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(via https://www.youtube.com/watch?v=V025IZEm3Aw)
Pra quem não conhece: Versailles, "Forbidden Gate"
ATAD 8 - Forbidden Gate
Releitura inspirada na música Forbidden Gate, do Versailles ~Phillarmonic Quintet ~
O Soberano do Alto Trono o fez impecável. De um sopro em suas narinas, fez surgirem suas asas alvas e arrancou dele um grito de liberdade. Ele foi o primeiro e o mais perfeito. Assistiu silenciosamente e solícito ao nascimento de todos os outros, que o reverenciavam com respeito fraternal. Quando se reuniam na Sala do Trono para cantar as realizações daqueles dias, todos se mantinham calados até que ele chegasse, humilde e maravilhoso, e se prostrasse diante de seu Mestre. E ele repetia sempre o mesmo gesto de virar-se para aquela multidão de anjos iguais a ele, cada qual com uma centelha única, parte do Todo e ligado a Ele. Feições únicas e maravilhosas que alegravam profundamente o seu coração cantavam em uníssono músicas tão belas que as outras criaturas não suportariam ouvir. Um dia, brincando com seus irmãos pelos Campos de Prata, decidiu caminhar um pouco mais além das estradas conhecidas. Para sua surpresa, encontrou algo que chamou sua atenção por destoar da beleza daquelas planícies. Estava enferrujado e sujo, seguro por uma tábua podre e cheia de insetos. Amedrontado, achou por bem voltar e contar ao seu Soberano o que havia encontrado. “Minha mais amada Estrela, aquele portão é proibido para aqueles como nós. Não há nada além dele, apenas ruína.” Apesar das palavras daquele que lhe deu a centelha, ele sentia algo desconhecido e perigoso crescer em seu peito. Como um chamado silencioso, aquela sensação substituía aos poucos a paz inerente aos filhos dos Campos de Prata por uma inquietação jamais vista. Seus irmãos percebiam aos poucos e isso os deixava assustados. Então o Arauto veio ter com ele. “Amanhecer, muito nos preocupa seu estado. Sua centelha está como fogo ao vento, prestes a deixar saírem faíscas para os arredores.” “Arauto, assuntos que não me são permitidos o conhecimento alimentam-se do meu fogo. Desejo deixá-los germinar, mas o Alto Rei não permite” Ele abraçou-o, afagou os cabelos dourados como o néctar que os alimentava e olhou-o nos olhos, escuros como o infinito. “Irmão... muito o amo para ignorar suas aflições. Vamos ter com o Soberano, ele nos receberá de bom grado e saberá o melhor para essa semente.” Amanhecer fitou os olhos de um azul claro como as tardes nos Campos de Prata, tocou-lhe os cabelos castanhos e assentiu, sentindo um enorme pesar. Encontraram o Rei sentado nos limites dos Campos de Prata. O rosto fechado, olhos perdidos no horizonte. “Meu Soberano...” “Amanhecer, eu sei porque veio. Por que trouxeste o Arauto?” Vendo o constrangimento do irmão, adiantou-se. “Senhor, eu vim por espontânea vontade. Amo Amanhecer e desejo apaziguar suas aflições” O Antigo refletiu e disse: “Pois bem. O que verão agora vai mudar suas centelhas para sempre. É este o seu pedido final, Amanhecer?” Os olhos de infinito fitaram o azul do céu. Buscou as mãos do irmão, segurou-as e disse: “Sim.” Os portões enferrujados foram abertos. Os dois anjos viram-se sozinhos em meio a uma mata, cheia de sons que eles desconheciam. Toda sorte de criatura podia ser encontrada naquele ambiente: aquáticas, aladas, terrestres, com a pele lisa ou macia, das mais diversas cores e formas. Fascinados, continuaram andando até uma clareira onde havia um pequeno fogo aceso. Acharam que seus olhos os estavam enganando quando viram, deitado, um ser semelhante a eles. “Mas, o que é isso? Um dos nossos?” Qual não foi a surpresa quando um ser, diferente daquele, mas semelhante de certa forma, apareceu dentre as folhagens e juntou-se à outra criatura. Aquela, diferente da primeira, tão semelhante a eles, tinha curvas acentuadas em seu corpo e volumes diferentes, tão magníficos e perfeitamente esculpidos que deixou os anjos maravilhados. Aquilo se aproximou do outro, cheirou-lhe a pele. Em um suspiro estremecido, acariciou as próprias pernas e acariciou os braços, aquecendo-se. Aquele gesto fez com que a centelha de Amanhecer se inflamasse de uma forma que ele só havia sentido no auge dos cânticos com os irmãos. Levou então a mão ao peito, caiu de joelhos ao chão e toda aquela cena foi substituida pelo portão nos Campos de Prata. “O que era aquilo, Artífice?!” - indagou o Arauto. “Outras criações minhas.” “Mas... Rei, nós somos perfeitos! O que mais o senhor desejaria?!” “Arauto... mesmo depois de ver tudo você ainda se engana?” Aquelas palavras o deixaram perplexo e assustado, pois ele sabia que eram verdadeiras. “Eu, que Vejo Todas as Coisas, coloquei em vocês uma centelha de infinitas possibilidades. As mesmas que usei nas criaturas que vocês puderam ver. A primeira, tão parecida com vocês, é o Primogênito.” Estrela ergueu-se. “O Primeiro... o Anterior a Todos fui eu, Soberano!” “Você, Amanhecer, foi o rascunho da minha obra. O Primogênito é imperfeito como vocês, mas a ele foi dado o dom de decidir o destino de sua espécie. Será que ele continuará naquele Jardim, tão maravilhoso e encantado, e continuará o ser mais puro de toda a existência? É o que quero descobrir. É este o seu propósito, entreter-me com suas decisões, com a maneira que guiará o seu destino e o de outros que podem vir.” Cheio de sentimentos indistintos, a Estrela continuou: “E o que é a outra criatura? Por que a fez tão diferente de nós?” “Ela... é á criadora de tudo.” “Como... como é possível?!” - gritou o Arauto “O barro foi só uma crosta para abrigar a poderosa centelha que há nela. Com ela, o poder de criar outros e fazer com que cresçam e se multipliquem, a força de mudar mentes e destinos. Uma invenção tão fantástica quanto o Primogênito. Eu a chamo Centelha.” Com um grunhido de dor, Amanhecer caiu ajoelhado ao chão. “Amanhecer!” “NÃO! Arauto... não chegue... perto” “Agora, Estrela.” - disse o Rei - “Eu disse que isso mudaria suas centelhas para sempre. Vão consumí-los, porque os sentimentos do mundo foram despertados em seus peitos. Eu poderia matar a você e ao Arauto, que acabaria em desgraça na frente de seus irmãos: o rebelado e seu cúmplice. Ou posso exilá-lo em terras jamais vistas, onde o sol nunca brilhará e você será inimigo dos seus. Será conhecido como traidor e poderá apreciar para sempre as minhas criações de perto e invejá-las... Então, qual é o seu desejo, criança?” Amanhecer olhou para o Arauto. Sua centelha emanava dor e medo, sentimentos que agora ele podia nomear. Deixou seu íntimo falar ao do irmão, dizendo que jamais esqueceria o que foi feito por ele. “Sou eu quem o desafia. E eu digo, Rei: jamais invejarei tuas criações, pois tu me fizeste e me deste um dom. Há apenas um de quem eu sentirei falta.” Daqueles olhos de céu, escorreram lágrimas que nunca haviam estado lá. Mesmo sofrendo, Estrela tocou o rosto do Arauto, deixando marcas de queimadura onde tocava. Assustado, tentou recuar, mas o outro entrelaçou-lhes os dedos e olhou-o nos olhos. “Perdoa-me.” - disse Amanhecer” - Amar-te-ei para sempre.” “Eu também.” Beijou-lhe os lábios entreabartos com um ardor antes desconhecido. Conseguiu somente empurrar o Arauto, que abafou um grito de horror ao ver o irmão queimar por completo, impiedosamente. O fogo diminuiu e extinguiu-se enfim, sobrando somente um bloco negro onde uma vez esteve o mais perfeito e belo dentre eles. Do meio das cinzas e do carvão, com um urro tão belo quanto o primeiro, saíram asas escuras como a noite, o mesmo corpo alvo e madeixas vermelhas como o sangue. Os olhos verdes como as folhagens do Jardim reluziam um rancor que fizeram estremecer até o próprio Arquiteto. Perplexo, vendo aquele corpo imponente aproximar-se, o Arauto deixou-se cair ao chão. Aquele, que uma vez foi conhecido como Estrela da Manhã, ajoelhou-se em sua frente, passou os dedos entre os cabelos curtos e sussurrou em seus lábios: “Deixo uma faísca contigo.” Dizendo isso, beijou-o ardorosamente. Lançou-lhe o último olhar, triste e apaixonado, e jogou-se das nuvens nos Jardins Proibidos. Desceu no meio das folhagens e encontrou a Centelha próxima ao fogo. Ela assustou-se, mas não reagiu. Parecia ler o que os olhos do estranho queriam dizer. Ele pegou-a pelo pulso e sem encontrar resistência, possuiu-a ali mesmo, em meio a todos os sons, criaturas e sensações que lhe seriam familiares dali em diante. Ao fim, ele disse: “Dá vida à minha prole. Vem ser minha pela eternidade.” “Serei o que quiseres que eu seja. Leva-me contigo.” “Eu sou a Alvorada. Seja então minha Dama da Noite.” Então, segurou-a nos braços, estendeu as enormes asas negras e sumiu na noite. O Arauto assistiu a tudo, impassível. O Rei então, dirigiu-se a ele: “Então, criança... está impressionado pelas possibilidades que podem haver dentro de uma pequena centelha? Está maravilhado pelo que eu criei?” “Estou...” - disse, levantando-se. “E vou mostrar-lhe outra possibilidade agora.” Com um grito de fúria, o Arauto pôs a mão pelo peito, atravessando-lhe a carne. Por aquela ferida, saiu uma enorme espada flamejante, que ele brandiu contra o Soberano e arrancou-lhe um pedaço das costas. Cego pelo amor perdido, desistiu da centelha que o mantinha vivo, aceitou manter o peito oco pela eternidade para deixar sair de si tudo aquilo que poderia matá-lo. Sem controle sobre sua própria criação, lançou-o no jardim para tentar apaziguar sua ira enquanto se recuperava. “Muito esperto... eu não previ isso... Bom, disso posso fazer outra centelha para o Primogênito. Será menos completa que a outra, mas ainda será uma Chama interessante.” Misturou o fragmento de costela perdido com o barro, soprou e colocou nos Jardins. O Primogênito, que havia visto tudo escondido, desde a chegada do estranho à perda da Centelha, ficou maravilhado quando o Rei colocou perante ele uma nova Chama. “Meu Primeiro, eis aqui sua nova companhia. Feita de mim para ti. Esquece o que viste, aquele ato abominável feito por Lúcifer e vive conforme minhas ordens.” “Agradeço, meu Rei”. Tempos depois, Incubus e Succubus começaram a povoar os arredores dos Jardins, enquanto o Arauto brandia novamente sua espada, expulsando os coitados daquele paraíso.
Forbidden Gate LIVE Chateau de Versailles