Hedy Lamarr (then Hedy Kiesler) at age 18 in a publicity portrait for the risqué Gustav Machatý Czech romantic drama Ecstasy (aka: Extase), 1933.
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Hedy Lamarr (then Hedy Kiesler) at age 18 in a publicity portrait for the risqué Gustav Machatý Czech romantic drama Ecstasy (aka: Extase), 1933.
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𝒅𝒐𝒏’𝒕 𝒇* 𝒘𝒊𝒕𝒉 𝒎𝒆
Ecstasy (Extase) (1933) Gustav Machatý
September 28th 2025
Bruxaria, Loucura e Divino na Tradição Grega e na Contemporaneidade
A prática da bruxaria moderna abraça o paganismo e o politeísmo como caminhos pelos quais acessamos nosso divino ancestral. Deuses como arquétipos e o culto às antigas divindades tornam-se formas de reencontro com nossas raízes mais profundas. O reconstrucionismo dessas práticas tem solidificado, no imaginário social, a busca por conexões com nossos ancestrais e com saberes que pareciam perdidos. Um movimento digno e necessário diante da devastação ambiental e do adoecimento mental que assola a população global.
Esse movimento não é uma negação da razão ou da ciência — que são conquistas valiosas da humanidade —, mas sim um retorno simbólico ao cuidado com o sagrado que nos habita: o corpo e a natureza. Frente à cultura do desespero e da ansiedade social, há um grito por liberdade, por respiro, por reencontro. Trata-se de uma recusa à dessacralização da existência e não ao pensamento racional em si.
O culto aos deuses antigos, hoje, pode parecer loucura aos olhos de quem enxerga apenas sob a luz racionalista do Iluminismo. Deixar-se levar pelo êxtase divino, voltar a mente para o irracional, pode parecer uma ameaça — e, de fato, é. Mas é uma ameaça ao controle absoluto da razão, não à vida. Retornar a um estado primal de comunhão com o divino que habita em nós não deveria ser estigmatizado, ainda mais quando tantas religiões propagam essa necessidade de transcendência sem, no entanto, oferecer meios pelos quais o sujeito possa acessá-la por si.
Para entender esse fenômeno, volto à Grécia Antiga, berço da civilização ocidental. E.R. Dodds, em Os Gregos e o Irracional (2002), levanta uma questão provocadora: eram os gregos realmente tão voltados à racionalidade quanto afirmam os estudiosos modernos? Ou haveria, na cultura helênica, espaço legítimo para o irracional, o êxtase e a experiência divina?
Ao responder, Dodds recorre aos textos homéricos para apresentar a até — uma paixão insana, uma espécie de cegueira súbita imposta pelos deuses. Na Ilíada, até aparece como um bloqueio temporário da razão, um impulso cego que leva à tragédia. Outro conceito correlato é o menos, uma forma de possessão divina que toma o corpo e exalta as capacidades físicas e psíquicas do indivíduo.
Essas experiências eram vistas como estados excepcionais de consciência. E, diferentemente das patologias modernas, não eram permanentes nem indicativas de distúrbio. Eram compreendidas como manifestações espirituais intensas, passageiras, dotadas de um sentido sagrado. Compará-las diretamente a quadros clínicos contemporâneos — como a esquizofrenia, por exemplo — seria anacrônico. O que está em jogo aqui não é o sintoma em si, mas o significado atribuído à experiência. Para os gregos, tais estados revelavam a presença dos deuses, não a ausência da sanidade
A até, portanto, não era acompanhada de culpa: ela apenas acontecia, como manifestação inevitável da vontade divina. Essa condição psíquica liminar, na qual o ser humano se aproxima do sagrado, se distingue das doenças mentais porque não fragmenta o sujeito — pelo contrário, o reintegra a uma dimensão mais ampla da existência.
Essas manifestações não se limitavam aos campos de batalha. A loucura divina era também parte dos rituais, das festas, das profecias e das práticas sagradas. A vida humana era entendida como regida pela vontade dos deuses, o que eximia os indivíduos de responsabilidade moral diante de certos atos. Essa crença ecoa nas tradições religiosas posteriores — inclusive no cristianismo —, nas quais o julgamento e a justiça são projetados como prerrogativas do divino. Nas palavras de Dodds:
“O homem passa a projetar no cosmo sua própria e nascente demanda por justiça social, e quando de universos distantes retorna o magnífico eco de sua voz, com a punição prometida dos culpados, nesse momento ele se enche de coragem e segurança.” (DODDS, 2002)
Platão, por sua vez, reconhecia o valor espiritual da loucura. Em Fedro, ele define quatro formas de loucura divina: a profética (por Apolo), a ritual (por Dioniso), a poética (pelas Musas) e a erótica (por Afrodite e Eros). Segundo o filósofo, as maiores bênçãos chegam por meio da mania, um êxtase não patológico, mas ofertado pelos deuses com propósitos específicos.
Dodds retoma esse pensamento para refletir sobre os cultos apolíneos e dionisíacos como manifestações complementares. Apolo representa a luz, a ordem, o conhecimento oculto. Dioniso, o êxtase, a irracionalidade, o mergulho no inconsciente. Como discutiu Nietzsche em O nascimento da tragédia, essas duas forças estruturam o espírito grego: razão e delírio dançam juntas. Ambas as experiências visavam curar, libertar e reconectar o indivíduo à sua essência.
A necessidade de mediação com o sagrado por uma autoridade transcendente já existia antes do cristianismo. O declínio dos oráculos não representou o fim da fé, mas o surgimento de novas formas de religiosidade. Tanto Apolo quanto Dioniso ofereciam ao povo grego um alívio da culpa, uma reconstrução simbólica do sujeito. A experiência dionisíaca, em especial, era profundamente libertadora: ela promovia catarse, rompimento, descontrole — e, por fim, cura.
Dioniso, em todas as suas representações, foi um deus do povo. Acolhia a todos, indistintamente. Seus cultos celebravam os prazeres simples, o vinho, a dança, os excessos. O êxtase podia ser leve — um desprendimento sutil do eu — ou profundo — uma transformação radical da personalidade. Em qualquer caso, visava à cura. E seu meio era o corpo. A entrega. O delírio.
Hoje, na modernidade, pouco se fala da loucura divina como chave de acesso ao sagrado. Podemos ver algo similar nas religiões de matriz africana, onde a incorporação dos orixás ainda preserva esse contato com o transe, com a divindade viva no corpo. No entanto, ao olharmos para a bruxaria contemporânea como herdeira dos antigos cultos, notamos que o êxtase ritualístico foi, em grande parte, marginalizado. Como acessar a dimensão visceral do divino se não nos permitimos perder o controle? Se não nos deixamos tocar por aquilo que nos excede?
Embora a bruxaria contemporânea tenha nascido, em parte, como um resgate das práticas ancestrais ligadas ao sagrado feminino, à terra e aos ciclos naturais, observa-se que uma parcela significativa de suas manifestações atuais passou por um processo de racionalização e higienização, fortemente influenciado pelas tradições ocultistas europeias dos séculos XIX e XX. Nesse percurso, muito do êxtase ritualístico, da incorporação do corpo como lugar do divino e da transcendência simbólica foi atenuado ou deslocado em favor de sistemas simbólicos codificados, teosofismos e espiritualidades intelectualizadas. Isso, no entanto, não define toda a bruxaria moderna: práticas como a bruxaria tradicional, o culto à Deusa, o paganismo ecoespiritualista e as linhas reconstrucionistas mostram que ainda há caminhos vivos e viscerais que preservam o corpo como canal do sagrado e o transe como forma legítima de acessar o divino. O que se coloca em questão, portanto, não é a validade das práticas, mas o risco de se afastar do aspecto encarnado da espiritualidade, que sempre foi central às antigas religiões e à experiência da loucura divina.
Vejo, com preocupação, a racionalização excessiva das práticas mágicas. A bruxaria, que um dia foi rebeldia da terra, parece cada vez mais absorvida por um discurso ocultista europeu que afoga a sabedoria das velhas tradições. Ao afastar-se da experiência corporal, do transe, do delírio, perde-se aquilo que era a própria essência do sagrado: o vínculo entre corpo e cosmos, carne e espírito, razão e loucura.
Un homme qui rayonne – feutres pointe fine, carnet n° 56, 2000