Códice do Beato de Silos
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Códice do Beato de Silos
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Música é uma presença constante na obra de Remédios Varo. 📯 Seus personagens aparecem tocando os mais diversos instrumentos em meio a cenários encantados e misteriosos. Que tipo de música seria essa? Pessoalmente acho que é algo mais ou menos medieval, na linha do músico e estudioso Jordi Savall. Qual música toca na sua cabeça quando você vê esses quadros?
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Music is a constant presence in the works of Remédios Varo. 🎻 Her characters show up playing different instruments. Personally I always have the impression their music is more or less medieval. Something just like Jordi Savall. Tell us in the comments what type of music plays in your head when you see these Remedios' paintings
A HISTÓRIA DA INSERÇÃO SOCIAL DA INFÂNCIA
Quando se pensa em infância, possivelmente as primeiras associações a serem feitas são de pessoas frágeis, que inspiram cuidados especiais, produtos e alimentações específicas. O conceito de infância sofreu notáveis modificações ao longo da história, pois por muitas vezes as crianças eram marginalizadas e invisíveis para a sociedade, senão vistas como mão de obra barata. Durante a Idade Média (V – XV), a criança não passava de um ser inexperiente, sem valor, onde não havia qualquer atenção especial para sua faixa etária, pois eram considerados adultos em miniatura, trajando as mesmas roupas, se alimentando da mesma comida e alcançando o mais depressa possível a fase adulta, sendo ensinada desde cedo o trabalho que deveria exercer.“A criança era, portanto, diferente do homem, mas apenas no tamanho e na força, enquanto as outras características permaneciam iguais.” (ARIÈS, 1981, p.14)1. Para os nascidos com algum tipo de necessidade especial, o período medieval era ainda pior, pois as crianças eram julgadas castigadas por Deus, bruxos ou demônios, suas famílias eram ridicularizadas assim como eles próprios ao servirem de entretenimento a classe abonada. Também era comum o abandono em instituições católicas, pela roda dos enjeitados (como mostra a figura), onde cresceriam sem qualquer perspectiva de progresso e excluídos do convívio com o restante da sociedade. (BOAS, 2018)2.
Apenas com a chegada do Renascimento (XVII), com os avanços expressivos das ciências, foi possível identificar e estabelecer diferenças entre crianças e adultos, como o desenvolvimento de seus corpos e necessidade de ocupar um espaço social, quando a infância finalmente pôde ser vista como uma fase importante da vida do sujeito que requeria atenção e não apenas a preparação para algo futuro. Com o surgimento da Psicologia (XIX), mais conceitos relacionados às infâncias foram surgindo, o desenvolvimento psíquico começava a ser abordado com a devida relevância, e desde então, a criança não era vista mais como um ser puramente biológico, mas sim um ser biopsicossocial.
Ainda nos tempos atuais, principalmente com a influência da tecnologia, as infâncias veem se modificando constantemente. Os hábitos, as influências e ambientes em que a criança se desenvolve, determinam qual papel ocupará na sociedade, sendo assim, é possível entender que as infâncias são construções sociais frutos do seu tempo. (BRASIL ESCOLA, s.d)3. Apesar dos avanços feitos a respeito do conceito da criança com um ser social dotado de direitos, o uso da mão de obra infantil ainda é utilizado, submetendo-as a péssimas condições de ambiente que podem afetar seriamente o seu desenvolvimento, como explica o médico pediatra e professor da UNICAMP Roberto Teixeira Mendes durante o Fórum Paulista de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, em São Paulo “O trabalho pode ser exaustivo, pesado, insalubre e trazer efeitos imediatos, como intoxicação e traumas. Mas mesmo que o trabalho não tenha nada disso, só por ser trabalho vai tirar a criança do seu momento específico de vida que é brincar, fantasiar e elaborar o mundo que a cerca à sua maneira. E a criança precisa de tempo e condições para fazer isso.” (2011) 4.
Além disso, muitas crianças também se encontram em situações de vulnerabilidade social e abandono, sendo agravado pelo cenário de pandemia presente no Brasil e no mundo. Usurpar da criança seu direito de existir, de estudar, brincar, socializar com outras crianças e também adultos, assim como segrega-la das demais por qualquer motivo, é um costume inaceitável que deverá ser combatido, para que atos tão tristes acontecidos ao longo da história da infância jamais se repitam.
REFERÊNCIAS:
1. ÁRIES, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.Disponível em <https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/o-conceito-de-infancia-ao-longo-da-historia-ocidental.htm>. Acesso em 23 out. 2021.
2. BOAS, Gilmara. Retrospecto histórico da pessoa com deficiência na sociedade. 2018. Disponível em <https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/direito/retrospecto-historico-da-pessoa-com-deficiencia-na-sociedade/48757> Acesso em 24 out. 2021.
3. MORELIM, Raquel Marques. O Conceito De Infância ao Longo da História Ocidental. s.d. Disponível em <https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/o-conceito-de-infancia-ao-longo-da-historia-ocidental.htm>. Acesso em 23 out. 2021.
4. MENDES, Roberto Teixeira. Trabalho infantil atrapalha desenvolvimento da criança, diz pediatra. 2011. Disponível em http://primeirainfancia.org.br/trabalho-infantil-atrapalha-desenvolvimento-da-crianca-diz-pediatra/. Acesso em 23 out. 2021.
5. Imagem da internet via INSTITUTO ITARD. Recém Nascido sendo abandonado na roda dos enjeitados. Disponível em <https://institutoitard.com.br/10-fatos-da-historia-da-educacao-especial-que-voce-precisa-saber/> Acesso em 25 out. 2021.
Violência eclesiástica na Idade Média.
O significado da palavra violência como conhecemos hoje tem suas atribuições por conta da forma como a sociedade encara essa violência, algo que não se assemelha à sua formatação durante o período medieval que antecede as cruzadas, isso acontece porque o significado da palavra aplicada àquela época tem uma conotação diferente da qual estamos acostumados. Uma vez que a historiografia define a violência física na Idade Média como algo cotidiano e institucionalizado, o que se considera como violência à época tem um significado diferente, de transgressão mais do que de uso de força física.
Durante os séculos IX e XI, encontra-se na Europa uma Igreja Católica entregue a violência e as formas brutais de tratamento para com seus servos. É importante dizer que a violência que conhecemos hoje não é menos significativa que àquela época. Mas que as forças que são utilizadas hoje não nos permitem imaginar que houve outrora um mundo mais violento.
“O que nos separaria daquele passado não seria a eficiência dos estados modernos em controlar o emprego da força. A diferença residiria em outro aspecto: no fato de que, há um milênio, ocorrências deste tipo não eram apenas sentidas como ruptura da normalidade, já que o belicismo teria sido parte da mentalidade comum e do comportamento difuso.”
RUST, Leandro Duarte. 2016. Pg. 02
O que significa dizer que os Estados modernos controlam o uso da força devido a mentalidade que a sociedade tem nos dias de hoje em controlar essa violência, mesmo que representativamente, uma vez que ela é usada para justificar diversas questões na atualidade, como embargos econômicos e controle de áreas de interesse comercial. No período medieval não havia essa mentalidade de que o mundo deveria alcançar uma paz global sem o uso de armas, pois o uso dessas armas era parte da sua cultura e da sua mentalidade.
Como fazia parte da mentalidade da época esse uso cotidiano da violência, até a Igreja Católica se viu forçada a entrar nesse contexto, onde era comum o uso de castigos e punições físicas contra heresias. Porém, uma vez que ideologicamente a Igreja combatia esse tipo de violência, começou uma série de reformas juntamente com os cavaleiros (que naquela época faziam o que quisessem com as classes mais pobres, desde saques a assassinatos) para que essa classe mais pobre fosse protegida. E os cavaleiros não poderiam mais atacar, pilhar ou saquear. Eles, visando as recompensas da igreja, faziam então um juramento por um princípio de fé, que protegeria essa classe mais pobre. E pobre, nesse contexto, tem um sentido de “desarmada”, essas assembleias tinham o nome de “movimento da Paz de Deus.”
Esse posicionamento da Igreja a favor do desarmamento, uma vez que o belicismo era algo comum na época, elevava o Clero a um patamar de uma classe que controlava ideologicamente as outras. Pois abdicavam das armas por uma questão de fé, como explica Rust.
“Eles fixavam um código social no qual os eclesiásticos apareciam como ocupantes de uma posição única, distinta do modo de vida dos laicos. A principal diferença residiria, paradoxalmente, no desarmamento. Pois o clero não era “pobre” por opção, mas por um princípio de fé.”
RUST, Leandro Duarte. 2016. Pg. 03
Utilizando-se dessa ideologia desarmamentista, a Igreja se posicionava e dava a imagem de uma instituição de paz, de clemência e que protegia e cuidava da população mais pobre, uma imagem de pureza e da castidade que guiava as mentes para um plano superior livre das violências da laicidade daquele mundo feroz.
Os membros do Clero, no entanto, eram também membros da classe dominante daquela época e por causa disso, em caráter de exceção, eram encontrados praticando costumes da classe dominante. Bispos cavalgavam para a guerra e participavam dela, não como membro da Igreja, mas como membros da Aristocracia. Esse tipo de comportamento, mesmo o membro eclesiástico estando praticando fora do corpo do clero, gerava desconfiança e fazia com que ele perdesse credibilidade, uma vez que a Igreja e seu corpo adotava voluntariamente a castidade e a renúncia a essa violência física. Por esse motivo o Bispo ia para a Guerra não como membro da Igreja, mas como aristocrata.
E o motivo pelo qual esse Bispo guerreava era o motivo pelo qual cada cidadão guerreava, por domínios, terras e motivos econômicos de proteção de seu patrimônio.
“Supostamente, sua inclinação não era espontânea. Em outras palavras, como guerreiros, os bispos teriam sido estrangeiros do seu próprio oficio ou maus exemplos de pastores de almas. ”
RUST, Leandro Duarte. 2016. Pg. 05
Surgiu então uma contradição nas ideologias impostas pela Igreja. Pois, os mesmos membros que iam guerrear, ainda que separados da igreja, legitimavam a violência, que era algo institucionalizado ao mesmo tempo que controlavam idelogicamente essa violência. O que ocorre é que nesse período, a concepção que se tinha da palavra violência, do latim “violentia”. Era outra totalmente diferente da que conhecemos nos dias de hoje.
Podemos usar um exemplo de um caso que ocorreu com o exército dos Arduínos, que em comparação com Leão, cometeu atrocidades pelo reino itálico em busca de poder e controle social. Porém, para a mentalidade da época, apenas os Arduínos cometeram atos de violência para com a igreja e a sociedade da época. Pois o derramamento de sangue era aceito, uma vez que fosse em nome da Igreja ou da manutenção da ordem pública. Uma vez que esses mesmos atos eram cometidos para subverter essa ordem, a ordem da Res Publica, eram condenados e considerados atos de violência.
“A violentia era o nome cabível à obstrução da ordem pública. Dizê-lo não significava, per se, referir-se a agressões e intimidações pela força. Usurpar uma função como a de um conde ou bispo, ou desviar uma causa dos locais autorizados a dizer a justiça poderia ser descrito como uma conduta violenta –“
RUST, Leandro Duarte. 2016. Pg. 07
Colocados ideologicamente num patamar superior e livre da violência como princípio, o clero tinha, visto de fora, uma visão muito mais aprofundada da violência que assolava o mundo medieval a qual eles faziam parte. Pois o derramamento de sangue e o uso da força bruta por si só não eram considerados atos de violência. Era necessária essa visão para que a Igreja pudesse manter o controle social por meio da coerção, da intimidação, no dia a dia da vida do homem simples.
Porém, toda essa trama do uso da força, seja ela ideológica ou física é mais complexa dentro desse mundo do que parece, uma vez que ela não era sempre aceita sem resistência, pois ela acarretava em diversas relações sociais de lutas internas e o que só fazia a guerra ser mais legitimada do que em nenhum outro tempo.
A Igreja, além de tudo, possuía ainda a missão de espalhar a palavra de Deus para onde fosse, e manter a ordem, enfrentando qualquer tipo de resistência. E para isso se utilizada dessa força, dessa “violência legítima” que era costumeira para que se resistisse a ordem vigente. As guerras santas, após esse período, foram tão legítimas quanto qualquer outro movimento dentro desse contexto, mesmo sendo umas das mais violentas de todos os tempos.
É possível perceber então, que o entendimento por trás da violência que se instaurava na época era da manutenção da ordem católica e da manutenção das hierarquias de classe vigentes. E que no período, mesmo sendo ele extremamente violento, onde o uso da força era diário e rotineiro, o conceito de violência fundado pela Igreja então, só era considerado, se ferisse essa ordem. E que todos o movimento a favor da aristocracia e da Espada tinha o aval e a legitimidade da igreja para violentar, matar e cometer a atrocidade que fosse, contanto que fosse em nome de Deus. Criando uma instituição bélica e de guerra para sacramentar essas instituições.
Cantigas de Santa María, de Afonso X
Sacramentari de Santa María de Vilabertrán (Girona), actualmente na Biblioteca Nacional de Francia