E as tentativas era tudo que tinha.
- Muito boa, eu sempre colo aqui. A bebida é barata e a galera é firmeza. - sorria, dê um maldito sorriso. Sorriu.
- Qual o seu nome? Te achei bonita, sem querer ser invasivo...
- Manu. - fala gritando, tentando vencer a música alta. - E o seu?
- João. - pelo menos era isso que ela achou que ele disse.
Nessa hora, a amiga dela vem, e a salva. João ou qualquer que seja seu nome, fica parado vendo-a ir embora. Se ela não está com vontade de ir na festa, muito menos estava de flertar. Esses códigos sociais dão muito trabalho, às vezes.
- Você tá bem, amiga? Tá com cara abatida, parece que nem queria estar aqui. Você sabe, que pode contar pra mim, qualquer coisa. Tamo juntas... - ela fala entre os gritos.
- Não to bem. Mas to tentando. - ela abre a boca pra falar mais alguma coisa, mas sua amiga já tornou a atenção para outra pessoa.
As pessoas não querem ouvir sobre suas crises existenciais numa festa, aliás em lugar nenhum, mas muito menos em uma festa. Elas não têm más intenções, mas você vai dizer o que: to mal. Por quê? Não sei, mas tô mal. Assim, sem motivo? Como sem motivo? Sem lá, só mal, eu queria evaporar se pudesse. Daí um climão se instalaria, porque ninguém sabe como responder a isso. As pessoas querem te ouvir, mas querem um problema sólido, porque elas querem te dar um conselho, se não puder dar um conselho e não tiver um motivo para o seu problema elas não sabem o que fazer. Ninguém recebeu esse treinamento social. Então você volta a tentar a tentar.
Dança um pouco com suas amigas, com um sorriso tão forçado que parece que foi desenhado em seu rosto, elas parecem felizes, você tá na sua quarta cerveja e a felicidade líquida não fez efeito. Você tem evitado drogas porque as drogas fazem sua plus one, maior ainda. Então tenta e dança de verdade, rebola até o chão, sabe? A coisa toda.
Agora, decide ir até o banheiro, fica sentada na privada e decide não chorar, pois borraria o delineado. Você é tão bonita, você quase sente pena de si mesma, tão bonita e porque não pode aproveitar o rolê como todo mundo? Ela prometeu tentar, mas olhou para suas mãos e sentiu como se estivesse sumindo. Como se fosse invisível a todos e tudo bem, todo mundo tem esse tipo de “bad” só que não é “bad” é mais como um estado de mente que te acompanha seja lá onde for.
A melancolia, que veio junto com ela, está esperando na saída do banheiro.
Saiu do banheiro, e vai até o fumódromo, lá da pra ser cara de quem comeu e não gostou porque isso é ser blasé e charmoso e chique. Mesmo que na verdade você queira chorar. Acendeu um cigarro, algumas pessoas estavam se atracando, outras conversavam, e no meio disso estava ela. Olhando, tão compenetrada a fumaça do cigarro que dançava no ar até dissipar-se em nada, até virar invisível e ser tão leve que não olhava para trás, mas deixava um cheiro, um sentido em volta de todos. Querida dançar como fumaça, queria ser graciosa como fumaça, querida desaparecer como fumaça. Queria marcar feito a brasa.
- Oi? Tá em que planeta? - um cara estranho se aproxima. - Eu tô muito chapado, eu tô vendo tudo em dobro. Nossa essa festa não tá insana? - ele nem dá abertura para ela falar. - Você não sente? Parece que eu vou explodir. - ele estava muito empolgado, aposto que tinha dado uns tiros. - e tem tanta gente linda, né? Parece que quando você tá cercado por tanta gente linda, você fica lindo também. Ta me entendendo? - não. - Você absorve a beleza das pessoas e se sente bem por elas estarem bem. - ele dá uma gargalhada e vai embora, tão rápido quanto chegou.
Depois daquela conversa, ela teve vontade de chorar, e resolveu sair para pegar um pouco de ar fresco. Pegar um pouco de ar fresco sempre significa eu não aguento mais isso aqui. Ela prometeu tentar, mas até agora sentia que estava fazendo um péssimo trabalho. Sentou no palelepipedo da rua e acendeu um cigarro. Três pessoas perguntaram se ela estava bem. As pessoas perguntam, mas elas não querem saber de fato. Elas não querem conversar de fato. E saber que tudo é tão superficial lhe doía tanto...
Sua melancolia estava sentada ao seu lado. A rua estava vazia, apenas alguns carros estacionados, as portas dos comércios fechadas, as casas com suas luzes apagadas. Apenas a festa bombando lá em cima. A rua vazia lhe dava paz. Não sentia pressão nenhuma em ser qualquer pessoa numa rua vazia. Só precisava estar lá, ou não também. Olhou novamente a fumaça do cigarro, dançando no ar, evaporando-se tão bela, e branca cortando a noite, cortando o céu escuro, cortando até ela mesma. Que já começava a evaporar, junto do cigarro, queimava na mesma velocidade. Primeiro os pés, evaporando, dançando no ar, pernas, cintura, braços, até a cabeça e cabelos. Evaporou as três da madrugada, deixou para trás a bolsa, o isqueiro e sua acompanhante.
Tempo a gente tem Quanto a gente dá Corre o que correr Custa o que custar
((we've got as much time as we give it whatever happens whatever it takes))
Artista: Fresno Álbum: O Rio A Cidade A Árvore Ano: 2004 Faixas/Tempo: 12/42min Estilo: Emo Data de Execução: 28/02/2024 Nota: 6,0 Melhor Música: Evaporar
Sou como água; sou sólida, sou líquida e sou vapor.
Posso passar de sólida e fria para líquida e calma em instantes.
E, de vez em quando, simplesmente tento evaporar deste mundo e me estabelecer no mundo das nuvens.
EPee