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Idílio
Como eu preciso de campo, de folhas, brisas, vertentes, encosto-me a ti, que és árvore, de onde vão caindo flores sobre os meus olhos dormentes.
Encosto-me a ti, que és margem de uma areia de silêncios que acompanha pelo tempo verdes rios transparentes: tua sombra, nos meus braços, tua frescura, em meus dentes.
Nasce a lua nos meus olhos, passa pela minha vida… — e, tudo que era, resvala para calmos ocidentes. Caminhos de ar vão levando pura e nua essa que andava com as roupas mais diferentes.
Olham pássaros, das nuvens, entre a luz dos mundos firmes e a das estrelas cadentes. E o orvalho da sua música vai recobrindo o meu rosto com um tremor que eu conhecia nos meus olhos já levados, idos, perdidos, ausentes…
(Leve máscara de pérolas na minha face não sentes?)
Cecília Meireles
REAL ITA
Digo que eu era feliz sim, e sabia! Sempre que se aproximava o fim do ano As bolsas pesadas de tanto pano Pra mais uma viagem que eu faria! Sim, eu sabia… e ia com toda a família! Rever ou conhecer uma outra parte Distantes, mas 'próximos' já no embarque E em meu coração que não via milha!
Sim, eu tenho saudade dessas terras…! Seus rios, córregos e cachoeiras Da infância querida e tardes fagueiras! Laranjais, Bananeira, morro e serras! De seus causos até os de lobisomem! De quando chovia e o barro grudava… O ribeirão enchia, seu céu estrelava! E um angu que 'inté' cariocas comem!
Fogão à lenha, lamparinas e pilhas… A simplicidade do homem do campo Num chão batido, asfalto, todo canto! Valia o custo a união das famílias! Nossa pequenina Natividade Tão longe daqui e quase nas Gerais! Que também tem palmeiras, sabiás… E que sempre revisito em saudade!
MAIS DE MIM EM: https://gustavoreymond.blogspot.com/
Idílio - Paulo Setúbal
"Vamos?" disseste... E eu disse logo: vamos! Ia no céu, nos pássaros, nos ramos, Uma alegria esplêndida e sonora; E tu, abrindo ao sol, como uma tenda, Tua sombrinha de custosa renda, Partimos ambos pela estrada afora... Eram pastagens largas, eram roças, Carros de bois, currais, barreadas choças, E rústicos galpões de pau-a-pique; Só tu, nessa bucólica simpleza, Com teu "tailleur" de casemira inglesa, Punhas uns tons de mundanismo chic. E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada, Nós, papagueando, sem sentirmos nada, Seguíamos num sonho encantador: É que a felicidade, como um vinho, Fazia-nos andar pelo caminho, Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma. In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
Idílio ou Beijo Eterno de William Zadig no Largo São Francisco. http://www.monumentos.art.br/monumento/idilio_ou_beijo_eterno
Idílio
substantivo masculino
1. lit. originalmente, entre os antigos gregos, qualquer poema curto (descritivo, narrativo, dramático, épico ou lírico);
2. amor terno e delicado;
3. colóquio amoroso;
4. produto da fantasia.
Sinônimos, relações e derivações: devaneio, utopia
A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo. Nem isso, impressão de hiato, de defeito de sintaxe logo corrigido, vertigem em que ninguém dá tento de si. E fica mais essa ideia que retoma-se de novo a vida, que das portas do Paraíso Terrestre em diante é sofrer e impedimento só.
Mario de Andrade em Amar, Verbo Intransitivo.
Carlos esses três dias viveu? Eu não sei se alcançar a felicidade máxima, extasiar-se aí, e sentir que ela, apesar de superlativa, inda cresce, e reparar que inda pode crescer mais... isso é viver? A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo. Nem isso, impressão de hiato, de defeito de sintaxe logo corrigido, vertigem em que ninguém dá tento de si. E fica mais essa idéia que retomasse de novo a vida, que das portas do Paraíso Terrestre em diante é sofrer e impedimento só. Estou convencido: Carlos não viveu esses três dias.
Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade