- Vem! – Disse eu, estendendo a mão para Benjamin. Ele segurou a minha mão e então comecei a sentir o meu corpo pender para o outro lado do muro.
- Não, não, não, não! – Dizia eu repetidas vezes de forma desenfreada até que o meu corpo batesse com toda força no chão.
- Nossa, achei que ia doer mais. – Disse eu olhando para o lado e percebendo que meus ossos estavam inteiros.
- É porque você caiu em cima de mim. – Disse Benjamin com uma voz de dor. Me levantei rápido e limpei a grama que estava na minha calça.
- Vamos, seu pastel! – Disse eu, enquanto pegava sua mão e o puxava pra cima.
- Ah, eu estou bem, Mariana! Obrigado por perguntar!
- Vem, vamos tentar de novo! – Disse eu.
- Mari, desiste! A gente vai cair de novo. – Disse Benjamin. - E mesmo que a gente consiga passar, quem garante que o guarda não vai pegar a gente e que amanhã a gente não vai estar na sala da Dona Rosilda? Você já tirou uma nota vermelha na última prova de Matemática e eu já estou com um pé dentro da recuperação em física. Não sei se irritar a minha mãe e a tia Renata é uma boa ideia.
- Deixa de ser frouxo, Benjamin. Quando eu ganhar o meu primeiro Grammy, a minha mãe vai é chorar de orgulho e a Dona Rosilda vai ficar se exibindo por aí dizendo que eu fui aluna na escola dela. – Disse ela, examinando o muro. - Vamos! O teatro da escola vai ser o lugar perfeito pra gravar o vídeo pra minha música nova.
- A gente podia gravar também no quintal de casa... – Sussurrou Benjamin, porém não tão baixo para que eu não conseguisse ouvir.
- Vamos, Ben... Eu preciso de você! – Então naquele momento, sua feição mudou e ele se deu por vencido.
- Vamos tentar eu subindo primeiro, depois eu te puxo...
Naquela noite, depois de conseguirmos gravar os vídeos que queríamos, estávamos voltando para o muro no qual pulamos, quando um guarda nos viu. Saímos em disparada e por um momento, eu me esqueci que eu era uma pessoa totalmente sedentária. Na verdade, eu acho que nunca corri tão rápido na minha vida.
O guarda tentou nos alcançar enquanto gritava para que parássemos, porém, por pura sorte, conseguimos escalar o muro antes que o segurança pudesse nos alcançar e continuamos correndo sem olhar pra trás.
Assim que já estávamos longe da vista de qualquer autoridade, caímos na gargalhada. Rimos tanto que eu quase engasguei com a minha própria saliva.
- O que eu não faço por você, Mariana. – Disse Benjamin, e quando me dei conta, os seus olhos azuis estavam cativando os meus.
Me mantive em silêncio por um tempo, sem reação, estudando-os até que saímos do transe e Benjamin soltou:
- Prepare-se pra amanhã ir pra sala da diretora, e ficar de castigo por um mês.
- Ah, eu já estou de castigo pela nota de matemática... O que é um chuvisco pra quem já está molhado, meu caro Benjamin?
Na manhã seguinte, a profecia de Benjamin se cumpriu e lá estávamos nós na sala da Dona Rosilda. Nem tivemos como nos defender, as câmeras mostravam tudo. Fiquei um mês de castigo.
Meus pensamentos então voltaram para o chão. Lá estava eu, maquiada e produzida para dar mais uma entrevista na televisão. A agenda estava cheia, como sempre. Depois de lá, eu iria direto para o aeroporto para pegar um voo de oito horas até Nova Iorque, onde eu iria fazer um ensaio fotográfico para a campanha publicitária de um perfume.
- Está na hora, Mariana. – Disse um dos funcionários da produção. Agradeci e me encaminhei para o estúdio. Ao entrar, os aplausos da plateia ecoaram pelo recinto acompanhando a minha caminhada até o sofá de couro preto onde sentavam os entrevistados.
- Então, Mariana, todo mundo está falando de você ser a pessoa mais jovem a receber um Grammy de Álbum do Ano, e eu aposto que todos estão te perguntando sobre como você está se sentindo. Por isso, vou te perguntar algo novo. Qual é a sua sobremesa favorita? – Disse o entrevistador assim que as palmas cessaram.
- Espetinhos de morango cobertos com chocolate. Aqueles que vendem nas barraquinhas de festa junina, sabe?
- Pra mim, Einstein não era um gênio. Gênio foi quem olhou para um morango e pensou “Hm, e se a gente pegar isso, mergulhar no chocolate e colocar em um espeto?” – Disse Mariana.
- A pessoa desenvolveu a teoria que embasa todo um campo da física, e ela não é um gênio? – Perguntei.
- Não, porque ninguém nunca ficou de castigo por não saber fazer espetinho de morango coberto com chocolate. Agora por não saber física, eu mesma sou uma vítima. Logo, pra mim isso não é um gênio. É um destruidor de vidas.
- Se você diz... – Disse eu, rindo.
Mari estava com a boca toda lambuzada de chocolate, comendo os últimos morangos do espeto e observando as pessoas que passavam. Então, saquei o meu celular do bolso e tirei uma foto daquele momento.
- Eu vou comprar mais um. – Disse ela se levantando.
- Mas vai ser o seu quarto! Você vai ficar com dor de barriga.
- E você acha que eu passo as minhas tardes naquela loja aturando cliente chato pra que? Pra me mimar e me empanturrar de doce no final de semana, meu caro. – Disse ela em um tom como se estivesse se gabando.
Meus pensamentos então foram puxados de volta para o planeta terra pela voz do meu pai me chamando:
- Acorda, Benjamin. Tem um monte de cliente esperando pra ser atendido.
Fechei então a tela do celular e corri para o balcão. Olhei além do cliente que estava me perguntando qual era o sanduíche da promoção do dia, e Mari estava na televisão:
- Então, Mariana, todo mundo está falando de você ser a pessoa mais jovem a receber um Grammy de Álbum do Ano, e eu aposto que todos estão te perguntando sobre como você está se sentindo. Por isso, vou te perguntar algo novo. Qual é a sua sobremesa favorita? – Disse o entrevistador.
- Espetinhos de morango cobertos com chocolate. – Sussurrei comigo mesmo.
- Espetinhos de morango cobertos com chocolate. Aqueles que vendem nas barraquinhas de festa junina, sabe? – Respondeu ela.
Ela estava deslumbrante e confiante. Tinha as respostas preparadas para qualquer pergunta. A mesma Mariana determinada que eu conheci. E lá estava ela, ganhando o mundo, o mundo que ela sempre mereceu. E por trás daquele vestido e da maquiagem, eu conseguia enxergar o mesmo brilho nos olhos da Mariana de moletom e boca suja de chocolate que eu conhecia.
A última vez que a vi foi no último Natal, quando ela veio comprar um sanduíche e um milkshake. Conversamos um pouco, mas logo ela teve que voltar para ajudar a sua mãe com a ceia. Desde que ela se mudou para São Paulo, eu passei a vê-la com cada vez menos frequência. Porém, eu ficava feliz em vê-la voar. E se um dia ela precisar de alguém, eu estarei sempre aqui.