O piano dedilhado para você, unicamente• L.S
Sinopse:
Entre livros e silêncios, dois professores se encontram no outono tardio — um historiador que busca vestígios do que se perdeu, e um filósofo que escreve melodias com palavras. Em passos lentos, olhares demorados e toques murmurados, descobrem que o tempo, às vezes, dobra-se para acolher o que sempre esteve destinado. Uma história sobre o amor que não grita, mas permanece — como música baixa no fundo de uma noite que ninguém mais escuta.
• Louis Tops
• Louis professor
• Harry professor
• Clássico e Maduro
O campus da Universidade de Florença estendia-se como um mosaico de edifícios históricos, revestidos de heras que pendiam preguiçosamente das cornijas antigas, mesclando-se à arquitetura renascentista que sobrevivera a séculos de intempéries e revoluções silenciosas. Era uma manhã de outono - dessas em que o sol espalha uma luz morna e dourada pelas alamedas de pedra, enquanto folhas queimadas pelo tempo se desprendiam das árvores, rendendo-se à dança inevitável do vento.
Louis caminhava com passos deliberados, a pasta de couro surrada presa sob o braço, como um escudo discreto que o separava do mundo. Professor de História Moderna, há dois anos morava naquela cidade, um francês expatriado, com sotaque elegante, quase blasé, que arrancava dos alunos uma atenção disciplinada. A barba bem aparada, os olhos azuis sempre semi-cerrados como quem avalia, decifra, contempla - mas jamais entrega, jamais confessa.
Naquele dia, cruzava o claustro central quando ouviu, ao longe, a melodia despretensiosa de um violão. Não era um som habitual naquele ambiente acadêmico, onde predominavam o ranger de livros, o som ritmado das teclas e os debates abafados entre professores e estudantes. Ele parou, curioso. Seguiu o som até uma das pequenas praças internas, protegida por colunas jônicas, onde uma figueira crescia imponente.
E lá estava ele: sentado no encosto de um banco de pedra, a camisa de linho clara com as mangas arregaçadas, os cachos castanhos desalinhados como quem não tem qualquer pressa em domá-los. Os dedos dedilhavam as cordas do violão com uma naturalidade desconcertante, e os olhos - de um verde translúcido, como vidro aquecido ao sol - acompanhavam o compasso com uma serenidade quase imprópria para aquele cenário formal.
Louis ficou alguns segundos ali, em pé, observando, como quem encontra um quadro inesperado numa galeria silenciosa.
— Bela manhã - disse, afinal, com aquela entonação controlada, um timbre grave e polido que parecia sempre esconder mais do que dizia.
O outro ergueu os olhos e sorriu, como quem não se surpreende, mas acolhe.
— Sempre é, quando se pode começar o dia com música - respondeu, e inclinou a cabeça para o lado, estudando-o sem cerimônia. — Harry Styles - estendeu a mão, o anel prateado reluzindo ao sol.
Louis apertou-lhe a mão com firmeza contida.
— Louis Tomlinson.
— Já ouvi falar - Harry comentou, recolhendo o violão para o colo, como quem protege algo precioso, mas sem se fechar. — Suas aulas sobre História Revolucionária são muito comentadas... especialmente pela sua forma de desmontar mitos e provocar polêmicas.
Louis sorriu de canto, um sorriso pequeno, mas que denunciava um orgulho discreto.
— Não creio que isso me torne popular.
— Não com todos. Mas com quem importa, talvez.
O silêncio instalou-se entre eles por um breve instante, denso e confortável, como a névoa suave que pairava sobre o Arno nas primeiras horas da manhã.
Harry apoiou o violão ao lado e cruzou as pernas, descontraído.
— E você, professor de quê? - perguntou Louis, mesmo já desconfiando, pela informalidade e pela liberdade com que ocupava aquele espaço, que só poderia se tratar de alguém pouco afeito a protocolos excessivos.
— Filosofia Moral e Estética.
Louis soltou uma breve expiração, como quem percebe, com certo prazer, que o acaso acabara de lhe pregar uma peça interessante.
— Então está acostumado a falar de beleza, bem e verdade, mas nunca com respostas absolutas.
Harry deu uma risada leve, inclinando o corpo para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.
—Exatamente. E você, pelo que dizem, gosta de demolir certezas históricas.
Louis inclinou o rosto, concordando silenciosamente, e então, pela primeira vez, permitiu-se sentar ao lado dele, no banco de pedra fria.
— Talvez, no fundo, sejamos colegas de ofício.
Harry sorriu, com aquele ar de quem não se apressa, de quem sabe que as conversas importantes são como o vinho da região: precisam respirar, precisam de tempo.
— Talvez - concordou, olhando para o céu que, agora, se recobria de uma leve camada de nuvens alvas, como véus que filtravam a luz.
E assim permaneceram por alguns minutos, trocando frases espaçadas, como se não houvesse urgência alguma, como se a manhã pudesse durar para sempre.
Foi apenas quando os sinos da catedral próxima dobraram, marcando a hora cheia, que Louis ergueu-se, ajeitando o colarinho da camisa e recolhendo a pasta.
— Preciso ir. Aula sobre o Iluminismo. Ironicamente, acho que acabei de ter um momento iluminado.
Harry riu, daquela risada rouca e curta, que mais parecia um segredo partilhado.
— Nos vemos por aí, Louis Tomlinson.
Louis apenas acenou, caminhando pelo claustro agora parcialmente sombreado, sem virar-se uma só vez, mas sabendo - com uma certeza tranquila - que Harry ainda o observava partir.
Os dias seguiram-se com a constância silenciosa que caracteriza os ambientes universitários: corredores atravessados por passos apressados, cafés entornados entre uma aula e outra, livros esquecidos sobre bancos de mármore, enquanto as folhas de outono continuavam a se acumular como pequenos testemunhos do tempo.
Louis, fiel ao seu hábito meticuloso, frequentava sempre o mesmo café, a poucos metros do portão de ferro forjado que delimitava o campus. O "Caffè delle Rose" era um refúgio discreto, escondido entre uma livraria especializada em ensaios filosóficos e uma loja de antiguidades cujas vitrines empoeiradas pareciam resistir ao próprio presente.
Naquela manhã, como tantas outras, Louis atravessou a rua com a mesma expressão compenetrada, os passos firmes, as mãos afundadas nos bolsos do sobretudo cinza. Ao empurrar a porta do café, foi recebido pelo aroma familiar do grão recém-moído, misturado ao perfume doce de brioches quentes.
E lá estava ele.
Harry ocupava uma mesa próxima à vitrine, a xícara de cappuccino ainda soltando pequenas volutas de fumaça, enquanto lia distraidamente um exemplar surrado de "A Estética do Invisível". Os cachos, mais longos agora, caíam-lhe sobre a testa, e uma caneta repousava sobre o canto do livro, como uma pausa intencional.
Louis hesitou por um segundo, as sobrancelhas levemente erguidas, antes de aproximar-se.
— Não sabia que frequentava este café - disse, como quem comenta algo trivial, mas não consegue esconder o fio de expectativa que se insinua por baixo da voz.
Harry ergueu os olhos, e novamente aquele sorriso aberto, caloroso, que parecia sempre recebê-lo como se fosse esperado.
— Não sabia que você frequentava - rebateu, fechando o livro com um gesto calmo e convidativo. — Quer se sentar?
Louis hesitou, mas apenas por cortesia; acomodou-se na cadeira de madeira, pendurando a pasta na quina da mesa.
— Sempre venho aqui. Gosto da tranquilidade, da ausência de pretensão... e do café, claro.
Harry inclinou o corpo para a frente, apoiando o queixo na mão, com aquele olhar de quem não se contenta com respostas simples.
— A ausência de pretensão... uma qualidade rara nos dias de hoje.
Louis sorriu, dessa vez mais abertamente, e soltou um suspiro breve antes de pedir um espresso ao garçom que passava.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio, observando o movimento lento da rua através da vitrine: estudantes de arquitetura equilibrando rolos de plantas, um casal de idosos caminhando de braços dados, vendedores de flores rearranjando buquês sobre as bicicletas.
Harry girou a aliança prateada no dedo antes de falar, como quem molda as palavras antes de entregá-las.
— Tenho lido alguns artigos seus. Especialmente aquele sobre a desconstrução dos heróis revolucionários.
Louis inclinou levemente a cabeça, curioso.
— E?
Harry sorriu, aquele sorriso que começava sutil, num canto dos lábios, mas que logo se expandia, iluminando-lhe os olhos.
— Você escreve como quem provoca, mas sem querer ferir. Gosto disso.
Louis baixou o olhar para a xícara recém-chegada, soprando levemente a borda antes de beber.
— Provocar é essencial. Mas ferir... nunca foi o meu método.
Harry assentiu lentamente, como quem confirma algo que já intuía.
— Concordo. Filosofia também é, no fundo, uma provocação permanente.
Louis soltou um riso abafado.
— Então somos provocadores profissionais.
Harry mordeu o canto do lábio inferior, pensativo.
— Talvez sejamos apenas pessoas que nunca se conformaram com as respostas fáceis.
Um silêncio confortável recaiu novamente entre eles. Lá fora, uma lufada de vento ergueu algumas folhas secas, fazendo-as girar freneticamente antes de depositá-las, exaustas, na calçada úmida.
Louis ergueu o olhar e encontrou o de Harry: havia nele uma tranquilidade rara, como quem habita plenamente o momento presente, sem pressa, sem ansiedade pelo que virá.
— Você sempre toca violão na praça? - perguntou, de repente, como quem se permite finalmente invadir um território pessoal.
Harry sorriu, olhando para além da vitrine, como quem revisita uma memória já polida pela repetição.
— Sempre que posso. A música me ancora... quando as palavras não bastam.
Louis assentiu devagar, compreendendo mais do que poderia expressar.
— Nunca soube tocar instrumento algum - confessou, os dedos deslizando levemente sobre a borda da xícara. — Sempre achei que faltava... liberdade demais.
Harry soltou uma risada baixa, os olhos semicerrados pelo prazer da confissão inesperada.
— E na História não falta liberdade? - provocou, inclinando-se mais, diminuindo a distância entre eles.
Louis sorriu, dessa vez mais amplo, e negou suavemente com a cabeça.
— Na História... falta poesia.
Harry ergueu as sobrancelhas, agradavelmente surpreso.
— Talvez seja por isso que ela e a Filosofia precisem tanto uma da outra.
Os sinos da Igreja de Santa Croce começaram a dobrar novamente, marcando a passagem do tempo com sua cadência grave e imutável. Louis terminou o café, ajeitou a pasta e, desta vez, antes de levantar-se, olhou demoradamente para Harry, como quem reconhece, mesmo sem pressa, que há algo ali que merece ser cultivado.
— Até mais, Harry Styles.
Harry sorriu, recostando-se na cadeira com um ar satisfeito, quase vitorioso, e respondeu com aquela placidez que parecia ser sua assinatura:
— Até breve, Louis Tomlinson.
Os dias seguintes escoaram-se com a delicadeza de um rio preguiçoso. O outono, agora em seu auge, tingia a cidade de tonalidades douradas, enquanto as manhãs se preenchiam de um frio tênue, insuficiente para afastar os transeuntes das ruas, mas suficiente para que os cachecóis fossem usados com certa elegância.
Louis caminhava pelos corredores silenciosos do Departamento de História, equilibrando uma pilha de livros entre os braços. O aroma de papel envelhecido e madeira encerada impregnava o ar, como se o edifício guardasse não apenas livros, mas também todas as palavras já ditas entre aquelas paredes.
Ao passar pela grande janela de vidro fosco, avistou, no pátio interno, uma figura familiar: Harry, sentado no banco de pedra sob a pérgola coberta de heras que começavam a secar, com o caderno aberto sobre o colo e a caneta movendo-se em gestos lentos, quase preguiçosos.
Louis permaneceu alguns segundos imóvel, observando-o através do vidro como quem contempla uma pintura. A luz filtrada pelas folhas projetava sombras suaves sobre o rosto de Harry, que parecia completamente absorto, o mundo reduzido ao espaço entre a mão e o papel.
Num impulso discreto, Louis desviou o caminho, atravessou a escadaria e contornou o claustro até alcançar o pátio. O rangido leve da porta de ferro alertou Harry, que ergueu os olhos e sorriu com aquela expressão serena que parecia torná-lo sempre anfitrião, nunca visitante.
— Louis.
— Harry - respondeu, contendo, como sempre, aquele traço involuntário de sorriso que a presença dele parecia provocar.
Harry fechou o caderno com delicadeza e bateu levemente no espaço vazio ao seu lado, convidando-o a sentar-se. Louis obedeceu, ajeitando a lapela do casaco enquanto acomodava os livros sobre o colo.
— O que escrevia? - perguntou, olhando de soslaio para o caderno fechado.
Harry ergueu o olhar para o céu pálido e respondeu, após um breve suspiro:
— Nada de importante. Só anotações... ideias desconexas que talvez nunca se tornem nada.
Louis inclinou levemente a cabeça, curioso.
— Mesmo as ideias desconexas podem ser preciosas.
Harry soltou uma risada baixa, fechando um pouco mais o corpo, como quem se protege do vento, embora soubesse que a companhia ali bastava como abrigo.
— Você guarda tudo o que escreve?
Louis sorriu de canto, ajeitando a pilha de livros.
— Quase tudo. Mesmo o que me envergonha... Gosto de ter rastros do que pensei, de como mudei.
Harry assentiu, lentamente, como quem entende profundamente aquela necessidade silenciosa.
Por alguns instantes, deixaram-se envolver pelo silêncio do pátio: o canto de um melro ao longe, o arranhar ocasional de folhas secas sendo arrastadas pelo vento e o murmúrio distante de estudantes atravessando o claustro.
Louis ajeitou a manga do casaco e, após uma breve hesitação, perguntou:
— E você... sempre soube que seria professor?
Harry sorriu, fechando os olhos por um momento, como quem busca a resposta em algum lugar muito além dali.
— Não. Na verdade... achei que seria músico. Passei anos acreditando nisso.
Louis sorriu, genuinamente interessado.
— E o que mudou?
Harry abriu os olhos e encarou-o com aquele olhar límpido, que parecia sempre disposto a atravessar defesas.
— A Filosofia... apareceu sem que eu percebesse. Um livro esquecido, uma aula qualquer... e, de repente, percebi que também era uma forma de música, só que feita com palavras e silêncios.
Louis deixou escapar um riso breve e admirado.
— Nunca pensei assim... mas faz sentido.
Harry ergueu uma sobrancelha, provocando:
— E você? Sempre soube que seria historiador?
Louis apertou os livros contra o peito, como quem protege uma parte frágil de si mesmo.
— Acho que, de alguma maneira, sim. Sempre fui fascinado por aquilo que não se pode mais tocar... por vestígios. O passado é feito disso, não? De coisas que resistem mesmo depois de perderem a função.
Harry assentiu, calado, absorvendo a confissão com respeito e, talvez, com uma admiração que ainda não ousava nomear.
Uma folha solta desprendeu-se da pérgola e pousou sobre o livro no colo de Louis. Harry estendeu a mão e a recolheu com suavidade, girando-a entre os dedos.
— O que fazemos com o que se perde... é o que nos define, não acha? - murmurou, soltando a folha no ar, deixando que o vento a levasse sem resistência.
Louis acompanhou o movimento com os olhos, antes de voltar a encará-lo, demoradamente.
— Acho... que nunca tinha pensado nisso, mas... sim.
Ficaram assim, os dois, sob a pérgola quase desfolhada, enquanto a tarde se esgarçava em tons pálidos e o campus começava a esvaziar-se, como um cenário silencioso à espera de que aquela conversa - ou outra, futura - se prolongasse indefinidamente.
Desta vez, quando Louis levantou-se, foi Harry quem o deteve com um gesto sutil, segurando-lhe o antebraço com delicadeza.
— Louis...
Louis virou-se, surpreso com o toque, embora fosse leve, quase imperceptível.
Harry sorriu, sem soltar-lhe o braço.
— Quando quiser... posso te mostrar a música também.
Louis não respondeu de imediato, mas o sorriso que se abriu, discreto, foi suficiente como promessa.
— Eu gostaria.
E, então, partiu, deixando Harry sentado no banco de pedra, com o caderno novamente aberto sobre o colo, e um traço de esperança rabiscado no meio da página.
O outono, já avançado, trazia consigo aquele frio delicado que obrigava a cidade a se recolher em cafés aquecidos e bibliotecas silenciosas. Louis, no entanto, encontrava conforto naquela estação: gostava da forma como as árvores se despiam sem pudor, como a luz se tornava mais oblíqua, como os passos das pessoas pelas calçadas ressoavam mais vagarosos, como se o próprio tempo tivesse aprendido, enfim, a desacelerar.
Naquela tarde, após o término de uma aula sobre Historiografia Moderna - onde falara longamente sobre o conceito de "presentismo" e as armadilhas da nostalgia como lente histórica -, Louis guardava os papéis na pasta quando ouviu uma batida discreta na porta.
— Louis?
A voz já lhe era familiar, mas ainda assim provocou-lhe aquele sobressalto interno, como um breve estremecimento da alma, discreto, mas real.
— Harry... - sorriu, apoiando-se na mesa, como quem precisa de um ponto de equilíbrio.
Harry adentrou a sala com a habitual elegância despretensiosa, os cabelos presos em um coque frouxo, um sobretudo de lã que parecia mais um abraço do que uma peça de vestuário, e uma pasta de couro amassada sob o braço.
— Interrompo?
Louis negou com a cabeça, apontando a cadeira em frente à mesa.
— De forma alguma.
Harry sentou-se, cruzando as pernas, enquanto Louis fechava a pasta. O silêncio entre eles era confortável, como o calor de uma lareira invisível, e nenhum dos dois parecia sentir urgência de preenchê-lo.
— A aula foi boa? - perguntou Harry, após algum tempo, enquanto seus olhos vagavam pelas estantes forradas de livros que ocupavam toda a parede lateral.
Louis assentiu, sorrindo de canto.
— Acho que sim... embora, às vezes, me pergunte se as palavras chegam mesmo até eles ou se se dissipam no ar, como poeira.
Harry inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Elas chegam... talvez não no instante que você espera, mas em algum momento, vão encontrar o caminho.
Louis ficou em silêncio, observando aquele homem à sua frente: havia em Harry uma espécie de serenidade que parecia rarefeita no mundo; um modo de habitar os silêncios sem ansiedade, de deixar que os gestos tivessem espaço, que o tempo cumprisse o seu curso natural.
— Você fala como quem já aceitou isso - disse, por fim.
Harry sorriu, aquele sorriso leve, que começava nos olhos antes de se insinuar pelos lábios.
— Eu aprendi... ou talvez ainda esteja aprendendo.
Louis inclinou a cabeça, curioso.
— A aceitar o quê?
Harry ergueu os olhos, fitando-o diretamente, e sua voz soou baixa, quase como uma confidência:
— Que nem tudo precisa acontecer no tempo que imaginamos.
Louis sentiu-se atingido por aquela frase, como se, de repente, ela nomeasse algo que até então existia apenas como um sentimento difuso em seu peito.
Por alguns instantes, limitou-se a observá-lo: o modo como a luz que entrava pela janela traçava um desenho pálido sobre o rosto de Harry, o modo como seus dedos brincavam distraidamente com a aba da pasta, como se cada gesto fosse medido, necessário e, ainda assim, livre.
— Quer um café? - perguntou, num impulso, levantando-se.
Harry sorriu, erguendo a mão num gesto de aprovação.
— Aceito.
Louis caminhou até o aparador no canto da sala, onde uma cafeteira repousava ao lado de duas canecas de porcelana branca. Enquanto servia o café, sentiu aquela estranha e silenciosa antecipação que o tomava sempre que Harry estava perto - como se sua presença deslocasse levemente o eixo do mundo, tornando o ar mais denso, o tempo mais tangível.
Ofereceu-lhe a caneca, e Harry a recebeu com aquele agradecimento silencioso, um leve inclinar de cabeça, um olhar demorado.
Beberam o café em silêncio, enquanto lá fora as folhas secas rodopiavam no pátio e o crepúsculo começava a tingir o céu com tons de cobre e violeta.
— Gosto deste lugar - disse Harry, rompendo o silêncio, os olhos passeando pela sala, pelos livros, pelas plantas que Louis cultivava junto à janela.
Louis sorriu, encostando-se à borda da mesa.
— Eu também... Acho que criei um espaço onde me sinto menos... vulnerável.
Harry ergueu o olhar para ele, curioso.
— Vulnerável?
Louis deu de ombros, como quem pondera se deve ou não aprofundar-se na confissão.
— Aqui... as coisas parecem mais... organizadas. Lá fora... é tudo tão... incerto, não acha?
Harry assentiu, pousando a caneca sobre a mesa, com aquele mesmo cuidado com que parecia tratar todas as coisas.
— Mas é nessa incerteza que mora o que é vivo.
Louis soltou uma risada breve, balançando a cabeça.
— Você sempre tem uma resposta filosófica para tudo.
Harry sorriu, erguendo levemente as mãos, como quem se rende.
— Deformação profissional.
Louis ficou calado por alguns segundos, contemplando o modo como Harry permanecia ali, sentado, sem pressa, como se ambos soubessem que aquele encontro - embora aparentemente casual - já se inscrevia como um traço delicado e inevitável na narrativa de suas vidas.
— Você me disse, outro dia... que poderia me mostrar sua música. Ainda... está de pé?
Harry ergueu os olhos, e havia neles um brilho tranquilo, mas que, agora, Louis percebia, era também uma oferta silenciosa, um convite.
— Sempre.
Louis respirou fundo, como quem aceita uma travessia, ainda que não saiba o que encontrará do outro lado.
— Então... me mostre.
Harry sorriu, fechando a pasta e levantando-se com um movimento fluido, pegando o casaco que repousava na cadeira.
— Agora?
Louis hesitou apenas um segundo, antes de assentir:
— Agora.
Saíram juntos da sala, caminhando pelos corredores vazios da universidade, enquanto a noite, já plenamente caída, os envolvia naquela penumbra tranquila, onde os passos soavam como uma promessa ainda não dita.
Desceram os degraus da universidade em silêncio, como quem caminha não apenas para fora de um prédio, mas também para dentro de um espaço onde as palavras perderiam a necessidade e só restaria o essencial: o gesto, o olhar, o som das folhas esmagadas sob os sapatos.
O ar da noite trazia um frio macio, que fazia com que Louis encolhesse as mãos nos bolsos do sobretudo, enquanto Harry, ao seu lado, mantinha aquele passo tranquilo, como quem sabia exatamente onde estava indo, mas não tinha pressa alguma de chegar.
— Moro aqui perto - disse Harry, quase como quem pede desculpas, embora não houvesse, de fato, nenhuma razão para isso.
Louis assentiu, olhando o céu escuro recortado pelos galhos nus das árvores. A cidade parecia adormecida, envolta naquela quietude que só se conhece nas noites de outono, quando cada ruído é absorvido pela espessura do ar.
O prédio de Harry era antigo, de fachada coberta por heras secas e grades de ferro trabalhado. Subiram dois lances de escada, e ele abriu a porta com um gesto habitual, deixando Louis entrar primeiro.
O apartamento era como Harry: silencioso, composto de detalhes discretos, uma estética que misturava o clássico e o despojado com uma harmonia involuntária. Livros espalhados - mas não abandonados, antes deixados ali como quem se despede de uma leitura apenas temporariamente -, quadros de paisagens enevoadas, um piano antigo junto à janela e, sobre ele, um caderno de pautas aberto, com anotações a lápis, quase ilegíveis.
Louis caminhou devagar, os olhos passeando pelos objetos, sem tocá-los, mas absorvendo aquela atmosfera que era ao mesmo tempo estranhamente familiar e irremediavelmente estrangeira.
Harry deixou o casaco sobre uma poltrona, afrouxou o lenço do pescoço e foi até a pequena cozinha, de onde perguntou:
— Quer vinho ou chá?
Louis sorriu, sentando-se à beira do sofá.
— Surpreenda-me.
Harry riu baixinho, pegando uma garrafa de vinho tinto e duas taças.
— Sempre tão disponível ao acaso...
Louis o acompanhou com o olhar, notando como até mesmo o gesto mais simples, como desenroscar uma garrafa, parecia impregnado daquele vagar elegante que Harry carregava consigo, como quem se move não para alcançar algo, mas simplesmente porque o movimento é parte de sua natureza.
Sentou-se ao seu lado, oferecendo-lhe a taça.
— Ao acaso, então - brindou.
— Ao acaso - repetiu Louis, e beberam.
Por alguns minutos, não disseram nada, e o silêncio, longe de ser um constrangimento, parecia ser precisamente aquilo que ambos buscavam: um espaço onde as palavras, tão usadas nas salas de aula, não fossem mais necessárias.
Harry foi até o piano e passou os dedos pelas teclas, sem tocá-las de fato, apenas delineando a superfície marfim com um gesto contemplativo.
— É aqui que componho - disse, olhando-o de soslaio.
Louis apoiou a taça no braço do sofá, inclinando-se levemente para frente, curioso.
— Mostre-me.
Harry sorriu, puxou o banco e sentou-se, respirando fundo antes de permitir que as mãos pousassem, finalmente, sobre o teclado.
E então começou.
As notas preencheram o espaço com uma delicadeza quase dolorosa, como se cada som fosse um fio de seda lançado no ar, entrelaçando-se aos outros até formar uma tapeçaria invisível que cobria o quarto inteiro.
Louis permaneceu imóvel, os olhos fixos nas costas de Harry, nos ombros que se moviam suavemente a cada acorde, na cabeça que se inclinava levemente quando a melodia exigia mais concentração.
Não sabia dizer quanto tempo havia passado - minutos, talvez, ou uma eternidade - até que Harry, suavemente, deixou as mãos repousarem sobre o colo, encerrando a canção com um suspiro quase imperceptível.
Virou-se, então, e perguntou, com aquela voz que parecia sempre conter um rastro de ironia e ternura:
— E então?
Louis demorou a encontrar as palavras.
— É... lindo - disse, por fim, e a palavra lhe pareceu insuficiente, quase vulgar, mas era tudo o que conseguia articular diante daquela beleza que não se oferecia, apenas existia.
Harry sorriu de leve e fechou o piano, como quem encerra um ritual.
— Gosto de pensar que a música é... uma forma de dizer aquilo que...
Ele interrompeu-se, como se buscasse a palavra certa, mas Louis completou:
— ... aquilo que não conseguimos dizer de outro modo.
Harry assentiu, os olhos cravados nos dele, como se naquele momento a distância entre ambos fosse nada mais que um traço frágil, prestes a se desfazer.
O silêncio que se seguiu foi denso, mas não pesado; antes, carregado daquela expectativa mansa, que não exige, não apressa, apenas... está.
Louis respirou fundo, recostando-se ao sofá, enquanto Harry permanecia ali, sentado ao piano, olhando-o com aquele ar de quem compreende, de quem não precisa perguntar.
E então Louis disse, com um sorriso quase imperceptível:
— Gosto da sua música.
Harry sorriu, e esse foi o único movimento que fez, como quem sabe que, naquele momento, nada mais era necessário.
E o tempo, mais uma vez, pareceu deter-se entre eles, como quem, generoso, lhes oferecia o presente raro da suspensão.
Harry permaneceu junto ao piano por um instante mais, os olhos ainda cravados nos de Louis, até que se levantou, caminhando lentamente até a cozinha, onde se serviu de mais vinho. O som discreto do líquido preenchendo a taça parecia ser, ali, o único ruído possível.
Louis seguiu-o com o olhar, sem se mover, absorvendo aquela imagem como quem registra mentalmente um quadro: o vulto alto, a camisa de linho levemente amassada, a luz morna incidindo de lado sobre o rosto de Harry, conferindo-lhe uma aparência ainda mais serena, quase antiga.
Quando Harry voltou, estendeu-lhe a taça, sentando-se mais próximo desta vez, de modo que seus joelhos quase se tocassem, separados apenas pelo tecido macio das calças.
— Gosto do silêncio que fica entre nós - disse Harry, num tom que não perguntava, apenas constatava.
Louis assentiu, sorrindo breve, passando os dedos pelo bojo da taça, acompanhando a curva do vidro com distração.
— É confortável... - respondeu, depois de um instante, e então acrescentou, com a voz mais baixa, quase um sopro: — ...e ao mesmo tempo... expectante.
Harry sorriu com o canto da boca, e aquele sorriso, pequeno e oblíquo, pareceu a Louis mais eloquente que qualquer discurso.
Por um momento, nenhum dos dois disse nada. Apenas o som dos relógios, ao longe, o ruído leve da cidade adormecida, e o calor discreto que parecia emanar, não das lâmpadas, mas da própria presença um do outro.
Harry inclinou-se um pouco, como quem queria alcançar a garrafa, mas deteve-se a meio caminho, o rosto mais próximo de Louis do que estivera até então. E ali ficou, sem buscar o vinho, sem recuar.
O olhar de Louis deslizou, por instinto, dos olhos verdes para a linha do maxilar, depois para a curva dos lábios, ligeiramente entreabertos, e então ergueu de novo os olhos, encontrando-os fixos, serenos, expectantes.
E houve, então, um instante suspenso, em que poderiam ter se aproximado de uma vez, em que a ânsia poderia ter cedido ao gesto apressado - mas não.
Em vez disso, Harry apenas ergueu a mão, devagar, e tocou com a ponta dos dedos o dorso da mão de Louis, que repousava sobre a coxa. Foi um toque mínimo, quase inexistente, mas bastou para que Louis prendesse a respiração, os olhos fixos naquele contato tão casto e, paradoxalmente, tão carregado de intenção.
— Está frio... - murmurou Harry, mais para si do que para ele, passando então o polegar suavemente sobre os nós dos dedos de Louis, como quem aquece, como quem desperta algo que até então estava adormecido.
Louis não respondeu, apenas virou a palma da mão para cima, oferecendo-a inteira, e Harry entrelaçou os dedos aos dele, apertando-os de leve, antes de levá-los devagar até os lábios, onde pousou um beijo silencioso, castíssimo, e ainda assim incendiário.
Louis fechou os olhos, sentindo o calor breve da respiração de Harry sobre sua pele, e quando os abriu novamente, encontrou-o tão próximo que podia sentir o aroma discreto do vinho, da madeira polida do piano, do perfume suave entranhado em sua camisa.
Foi Louis, então, quem se inclinou primeiro - milímetros, apenas, como quem testa a densidade do espaço entre eles. Harry correspondeu, desfazendo de vez a distância, encostando os lábios aos de Louis com uma suavidade tão grande que parecia que poderia ser apenas um erro, um acaso, um roçar involuntário.
Mas não era.
Ficaram ali, os lábios colados, imóveis por um segundo, apenas respirando um ao outro, até que, muito lentamente, Louis abriu a boca, e Harry aprofundou o beijo com aquela mesma delicadeza, como quem não quer romper o tecido invisível que os envolve, mas apenas trançá-lo mais apertado.
As mãos de Harry soltaram-se das de Louis e deslizaram para sua cintura, puxando-o com suavidade para mais perto, até que não havia mais espaço algum entre os dois corpos.
Louis levou a mão ao rosto de Harry, segurando-o pela mandíbula, e aprofundou o beijo, deixando que a respiração se entrecortasse, que a pulsação se acelerasse, mas ainda assim - sem pressa, sem urgência.
Quando se afastaram, foi só o suficiente para que se olhassem, e então Louis sorriu, um sorriso que misturava desejo e ternura, e Harry respondeu do mesmo modo, passando os dedos pelos cabelos dele, afastando uma mecha que caía sobre a testa.
— Quer... ficar? - perguntou, num sussurro, como quem oferece não apenas a casa, mas também o abrigo de si mesmo.
Louis respirou fundo, olhando ao redor: o piano silencioso, os livros, a janela semiaberta para a noite fria.
E então respondeu, com a mesma simplicidade com que se dizem as coisas inevitáveis:
— Quero.
Harry sorriu, e inclinou-se outra vez, beijando-o com mais intenção agora, puxando-o para que Louis se erguesse junto a ele.
Guiou-o então, de mãos dadas, até o quarto, onde as luzes eram mais suaves ainda, e a cama, desfeita, parecia ter sido esquecida de propósito, como quem soubesse, desde cedo, que aquela noite não terminaria apenas em vinho e música.
Ali, despiram-se devagar, cada peça de roupa sendo retirada com o mesmo vagar reverente com que haviam se olhado durante toda a noite - não como quem quer desfazer, mas como quem quer revelar, camada a camada, até que só reste o essencial: pele, respiração, presença.
E então, nus, deitaram-se, os corpos enlaçados como as mãos haviam estado antes, explorando-se com a mesma paciência infinita com que Harry dedilhava o piano: buscando não a explosão, mas a harmonia; não o grito, mas o suspiro prolongado que se insinua e permanece, mesmo depois do silêncio.
A respiração de Harry tornou-se um pouco mais acelerada quando Louis, já sobre ele, desceu os lábios pelo pescoço, traçando um caminho lento, sem pressa, como quem mapeia território conhecido pela primeira vez. O quarto estava silencioso, salvo pelo som das respirações e pelos lençóis que se ajustavam aos movimentos suaves, quase ritmados, como se fossem extensões vivas de seus corpos.
Louis sustentava-se sobre os antebraços, inclinando-se para olhar Harry de cima, como se quisesse gravar cada expressão, cada nuance daquele rosto entregue, ligeiramente iluminado pelo reflexo âmbar do abajur deixado propositalmente aceso.
Harry fechou os olhos um instante, como quem se rende ao toque e, ao mesmo tempo, confia-se inteiramente à condução de Louis, ao compasso que ele ditava com os beijos calmos, as mãos quentes e firmes explorando-lhe o peito, o abdômen, os quadris com uma precisão que não pedia permissão porque já a tinha, porque o corpo de Harry respondia com a mesma urgência discreta, com a mesma necessidade silenciosa.
Louis desceu mais, mordendo de leve a curva do quadril de Harry, provocando um suspiro mais audível, quase um gemido que ele quis engolir com outro beijo. E então voltou a subir, com o mesmo vagar, até que seus rostos ficaram novamente próximos, e ele pôde sentir a respiração quente e entrecortada de Harry contra seus próprios lábios.
— Está bem? - murmurou, com aquela voz rouca que só surgia em momentos assim, íntimos, onde a palavra é só um pretexto para o toque que vem depois.
Harry sorriu, abrindo os olhos com um brilho úmido e vulnerável que contrastava com a segurança contida no corpo de Louis sobre o seu.
— Muito... - respondeu num fio de voz, e então ergueu as mãos para acariciar a nuca de Louis, puxando-o para mais um beijo, agora mais faminto, menos contido, deixando que os dentes se encontrassem, que as línguas se buscassem com um ímpeto que já não admitia recuos.
Louis deixou que o próprio corpo se encaixasse ao de Harry, acomodando-se entre suas pernas, pressionando-se de modo firme, possessivo, mas ainda assim envolto na mesma ternura silenciosa que permeava cada gesto entre eles desde o primeiro olhar naquela sala de aula, semanas antes.
As mãos de Louis seguraram as coxas de Harry com força, guiando-o, abrindo espaço para que pudesse tomar posse de tudo que aquele momento oferecia, como quem sabe que é ali, naquele instante, que reside algo maior, algo que escapa à mera carne, embora dela se sirva com toda intensidade.
E quando enfim o fez seu, quando os corpos se uniram num só movimento firme, decidido, Louis fechou os olhos e deixou escapar um suspiro grave, enquanto Harry arqueava-se sob ele, agarrando-se aos seus ombros, soltando um gemido abafado contra o pescoço de Louis, mordendo-o de leve, como quem quer marcar a pele, deixar ali uma lembrança, uma âncora para quando, mais tarde, acordassem e se perguntassem se tudo não fora apenas sonho.
O ritmo que Louis impôs era, como sempre, seguro, firme, mas não apressado - ele sabia exatamente como provocar, como manter Harry à beira, oscilando entre o controle e o abandono total, como quem guia uma melodia que cresce e se intensifica, até que os corpos já não distingam mais onde termina um e começa o outro.
E quando Harry sussurrou seu nome, com a voz entrecortada e os olhos semicerrados, Louis acelerou o compasso, pressionando-se mais, enterrando-se mais fundo, até que ambos, como notas dissonantes que enfim se resolvem, alcançaram juntos o clímax, num suspiro longo, compartilhado, que pareceu reverberar pela casa toda - apagando as luzes, silenciando a cidade, deixando apenas aquele som, aquele instante, como o único que importava no mundo.
Ficaram assim, enlaçados, os corpos ainda trêmulos, úmidos, os corações batendo rápido sob as peles aquecidas, até que Louis se deixou cair de lado, puxando Harry consigo, aconchegando-o contra o peito, enquanto com a mão desenhava linhas invisíveis pelas costas dele, como quem escreve um poema que não precisa de palavras.
Harry suspirou, aninhando-se mais, e depois de um tempo em que apenas o silêncio os envolveu novamente, disse, com a voz adormecida:
— Nunca pensei que... pudesse ser assim.
Louis sorriu, beijando-lhe a têmpora com uma delicadeza quase reverente.
— Assim como? - perguntou, mesmo sabendo a resposta.
Harry ergueu um pouco o rosto, os olhos verdes brilhando, e respondeu:
— Tão... inevitável.
Louis não respondeu - não precisava. Apenas o apertou mais contra si, fechando os olhos, deixando que o sono viesse devagar, como tudo entre eles, como todo o percurso que haviam traçado até ali: sem pressa, mas inexorável, como a música que insiste em tocar, mesmo quando a sala já está vazia.
O piano havia sido dedilhado unicamente para ele, como a história havia sido contada exclusivamente para ele... Ambos escutaram a poesia alheia.
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