A Criação do Patriarcado - Gerda Lerner (Introdução)
”Entretanto, eu observei que as sequências de eventos pareciam ser muito diferentes do que eu tinha previsto. A formação dos estados arcaicos, que sucedeu ou coincidiu com a maioria das mudanças econômicas, tecnológicas e militares, trouxe consigo mudanças distintas nas relações de poder entre homens e entre homens e mulheres, não há nenhuma evidência de que tenha ocorrido uma “derrubada”. O período do “estabelecimento do patriarcado” não foi um evento, mas sim um processo desenvolvido durante um período de aproximadamente 2500 anos, do ano 3100 a 600 A.C. Isto ocorreu, mesmo dentro do Antigo Oriente Médio, em ritmos e tempos diferentes em diversas sociedades distintas.
Além disso, as mulheres pareciam ter muitos status diferentes em vários aspectos das suas vidas, então, por exemplo, na Babilônia no segundo milênio A.C., a sexualidade feminina era totalmente controlada por homens enquanto que algumas mulheres gozavam de bastante independência econômica, muitos privilégios e direitos legais e alcançaram muitas posições importantes de grande status na sociedade. Eu fiquei confusa ao descobrir que a evidência histórica relativa às mulheres não fazia sentido quando vista pelos critérios tradicionais. Depois de um tempo eu percebi que precisava focar mais no controle da sexualidade e procriação feminina que nas questões econômicas habituais. Conforme eu fazia isso as peças do quebra-cabeça começavam a tomar seus lugares. Eu fui incapaz de compreender o significado da evidência histórica diante de mim porque eu estava concentrada na formação das classes, que se aplica a homens e mulheres, com a suposição tradicional de que o que é verdade para os homens deve ser também para as mulheres. A evidência diante de mim só fez sentido quando eu comecei a questionar como a definição de classe foi diferente para mulheres e homens logo no início da sociedade de classes.
Neste livro eu irei desenvolver as seguintes proposições:
a) A apropriação das capacidades sexuais e reprodutivas das mulheres por homens é anterior à formação da propriedade privada e da sociedade de classes. Na verdade, a sua mercantilização (commodification) reside na base da propriedade privada. (Cap. I e II)
b) Os estados arcaicos foram organizados no modelo patriarcal; assim desde sua criação, o Estado teve um interesse essencial na manutenção da família patriarcal. (Cap. III)
c) Homens aprenderam a instituir dominação e hierarquia sobre outras pessoas a partir da sua prática anterior de dominação sobre as mulheres de seus grupos. Isto se expressou na institucionalização da escravidão, a qual começou com a escravidão das mulheres de grupos conquistados. (Cap. IV)
d) A subordinação sexual feminina foi institucionalizada nos primeiros códigos de lei e impostas pelo poder do Estado. A cooperação feminina com este sistema foi garantida por diversas formas: força, dependência econômica do homem da família, privilégios de classe concedidos pela conformação e mulheres dependentes das classes mais altas, e a divisão criada artificialmente entre mulheres respeitáveis e não respeitáveis. (Cap. V)
e) A classe para os homens foi e ainda é baseada no seu relacionamento com os meios de produção: aqueles que possuíam os meios de produção poderiam dominar aqueles que não possuíam. Para as mulheres, a classe é mediada através da sua relação sexual com um homem, que, então, lhe dá acesso a recursos materiais. A divisão entre mulheres “respeitáveis” (isto é, ligadas a um homem) e “não respeitáveis” (isto é, não ligada a um homem ou livre de todos eles) é institucionalizada nas leis relativas ao uso do véu das mulheres. (Cap. VI)
f) Muito tempo depois da subordinação sexual e econômica das mulheres aos homens, elas ainda atuam no papel ativo e respeitável na mediação entre humanos e deuses como sacerdotisas, videntes, advinhas e curandeiras. O poder metafísico feminino, especialmente o poder de conceber a vida, é adorado por homens e mulheres na forma de deusas poderosas muito tempo após a subordinação feminina aos homens na maioria dos aspectos de suas vidas. (Cap. VII)
g) O destronamento da deusa poderosa e a sua substituição por um deus masculino dominante ocorreu na maioria das sociedades do Oriente Médio seguido pelo estabelecimento de um reino forte e imperialista. Aos poucos, a função de controle da fertilidade, anteriormente detida inteiramente pelas deusas, é simbolizada através do acasalamento simbólico ou real do deus masculino ou Deus-Rei com a Deusa ou sua sacerdotisa. Finalmente, a sexualidade (erotismo) e a procriação são divididas no surgimento de deusas separadas para cada função e a Deusa-Mãe é transformada na esposa/consorte do deus masculino chefe. (Cap. VII)
h) O surgimento do monoteísmo hebraico assume a forma de ataque aos cultos propagados das deusas da fertilidade. Na escrita do Livro de Gênesis, a criatividade e a procriação são atribuídas ao Deus todo-poderoso, cujos epitáfios “Senhor” e “Rei” o determinam como um deus masculino, e a sexualidade feminina que não seja para fins de procriação se torna associado com algo pecaminoso e perverso. (Cap. VIII)
i) No estabelecimento da aliança comunitária, o simbolismo básico e o real contrato entre Deus e a humanidade vê como um dado a posição subordinada feminina e sua exclusão da aliança metafísica e da aliança terrena comunitária. A sua função materna é o seu único acesso a Deus e a toda comunidade. (Cap. IX)
j) Essa desvalorização simbólica da mulher em relação ao divino se torna uma das metáforas encontradas da civilização Ocidental. A outra é fornecida pela filosofia Aristotélica que vê como um dado que as mulheres são humanos incompletos e danificados de uma ordem inteiramente diferente dos homens (Cap. X). É com a criação dessas duas construções metafóricas, que foram criadas desde a fundação dos sistemas de símbolos da civilização Ocidental, que a subordinação de mulheres se torna algo visto como “natural”, portanto, tornando-se invisível. Esse é o fator que finalmente firma o patriarcado como uma realidade e como uma ideologia.”
daqui, introdução em português: https://catsfordestroypatriarchy.wordpress.com/2014/10/24/traducao-introducao-do-livro-a-criacao-do-patriarcado-gerda-lerner/
aqui, em espanhol: http://www.antimilitaristas.org/IMG/pdf/la_creacion_del_patriarcado_-_gerda_lerner-2.pdf