Entendo que falar sobre trabalho com as sombras é, acima de tudo, um ponto individual e íntimo. Cada caminho é diferente e estabelecer comparações não seria honesto com ninguém. Entretanto, é válido salientar que o trabalho com as sombras é um conceito psicoterapêutico de C. G. Jung (psiquiatra e psicoterapeuta suíço), e não só pode como deve ser trabalhado em análise com um profissional. Ter o acompanhamento de um psicólogo/analista/psicanalista ajudará no seu discernimento e autoconhecimento. A ajuda dentro de um atendimento profissional proporcionará a você mais esclarecimento e norte ao conduzir suas sombras.
Dito isto, dentro da bruxaria trabalhar as sombras é também parte constante e importante para o crescimento e saúde da bruxa. Além do auxílio profissional, o cuidado espiritual acerca de nossas sombras é um meio pelo qual podemos encarar nossos medos, traumas, faltas e erros.
Falando aqui a partir da minha experiência como bruxa há seis anos, e agora, analisanda em psicanálise, tentarei mostrar como ambos os caminhos podem ajudar no Shadow Work.
Gostaria, antes de tudo, de dizer que o trabalho com as sombras é constante e contínuo. Não é feito da noite para o dia; é realmente desagradável, porém extremamente necessário.
Minha experiência trabalhando com minhas sombras
Quando descobri meu par de Deuses guias, meus pais na bruxaria, iniciou-se um período confuso e intenso para mim, com relação a intuição, mediunidade e contato com seres de outros planos. Como todo mundo no início do trabalho espiritual. Hécate e Dioniso eram os deuses que se apresentaram para mim em sonho como meus pais. Mas, por algum motivo não aparente, eu foquei no trabalho com Hécate. Talvez fosse minha extrema necessidade de ter uma influência feminina, de trabalhar o conceito de mãe em minha vida, não sei!, sei apenas que não senti nenhuma afinidade com Dioniso no começo. Isso me fez deixar de querer contato com deuses, sagrado masculino e qualquer coisa similar.
Tenho um histórico nada agradável de abuso sexual, assédio sexual e moral, violência doméstica e afins com relação à figura paterna, e masculina em si. Eu fui uma menina sexualizada desde de que me conheço por gente, recebendo constantemente pedidos de casamentos e flertes vindo de amigos próximos ao meu pai, sendo assediada por vizinhos, colegas, parentes e professores. Cresci num lar violento e vi minha mãe sofrer abuso doméstico por toda sua vida. A figura masculina não era para mim a mais agradável de se lidar, ou ter por perto. Talvez esta seja a grande razão pela qual não quis me envolver com Dioniso.
Cultuar Hécate é por si só um trabalho constante das sombras. É preciso se despir do ego quando se alinha a uma Deusa tão crua, em sentidos de máscaras, tão intensa e reveladora. Foram seis anos tentando entender e trabalhar de acordo com seus ensinamentos, muitas vezes duros demais aos olhos assustados de uma garota insegura.
Inclusive, este projeto (blog) é um pedido dela.
Dioniso nunca se apresentou para mim até este ano. Nunca estabeleceu contato, nunca apareceu em sonhos, eu também não pesquisava ou não me interessava pelo estudo do Deus. Até iniciar (de forma efetiva) minha análise.
No início da pandemia, lá pelo mês de maio de 2020, resolvi que precisava de atendimento psicológico. Optei por uma psicanalista, por inúmeros motivos, dentre os quais a questão da fala livre e o envolvimento da ciência com as palavras. Eu curso letras, e isso é bastante significativo para mim.
O primeiro ano na experiência de ser analisada foi complexo, por muitas vezes me encontrei em contradição, ou com medo de estar encenando para ser alguém frente à minha analista que normalmente eu não sou. Mas mesmo assim, estava empolgada por estar em análise. Depois desse primeiro ano, as sessões começaram a fluir de forma diferente. Tenho me pegado com medo, ou receio, de entrar em análise, e acho que aqui eu atinjo um ponto crucial do trabalho com as sombras: o medo.
Diferente do medo trabalhado com Hécate (medo inconsciente de escuro, espíritos, de construções sociais e religiosas com relação à bruxaria), o trabalho com Dioniso está me levando por caminhos muito densos e intocáveis para mim: o trauma.
Quando me dei conta de que talvez não seria mais viável escapar de falar sobre meus traumas, todos eles relativos à figura masculina e paterna, entrei em um ciclo de autosabotagem. Por um tempo, deixei de priorizar a análise ou até mesmo desqualificar a eficiência dela em minha vida, não por duvidar da profissional ou do ramo, mas por não entender como funcionava na prática. Acho que nunca entenderei por completo, mas depois de algumas reflexões cheguei à conclusão de que: apenas faça!. A questão é não pensar muito em como isso ou aquilo vai ter efetividade na minha vida, em vez disso apenas vivenciar e deixar agir. Esta percepção ajudou a quebrar um pouco do tabu que, inconscientemente, eu tinha em relação à análise.
No dia 9 do mês de março do presente ano de 2021 eu anotei pela primeira vez em meu caderno o interesse por Dioniso que cresceu em mim do nada. Não me lembro como e porque despertou-me esse súbito desejo de me aproximar dele. Vi alguns vídeos e li alguns conteúdos sobre seus mitos. Aos poucos o Deus foi tornando outros contornos em minha mente, quebrando também alguns tabus que se estabeleceram através do senso comum dentro de mim. Esqueçam Percy Jackson aqui.
Quando dei por mim, já havia comprado o livro Dioniso no Exílio: sobre a repressão da emoção e do corpo, de Rafael López -Pedraza, analista Junguiano. É um livro pequeno, mas bastante útil, principalmente quando falamos de desmistificação da imagem de Dioniso.
Existem dois mitos mais conhecidos sobre a criação do Deus. No primeiro ele é filho de Zeus e Perséfone, deusa do submundo; no segundo, filho de Zeus e a mortal Sêmele. Ambos os mitos trazem dois aspectos comuns: a morte de Dioniso, ainda criança, pelas mãos dos Titãs, a mando da Deusa Hera; e seu renascimento a partir da coxa (muitas vezes virilha) de Zeus.
Entre os atributos de Dioniso, os mais famosos são a embriaguez pelo vinho, a loucura, o transe, a possessão ritualística. Falando a grosso modo, é o Deus dos vinhos, orgias e loucura. Um pouco além do que se sabem comumente sobre Ele, podemos dizer que Dioniso é também o Deus das emoções, das Tragédias, do Teatro, e das mulheres.
Dioniso era o Deus “masculino” mais próximo às mulheres, e aos humanos em geral também. Possui uma forte conexão com os ciclos de vida-morte-vida tão atrelados ao arquétipo da mulher selvagem[1]. Alguns escritos trazem a figura do Deus como andrógena, ou hemafrodita, descrito como um rapaz de beleza feminina[2]. O livro de Rafael López-Pedraza trouxe um ponto sobre o estudo do Deus que, em particular, me fez entender seu papel junto a mim no trabalho com as sombras. Dioniso rege também os traumas, em especial os traumas de infância.
Após nascer, fruto de mais uma das “infidelidades” de Zeus, Zagreu[3] (Dioniso) foi perseguido por Hera. A Deusa enviou os Titãs para destruir o menino fruto do amor de Zeus com Perséfone (ou Sêmele, dependendo da versão). Ainda criança, Dioniso foi esquartejado e devorado. Zeus conseguiu salvar seu coração. Em um dos mitos, Zeus dá o coração de Zagreu para que Sêmele ingira antes de engravidá-la, fazendo assim que seu filho fosse gerado em seu útero[4].
Todo o meu trabalho das sombras gira em torno dos traumas que sofri na infância, estes que deixaram marcas muito profundas em minha vida adulta, e continuam me travando e impedindo de progredir como indivíduo.
Após a leitura na integra do livro, tive um sonho bastante significativo.
Vou postar aqui um texto lúdico que fiz sobre meu sonho para relatá-lo.
A casa era modesta e arborizada, tinha inúmeras espécies de frutas e flores penduradas em árvores mais antigas que a própria humanidade, e eu as contemplava. Nesta casa havia um quarto, um quarto fora, bem na varanda. Estranho, não é? Quem planeja uma casa com um quarto na varanda?
Neste quarto havia alguém, não sei quem. Também não pudera, a única coisa que eu podia enxergar era sua mão. Uma mão humana qualquer, mas apenas uma mão, que me chamava constantemente. Eu morria de medo, corria e me escondia como uma garotinha assustada.
Certa noite, uma criança entrou no quarto e passou a alvorada lá, sem gritar, sem chorar, apenas entrou e de lá saiu.
“O que tem no quarto?” perguntei à menina, que muito se parecia comigo quando menor. Ela disse: “um rapaz. Ele quer falar com você”.
“Um rapaz?” questionei. “E como ele é?”
Fui perguntando sua aparência até extrair do discurso simplório, porém sincero, da menina que o homem a me chamava não se parecia com demônio algum, sendo assim, por que temê-lo?
Na noite seguinte, levantei um tanto acesa, instigada. A camisola babydoll não cobria tudo que devia cobrir, deixando-me arrepiada como gata ao vento gelado. Na mão, uma caixa de leite, no olhar a curiosidade. Entrei quarto à dentro.
O labirinto de escadas sem começo e nem fim me confundiu, mas no fim do corredor havia esse rapaz, ainda muito coberto pela escuridão. Dois passos à frente revelaram um ser peculiar. Não se parecia com um humano, muito menos com a descrição da criança, mas era amigável. Seus, talvez, dois metros de altura, o pé desproporcionalmente grande e peludo, o peito revestido por tatuagens tribais sem formato particular, e chifres enrolados não me assustaram. Em fato, o achei extremamente atraente. O rapaz/criatura me chamou:
“Eu estava esperando por você”.
Estava atraída, queria ele para mim. Por isso o segui, e caminhei pelas escadas sem rumo ao seu lado. Na última escada, uma porta, dentro da porta, um jardim.
“Mas quem realmente deseja falar com você está aqui”.
Um novo mundo se abriu, e o sol brilhou no meio da madrugada.
Entre beija-flores e jasmins, um senhor, de aparência semelhante ao que homem que me conduzia, porém menor e mais simpático, esperava com as mãos para trás.
“Estávamos te esperando, querida! Precisávamos que você viesse por livre e espontânea vontade, de bom coração e sem medo” sorriu. “Eu sou um ancestral, e a partir de agora eu te conduzirei pelos mistérios”.
Parada frente aos dois, minhas roupas haviam mudado. Uma túnica preta de veludo me cobria e nada mais. Meu corpo era maior, mais carnudo, mais pálido. Os homens conduziam um ritual, e eu estava sendo iniciada.
Eles proferiam palavras estranhas de olhos fechados. Seus corpos nus tinham o mesmo tom terroso e musgoso da paisagem. Seus pênis estavam cada vez mais eretos, mas não havia sexualização em seus atos. Eles lidavam com a reação natural de seus corpos com indiferença. Era só mais um dos efeitos da natureza, e isso não os impedia de me respeitar.
Ali estavam eles, corpos desnudos, pênis eretos, voz firme e olhar terno. Ao terminar o rito, fui conduzida à praia, no limiar entre o jardim e a próxima dimensão.
No mar, terminamos o processo entre seres de vários gêneros e ao mesmo tempo nenhum sexo. Baleias e orcas nadavam conosco, e podia-se ver flores amarelas boiando entre nossos corpos por toda extensão do mar.
Naquele momento e entendi que estava sendo curada e amada.
O cerne da experiência se dá na frase que um do seres proferiu: “eu te esperei todo esse tempo, mas queria que você viesse por livre e espontânea vontade”. Junto a este senhor havia um rapaz muito alto, de fisionomia similar a dele. Digo rapaz pelo pênis aparente, mas se observasse seriamente seu rosto, não poderia dizer se era um homem ou uma mulher. Quando acordei tive certeza do sinal. Nós sabemos quando um sonho é um sinal e quando é algo banal, e este em si era algo importante.
Observando os elementos do sonho entendi três pontos que meu trabalho das sombras tinha que abranger: o meu medo (de homens), meus traumas de infância (a criança) e minha relação com o masculino (a nudez).
Voltando ao trabalho com as sombras, toda essa volta que eu fiz para tentar explicar a presença dos nossos guias nesse processo foi para dizer que trabalhar com nosso lado obscuro não é fácil, e apesar de tê-lo notado apenas recentemente, eu acredito que ele não se limita apenas ao despertar da consciência ou dentro de análise. Acredito que desde criança passamos por este processo, e de duas uma: ou o encaramos, ou o escondemos. Se o escondemos, com certeza voltará periodicamente em nosso caminho até dermos atenção a ele.
Nesses anos de trilhar mágico, entendi e aprendi que, como disse Jung, “Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas se conscientizando da escuridão”. Entretanto, por mais claro que isso pareça estar em minha mente, ainda caio em ciclos viciosos de erros e miséria. O Shadow Work é construído através desses tombos, porque uma hora cansamos de cair, ou como uma epifania, acordamos em meio ao caos e nos perguntamos: por que eu ainda estou aqui? Por que eu ainda faço isso?
Lembro-me de um episódio de Os Jovens Titãs, no qual a personagem Ravena e seus companheiros estavam assistindo um filme de terror. Os demais heróis queriam que Ravena admitisse que tinha medo do filme, mas ela não deu o braço a torcer, negando até o último seu medo. Faltou luz e a casa começou a dar indícios de estar sendo assombrada. Quanto mais Ravena negava seu medo, mais a assombração se fortalecia. No final, sobrou apenas ela dentro da casa (os outros haviam sido capturados pela criatura). Encurralada pela assombração, ao contemplar o desespero, Ravena se questiona: Eu tenho medo?, e ao admitir que teme a assombração, mas isso não quer dizer que não possa lutar contra ela, a criatura desaparece. É uma analogia muito legal que eu trago sempre comigo, desde pequena.
Às vezes percebemos essas nuances, outras não. É este o primeiro passo para o trabalho com as sombras: se questionar diariamente e constantemente sobre o porquê. Quanto mais nos perguntamos, mais caçamos em nosso inconsciente a resposta; mais máscaras vamos tirando, mais fundo nas sombras nos enfiamos. E é só lá que encontramos nossa resposta. Ter guias para te ajudar a não se perder por lá é o segundo passo para trabalhar este aspecto, Ninguém disse que precisamos passar por isso sozinhos. Dioniso veio para me mostrar isso.
Gostaria de deixar como dica, recomendação, ou citação apenas dois vídeos que me ajudaram a produzir este texto. Um é da cantora Kerli, sobre seu novo projeto espiritual e sua relação com o Shadow Work. Está em inglês, não tenho certeza se tem legendas, mas para quem consegue entender recomendo ver:
E também o material do podcast Caverna de Hekate:
Deixo também um trecho do episódio referido acima, para ilustrar melhor meu exemplo:
Obrigada por ler até aqui, sintam-se livres para compartilhar suas experiências, deixar críticas e sugestões.
[1]Conceito bastante discutido em Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa P. Estés.
[2]Ver As Bacantes de Eurípedes.
[3]Primeiro nome de Dioniso
[4] Recomendo ler na integra o mito, não é meu objetivo aqui apresentá-lo no corpo do texto.