Sinopse: Uma manhã de treino com seu amigo Styles, parecia normal, até não ser mais...
NotaAutora: Tive esse ideia nesse feriado então resolvi escrever... aproveitem
Aviso: +18! Conteúdo explícito.
Você ainda bocejava quando encontrou Harry no tapete de treino, na academia participar dele, vestindo aquela camiseta branca larga e shorts de compressão pretos que faziam qualquer um perder o foco, ele te cumprimentou com aquele abraço apertado que fazia todas as manhãs desde que começaram a treinar juntos antes de uma longa turnê começar.
— Atrasada — ele cantarolou, esticando os braços acima da cabeça, a barra da camiseta subindo o suficiente para expor uma faixa de abdômen definido e a linha de pelos descendo da barriga. — Vamos, vamos, o aquecimento não vai se fazer sozinho.
— Não estou atrasada. — Você revirou os olhos, mas se ajoelhou no tapete ao lado dele. — Você que chegou cedo.
Estava vestindo seu conjunto de exercícios novo, um shortinho rosa claro e top combinando, aparentemente Harry também havia gostado, porque o olhar dele já estava viajando pelo seu corpo desde que você chegou.
— Eu disse às 6:00, são 6:15, você que precisa de mais disciplina. — Ele já estava atrás de você antes que pudesse reclamar, mãos grandes e quentes apoiadas em seus ombros. — Vamos começar com os alongamentos, suas pernas primeiro.
Você obedeceu, deitando-se de costas enquanto ele se posicionava entre suas pernas abertas, pegando seus tornozelos com facilidade, mas você não estava desconfortável, porque o toque de Harry era respeitoso, pelo menos no começo.
— Dobre os joelhos em direção ao peito — instruiu, e você fez, sentindo o ar saindo dos seus pulmões num suspiro controlado.
Mas então ele segurou seus joelhos.
— Harry...
— Ainda não terminou.
As mãos dele escorregaram para baixo, segurando suas canelas, dobrando você ainda mais, a posição te deixava completamente aberta para ele, foi aí que você sentiu, algo quente e firme contra o tecido do seu short e ele certamente não tentava esconder onde estava se estragando.
— Harry ?
Você só podia estar imaginando coisas, era só por conta dessa posição estranha, vocês eram só amigos, treinavam juntos há meses.
Isso não estava acontecendo.
— O que foi?
— Você está encostando em mim — você sussurrou, tentando manter a voz firme, mas suas pernas tremeram nas mãos dele.— Sabe seu...
— Eu sei. — Ele não parecia nenhum pouco incomodado.
— Isso já não é mais um alongamento, né? — Você podia ouvir sua própria respiração, os batimentos cardíacos acelerados.
— Não mesmo. — Ele deu aquele maldito sorriso que te acompanhava nos seus sonhos há mais tempo do que você estava disposta a admitir.
Ele empurrou os quadris para frente e a pressão entre suas pernas aumentou, sem querer um pequeno gemido, talvez de surpresa ou prazer escapou da sua garganta antes que pudesse impedir, que fez os olhos dele brilharem.
— Harry, acho melhor nós paramos...
— Mas você não quer que eu pare, quer?
Você não sabia o que responder então Harry decidiu por vocês dois, suas mãos soltaram suas canelas foram para seu short, especificamente no meio, onde a linha de costura esticou e não resistiu, quando ele rasgou bem na linha central, fazendo um buraco perfeito para ele.
— Harry! — Você ofegou, sentindo o ar da manhã arrepiando sua pele, nua.
— Porra... Você vinha treinar todo esse tempo sem calcinha? — Você não conseguiu responder, seu rosto ficando em chamas. — Eu compro outro short para você. — Sorriu enquanto ele se inclinava sobre você. — Eu compro um de cada cor. — Ele puxou o próprio short de compressão para baixo o suficiente para libertar o pau, já duro, a cabeça rosada e inchada apontando diretamente para você. — Mas só dessa vez... Me deixa te foder, só dessa vez e depois eu volto a ser só seu amigo.
Você já tinha imaginado isso antes , claro que tinha, mas ouvir aquilo, estar ali com ele, era completamente diferente.
Você abriu a boca para dizer algo, talvez dizer que aquilo era completamente errado, talvez um "sim, por favor" que você se recusaria a admitir depois, mas a única coisa que saiu de seus lábios foi o nome dele num gemido quando a cabeça do pau dele encontrou sua entrada, ele não entrou de imediato, em vez disso, deslizou para cima e para baixo, espalhando a própria umidade e a sua pelo caminho, enviando choques de prazer pela sua espinha.
— Olha só — a voz dele estava mais rouca agora. — Você já está bem molhadinha para quem tentou dizer pra eu parar.
Então ele te penetrou lentamente, cada centímetro entrando fez você arquear as costas no tapete, seus dedos se cravaram nos antebraços dele, nas tatuagens que você conhecia tão bem.
— Puta merda...—Você sibilou, não acreditando que aquilo realmente estava acontecendo.
Quando ele finalmente se enterrou completamente, a base do pau dele pressionada contra sua entrada já estava um pouco dolorida de ser tão esticada, então ele começou a se mover dentro de você , alternando entre brutal deliciosa e docemente lenta. A cada estocada, a cabeça do pau dele pressionava um ponto dentro de você que fazia suas pernas tremerem.
— Isso...— Aquela voz rouca, estava te desfazendo. — É assim que eu gosto... Você aberta pra mim... E gemendo desse jeitinho... — As estocadas ficaram mais rápidas, sua mão desceu entre vocês dois, os dedos encontrando seu clitóris pressionando contra seu ponto sensível em círculos que combinavam com o movimento dos quadris. — Você sabe o que eu pensei nisso a noite inteira? Depois do treino de ontem quando te vi com esses seus shorts, eu só pensava em rasgar e te foder assim.
Suas mãos soltaram os antebraços dele e subiram, os dedos se enrolando nos cachos molhados de suor na nuca dele, rosto dele estava vermelho, os olhos verdes dele estavam brilhando, vidrados, tão dilatados que quase não dava para ver a cor.
Você não conseguiu se segurar puxando seu rosto para perto o beijando, ele gemeu dentro da sua boca, surpreso, como se ele não esperasse que você tomasse a iniciativa, mas ele correspondeu rapidamente, a língua quente brincando com a sua, ele beijou você de volta com a mesma intensidade que estava te fodendo, isso foi o suficiente para que ondas de prazer se espalhassem para cada extremidade do seu corpo, sua boceta se contraindo em espasmos incontroláveis ao redor dele.
— Porra...Você vai me matar, me apertando assim... — Ele grunhiu, os dedos se cravando na sua carne, você sabia que o controle dele estava finalmente se desfazendo completamente.
Harry enterrou o rosto no seu ombro e gozou com um gemido abafado, os quadris empurrando para cima uma última vez, jorrando dentro de você em espasmos que pareciam não ter fim, nunca um homem pareceu gozar tão sexy como ele, os sons que ele fez ficariam gravado na sua memória para sempre.
Por um longo minuto, ninguém se moveu, o peso dele parecia maior contra você, a respiração ofegante dos dois se misturando e pele colada de suor e outras coisas, o coração dele batendo forte contra o seu peito ou era o seu coração?
Era impossível dizer.
— Ei.... — Ele foi o primeiro a falar.
— Hm?
— Eu... — Ele hesitou um pouco saindo de dentro de você.— Eu não vou pedir desculpas.
— Eu também não iria querer que fizesse isso.
— Bem, acho melhor voltarmos ao treino, então.
— Idiota! — Bateu no peito dele fazendo sair de cima se você. — Como vou treinar assim?
— Ah! É! — Ele coçou a nuca. — Então... chuveiro?
— Seu pervertido — Falou se levantando com a ajuda dele. — Nós mal acabamos.
O canto da boca dele subiu devagar e você pode ver o pau dele já meio duro de novo.
— Não ouvi você dizer não — ele murmurou, se aproximando segurando sua cintura. — Chuveiro? — Ele repetiu com os olhos fixos no seu.
Ele mesmo havia dito que era só dessa vez e já estava chamando para mais uma?
Mentiroso.
Mas vocês dois sabiam que não ia ser só dessa vez.
Vocês sabiam que o termo "amigo" tinha ido embora no momento que ele rasgou seu short, então não hesitou em dizer:
Personagens: Professor! Harry x Estudante! Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Harry.
Harry
Desde que Aurora saiu do hospital, eu dormi na casa dela todas as noites. Eu sempre dizia que era para garantir que ela descansasse, para ela se sentir segura.
Mas, no fundo...
Eu sei que era porque eu precisava daquilo tanto quanto ela.
Aurora não conseguia mais dormir naquela cama, então eu fui com ela comprar uma nova. O atendente disse que éramos "uma família linda", eu vi Aurora travar por um segundo, mas algo em mim também estremeceu, só que era uma pequena pontada de alegria idiota.
Uma família?
Com ela?
Eu não devia nem pensar nisso...
Eu acabei de sair de um casamento fracassado, eu não deveria sentir nada, muito menos aquela vontade de pertencer a alguma coisa de novo.
Aurora estava diferente, mais quieta, mais frágil, mais próxima. Ela não conseguia ficar sozinha por muito tempo e sinceramente eu gostava, eu queria que ela precisasse ainda mais, o suficiente para um dia ela finalmente admitir que me queria ali com ela.
Era errado gostar disso?
Um pouco.
Com certeza.
Mas eu gostava.
Talvez mais do que deveria.
Eu a ouvi chorar algumas vezes no banho, ela deixava todas as portas abertas agora, isso dizia mais do que qualquer palavra que ela poderia me dar.
Aurora ainda precisava de mim.
Eu estava sendo paciente, o melhor que eu conseguia ser, útil, previsível, presente, até jantei com Josh e Lily quando eles passaram lá e consegui não mostrar o quanto eu realmente não suporto a Lily, tudo para Aurora não ter que lidar com mais nada, tem sido desgastante, mas ver ela só um pouquinho melhor já era o suficiente.
Esse fim de semana eu não podia continuar dormindo lá, era o meu fim de semana com as meninas, minha pequena Aurora já tinha me ligado umas cinco vezes usando o celular da Violeta, repetindo que estava empolgada para dormir na casa do papai. Amélia passaria só por algumas horas com a gente, mas eu queria aproveitar cada minuto com ela também, até convenci a Isadora a ficar em casa.
Eu precisava passar tempo com elas e mesmo sem querer admitir eu estava começando a me sentir culpado por estar dando tanta atenção ao Liam.
Eu não contei à Aurora sobre o fim de semana com minhas filhas, só disse a ela que tinha algumas coisas para resolver e que dormir no meu apartamento seria melhor. Ela concordou sem hesitar, alegando que estava bem, que eu não precisava mais ficar ali todas as noites, eu não acreditei muito nisso, eu queria dizer para ela não ficar sozinha, queria pedir para a mãe dela ficar ali, mas acabei aceitando sua resposta, ela precisava recuperar o controle da própria vida e eu não podia ser o homem que iria tirar isso dela.
Antes de ir para a casa da Violeta naquela tarde eu parei no mercado, enchi meu carrinho de bobagens, pipoca, chocolate, suco de caixinha, salgadinho e muitos doces, besteiras o suficiente para uma noite de cinema completa. Eu estava animado de verdade e isso me assustou um pouco, a ideia de estar feliz outra vez, porque estava tudo dando certo e sempre me perguntava até quando iria durar.
Quando cheguei na casa da Violeta para pegar as meninas, Aurora praticamente se jogou do sofá para correr até mim gritando "papaiiii" e pulou em meu colo com tanta força que meu braço machucado latejou.
- Oi. - Violeta falou baixo. - O que aconteceu com você? Entrou numa briga de novo?
- Oi, nada demais, não se preocupe. - Não estava a fim de falar do Bryan, não com ela. - Como vocês estão?
- Bem, Aurora está muito animada para ir hoje. - Violeta avisou, ajeitando a mantinha de Amélia me entregando. - Se puder, traga-a de volta quando escurecer?
- Tá bom, eu cuido das duas.
Em casa, deixei Amélia no bercinho portátil e fiquei observando-a um pouquinho, talvez comparando-a com Liam, mas logo minha atenção se voltou para Aurora, que já tinha tirado os sapatos e pulava no sofá animada demais para ficar sentada. Preparei tudo rápido, travesseiros, cobertores, as luzes baixas e a comida na mesa de centro.
Aurora sentou ao meu lado com as perninhas abertas, o balde de pipoca entre elas. Amélia ficou no meu colo, muito curiosa com o meu gesso, ficava passando a mãozinha nele. Isa estava no outro lado do sofá, olhos no celular, às vezes levantava o olhar quando a tela da TV clareava mais, mas não dá para exigir muito entusiasmo de uma adolescente.
Quando o filme terminou, levei Amélia de volta para Violeta, pedi a Isa que colocasse Aurora para dormir. Assim que estava em casa de novo, Aurora já estava apagada, agarrada no coelhinho rosa, dei um beijo na testa dela e saí de fininho, depois fui até o quarto da Isa e ela estava no computador.
- Nada de ficar até tão tarde, hein! - Articulei, encostado no batente.
- Tá. - Ela respondeu, sem olhar, mas tinha um sorrisinho ali, eu vi, isso me deu a sensação de que eu não estava falhando completamente.
Minha filha, por mais durona que estivesse sendo agora, ainda estava ali.
Fechei a porta devagar, quando cheguei à sala, estava uma bagunça completa, joguei lixo, guardei brinquedos, coloquei as louças na máquina, arrumei os cobertores, sorrindo demais para quem estava exausto.
Abri uma cerveja e me sentei no sofá, colocando alguma coisa qualquer na TV só para passar o tempo até eu simplesmente apagar ali mesmo.
...
A campainha tocou duas vezes, eu acordei com o som e o pescoço doendo por dormir torto no sofá, olhei o relógio no celular era 1:07 da manhã.
Quem seria essa hora da madrugada?
Violeta?
Aurora?
Anderson?
Minha mãe?
Levantei meio tonto, ainda sem saber o que estava acontecendo, com gosto de cerveja na boca fui até a porta e quando abri meu coração simplesmente esqueceu como funcionava.
Aurora estava parada ali com uma camisola de seda rosa, o rosto cansado, olhos inchados como se tivesse chorado, Liam dormindo no colo dela, a mãozinha agarrada na mãe.
- Eu... - Ela respirou fundo, quase como se precisasse de coragem para conseguir falar comigo.
- Posso dormir no seu sofá?
Eu não respondi, porque eu não consegui, minha cabeça entrou em curto, minhas filhas estavam ali. Aurora estava na minha frente com o nosso filho no colo, de madrugada, pedindo para ficar perto de mim porque não conseguia ficar sozinha.
- Desculpa. - Murmurou, dando um passo para trás quando eu fiquei a encarando.- Eu não devia ter vindo, eu nem sei o que eu... Eu vou embora.
- Aurora, espera.
E, antes que eu pensasse em alguma coisa, o pior cenário possível aconteceu.
- Mas o que é isso? - Isadora surgiu no corredor, encarando Aurora e depois o bebê.
- Oi, Isa... - Aurora tinha as bochechas vermelhas de vergonha.
- O que você está fazendo aqui? - Minha filha perguntou, franzindo a testa. - E esse bebê? Você está de babá de novo?
- Isa, você deveria estar dormindo, vá para o seu quarto. - Adverti.
- Você vai me dizer o que está acontecendo aqui? - Ela insistiu, cruzando os braços. - Como ela sabe onde nós moramos?
- Amanhã nós falamos sobre isso, agora vá para o seu quarto.
- Harry! - Protestou.
- Agora, Isadora. - Falei num tom que a fez recuar e sair dali batendo a porta do quarto.
- Eu esqueci, desculpa. - Aurora murmurou mordendo o lábio. - De verdade, eu vou embora.
- Ei! - Chamei baixinho. - Não precisa se desculpar, já aconteceu. - A guiei para dentro, trancando a porta. - Vem, vamos levar ele lá no meu quarto.
- Seu quarto? - Seus olhos se arregalaram.
- O berço da Amélia está lá, Liam ficaria mais confortável e você também, eu durmo no sofá.
- Não precisa, Harry, eu durmo aqui mesmo.
- Eu não posso deixar.
- Eu durmo no sofá. - Insistiu, baixinho. - Essa é sua casa.
- Aurora, eu durmo no sofá, já até estou acostumado. - Brinquei, mas o olhar dela ficou ainda mais triste. - Tá tudo bem, vamos.
Levei-a até o meu quarto, rezando para que Isadora não estivesse ouvindo tudo atrás da sua porta. Assim que entramos, percebi seu olhar curioso por todo o espaço, minha cama, minhas roupas um pouco espalhadas.
O berço da Amélia ficava do lado da cama, coloquei Liam com cuidado, ele resmungou um pouquinho, mas continuou dormindo, Aurora ficou ali parada, olhando tudo.
- Seu quarto é bonito.
- Obrigado, só não repare essa bagunça. - Sorri sem jeito, tirando uma meia da cabeceira.
- Tudo bem, fui eu quem invadiu seu espaço, de novo. - Ela finalmente sentou na beirada da cama.
Meu cérebro começou a agir como se eu fosse um adolescente idiota que nunca viu uma mulher antes e imaginou vários cenários inapropriados. Forcei-me a me mexer e parar de pensar, então preparei a cama, ajeitei travesseiros, cobertor e a luz do abajur para que ela pudesse olhar o Liam durante a noite e depois fiquei ali, ao lado do berço, tentando ignorar o fato de Aurora estar sentada na minha cama. A cama onde eu passava noites pensando nela, onde eu tentava parar de pensar nela.
- Então, boa noite. - Murmurei, indo em direção a ela. - Se precisar de alguma coisa, me chama, qualquer coisa, tá?
Me inclinei, deixando um beijo em sua cabeça e me virei para sair, mas os dedos dela seguraram a barra da minha camiseta.
- Fica. - Pediu tão baixinho que quase não ouvi.
- O que? - Tive que perguntar, para ter certeza de que não era minha mente pregando uma peça.
- Fica!
Eu e ela?
Numa cama de novo?
O que estava acontecendo?
- Mas... - Minha voz falhou. - Aurora...
- Eu confio em você. - Ela proferiu, olhando fixamente em meus olhos.- Eu sei que você não vai fazer nada.
Como diabos eu iria dormir se Aurora estava na minha cama?
- Docinho...
- Por favor....
- Tá bom.
Eu não resisti àqueles olhos.
Eu a vi se deitar e puxar as cobertas para si, depois eu deitei, longe o bastante para não encostar nela, mas ainda assim eu podia sentir o cheiro dela. Aurora virou para o meu lado, eu não estava pronto para encará-la, não ali, não daquele jeito, então virei para o teto.
Aurora estava na minha cama.
Aurora estava na minha cama.
Aurora estava na minha cama.
- Harry? - Ela me chamou, me tirando dos devaneios.
Merda.
- Oi. - Não conseguia respirar direito.
- Você está bem? Está duro.
Ela viu?
- Como? - Perguntei quase engasgado.
- Está tenso demais, está desconfortável comigo aqui? - Soltou uma pequena risada.
- Ah! - Soltei um suspiro de alívio. - Não... É só estranho um pouco, mas eu tô bem.
- Se você quiser, eu saio.
- Não.
Eu só queria que ela dormisse, queria que ela fechasse os olhos, que parasse de olhar para mim, ficar ali ao lado dela era tortura, mas era a única coisa que conseguia fazer, porque ela me pediu, ela precisava de mim, ela devia estar com medo e eu estava sendo um idiota pensando todas aquelas coisas depois de tudo que ela passou.
Mas eu era um homem, um homem recém‑divorciado, que não via uma mulher na minha cama há tempo demais para admitir, estava realmente difícil fazer o certo e não ser um idiota movido por instinto primitivo e cérebro de troglodita.
- Boa noite, H.
Virei meu rosto por um segundo para olhá-la, ela estava enrolada no meu cobertor, o cabelo meio bagunçado no travesseiro, as bochechas ainda vermelhas, eu só conseguia pensar em puxá-la mais para perto, abraçá-la e não deixar nada chegar perto dela nunca mais.
- Boa noite. - Foi tudo o que consegui dizer.
Ela acabou adormecendo rápido, eu fiquei ali parado, sem me mexer, sentindo cada mínimo movimento dela, seu corpo relaxado, o sono pesado, a confiança de dormir comigo ao seu lado. Eu virei de lado, longe dela, quase caindo da cama, eu só precisava ficar quieto e aguentar firme até o amanhecer.
...
Acordei com cada músculo protestando, o ombro latejava, o pescoço travado de ter passado a noite inteira tentando não tocar nela. A luz da manhã já invadia o quarto, incomodando meus olhos. Mexi-me um pouquinho quando senti um peso no meu braço, quente e macio, meu coração disparou num ritmo descompassado.
Merda.
Virei a cabeça devagar, com medo de confirmar o que estava me segurando, mas Aurora havia se aproximado durante a noite, o rosto dela estava enterrado no meu ombro, o cabelo ruivo espalhado sobre meu braço e o travesseiro, a mão segurava minha camiseta, os dedos relaxados no sono profundo.
Em que momento ela acabou ali?
Eu devia me afastar, mas não me mexi, deixei o braço imóvel e apenas respirei o cheiro dela, senti o calor do corpo dela em minha pele, até a porta do meu quarto simplesmente se abrir.
- PAPAI! - Um pequeno furacão de energia pulou na cama em cima de mim.
Aurora acordou com um sobressalto, sentando-se de repente, os olhos arregalados de susto, procurando entender onde estava, minha filha congelou, ajoelhada na cama entre a gente, olhou para a mulher desconhecida, depois para mim, seu rostinho expressivo passou da alegria para susto e então ela se agarrou a mim.
- Papai, que é? - Ela apontou um dedo para Aurora. - Cama do meu papai?
- Aurora, amor, calma... - Acariciei seus cabelos. - Ela é...
Isa apareceu no batente da porta, nos interrompendo quando nos viu ali simplesmente soltou um "Porra" alto o suficiente para todos ouvirem. Ela olhou para mim, para Aurora desgrenhada e corada na cama, para o cenário óbvio e comprometedor, vi a expressão dela se transformar no que parecia ser desgosto.
- Isa, espera, não é o que... - Fui rápido em dizer.
- Maninha, vem. - Ela cortou minha frase no meio. - Deixa o 'papai' acordar em paz. - Se aproximou, tentando tirar sua irmã de cima de mim.
- Papai! - Aurora insistiu, se agarrando ao meu braço.
- Aurora, vem logo! - Isa insistiu, os olhos ainda cravados em mim, furiosos.
- Não quero!
- Eu compro donuts rosa para você!
- Eba! - Ela deslizou da cama e saiu pulando para fora do quarto.
Isadora ficou parada por mais um instante nos olhando, antes de a porta do quarto se fechar com força. O silêncio ficou desconfortável, Aurora estava com o rosto totalmente vermelho, ela não olhava para mim, encarava o colchão.
- Nossa, que constrangedor. - Comentei tentando aliviar o clima.
- Desculpe, eu não devia ter pedido para você ficar.
- Tá tudo bem, foi minha culpa, eu devia ter trancado a porta.
- Mas ela pensou que a gente... Você sabe. - Ela balançou a cabeça, ainda sem olhar.
- Eu sei. - Apertei a ponta do nariz com os dedos, sentindo a pressão de uma dor de cabeça chegando. - Eu vou falar com ela, vou explicar tudo, ok?
Liam começou a chorar, Aurora se moveu imediatamente, um suspiro de alívio quase audível por ter uma razão para fugir daquele momento, se levantou, foi até o berço, pegando nosso filho no colo.
- Ele deve estar com fome. - Sentou-se na beirada da cama, enquanto começava a amamentá-lo.
Eu fiquei parado onde estava, olhando a curva das costas dela, a linha do seu pescoço enquanto ela inclinava a cabeça, o movimento suave e íntimo do bebê no seu colo. Eu não podia ficar ali, era muita coisa para processar, levantei-me rapidamente, fui até a suíte, fechei a porta do banheiro e encostei as costas nela, deixando escapar um longo ar que não sabia que estava prendendo.
Porra!
Passei as mãos pelo rosto, sentindo a textura áspera da barba por fazer, a palma úmida de suor, meus dedos tremiam levemente.
Eu vou infartar assim.
Por que ela estava agindo tão normalmente?
Como se amamentar nosso filho no meu quarto, logo depois de sermos pegos pelas minhas filhas, fosse a coisa mais natural do mundo?
Eu mal conseguia respirar.
E ela só ficou ali?
Precisava me acalmar.
Virei o registro do chuveiro para o lado frio e entrei, o jato gelado bateu na minha pele, contraindo cada músculo, lavando o suor da noite e a tensão que grudava em mim.
Fechei os olhos e tentei esvaziar a mente,não pensar em Aurora, não pensar no peso dela no meu braço, não pensar em seu cheiro, não pensar em sua pele suave, não pensar na cena que havia acabado de testemunhar.
Na família instantânea e falsa que aquela imagem dela amamentando nosso filho na minha cama sugeria, tão fugaz e tão fodidamente desejável.
Quando saí, tremendo de frio, envolvi a toalha na cintura, o cheiro do meu sabonete havia substituído o dela no meu braço. Abri a porta do banheiro, Aurora ainda estava deitada de lado na minha cama novamente, Liam agora de bruços sobre seu peito, os dois um emaranhado perfeito de relaxamento pós-mamada.
Ela percebeu minha presença, seu sorriso desapareceu, quando seus olhos baixaram para a toalha amarrada na minha cintura, um rubor súbito subindo do pescoço até suas bochechas, antes de se desviarem rapidamente para a janela.
- Desculpa, eu vou me vestir.
Corri até meu closet, peguei minhas roupas e retornei ao banheiro em pânico, fechando a porta mais uma vez.
- Se acalma. - Encarei meu reflexo no espelho embaçado. - Não vai fazer merda, agora!
Vestir-me com dificuldade com o braço engessado, cada botão da camisa levava uma eternidade. Ao finalmente sair, ela estava de pé no meio do quarto, segurando Liam num suave balanço.
- Aí, céus, eu não sei como sair daqui agora. - Murmurou, envergonhada. - Suas filhas me viram e eu não consigo parar de pensar nisso.
- Fica. - A palavra saiu antes que eu pudesse impedir.
- O que?
- Acho que já está na hora delas conhecerem o irmão, não acha? - Me aproximei, mas parei a uma distância segura.
- Sim, mas não assim.
-Eu também não queria que fosse assim. - Deixei que Liam agarrasse meu dedo indicador. - Mas esse garotinho tem irmãs incríveis, eu queria que ele pudesse conhecê-las. - Abaixei, deixando um beijinho no topo de sua cabecinha macia. - Então fica, por favor.
- Harry...
Sentei-me na beirada da cama, ela hesitou por um segundo, então sentou também, ao meu lado mantendo Liam aconchegado no colo, eu continuei com meu dedo na mãozinha dele, sentindo a pegada minúscula e determinada.
- Eu queria muito que você pudesse tomar café conosco hoje. - Olhei para nosso filho entre nós. - Você é importante para mim, Aurora e minhas filhas também são, talvez não seja fácil hoje, mas com o tempo elas vão entender e amar esse pequenino aqui e espero que gostem de você também. - Confessei sem ter coragem de olhá-la. - Eu não vou te forçar a nada, se quiser ir eu não vou ficar bravo, mas queria muito que você ficasse.
Eu arrisquei levantar o olhar e encontrá-la, ela mordeu o lábio, pensativa, eu conhecia aquele gesto.
Ela estava com medo.
- Harry...
- Por favor... Diz pra mim que você vai ficar?
Aurora ficou parada e eu senti uma pontada no peito se formando, eu comecei a repassar tudo o que disse, procurando onde passei do limite.
Talvez eu tenha pedido demais.
Talvez não fosse a hora.
Ela tinha acabado de ser flagrada na minha cama pelas minhas filhas e eu estava ali, pedindo para ela tomar café da manhã como se isso não fosse nada demais.
— Você... — Iniciei, já sentindo remorso. — Você não precisa ficar, eu falei sem pensar, quer dizer… pensei, mas talvez não seja a hora certa. — Eu estava falando rápido demais. — Eu entendo se você quiser ir embora agora... — Quanto mais eu falava, mais parecia que estava tentando me justificar de algo que nem tinha acontecido. — Talvez seja melhor você ir mesmo, eu só achei que… esquece, acho que foi uma ideia ruim.
— Tudo bem.
— O quê? — Meu cérebro demorou alguns segundos para acompanhar.
— Tudo bem. — Ela repetiu, levantando o olhar. — Eu fico.
— Sério?
— Sim.
Uma parte de mim quis perguntar de novo se eu não tinha entendido errado, mas eu me segurei porque estava feliz demais para querer estragar isso.
Estendi a mão devagar, dando a ela todo o tempo do mundo para negar. Ela olhou, hesitou por uns dois segundos, então colocou a mão dela na minha, a pele macia encostando na minha palma áspera.
Aurora entrelaçou os dedos nos meus com cuidado, apertei o suficiente para ela saber que eu estava ali, nos levantamos juntos, no caminho até a porta do quarto ouvi vozes vindo do corredor.
Elas haviam voltado.
— Aurora… — Meu corpo ficou tenso de novo. — Tem certeza?
— Tenho.
Então eu abri a porta, guiando-a pelo corredor. Eu estava cansado de esconder, cansado de fingir que essa parte da minha vida não existia.
Eu não queria mais esconder a Aurora.
Apertei a mão dela um pouco mais forte, só por um segundo, então soltei quando vi Isadora na cozinha nos encarando.
Antes que pudesse falar qualquer coisa, a pequena Aurora veio correndo na nossa direção, agarrou minha perna com a força de uma criança de 3 anos.
— Papai! Compramos donuts.
— Que bom, meu amor.
Aurora e Liam acabaram ficando logo atrás de mim, quase se escondendo no meu ombro. Minha filha levantou a cabeça, observando-os com curiosidade genuína.
— Qual é seu nome?
— Aurora.
— O meu também! — Os olhos da pequena brilharam. — Gosta de donuts?
— Gosto.
— Eu também! — Ela apontou para o Liam. — Bebê.
— É. — Aurora concordou.
— Ele come donut?
— Ele é muito pequeno ainda — Aurora rebateu, rindo de leve. — Ele não come.
— Ah... Você é minha nova mamãe?
Senti o sangue subir para o rosto, o coração errar o ritmo, olhei para Aurora no mesmo instante, ela ficou completamente sem reação.
— Não. — Ela revidou rápido demais.
— Tá bom, já chega de interrogação. — Proferi rápido, me abaixando e pegando minha filha no colo antes que viesse a próxima pergunta. — Vamos comer, tá?
— Ela vai comer com a gente? — Isa, finalmente, abriu a boca, mas não era bem o que eu esperava.
— Vai. — Levantei o olhar devagar, depois que ajeitei a mais nova na cadeirinha.
Isadora arqueou a sobrancelha, puxou uma cadeira e se sentou, mordendo um croissant.
— Senta. — Eu me virei para Aurora, puxando a cadeira ao meu lado. — Por favor.
Ela assentiu e quando se sentou à mesa com minhas filhas, com nosso filho no colo, aquela sensação estranha voltou a apertar meu peito.
Eu estava mesmo fazendo a coisa certa?
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? — Isa indagou depois do silêncio constrangedor que tinha se formado. — Porque isso tudo é muito estranho.
— Isso não é conversa para agora. — Eu mencionei, passando geleia no pão de Aurora. — Vamos só comer, tá bom?
— Como você acha que eu vou comer depois de vê-la na sua cama? — O olhar dela deslizou para Aurora, depois para Liam. — Traindo o namorado, com um bebê.
— Não! — Aurora interrompeu rapidamente. — Não tem nada acontecendo entre mim e o seu pai.
— Mas aconteceu alguma coisa suficiente para você estar na cama dele. —Isadora cruzou os braços. — Tenho certeza de que seu namorado não ia gostar de saber que você passou a noite na cama de outro homem.
— Eles não estão mais juntos. — Falei antes de conseguir me conter. — Isa, nós podemos conversar depois?
— Depois, quando? — Ela me encarou, seu olhar desconfiado.
— Eu sei o que parece, eu sei. — Passei a mão pelo rosto. — Mas não é isso, eu só queria tomar um café da manhã com vocês, eu prometo que depois eu respondo qualquer pergunta, mas agora não tá bom.
— Eu não sei se eu quero conversar depois. — Isadora desviou o olhar, irritada.
— Maninha! — Aurora bateu a mãozinha na mesa.
Isadora olhou para a irmã sorrindo, pegou um guardanapo, aproximou-se da irmã, limpando sua boca.
— É bom você me explicar tudo mesmo, 'pai'.
— Eu vou.
...
O café foi um erro.
Eu percebi isso tarde demais para conseguir retroceder.
E, infelizmente, o jeito que tratei a Aurora não ajudou em nada, sem perceber cortei o sanduíche dela ao meio e empurrei o prato um pouco mais para perto, servi café quando vi a xícara vazia, ajustei o guardanapo no colo dela quando Liam se mexeu como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, porque para mim era.
Não consegui me conter, meu corpo fez isso antes da cabeça.
Minha pequena Aurora terminou primeiro, obviamente, acabando com o silêncio naquela mesa.
— Papai, quero descer. — Ela anunciou, chutando o ar com os pezinhos. — Quero brincar.
— Calma, amorzinho. — Isadora disse, limpando os dedos melados da irmã.
Isa se levantou e tirou a irmã da cadeirinha. Aurora acompanhou o movimento com os olhos, o corpo inteiro tenso, como se estivesse esperando uma deixa para ir.
— Harry… — Ela colocou a mão em minha coxa por debaixo da mesa. — Acho melhor eu…
Eu sei o que ela iria dizer antes mesmo de terminar a frase...
Ela iria embora...
— Bebê. — Minha filha interrompeu, puxando a barra do pijama dela. — Brincar, brincar com o bebê, papai.
Aurora hesitou, olhando para minha filha e depois para mim.
— É… — Ela proferiu, sem convicção.
— Filha... Sabe o que é? — Fui rápido em dizer. — O Liam é muito pequeno.
— Papai. — Ela fez um biquinho de choro.
— Tá bom. — Aurora aceitou a derrota vendo os olhinhos tristes da minha filha. — Posso levá-la um pouquinho lá fora? Assim você e a Isadora…
Eu não tinha muita escolha a não ser aceitar, afinal, Isadora me encarava seriamente.
— Tá.
— E então... — Isadora começou a falar logo que a porta da frente foi fechada. — Agora que o café acabou, você pode me explicar que porra foi aquilo?
— Eu não dormi com ela. — Falei rápido. — Não desse jeito.
— É, ela já disse isso. — Ela inclinou a cabeça. — Mas não muda o fato de que ela estava na sua cama e você estava agindo como se fosse… Sei lá, é normal ela dormir com você?
— Não foi o que você está pensando... Ela não estava muito bem, só isso.
— E isso agora é problema seu? — A voz dela subiu um pouco. — Desde quando?
— Bem... Não... Mas eu não podia deixá-la daquele jeito.
— Você já dormiu com ela em algum momento, não foi? Ninguém age assim quando não tem nada. — Quando não consegui dizer nada, o olhar dela se arregalou. — Porra, foi quando você ainda estava com a mamãe?
— Filha, eu vou te contar tudo, ok? — Respirei fundo e passei as mãos pelos cabelos. — Isso não vai ser muito fácil de dizer e ouvir também.
— Só fala logo a verdade.
— Aconteceu quando eu ainda estava com a sua mãe, ela era minha aluna, eu estava errado e não demorou muito para ela descobrir sobre sua mãe e sumir da minha vida.
— Porra, então você traiu realmente a mamãe? — Eu vi seus olhos começarem a lacrimejar. — Depois de dizer que sofreu tanto, você foi como ela?
— Eu sei, eu não tenho defesa para isso.
— Mas se Aurora saiu da sua vida, por que ela apareceu aqui? —Ela se levantou, andando de um lado para o outro. — E por que dormir na sua cama, Harry? Você tem sofá, se queria ser tão cavalheiro, mas eu não entendo deixar ela dormir com você! Se vocês não tem mais nada.
— Porque eu não consegui sair da cama depois que ela dormiu, não depois de ver ela daquele jeito.
— Você ainda tem sentimentos por ela?
Eu acho que a amo, mas eu não podia dizer isso à minha filha...
Era muita coisa para processar quando nem eu mesmo entendia direito o que estava acontecendo entre mim e a Aurora.
— Isa... Eu não vou falar disso com você. — Falei baixo.
— Você disse que responderia todas as minhas perguntas! Então, responda! Você ainda está apaixonado, ou seja lá qual for o sentimento que você tenha por ela?
— Eu não posso fingir que não sinto nada.
— Engraçado como você superou rápido demais para quem vivia dizendo que amava a mamãe. — Revidou-me, acusando com o indicador.
— Eu não acordei um dia com sentimentos por outra pessoa. — Falei devagar. — Eles já estavam lá.
— Então você nunca parou, mesmo depois da mamãe, mesmo depois dela ter ficado com outro cara e ter um filho dele. — Levantou os olhos para mim, agora com medo de verdade. — Ou... Não... — Parecia que eu podia ver seus pensamentos se formando e a verdade vindo à tona mesmo sem eu dizer nada. — Isso seria loucura... Não pode ser verdade... — Ela murmurou, juntando as peças — Ele não é de outro cara, não é? Ele é seu?
— Eu não planejei isso.
— Então você é mesmo o pai daquele bebê?
— Sim...
Ela ficou longos minutos paralisada, as lágrimas escorrendo por seus olhos.
— A mamãe sabe disso?— Ela finalmente conseguiu dizer.
— Sim, foi por isso que ela me expulsou de casa e acabou com tudo entre nós.
— Vocês vivem dizendo que eu podia confiar em vocês, mas vocês mentem, os dois, o tempo todo e escondem as coisas de mim.
— A gente só queria te proteger.
— Proteger do quê? Da verdade?
— De… de toda essa confusão, de machucar você.
— Mas machucou e machucou muito mais do que se você tivesse dito a verdade desde o começo.
— Me perdoa, Isa, eu sei que isso foi um erro…
— Isso não foi um erro, foi uma escolha. — Ela limpou as lágrimas com a manga da camisa. — E você escolheu mentir para mim.
— Eu sei que nada disso foi justo com você. — Passei a mão pelo rosto, tentando limpar algumas lágrimas. — Eu te machuquei e você tem todo o direito de me odiar... De novo... Eu sei que não existe nada que eu diga agora que vá consertar isso.
— Eu não quero ouvir mais nada! Eu preciso de um tempo longe de você… Porque agora eu não sei mais quem você é 'pai'.
Ela passou por mim sem olhar, quando a porta do quarto bateu, o silêncio tomou a cozinha, fiquei ali, parado, não importava o quanto eu tentasse fazer diferente agora, eu ainda estava pagando por todas às vezes em que falhei antes.
...
Isadora disse que ia ficar alguns dias fora, na casa de uma amiga. Eu tentei argumentar, tentei dizer que a gente podia conversar depois, que eu podia dar espaço sem ela precisar ir embora, mas ela só repetiu o que já tinha dito antes, que precisava de um tempo longe de mim.
Então eu deixei.
Eu não tinha escolha.
Quando a porta abriu de novo, pensei por um segundo idiota que fosse Isadora voltando, mas era Aurora, ela não estava mais de pijama, estava usando um vestido florido amarelo, o cabelo ruivo estava solto, seu rosto parecia diferente, as bochechas mais rosadas, os lábios também, talvez tivesse passado maquiagem. Minha filha estava segurando em sua mão direita enquanto Liam, que também parecia ter trocado de roupa, dormia em seu colo.
— Eu acabei passando na minha casa… — Aurora começou a se justificar antes mesmo de eu falar. — Eu precisava trocar de roupa e o Liam também, espero que não se importe, eu levei sua filha comigo.
— Tudo bem. — Balancei a cabeça, devagar.
— E… como foi com a Isadora? — Ela me observou por um segundo a mais do que o normal.
— Não foi bom. — Joguei minha cabeça para trás no sofá. — Ela foi para a casa de uma amiga, disse que precisava ficar longe de mim por um tempo.
— Sinto muito.
— Isso ia acontecer em algum momento. — Dei um meio sorriso só para acalmá-la. — Obrigado por cuidar dela, se você quiser ir agora… tudo bem.
— Você vai ficar bem? — Indagou, encarando-me.
— Sim.
Ela hesitou, olhou para Liam, depois para a pequena Aurora que já estava espalhando brinquedos no tapete.
— Eu posso ficar. — Se juntou a mim no sofá. — Acho que você precisa de companhia... — Ela balançou o Liam de leve. — Se quiser, podemos fazer alguma coisa, só para você distrair a cabeça.
— Papai, brincar! — Minha filha puxou a barra da minha calça, os olhos brilhando. — Brinca comigo.
Olhei para a Aurora, o desejo de só puxá-la e esconder meu rosto no seu pescoço e talvez desabar era quase insuportável, mas eu não podia me dar ao luxo de fazer isso.
— Você realmente não precisa fazer isso.
— Mas eu quero.
— Tá... Talvez eu tenha uma ideia...
— Isso é bom. — Ela sorriu.
— Que tal um passeio?
— Eba!! — Minha filha jogou as mãozinhas para cima.
Descemos juntos, Aurora me ajudou a acomodar as crianças no banco de trás enquanto eu prendia as cadeirinhas. Assim que saímos, minha filha pediu para colocar música infantil, fazendo Aurora rir de como minha filha de três anos me tem nas mãos.
No caminho, pensei que talvez fosse melhor passar antes no meu escritório. Lá tinha aquele carrinho duplo que comprei antes, isso ajudaria com os dois — especialmente com Aurora, que não parava quieta, fiz a curva sem comentar nada e segui até lá.
— Por que paramos aqui? — Questionou, franzindo a testa.
— Preciso pegar uma coisa no escritório, acho que vai ser útil para o passeio.
— Escritório? — Ela me encarou, confusa. — Que escritório, Harry?
Merda.
Eu ainda não tinha contado a ela.
— Ah… acho que você ainda não sabe.
— Não sei o quê?
— Eu não estou mais em Harvard, docinho.
— Jura? Por que você saiu? Lá era o seu sonho.
— Eu meio que fui educadamente convidado a me retirar.
— Por quê?
— Promete que não vai se sentir culpada?
— Eles descobriram sobre nós? — Indagou, apreensiva.
— Sim.
— Como? Eu pensei…
— Meio que seu pai contou ao reitor.
— Ah!! Merda! — Ela bateu a mão no colo. — Tinha que ser meu pai!
— Palavrão! — A pequena Aurora gritou do banco de trás. — Não pode palavrão! Papai.
— Desculpa... — Ela ficou vermelha de vergonha. — Ai, eu estou sendo uma influência ruim.
— Não se preocupe... — Ri ao vê-la pedir mais uma vez desculpas à minha filha.
— Bem… então você agora trabalha em um escritório? Está advogando de novo? — Perguntou, virando-se novamente para mim.
— Na verdade, eu e o Anderson, aquele cara que você conheceu na delegacia, vamos abrir o nosso próprio escritório.
— Fico feliz por você.
— Vai ter uma inauguração do escritório mês que vem — falei, tentando soar casual enquanto estacionava na minha vaga. — O Anderson quer fazer uma recepção. — Eu devia ter parado ali, era só um comentário, mas a ideia de não convidá-la me incomodava. — Se você quiser ir… — acrescentei, dando de ombros. — Vai ser uma coisa mais formal… Pessoas do meio jurídico, parceiros, funcionários, claro, esposas, namoradas, companheiros.
— Ah… Você tem certeza de que quer me levar a uma festa do seu trabalho? Não seria estranho?
— Estranho por quê? — Tentei soar casual, mas senti meu rosto esquentar. — É uma inauguração, Aurora, não é nada demais, o pessoal vai levar quem quiser, eu queria levar você.
— Eu vou pensar, tudo bem?
— Claro. Claro. — Me ajeitei no banco, tentando disfarçar o nervosismo. — Vamos, vou te mostrar o escritório e pegar o que eu preciso.
Entramos no prédio e saímos no nono andar, e as portas de vidro da recepção brilhavam. Fui mostrando o lugar, passando pelas salas, todas de vidro, até chegarmos à minha, quase no fim do corredor. Assim que abri a porta e Aurora entrou, arregalou os olhos.
— O que aconteceu aqui? — Ela perguntou, passando pelas pilhas de sacolas, caixas de fraldas e brinquedos espalhados pelo sofá de couro.
— Eu meio que tive uma compulsão em compras. — Cocei a nuca, me sentindo um idiota. — Saí comprando tudo isso para o Liam, mas como a Isa não sabia de nada, eu não podia levar para casa, tive que esconder tudo aqui. — Vi um sorriso bobo surgir no rosto dela enquanto ela tocava em um dos pacotes de fraldas. — Aqui! — Puxei a caixa maior e tirei o carrinho duplo, montando-o ali mesmo com facilidade. — Vai ser ótimo para sair com eles.
— Você pensou nisso para suas filhas?
— Pensei no Liam com minhas filhas.
Ver aquele sorriso de novo me deixou um pouco tonto, mas a pequena Aurora veio correndo, tentando subir no carrinho antes mesmo de eu terminar de ajustar os assentos.
— Bebê aqui? — Ela apontou, curiosa.
— É, o bebê e você.
Saímos de lá e fomos direto para o Boston Common, o sol de final de tarde estava batendo nas árvores e o parque estava cheio, mas eu não me importava, ver a Aurora colocar o Liam no carrinho e a minha filha sentar logo ao lado, segurando a mãozinha dele, era uma cena que eu não conseguia parar de encarar.
Caminhamos por um tempo, compramos pretzels gigantes em uma das barracas e sentamos na grama, eu só conseguia observar e sorrir, minha filha grudou na Aurora de um jeito que eu não esperava e a Aurora foi paciente, ela sorria, limpava o rosto da pequena com um guardanapo, conversava com ela como se já se conhecessem há anos.
Eu estava feliz.
Era estranho admitir isso depois do desastre que foi a manhã com a Isadora. Uma parte de mim ainda doía por saber que minha filha mais velha estar em algum lugar me odiando, eu queria que ela também estivesse ali, mas olhar para as minhas duas Auroras, juntas, sorrindo para mim...
Era como sonhar acordado.
...
No jantar, pedimos pizza porque era o que minha filha queria e sinceramente eu aceitaria comer qualquer coisa só para não ter que ver a Aurora cruzar aquela porta, o fato de ela não ter fugido depois do desastre com a Isadora já era mais do que eu esperava.
— Pronto, papai! — Minha filha saiu do banheiro saltitando, as bochechas vermelhas e o pijama de coelhinhos arrastando no chão.
— Então vamos dormir. — Peguei-a no colo e a levei para o quarto.
— História, papai! — Ela exigiu assim que encostou no travesseiro. Fui pegar o livro de sempre, mas ela apontou para a porta. — Titia.
Olhei para Aurora, que estava na porta observando a gente.
— Você quer que eu leia? — Aurora perguntou, parecendo surpresa.
— Sim!
Sem hesitar, ela veio e se sentou na beira da cama e começou a ler o livro com toda atenção, eu fiquei ali, num canto, apenas assistindo o jeito que minha filha olhava para ela. Depois da história, ela já estava praticamente dormindo, demos um beijo de boa noite nela e saímos do quarto na ponta dos pés.
— Ela te aceitou rápido, né? — Comentei assim que fechei a porta.
— Crianças são mais fáceis de agradar. — Ela deu um sorriso e desviou o olhar. — Já está tarde, eu deveria ir...
Ela começou a andar em direção ao meu quarto e eu fui atrás, entramos em silêncio, o Liam estava lá, um montinho imóvel dentro do berço.
— Ele parece estar tão tranquilo dormindo aqui... — sussurrei, parando ao lado dela enquanto ela observava o bebê. — Por que não fica?
— O quê?
— Você já dormiu aqui ontem, qual a diferença?
— E olha no que deu, Harry... — Ela passou a mão pelo rosto, frustrada. — Acho melhor não.
— Eu sei que você não vai conseguir dormir bem lá, se não fosse assim, você não teria vindo aqui ontem, eu te conheço.
— Mas eu já passei o dia aqui e dormi de novo na mesma cama... — Ela virou para o Liam. — Eu não devia ter pedido isso ontem, foi um erro.
— Eu durmo no sofá, não tem problema.
Eu queria estar perto dela, mas ao mesmo tempo, ficar a centímetros do corpo dela sem poder tocar era uma forma de masoquismo, mas ainda assim eu preferia a tortura de estar no mesmo quarto do que o vazio do sofá.
— Eu não quero isso, eu fico com o sofá, então. — Ela cruzou os braços.
— Não seja teimosa, Aurora, você pode ficar com o Liam aqui, eu não me importo, o sofá é confortável o suficiente.
Não era.
Ela hesitou, olhando para o bebê e depois para a cama grande.
— Tem certeza de que não tem problema eu dormir aqui de novo?
— Não, está tudo bem.
— Sabe... — Ela começou, sem me olhar. — Se você quiser ficar... eu não ligo, afinal, é seu quarto e com a sua idade, dormir no sofá deve ser muito desconfortável.
— Você está me chamando de velho? — Soltei uma risada baixa.
— Não! — Ela se atrapalhou toda. — Eu só não quero que você fique desconfortável por minha causa.
— Tudo bem, eu fico.
Deitamos como na noite anterior, longe um do outro, cada um no seu canto do colchão. Eu estava exausto, mas meu coração estava acelerado demais para me deixar apagar.
— Harry? — Ela chamou, baixinho.
— Oi.
— Estou sem sono, você também está?
Virei de lado, ficando de frente para ela, ela já estava me olhando.
— Eu também não consigo dormir, acho que por tudo o que aconteceu hoje. — Soltei um suspiro pesado, sentindo aquele peso familiar esmagar meu peito. — Eu estraguei tudo com Isadora, eu menti por meses, não sei se ela vai conseguir olhar para mim de novo sem sentir raiva.
Fiquei esperando o julgamento dela, eu merecia, afinal eu era realmente culpado por tudo aquilo, mas ela só se mexeu, se esticando um pouco.
— Ela só está assustada, Harry, é muita informação de uma vez.
— Eu não sei não... — Fechei os olhos por um segundo, sentindo a garganta apertar. — Acha que um dia ela vai me perdoar?
— Eu acho que sim — ela disse num bocejo. — Se até eu te perdoei, H... ela também vai.
Eu parei de respirar por um segundo.
Eu a encarei, tentando processar se tinha ouvido direito ou se o cansaço estava me fazendo alucinar.
— Você... você me perdoou? — Minha voz falhou.
— Perdoei. — Ela reafirmou, e eu vi o brilho dos olhos dela no escuro. — Demorou e doeu... mas eu perdoei.
Ela passou meses dizendo que nunca me perdoaria, que o que fiz era imperdoável e agora, ali, no escuro do meu quarto, ela confessou que me perdoou.
Eu não consegui me conter, sem pensar em limites ou no que era "apropriado", eu me estiquei, meus braços envolveram a cintura dela antes que meu cérebro pudesse me impedir, puxei-a para perto, escondendo meu rosto na curvatura do seu pescoço.
— Obrigado. — Sussurrei contra a pele dela. — Muito obrigado mesmo... Docinho, você não faz ideia do que isso significa para mim.
Ela não me empurrou.
Eu senti o corpo dela relaxar contra o meu, as mãos dela hesitaram antes de tocarem meus braços de leve, eu não queria soltar, eu precisava daquele contato para acreditar que o que ela disse era real.
Nos afastamos apenas o suficiente para nos olharmos de novo, mas a distância agora era mínima. Para eu ver ela desviando o olhar, claramente morta de vergonha por ter se deixado levar pelo momento.
— Harry... — Ela começou, a voz trêmula. — Sobre a inauguração do seu escritório.
— O que tem ela?
— Eu vou, se você ainda quiser que eu vá...
— Eu quero. — Retribui rápido demais. — Eu quero muito, Aurora, você sabe que sim.
Ela assentiu de leve e o silêncio voltou a se instalar entre nós. Sentir o calor do corpo dela dava uma vontade absurda de diminuir o espaço de novo, mas eu me forcei a ficar parado, mas sem que eu planejasse ou talvez porque o espaço entre nós estivesse pequeno demais, senti meus pés esbarrarem nos dela por baixo do edredom, eu travei na hora, esperando que ela recuasse.
Ontem eu tinha ficado na beirada da cama, quase caindo para não encostar nela, mas agora, depois de tudo o que foi dito, eu não me afastei e para minha surpresa, ela também não.
Entrelaçamos os dedos dos pés bem devagar, um toque sutil, que naquele escuro parecia uma explosão de eletricidade, me deixando louco.
— Harry? — Ela chamou de novo, a voz ficando arrastada, já entregue ao sono.
— Oi.
— Eu... eu me diverti hoje, com você.
— Eu também, docinho — confessei, sentindo meus olhos começando a se fechar. — Eu também me diverti.
...
Muito obrigado pela leitura, se gostou considere deixar seu comentário e um voto! É importante para mim.
Personagens: Professor! Harry x Estudante!Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora.
Nota autora: Esse capítulo tem violência e tentativa de abuso, então leiam só se estiverem confortáveis com esse tipo de conteúdo. Se algo disso te afeta, fica à vontade pra pular — sua saúde emocional vem primeiro. 💛
Aurora
Assim que a porta se fechou e Harry e Liam sairam, peguei o celular antes que eu começasse a pensar demais.
Eu: Gabi, quero ficar com você hoje, quer vir me ver?
Enviei sem hesitar, até porque eu quase não via o Gabriel desde aquela regra estúpida do Harry, de ele não ficar perto do Liam. Depois de tudo que tinha acontecido entre mim e o Harry e o fato de que pensei que talvez realmente fosse melhor terminar com o Gabriel, aquilo só pesava ainda mais, mas eu não queria pensar nisso agora, eu só queria esquecer um pouco e não ficar sozinha.
Fui direto para o banheiro, sem esperar resposta — eu sabia que o Gabriel viria, ele sempre vem. Liguei o chuveiro, lavei o cabelo com meu shampoo mais cheiroso e fiz uma checagem rápida na depilação, deixando a água levar embora metade do meu nervosismo, quando ouvi o som de uma mensagem vindo do quarto me apressei, devia ser o Gabriel avisando que estava a caminho, saí do banho cantarolando, passei meu creme com cheiro de frutas vermelhas e o perfume favorito dele, fui até o armário, procurando algo que fosse sexy, mas não óbvio demais.
Estava mesmo cogitando transar com Gabriel, mesmo depois de pensar tanto em terminar com ele?
Sim, eu estava...
Afinal se não fosse com ele com quem sería?
Pus uma lingerie vermelha que comprei e nunca usei, eu queria sentir que minha vida não tinha acabado, que meu corpo ainda era meu, que eu podia desejar e ser desejada sem culpa e Gabriel me fazia sentir segura, eu tinha certeza de que ele poderia lidar com as mudanças em mim. Escolhi um vestido preto curto, decote moderado, tecido justo, ficou perfeitamente moldado em mim, enquanto me olhava no espelho colocando os brincos, pensamentos inconvenientes vinham em minha mente.
O que o Harry diria se me visse assim agora?
O que ele diria se soubesse que transei com Gabriel?
Por que eu me sentia um pouco culpada por querer transar com meu namorado?
Não importava o que Harry pensaria de mim, eu não podia viver minha vida com medo de fazer algo porque talvez não o agradasse. Quando finalizei o batom ouvi um som na cozinha, só o Gabriel tinha a chave além de mim, então eu não fiquei exatamente surpresa, peguei meu celular sem nem olhar a mensagem e saí do quarto.
— Gabriel? — Chamei, entrando na cozinha ainda sorrindo. — Amor, que bom que você chegou. — Mas assim que vi a silhueta do homem em minha cozinha, meu corpo congelou.
Não era o Gabriel.
Não era possível...
Não podia ser...
Bryan.
Bryan estava parado ali, encostado no balcão, me olhando, me esperando, meu coração acelerou, instintivamente a mão que segurava o celular foi para trás do corpo.
— Oi, raposinha, sentiu minha falta?
— B... Bryan…? — Por um segundo, eu esqueci completamente como se respirava.— C...como… como você entrou aqui? — Foi tudo que consegui falar, aquela mulher confiante e pronta para transar havia sumido.
— Seu namorado é muito descuidado, sabia? — Ele inclinou a cabeça, como se estivesse achando graça do meu medo. — Deixa a sua chave junto com a dele, praticamente jogada na minha casa.
— Bryan… — Minhas mãos tremiam. — Vai embora.
— Mas eu acabei de chegar. — Ele fez um biquinho e me deu vontade de vomitar.
— Eu não estou brincando, vai embora. — Minha mão apertou o celular contra minha palma com mais força.
— Não. — Ele deu um passo na minha direção, eu dei outro para trás sem nem perceber, meu ombro bateu na parede.
— Que porra você veio fazer aqui?! — Minha voz saiu mais alta dessa vez. — Que porra você quer comigo?
— Fiquei com saudades, você tem me evitado a todo custo, então achei que podia vir te ver.
— Bryan… Vai embora.
— Então...— Ele ignorou totalmente meu pedido se aproximando ainda mais. — Parece que você não contou a ninguém sobre o que aconteceu, né? — Perguntou com um sorriso malicioso. — Boa garota, sabia que você ia manter segredo.
— Eu c...contei! — Minha voz falhou, lágrimas que nem sabia que caíam estavam começando a arder em minha pele.— O Gabriel sabe de tudo.
— Sabe? É mesmo? — Bryan inclinou o rosto. — Então ele é bom em fingir. — Chegou mais perto, minhas pernas estavam moles demais para qualquer coisa. — Porque ele nunca me disse nada.
— Bryan… — Minha mão livre tentou afasta-lo, mas ele segurou-a puxando para tocar seu peitoral.
— Me diz, Aurora… — Ele chegou tão perto que senti o cheiro do perfume dele. — Por que ele não fez nada? Hein?
— Vai embora… — As lágrimas continuavam a descerem, quentes.
— Será que ele realmente acreditou em você? — Bryan me encurralou, suas mãos foram para cada lado do corpo. — Ou será que ele sabe que você no fundo gosta?
Meu corpo travou, aquela sensação horrível voltou, como se eu não tivesse domínio do meu próprio corpo, minha mão tremia atrás das costas tentando destravar a tela do celular desesperadamente, toquei em qualquer coisa no meu celular na esperança de ligar para o número de emergência.
Só precisava que alguém atendesse...
— Fala, raposinha… — Bryan sussurrou, mordiscando meu ouvido. — É porque você ainda me quer, não é?
— Bryan… — Implorei, virando o rosto. — Por favor… para…
— Você não sabe as coisas que eu penso em fazer com você… — Ele cheirou meu pescoço. — E agora é muito mais fácil, sem aquele bebê atrapalhando. — Uma de suas mãos agarrou minha cintura, um arrepio de medo passou pelo meu corpo.
— Para. — Meus dedos falharam, o celular escorregou, batendo no chão, fez meu coração parar.
Merda!
— Ah... Estava escondendo isso, é? — Ele se abaixou devagar e pegou o celular.
A tela ainda acesa com a última chamada, então eu vi que não liguei para a polícia, liguei para meu contato de emergência.
Harry.
— É sério? Você ligou para ele? — A expressão de Bryan se transformou, seu braço se moveu rápido, meu celular voou pela cozinha e estilhaçou-se contra a parede. — Você confia demais naquele idiota, Aurora. — Seus olhos voltaram-se para mim. — Ninguém vai te salvar. — O braço dele se esticou, seus dedos prestes a limpar uma lágrima minha que escorria.
— Não encosta em mim! — O golpe do meu tapa foi forte em seu rosto, causando uma sensação de queimação intensa na minha mão.
— Oh… O que a gente conversou sobre você me bater, hein? — Bryan virou o rosto devagar. — Já não deixei claro para você o que acontece quando você age assim?
Uma das mãos dele fechou no meu pescoço com força o bastante para me tirar o ar, eu tentei puxar e me debater, mas ele era muito forte.
— Me solta! — Minha voz mal saiu. — Me solta ou eu vou gritar! O mais alto que eu puder.
— Se gritar, eu vou ter que amordaçar você e você não quer isso, quer? — Seus olhos estavam fixos em mim. — Quer piorar as coisas, Aurora?
Eu só conseguia pensar em Liam.
Em Harry.
Em Gabriel.
Em como ninguém ia saber se eu morresse ali mesmo.
Então simplesmente cedi, soltando minhas mãos dele e ficando imóvel.
— Boa garota… — Bryan aproximou o rosto, seu nariz tocando o meu. — Fica bem quietinha, eu prefiro assim, prefiro usar esse boquinha para meu prazer... Prefiro beijar você...
— N–não… por favor…
Ele não ouviu, claro que não, ele forçou os lábios contra os meus, possessivamente. Prendi a respiração, mantendo a boca fechada, mas ele apertou minha mandíbula com tanta força que um gemido de dor escapou, foi o que ele queria para sua língua invadir minha boca, fazendo-me sentir seu gosto, tentei empurrá-lo, mesmo sabendo que não conseguiria, fechei os olhos, tentando desaparecer dali. Eu precisava fazer alguma coisa, num último instinto de sobrevivência eu o mordi com toda força que ainda me restou, o gosto do seu sangue invadiu minha boca, fazendo Bryan recuar um segundo, um único segundo até eu sentir a ardência de seu tapa em minha bochecha, seus dedos provavelmente ficariam marcados em minha pele.
A pancada fez minha cabeça virar para o lado e tudo ficou meio borrado por um instante, mas por puro desespero me forcei a correr, meu corpo mal respondeu, mas eu fui com as pernas tremendo, com o rosto ardendo, com o coração batendo num ritmo absurdo.
Quando.... Quando isso ia parar?
Quando ele ia me deixar em paz?
Alcancei a porta do meu quarto com as mãos tremendo quase não consegui segurá-la, tentei fechar, mas a maçaneta escorregava dos meus dedos. Atrás de mim, os passos de Bryan vinham rápidos e pesados, cada vez mais perto, quando finalmente agarrei a maçaneta para trancar, ele se chocou contra a porta, o impacto me lançou para trás, me fazendo cair de costas, tudo o que senti foi uma dor absurda e a certeza de que não tinha mais para onde correr.
Eu não conseguia respirar.
Eu precisava me mexer...
Quando ergui os olhos, Bryan já estava ali, ofegante, com o sangue escorrendo do lábio inferior.
— Porra, Aurora… — Ele limpou a boca com o dorso da mão. — Você adora me dar motivos para te ensinar limites, não é? — Eu não conseguia nem levantar, tentei me arrastar para trás, meus calcanhares empurrando o carpete, mas ele agarrou meu tornozelo com facilidade, chutei como pude acertando qualquer parte dele, mas Bryan só prendeu minhas pernas com o próprio corpo, esmagando minha tentativa de fuga. — Para, Aurora, você sabe que não tem como ganhar de mim.
— Cala a boca. — Chutei mais forte quando senti suas mãos me puxando para ele. Então, senti uma picada na minha perna, rapidamente minha cabeça girou e eu pisquei tentando manter-me sã. — Não… — Meu próprio corpo não obedecia mais.
— Shhh… Fica calma, vai ser mais fácil assim.
Ele me ergueu com facilidade, meu corpo mole demais para resistir, me jogou na cama, meus braços não acompanharam o movimento, minhas pernas também não, ele devia ter colocado algo em mim, algo bem forte.
— Aí está… — Sorriu, subindo em cima da cama. — Quietinha… exatamente do jeito que eu gosto.
Eu queria chutar.
Eu queria quebrar a cara dele.
Bryan subiu sobre mim, agarrou meus pulsos e puxou para cima, amarrando um de cada vez, eu senti o tecido apertar minha pele, queimando, depois ele pegou um pano e o enfiou na minha boca, eu só conseguia chorar sabendo o que vinha a seguir, porque eu não podia fazer nada.
— Pode chorar, raposinha, eu gosto. — Ele puxou a barra do meu vestido, o tecido rasgou com facilidade. — Assim… Bem melhor. — Bryan parou por um segundo, os olhos dele desceram, me analisando. — Então era assim que você ia recebê-lo? — Ele passou o dedo pela renda do meu sutiã. — Você realmente se arrumou para o Gabriel… Que pena. — O sorriso dele ampliou ainda mais. — Ele não merece isso aqui, nem sabe o que perdeu, mas eu vou aproveitar cada minuto. — Bryan arrastou a mão pela minha cintura, devagar. — Sempre imaginei como seria… — Ele me olhou de cima a baixo outra vez, o olhar faminto. — Oh! Aurora, eu esperei tanto para isso e ver você assim tão preparadinha, está me deixando louco... — Vi sua mão massagear a ereção por cima da calça.
Ele ajustou o corpo entre as minhas pernas e quando tirou a camisa, um pânico tomou conta de mim, eu tentei me mexer, tentei gritar, tentei qualquer coisa, mas era como se meu corpo estivesse preso.
Ele realmente…
Ele realmente ia fazer aquilo…
Eu perdi a esperança e fechei os olhos esperando o pior, porém um som estranho surgiu do lado de fora do quarto e Bryan deu um pulo.
— Mas que merda… — Rosnou, descendo da cama rápido.
Outro golpe, mais forte, na porta da sala. Bryan travou no lugar, meu coração disparou tanto que quase doeu, por um momento, o quarto ficou tão silencioso que parecia que tudo tinha parado.
Será que ele desistiu?
Será que finalmente acabou?
O barulho voltou, ainda mais violento, o suficiente para eu entender que alguém tinha arrombado a minha porta, minhas lágrimas não paravam, mas agora eram diferentes.
Alguém veio...
Alguém entrou...
Eu não estava sozinha...
Eu… Eu estava sendo salva.
Bryan deu alguns passos para trás, procurando um lugar para se esconder, pela porta entreaberta eu vi uma sombra se aproximando pelo corredor, rápido.
Quando reconheci quem era, meu coração quase desmoronou.
Era Harry...
Correndo.
Correndo por mim.
— AURORA!
Eu tentei responder, tentei avisar que o Bryan estava atrás da porta, mas tudo estava escurecendo e eu apaguei. Não sei quanto tempo fico apagada, mas quando voltei a ouvir alguma coisa, era meu nome sendo chamado com muito desespero.
O rosto do Harry estava machucado e sangrando, o vi soltar o nó do meu pulso com dificuldade, a mão dele falhava em cada movimento, ele tentou de novo forçando o antebraço, fez uma careta de dor até conseguir me soltar, acho que ele nem percebeu que estava tão machucado enquanto arrancava o pano da minha boca com dificuldade.
— Ha… Harry… — Tossí um pouco.
Ele estava chorando.
Harry estava realmente chorando.
— Eu estou aqui. — Ele me puxou para seu colo com cuidado, o braço esquerdo dele tremia, devia estar quebrado. — Me perdoa… Me perdoa, por favor… — Ele me abraçou com o outro braço, beijando minha cabeça, minha testa, meus cabelos. — Aurora… Se ele tivesse te feito mais alguma coisa…
— Ca… cadê o Bryan? — Eu tentei levantar os braços, mas meu corpo ainda não respondia.
— Ali. — Harry virou o rosto, eu segui o olhar.
Bryan estava estendido no chão, inconsciente, sangue escorrendo pela lateral da cabeça, formando uma poça irregular no piso.
— Você… você matou ele? — Minha voz saiu trêmula. — Tem muito sangue…
— Eu não sei. — Ele respirou fundo, como se só naquele instante tivesse percebido de fato o que aconteceu. — Eu… Eu só pensei em você, Aurora. — Uma gota de sangue escorreu do rosto dele e caiu quente na minha pele. — Talvez ele esteja vivo ainda, eu não olhei, mas isso importa? Ele machucou você.
— Harry… você está sangrando… — Tentei tocar nele, mas meu braço falhou, Harry segurou minha mão, guiou até o próprio rosto, beijando-a. — Você... Você está muito machucado.
Ele veio para me salvar...
Era muito para processar naquele momento.
— Não se preocupe comigo. — Ele falou baixo, deixando mais um beijo em minha mão. — Eu tive tanto medo, se ele tivesse… Aurora... Eu não sei o que faria.
— Calma, eu estou bem…
— Você não está. — Ele fechou os olhos com força, como se aquilo doesse mais do que os machucados. — E é culpa minha... Eu devia ter chegado antes, eu devia ter feito algo quando eu soube da primeira vez, eu não devia ter deixado você sozinha.
— Ei. — Olhei no fundo de seus olhos, por mais que estivesse tonta. — Não é culpa de ninguém… — Mal consegui articular. — Só dele.
— Eu chamei a polícia. — Harry continuou assim que ouvimos passos, vozes, começando a chegar mais perto. — Você está segura agora, eu estou aqui e não vou te deixar.
O corpo do Harry estava tão quentinho e era a única coisa que minha mente focava naquele momento, aquele alívio, me forcei a manter os olhos abertos, mas eles pesavam tanto…
— Docinho... — A voz de Harry soava tão longe. — Ei... Fica comigo... Amor... Por favor... Acorda...
Minha cabeça caiu no ombro de Harry sem que eu percebesse e fui apagando novamente nos braços dele.
...
Acordei devagar, sem entender de onde vinha a dor, tudo parecia pesado, estranho, talvez ainda houvesse um restinho daquela droga correndo nas minhas veias, bagunçando tudo.
Pisquei até a vista clarear e eu consegui reconhecer quem estava ao lado da cama, Harry estava ali, sentado na cadeira, seu braço esquerdo estava engessado, mesmo assim segurava Liam em seu colo.
Como ele fez isso?
Foi Bryan?
Como não percebeu o próprio braço quando me pegou no colo?
— H.. Harry? — A garganta arranhou quando tentei falar.
— Aurora… — Seu rosto virou em minha direção. — Ei... Não se mexe.
Ele se aproximou um pouco mais e eu pude realmente ver como ele realmente estava, o corte no lábio, a mancha roxa subindo pela bochecha, a faixa grossa na testa e o gesso no braço.
Ele estava tão mal quanto eu...
Eu estendi os braços para pegar o Liam, mas quando vi meus pulsos roxos, inchados, marcados, congelei.
A imagem de Bryan em cima de mim invadiu minha mente, alguns flashes de memórias aparecendo, tão rápidos e dolorosos...
Ele...
Nós...
Se Harry não tivesse aparecido...
— Aurora... Aurora? — Senti a mão fria do Harry em meu braço, me tirando daquele pesadelo.
— Desculpe... Eu estou bem. — Menti. — Liam, ele precisa mamar. — Meus seios estavam doloridos pelo leite acumulado.
— Não se preocupe, as enfermeiras cuidaram disso, ele não está com fome.
— Harry… seu braço.
— Isso aqui? — Ele levantou só um pouquinho. — Não é nada.
Era óbvio que era.
Tinha sido por minha causa.
Eu não deveria ter envolvido ele nisso...
— Me desculpe...
— Não faça isso. — Vi seus músculos se enrijecendo através da camisa, quando ele se esforçou para colar os lábios na minha têmpora. — Nunca se desculpe por isso.
Eu queria saber sobre o Bryan, ele estava vivo?
Ele morreu?
O quão machucado Harry o deixou?
As perguntas já estavam na minha boca quando a porta abriu sem aviso, vi os cabelos ruivos da minha mãe, seus olhos estavam inchados.
Ela havia chorado? Por mim?
Geórgia e meu pai vieram logo atrás, nas mãos de meu pai tinha um balão dizendo 'fique bem logo' e na outra um ursinho, tinha certeza de que a ideia foi da minha irmã, meu pai nunca teria essa delicadeza.
— Liam. — Minha mãe correu para o meu filho como se ele fosse dela. — Meu bebezinho, ele não estava lá quando aconteceu, não é? — Questionou, tirando-o dos braços do Harry.
— Ele estava comigo. — Harry respondeu sem jeito.
— Ah! Que bom! Eu morreria se algo acontecesse ao meu netinho.
Sério, mãe? E eu?
Olhei para Harry, ele já sabia o que eu ia perguntar, pois se adiantou.
— Eu chamei eles, achei que você ia precisar de alguém, pedi para Geórgia o número da Lily e do Josh também, eles vêm depois.
— Obrigada. — Escapou baixinho.
— Vou deixar vocês.
Ele ia se afastar de mim, mas não sei por que segurei a mão dele antes de pensar.
— Não... — Supliquei. —Fica… por favor.
Que hipocrisia a minha, semanas atrás eu nem queria que ele estivesse perto de mim, semanas atrás eu mandei ele ir embora...
Criei tantas barreiras entre a gente e agora parecia que eu só conseguia me sentir segura ao seu lado.
Por que?
Só porque ele me salvou?
Era isso que as pessoas sentiam depois de serem salvas?
Era tão confuso…
Eu deveria estremecer com o toque de qualquer homem e na verdade só de pensar em Gabriel me tocando eu sentia medo, mas com ele eu não estava sentindo isso...
Não sentia medo.
Não sentia nojo.
Nada.
— O que aconteceu, Aurora? — Minha mãe olhou para mim, me analisando, depois que deixou Liam no colo do meu pai. — Como isso aconteceu? — Meu corpo encolheu na cama, eu não queria lembrar.
— Eu... Eu não lembro muito bem.
— Como assim não lembra? Você precisa se lembrar de algo, Aurora.
Minha irmã se aproximou de mim e tocou minha testa com delicadeza.
— Mãe, deixa ela descansar.
— Eu só fiquei preocupada.— Defendeu-se.
— Todos nós ficamos, mãe.— Ela deixou um beijo em minha mão. — Eu sei que não somos tão bons assim, mas nós nos preocupamos mesmo com você, eu surtei quando soube… — Ela sussurrou. — Aurora, aquele desgraçado precisa pagar, nós vamos fazer de tudo para que isso aconteça.
Então, ele estava vivo?
Ou ela não sabia?
Meu pai pigarreou, se aproximou alguns passos e olhou para o Harry, Pela primeira vez na vida, o tom dele não veio duro.
— Obrigado.
Fiquei olhando para o Harry, quando ele deu um pequeno aceno, tudo aquilo ali era estranho, meus pais nunca foram assim comigo nem com Harry, mas eles pareciam de verdade estar se esforçando. Antes que minha mãe me interrogasse um pouco mais, a porta abriu de novo.
— Aurora? Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Olhei para a porta, Gabriel estava parado lá, suado, respiração pesada, os olhos arregalados quando me viu na cama.
— Gabi...
Harry foi tão rápido a dar a volta na cama e ficar entre mim e Gabriel que provavelmente sentiria dores mais tarde por ser tão descuidado com seus ferimentos.
— Porra, você tem coragem de aparecer aqui? — Gabriel ignorou Harry, tentou se inclinar para me enxergar melhor, mas ele avançou para frente, quase encostando o peito no dele. — Saia daqui. — Ordenou, autoritário.
— Harry… para. — Falei, mas ele não se mexeu.
— Eu vim ver a Aurora, ela me mandou mensagem ontem! Eu… eu não sabia o que tinha acontecido. — Ele se aproximou um pouco mais, porém Harry o barrou de novo. — Não se meta nisso. — Harry encostou a mão boa no peito do Gabriel e empurrou, fazendo-o dar um passo para trás, irritado. — Você não manda em nada aqui! — Ele rebateu. — Ela é minha namorada, eu...
Harry não deixou ele terminar, com o braço bom, agarrou Gabriel pelo colarinho e o empurrou até a parede.
— Aonde você estava quando sua namorada estava lá sendo machucada pelo seu tio abusador? — Ele puxou ainda mais forte seu colarinho. — Então cala a boca e sai daqui, seu merdinha, você não vai chegar perto dela, tá entendendo?
— Chega! — Tentei falar mais alto, mas minha voz aparentemente estava fraca demais. — Solta ele, Harry.
Ele não me ouviu, em vez disso, empurrou Gabriel para fora do quarto, eu já não conseguia escutar nada só vi através da enorme janela o que acontecia lá fora.
Harry estava bem à frente dele, o dedo apontado para o rosto de Gabriel, meu namorado mantinha a cabeça baixa até que Harry segurou seu rosto e o obrigou a levantar o queixo na minha direção, como se quisesse forçá-lo a me encarar.
Os olhos de Gabriel estavam cheios d’água, ver aquilo doeu de um jeito que eu nem sabia descrever, porque eu sabia que ele não tinha culpa de nada, sabia também que por dentro devia estar despedaçado pelo que o tio tinha feito e por não poder estar ali comigo, Gabriel então limpou uma lágrima que caiu e simplesmente foi embora.
— Harry… o que você disse? — Perguntei quando ele voltou para o quarto.
— Aurora, isso não é conversa para agora. — Ele ajeitou a coberta no meu ombro, com cuidado demais para alguém que estava gritando segundos antes. — Você acabou de acordar, você precisa descansar.
— Harry...
— Ele tem razão. — Meu pai murmurou, balançando um pouco mais o Liam. — Depois vocês conversam.
Eu sentia vontade de insistir, mas sabia que não conseguiria nada com Harry daquele jeito.
— A gente resolve tudo depois. — Ele falou um pouco mais calmo, sentando-se ao lado.
Eu queria muito saber como o Gabriel estava, mas no fim eles estavam certos, eu precisava descansar, aquela situação toda era demais para um único dia.
...
Três dias depois do hospital eu estava de pé, respirando, falando, mas ainda carregava aquele peso inteiro em cima de mim, como se nada tivesse realmente passado.
Bryan ainda estava vivo, mas por muito pouco, Harry viu o que ele estava fazendo comigo e simplesmente perdeu o controle, passou de qualquer limite razoável e se não fossem os paramédicos para reanimar o coração de Bryan, talvez a situação fosse um pouco mais complicada do que agora.
— Está tudo certo, Aurora, Anderson me disse que você não precisa voltar por enquanto. — Comentou, dando uma olhada na rua.
Harry e eu estávamos parados em frente à delegacia esperando um Uber, com o braço engessado dele e eu ainda instável demais para dirigir, era a única opção que nós tínhamos no momento.
— Ah... Ok— Assenti, ainda tentando colocar meus pensamentos em ordem.
O depoimento tinha sido pior do que imaginei, quando sentei naquela cadeira minhas mãos já estavam suadas, tentei contar tudo sem chorar, mas obviamente não funcionou. Chamaram o Harry logo depois de mim, eu não ouvi nada do lado de fora, mas fiquei aliviada quando ele saiu sem nenhuma acusação.
— A promotoria vai pedir a prisão com base no laudo e na tentativa de abuso sexual — Harry continuou, ainda olhando o aplicativo. — Pelo flagrante, ele deve ser condenado por mais de vinte anos.
Eu nem sabia mais como era sentir alívio, mas naquele momento o ar pareceu um pouco mais leve.
Finalmente.
Acabou.
— Obrigada. — Agradeci, mais baixo do que pretendia. — Por vir comigo, por tudo isso.
— Não precisa agradecer. — Forçou um sorriso.
No carro ninguém falou, acho que não tínhamos muito mesmo o que conversar, eu só tentava acompanhar os carros passando ao redor para não pensar, mas não estava funcionando muito bem.
Ele podia ter morrido.
Eu podia ter morrido!
E aquela sensação ainda estava ali, presa em mim.
Quando chegamos ao prédio, o silêncio continuou até a porta do meu apartamento.
— Eu preciso ir para casa, trocar o curativo, ajeitar esse gesso e contar para minha filha o que aconteceu sem contar de verdade o que aconteceu. — Ele tentou parecer leve, mas eu via que estava com dor. — Mas eu volto depois, hoje, tá bom?
— Se não puder, não precisa, minha família está aqui.
Eu queria que ele voltasse, queria a sensação de segurança que vinha com ele e justamente por isso fiquei quieta, não dava para pedir isso, ele já fez muito por mim.
— Eu volto. — Se inclinou, deixando um beijo rápido na minha testa. — Tenta descansar um pouco, tá?
— Tá.
— Eu volto. — Repetiu antes de ir.
Quando entrei no apartamento e fechei a porta fiquei olhando para a nova por alguns segundos, tudo o que passou pela minha cabeça foi quanta raiva o Harry teve que sentir para derrubar a antiga por minha causa, isso ainda parecia irreal.
— Filha? — Minha mãe chamou do sofá, com Liam no colo. — Que bom que chegou, como foi na delegacia?
— Como deveria ser, eu acho, só sei que ele vai a julgamento e o amigo de Harry disse que Bryan pode pegar até 20 anos de prisão.
— Era o mínimo que ele merecia. — Georgia comentou da cozinha, mexendo em alguma panela.
— Você está cozinhando? — Soltei um riso um pouco incrédula. — Você é péssima nisso.
— Ei, deveria agradecer, só estou querendo que você coma algo saudável.
— Tenho um amigo juiz. — Meu pai nos interrompeu, sem tirar os olhos do jogo de futebol americano. — Vou falar com ele, talvez consiga pegar o caso e fazer esse desgraçado pegar muito mais que isso, é muito pouco para o que aquele desgraçado fez.
Eu pisquei, sem saber muito bem como reagir.
O mesmo homem que passou anos me tratando como se eu fosse um incômodo agora falava como se sempre tivesse sido um pai protetor.
— Tudo bem, pai, isso seria bom.
Era estranho.
Estranho demais.
— Esse menininho aqui está com fome e sentiu falta da mamãe, não é? — Minha mãe se levantou com Liam ainda no colo.
— Eu vou tomar um banho primeiro, assim que eu sair, eu dou, tá bom, meu amor? — Deixei um pequeno beijo no topo do narizinho dele.
Entrei no banheiro evitando olhar para o meu quarto, tirei a roupa rápido, joguei tudo no cesto e liguei o chuveiro. Ajoelhei no chão, abracei as pernas e deixei sair tudo que ficou preso nesses três dias.
O medo.
A raiva.
O alívio.
E aquela certeza estranha de que o Bryan nunca mais ia encostar em mim.
Reconfortante por alguns segundos…
Até a sensação do toque dele voltar.
Algum dia eu ia superar isso?
Quando minha mãe me chamou para o jantar, eu me forcei a levantar e terminar o banho. Vesti um moletom, prendi o cabelo ainda molhado e saí do quarto, assim que cheguei na cozinha, Harry estava sentado numa das banquetas com Liam no colo.
— Ele está com fome. — Ele sorriu quando me viu. — Tudo bem?
Os olhos dele subiram para o meu rosto rápido demais.
Ele sabia que eu tinha chorado.
— Nada está bem. — Saiu sem pensar, mais para mim do que para ele, mas ele ouviu.
— Vai ficar. — Ele me entregou o Liam com cuidado. — Não se preocupe.
Fui para o sofá para amamentar, Harry veio logo depois, sentando ao meu lado.
— Você não precisava ter vindo. — Suspirei, ainda olhando para o Liam. — Deveria ter ficado em casa descansando, seus ferimentos ainda estão bem ruins.
— Eu quis e eles não estão tão mal assim.
— Eu não quero que você se sinta responsável por mim. — Olhei para ele só por um instante. — Meus pais estão aqui, então está tudo bem.
— Aurora… — Ele passou a mão boa pelo próprio joelho, respirou fundo. — Já passamos dessa fase não acha?
— Eu só estou dizendo a verdade — Revidei, evitando olhar para ele.
— Não tá, eu te conheço muito bem e você sabe. — Sua mão tocou meu braço com cuidado. — Não precisa mentir para mim.
Droga!
Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, minha mãe chamou da mesa de jantar.
— Aurora, filha, vem comer, está esfriando.
— Já estou indo, mãe.
Liam já estava adormecido em meu colo, eu levantei devagar, Harry se levantou junto e nenhum dos dois disse mais nada. Levei o meu filho para o berço, quando voltei eu e o Harry finalmente nos sentamos à mesa e aquele jantar virou, oficialmente o mais estranho da minha vida.
Georgia tinha feito macarrão ao molho pesto, legumes refogados e frango, mesmo errando em fazer um jantar tão simples, ninguém abriu a boca para comentar o quão duro estava aquele macarrão e a falta de sal no frango, estávamos ocupados demais nos sentindo desconfortáveis.
Minha mãe falava com o Harry com uma delicadeza exagerada, como se ele fosse o seu novo homem favorito, depois do meu pai e do Liam. Georgia até tentava puxar assunto, mas minha mãe cortava cada tentativa, ocupando o centro das atenções como sempre. Meu pai só comia em silêncio, mas era melhor do que suas ofensas a mim.Quando o jantar acabou, ficou aquele silêncio desconfortável, aquele momento em que ninguém sabe se levantava ou esperava alguém levantar, até minha mãe abrir a boca mais uma vez.
— Filha, se você quiser, a gente fica mais um pouco, você não pode ficar sozinha nesse momento.
— Mãe, eu vou ficar bem… — Respondi, mesmo sabendo que não estava tão bem assim.
— Aurora, você passou por muita coisa, não quero ir embora sem ter certeza de que está bem. — Ela franziu o cenho, daquele jeito insistente. — Você precisa de cuidados.
No fundo, ela estava certa, mas minha família não era a melhor companhia para se ter, eu sabia que eles estavam tentando, mas, fora a Geórgia, meus pais eram horríveis em tentar ser bons comigo.
— Podem ficar tranquilos, eu cuido dela. — Harry se adiantou ao me ver lutando para achar uma desculpa.
— Tudo bem, nós vamos, mas, qualquer coisa é só ligar. — Minha mãe olhou para o Harry como se tivesse recebido exatamente o que queria ouvir.
— Tá bom, mãe. — Respirei fundo. — Mas tá tudo bem, de verdade.
Ela me deu um beijo rápido na testa, meu pai murmurou um “fica bem” e Georgia me abraçou forte antes de sair.
— Você não precisava dizer aquilo para ela. — Indaguei, voltando à mesa para retirar os pratos.
— O que tem de errado nisso? Eu só falei a verdade.
— Eu não quero que você ache que tem obrigação de ficar aqui, porque está tudo bem, eu estou bem, sério, não preciso de babá.
— Eu quero estar aqui e você não devia ficar sozinha hoje.
— Harry, eu agradeço de verdade por tudo, mas sério, você não precisa fazer isso, já pode ir embora.
— Você ainda está tentando fazer isso? De novo?
— Isso o quê? — Perguntei, mesmo já sabendo o que diria.
— Fingir. — Ele me encarou com uma sobrancelha erguida. — Fingir que não quer que eu esteja aqui, quando eu sei que quer.
— Eu só não quero te colocar em uma posição que...
— Posição? — Ele me interrompeu. — Você acha mesmo que eu estaria aqui se não quisesse? Eu também preciso disso! — Ele se aproximou o suficiente para não desrespeitar meu espaço. — Você não está entendendo, eu também preciso saber que você está segura, só de pensar que podia chegar tarde demais… — Ele apertou a mandíbula. — E para ser sincero... Eu... Eu também não estou bem, então só pensei que um podia fazer companhia ao outro agora.
— Desculpa… — Me afastei, virando-me, pegando os últimos talheres da mesa. — Você se machucou, lutou com ele, podia ter morrido também. — Murmurei, me sentindo culpada por não pensar muito nele, enquanto colocava os utensílios na pia. — E deve ter sido difícil imaginar que se acontecesse alguma coisa comigo, você ia ficar sozinho com o Liam... Me desculpa, mesmo eu fui uma idiota.
— Sério? — Questionou com uma risada seca. — É isso que você acha? — Ele me olhou como se eu tivesse falado a coisa mais absurda do mundo. — Não era medo de ficar sozinho com o Liam, Aurora, era medo de perder você...
Eu deveria mesmo acreditar nisso?
— Ah...— Meu corpo travou, ele percebeu minha rigidez e recuou um pouco.
— Desculpa. — Murmurou. — Não era hora para isso, sinto muito eu...
— Tudo bem. — Interrompi só para encerrarmos o assunto. — Se quiser mesmo ficar, você sabe onde fica o sofá.
Depois que lhe entreguei um cobertor e um travesseiro, ele ajeitou o sofá com cuidado, fazendo tudo com aquele braço engessado ainda assim, sem reclamar.
— Não está desconfortável demais? — Questionei logo que se ajeitou.
— Eu estou bem, mas você consegue dormir naquela cama?
Não.
— Vou tentar. — Menti, mas tinha certeza de que ele sabia.
— Aurora, se você ficar com medo é só me chamar, tá?
— Boa noite, Harry. — Murmurei antes de sair.
A luz fraca do abajur do Liam deixava tudo um pouco menos assustador, então deixei acesa. Não cheguei nem perto da cama, só de olhar para ela parecia que estava revivendo algo que não estava a fim de enfrentar. Sentei no chão encostada na porta, o chão era duro, frio, desconfortável, mas eu estava tão cansada que acabei cochilando ali mesmo, escorada na parede, até meu celular vibrar e me arrancar de um dos piores cochilos da minha vida.
Era uma mensagem de Gabriel.
Amor: Ei, como estão seus ferimentos? Os machucados ainda doem?
Eu: Melhor.
Amor: Aurora, eu não sei como te pedir perdão! O que meu tio fez foi horrível, eu me sinto um lixo, devia ter previsto, eu devia ter feito alguma coisa.
Antes que eu pudesse digitar veio outra mensagem.
Amor: Então me perdoa pelo que virá, porque eu tentei não fazer isso, mas eu só não sei mais o que fazer.
Amor: Eu não consigo mais, me desculpa, talvez eu seja um merda por fazer isso agora, mas eu só não consigo mais.
Eu: Não consegue mais o que?
Meus dedos foram ágeis em responder.
Amor: Você sabe...
Não...
Não era hora...
Não era o momento...
Não era justo...
Eu: você está terminando comigo? Por mensagem?
Amor: Sinto muito mesmo, Aurora, eu não consigo olhar para você sem lembrar do que aconteceu.
Eu fechei os olhos, doía demais ler aquilo.
Ele não podia fazer isso comigo...
Não agora.
Talvez eu realmente terminasse com ele no futuro, mas não agora...
Talvez eu nem fosse realmente terminar, talvez eu convencesse Harry a ceder suas exigências ridículas e nós voltaríamos a ser um casal normal, mas agora tudo parecia inútil....
Porque ele...
Ele estava terminando comigo...
Não, ele não ia terminar comigo por mensagem.
Liguei para ele uma, duas, três, quatro vezes...
Fiquei olhando para a tela, esperando, esperando…
Na oitava vez, ele me atendeu.
— Aurora… — A voz dele saiu falhada e trêmula. — Por favor… não faça isso ficar mais difícil.
— Difícil? Você iria terminar comigo por mensagem? — Suspirei tentando permanecer calma. — Ainda no pior momento possível! Pior!
— Eu sei, eu sei como estou sendo egoísta e babaca. — Ele fungou do outro lado. — Mas eu não consigo olhar para você, não depois do que o meu tio fez.
— Não foi sua culpa, Gabriel.
Liam resmungou no berço, um som baixinho, eu passei a mão no rosto, tentando conter as lágrimas, levantei devagar para não acordá-lo, fechei a porta quase sem encostar, fiquei no corredor, de costas para a parede, com o celular preso entre a mão e o ouvido, torcendo para Harry estar dormindo também.
— Foi, sim. — Ele insistiu. — Se você nunca tivesse me conhecido, nada disso teria acontecido, eu não consigo viver com isso, eu te machuquei.
— Não, não foi você quem me machucou. — Retruquei um pouco mais alto. — Mas está fazendo isso agora, eu estou pedindo, não me deixe sozinha agora, não seja cruel a esse ponto.
— Eu te amo, mas eu não sou bom para você, você merece alguém que te proteja, eu não fiz e agora eu não consigo nem ficar perto de você.
— Gabriel… — Minha voz mal saiu.
— Eu não posso. — Ele repetiu. — Eu só… não posso, me perdoe.
Eu não conseguia acreditar no que acabou de acontecer...
— Aurora? — A voz de Harry surgiu no corredor.
— Você ouviu? — Perguntei, sem conseguir olhar para ele.
— Um pouco — Harry respondeu, sincero demais.
— Aposto que você está feliz, não é? — Bufei, deixando meu celular de lado. — Você nunca gostou do Gabriel.
— Não é isso — Ele soltou um suspiro curto e se abaixou ao meu lado. — Não quero ver você machucada mais do que já está.
— Ele me abandonou. — Confessei como se ainda não tivesse caído a ficha. — Eu… eu pensei que ele nunca seria capaz de fazer algo assim. — Funguei limpando algumas lágrimas. — Sabe, quem faz isso com a namorada num momento desses?
— Ele foi um babaca escroto. — Afirmou sem nem hesitar. — Mas eu já sabia que ele era um merdinha.
— Ele não era, ele sempre foi um bom namorado. — Rebati, vendo seu semblante ficar mais irritado.— Você disse alguma coisa para ele no hospital?
— Você acha que ele terminou com você por minha causa? — A voz dele subiu um pouco, ofendida. — Sério, Aurora?
— Eu não sei mais o que pensar. — Admiti, enfiando meu rosto em meus joelhos. — Tudo parece culpa minha ultimamente, sabe? Talvez se eu tivesse feito algo diferente...
— O que aconteceu com você não foi culpa sua. — Seus dedos foram meus cabelos, fazendo carinho ali. — E o Gabriel ter terminado com você também não.
— Eu estou tão cansada, Harry, eu não sei lidar com mais dor, o Gabriel acabou de me deixar e você já me abandonou uma vez! O que há de tão errado comigo? Por que as pessoas sempre me deixam? Por que me magoam?
— Ei… Olha para mim. — Ele puxou meu rosto para encará-lo. — Você não tem nada de errado e eu nunca deveria ter feito tudo o que fiz, me arrependo disso todos os dias, mas eu estou aqui agora, você tem a mim, talvez eu não seja muito, mas sempre estarei aqui por você, eu prometo.
Merda.
Lá estava ele falando aquelas coisas de novo, como se não fosse o pior momento possível para serem ditas.
Mas de alguma forma elas me confortaram, eu não sabia se suas palavras eram verdadeiras, mas naquele instante quis acreditar que eram e antes que eu percebesse, antes que meu cérebro processasse o que estava acontecendo, meus braços se agarraram ao corpo dele, meu rosto encostou no peito dele e pude ouvir sua respiração, acelerada, misturada à minha, talvez ele não esperasse por isso e sinceramente eu também não.
Mas eu estava cansada de resistir a ele e seus cuidados, cansada de fingir que eu sempre era forte o suficiente para enfrentar tudo sem ninguém.
Logo senti o braço de Harry se fechar em torno de mim, envolvendo-me por completo, não sei quanto tempo nós ficaríamos assim e isso não importava, eu só sabia que não queria, que não conseguiria, não podia soltá-lo.
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Personagens: Professor! Harry x Estudante!Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora e Harry.
NotaAutora: Aproveitem o capítulo e não se esqueçam de comentar.
Aurora
Harry estava ali, a poucos metros de mim e na sua mão aquele pacote de camisinhas parecia brilhar, meu corpo inteiro ficou congelado e como se não pudesse piorar, ela apareceu. Uma mulher linda, segurando uma caixa de Band-Aids, sorrindo para Harry, completamente à vontade, com um casaco sobre os ombros que já havia visto nele.
-Encontrei os Band-Aids! Vamos?
Eu senti o estômago embrulhar.
Por que?
A tal mulher me encarava, fiquei analisando cada detalhe dela por uns segundos até Harry me chamar.
- Aurora, esta é a Hannah, Hannah, esta é a Aurora, a mãe do meu filho.
- Ah, que fofinho! É esse o Liam, que você falou mais cedo? - Perguntou ela em um tom doce, dando um passo à frente, estendendo a mão para tocar no rosto do Liam. - Posso?
- Não, prefiro que estranhos não toquem no meu bebê. - Eu dei um passo para trás, segurando o Liam mais forte contra o meu peito.
- Tudo bem. - Hannah riu sem jeito. - Vou pagar isso com os Band-Aids, te encontro lá fora. - Em um movimento rápido, ela pegou a camisinha da mão dele.
Sem esperar uma resposta, ela se virou e saiu, seus saltos ecoando no silêncio constrangedor do corredor. Eu fiquei ali, paralisada, com o pacote de lenços umedecidos espremido na minha mão.
- O que você está fazendo aqui, Aurora?
- É uma farmácia, Harry, vim comprar lenços. - Argumentei como se fosse óbvio.
- Eu sei. -Ele desviou o olhar por um instante, para ver onde Hannah estava. - É que é longe de onde a gente mora.
- Lily e Josh se mudaram para um apartamento aqui na esquina, eu estava com eles. - Eu não pude evitar, aquela pergunta que me atormentava por dentro, precisava sair ou eu iria me martirizar o resto da noite. - E você está num encontro?
- Tipo isso.
- Que bom. - Eu forcei os cantos da minha boca para cima em algo que deveria ser um sorriso.
- É.
Por que a ideia de vê-lo com outra mulher me incomodou desse jeito?
Por que meu peito apertou como se eu estivesse prestes a ter um ataque de pânico?
Por que eu queria chorar?
Eu não aguentava mais ficar ali, sentindo o cheiro do perfume doce dela no ar, vendo a imagem daquela camisinha na mão dele, sem me sentir estranha.
- Eu vou indo, boa noite, Harry.
Virei-me antes que ele pudesse dizer outra coisa, antes que meus olhos pudessem trair minha dignidade. Caminhei até o caixa com minhas pernas trêmulas, a Hannah já estava lá pagando, nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo e uma onda de irritação irracional passou por mim.
Eu a odiei.
Odiei seu sorriso, seu vestido, a naturalidade com que ela simplesmente pegou a camisinha, convencida de como sua noite iria acabar e principalmente a odiei por estar ali com Harry.
Por que eu estava pensando assim??
Ele podia fazer o que quisesse, eu não tinha direito nenhum sobre ele.
Paguei meus lenços em silêncio e saí com a imagem de Harry e daquela mulher gravada na minha mente. No carro, mandei uma mensagem para a Lily, inventando uma desculpa de que o Liam não estava bem e que precisava ir para casa. Quando cheguei em casa, fiz a rotina de dormir para o Liam, depois coloquei-o no berço, ele ficou assistindo seu peixinho subir e descer no móbile até cair no sono. Me joguei na cama com a mesma roupa ainda, não estava a fim de nada, só fiquei ali encarando o teto escuro.
Como ele seguiu em frente tão rápido?
Fui eu quem disse a ele para seguir em frente, eu quis que ele seguisse em frente.
Então, por que, agora que ele estava fazendo exatamente isso, eu me sentia tão...
Mal?
Eu devia estar feliz por ele, foi o que eu disse, não foi?
Eu era uma idiota.
Uma completa idiota.
Isso não deveria me afetar.
Eu tinha o Gabriel.
Eu escolhi o Gabriel.
Mas isso não impediu que lágrimas quentes começassem a escorrer e molhassem meu travesseiro.
Eu estava chorando.
Chorando por Harry.
Que porra estava acontecendo?
Eu odiei a mim mesma por cada soluço que escapava, por cada pontada daquele sentimento estranho que sentia ao imaginar ele naquele momento com ela, imaginar suas mãos, sua boca, fazendo coisas nela.
Droga.
Droga.
Senti enjoo só de imaginar ele...
Eu precisava me livrar daquilo, quanto antes.
Entre as lágrimas de raiva e confusão, o cansaço tomou conta de mim, até eu não ver mais nada.
...
Eu estava evitando o Harry e fazer isso tinha se tornado uma rotina exaustiva. Nos últimos dias, eu havia me tornado uma especialista em inventar compromissos. Toda vez que ele pedia para ver o Liam, eu inventava uma desculpa. Talvez fosse infantil da minha parte, mas eu ainda não estava pronta para encarar ele, não depois do que aconteceu naquela noite, mas infelizmente eu sabia que aquilo não duraria para sempre, Harry não era homem de desistir, especialmente quando se tratava do Liam e consulta de rotina do bebê era a desculpa perfeita que ele precisava, ele insistiu tanto, fez tanto caso que acabei cedendo.
- Oi. - Harry disse logo que abri a porta do meu apartamento.
Ele estava usando camiseta cinza simples, jeans, o cabelo meio bagunçado, pelo visto havia mudado de perfume, não que me importasse.
- Oi. - Sorri de lado.
- Estão prontos?
- Quase. - Voltei para Liam, colocando os sapatinhos nele.
- Precisa de ajuda com a bolsa?
- Eu consigo, só coloque-o na cadeirinha enquanto eu termino de me arrumar.
Finalmente estava um clima mais agradável em Boston, então coloquei um vestido leve amarelo, com um decote que me ajudaria com a amamentação, cabelo preso e sandália.
- Você está... Bonita. - Afirmou assim que saí do meu quarto.
Agora, todas às vezes ele iria ficar me elogiando assim?
Descemos em silêncio pelo elevador até a garagem, eu tentava não pensar, mas minha mente voltava insistentemente para a imagem dele na farmácia, aquele maldito pacote de camisinhas, a mulher bonita, muito, muito bonita ao lado dele. E agora ele estava agindo como se nada tivesse acontecido, ele parecia bem e isso me irritava.
Por que me irritava?
Não foi nada...
Nada que deveria ter me importado.
- Está tudo bem? - A voz dele me tirou dos pensamentos e mal tinha percebido que estava parada em frente à porta do carro.
- Sim. - Menti.
- Você parece distraída.
- Estou normal.
- Certo. - Sorriu de canto. - Pode ir entrando, vou ajeitar o Liam no banco de trás.
- Tá.
Eu queria estar normal, queria não sentir raiva dele agora, queria não ter vontade de gritar 'idiota' até minha voz se cansar. Entrei e esperei, depois que Harry ligou o carro e saímos, por longos minutos só o som do rádio e resmungos de Liam preenchiam o espaço, nenhum de nós sabia como voltar a ter uma conversa normal, aparentemente.
Será que ele dormiu com ela?
Será que ele beijou ela?
Será que ele tocou nela do jeito que costumava tocar em mim?
Merda!
O que eu estava pensando?
De novo!!!
Por que isso continuava a me incomodar?
Eu mordia o lábio inferior, tentando evitar que minha mente repetisse as mesmas questões, as mesmas imagens, das mãos dele nela, da boca dele...
Não.
Droga, não.
Eu estava me torturando.
- Eu estava pensando em levar o Liam para passar um tempo com as meninas no fim de semana, está na hora delas...
- Você transou com ela? -Minha voz sobressaiu a dele, a pergunta saiu antes que eu pudesse controlar e eu juro que por um segundo nem percebi que tinha dito em voz alta até ver os olhos dele se arregalarem.
Eu levei instantaneamente a mão à boca, como se pudesse empurrá-las de volta para dentro.
Merda.
Merda, merda, merda.
- O quê?
- Nada, desculpe, o que estava falando mesmo? - Tentei disfarçar, mesmo que fosse em vão.
- Aurora, o que você disse?
- Esquece! - Virei o rosto pra janela, sentindo meu rosto quente.
O sinaleiro a frente resolveu fechar, o carro parou então eu senti a mão dele no meu joelho.
- Aurora. - Chamou apertando um pouco mais seus dedos em minha pele. - Olha pra mim. - Balancei a cabeça em negação. - Por favor. - Virei a cabeça lentamente, meus olhos encontrando os dele.- Por que você perguntou aquilo?
- Harry, esquece, já falei.
- Por favor, seja sincera comigo.
- Estava só pensando naquele dia e acabou saindo, eu nem devia ter falado aquilo. - Eu mal consegui terminar a frase antes de tapar meu rosto com as mãos.
- Aurora! - Harry puxou minhas mãos, segurando-as em meu colo. - Eu nem consegui beijá-la.
Ele não...
Ele não beijou...
Um suspiro preso escapou de meus lábios involuntariamente, toda a rigidez nos meus ombros e costas se dissolveu num alívio estranho.
- Satisfeita? - Um sorriso pequeno e vitorioso surgiu em seus lábios. - Era isso que queria saber? Ou quer mais detalhes sobre o meu encontro? - Inclinou a cabeça, examinando meu rosto que provavelmente estava no tom do sinaleiro.
Seria estranho querer dizer que sim?
Que talvez eu quisesse saber tudo?
Cada mísero detalhe sobre aquele encontro?
- Por quê?
- O quê?
- Por que você não a beijou?
- Porque... - Harry começou, mas antes que pudesse continuar, uma buzina soou atrás de nós, alta e irritante, o sinal tinha ficado verde. - Droga! - Soltou minha mão, indo para o volante.
O resto do caminho fomos em silêncio, eu não consegui parar de pensar no que ele tinha dito. Quando ele estacionou o carro na frente do hospital, meu mundo parecia mais confuso do que nunca.
Não devia sentir nada.
Não por ele.
Mal colocamos os pés dentro do hospital e meu corpo inteiro ficou tenso, Harry deve ter percebido, porque sua mão encontrou a minha cintura com firmeza.
- Respira. - Ele murmurou. - Bryan não vai chegar perto de você, eu não vou deixar, você está segura.
- Tá. - Sorri fraco, sentindo um alívio tomar conta de mim.
A recepcionista nos informou que Dr. Payne, meu obstetra de sempre, não estava disponível no momento, então tal de Dr. Richard iria nos atender, ele era jovem, tinha provavelmente a minha idade, examinou o Liam com cuidado, fazendo aquelas perguntas padrão sobre amamentação, sono, eu respondia consciente demais da presença de Harry ao meu lado, sempre com sua mão em minha cintura e seu olhar fixo em cada movimento do médico como se estivesse memorizando o procedimento.
- E como você está, Aurora? - Dr. perguntou depois de finalmente sentarmos. - O pós-parto está sendo como? Sessenta dias já, certo?
- Está, tudo bem - Murmurei, balançando de leve Liam em meu colo. - Cansada, mas é normal.
- Certo. - Ele fez algumas anotações. - Vocês dois já podem retomar as relações sexuais, o parto foi normal, sem complicações e já passou o período de resguardo. - Ele olhou de mim para Harry, sorrindo de leve. - Só não se esqueçam de ser cuidadosos, usem um método contraceptivo seguro, combinado? - Ele olhou outra vez para Harry. - Aurora não pode engravidar de novo tão cedo, o corpo precisa se recuperar, eu sei como é difícil se segurar, mas tem que cuidar da mamãe, nada de pressa, o importante é que ela esteja confortável, tá bom?
Eu pisquei algumas vezes, sem acreditar que estava ouvindo aquilo.
Vocês dois?
Eu e Harry?
- O quê?! - Escapou da minha boca, mais alto do que eu pretendia. - Não! Nós não... nós não somos um casal!
- Ah! Nossa, desculpe. - O médico pareceu surpreso. - É que o jeito de vocês, vocês parecem...
- É um engano comum. - Harry interrompeu, com uma calma irritante.
Eu quis socar ele só por falar assim, como se não tivesse problema nenhum em parecer meu namorado.
- Enfim, o importante é que ambos estejam bem, quero dizer, você e o bebê. - O médico se apressou em mudar de assunto. - Vou prescrever vitaminas e marcar as vacinas.
Assenti em silêncio, Harry também, enquanto estava ansiosamente desesperada para sair dali, minha cabeça estava um caos. Quando saímos do consultório, o silêncio entre nós era desconfortável, minhas bochechas ainda estavam em chamas e aqueles malditos pensamentos inundavam minha mente.
Por que tudo que eu conseguia pensar era eu e Harry transando?
Em algum nível estranho, nós ainda parecíamos pertencer um ao outro?
Será que eu estava pronta para isso depois de tudo?
Eu perguntei para Harry se ele transou com outra, será que ele vai me perguntar se vou transar com Gabriel?
- Aurora! - Senti um dedo cutucando meu braço, me tirando completamente do meu transe. - Está prestando atenção?
- O que?
- Eu perguntei se está com fome.
- Ah... Sim.
- Vamos comer alguma coisa?
- Tá bom.
- Tem algum lugar em mente?
Um lugar onde ninguém olhe para nós e ache que somos um casal.
- Qualquer um que tenha comida rápida, você que escolhe.
- Tem um que eu vou bastante lá com as minhas filhas.
- Tudo bem, pode ser.
O caminho até a lanchonete continuou com aquele constrangimento, tudo porque aquele médico tinha plantado um pensamento inadequado na minha cabeça.
Por que ele teve que fazer isso?
Será que Harry estava pensando também?
Logo que chegamos, Harry nos guiou para uma mesa próxima à janela, um pouco mais longe da agitação para não acordar o Liam em meu colo. Pedi um hambúrguer com bacon duplo, batata e refrigerante, Harry pediu só batata com milk shake.
- Isadora sempre pede esse, ela ama bacon.
- Ah, como ela está? - A pergunta saiu antes que eu pudesse parar.
Eu sabia que praticamente a ignorei desde aquela noite tensa na minha casa, mas eu não podia fazer muita coisa, sem que ela descobrisse sobre mim, sobre o Liam.
- Ela está bem, logo está indo para a faculdade.
- Que bom. - Dei um sorriso fraco.
- Eu sei que você pensa que errou com ela, mas não se sinta culpada, na época fui um idiota e pedi para ela apagar seu número, a culpa é minha.
- Eu pensei que ela não quisesse mais falar comigo, mas também não quis procurar ela, bem, você sabe porque.
- Mais cedo ou mais tarde, ela vai acabar descobrindo, não posso esconder o Liam para sempre e nem o que tivemos.
- Tenho certeza de que ela vai me odiar.
- Vai odiar nós dois. - Ele riu.
- Eu não quero que ela me odeie.
- Não se preocupe, a Isa é assim mesmo, mas depois que tudo isso passa, talvez vocês duas possam ser amigas de verdade.
- Espero que sim, eu sempre achei sua filha legal, bem, muitas vezes senti pena dela.
- Pena? Por quê? - Harry franziu a testa.
- Não querendo me intrometer na criação sua e da sua esposa...
- Ex-esposa. - Corrigiu rápido.
- Sempre achei Isadora muito sozinha, muitas vezes parecia sobrecarregada com tudo entre você e a Violeta.
- Ela te contou isso?
- Um pouco, eu tentei não me envolver muito com ela.
- Violeta e eu erramos muito com Isadora, mas eu quero poder consertar as coisas, estou tentando. - Suspirou fundo, olhando para as mãos. - Sei que sou um pai horrível.
- Você é um ótimo pai para o Liam.
Seus olhos verdes encontraram os meus, eles brilharam com uma vulnerabilidade que raramente eu via.
- Obrigado. - Sua mão encontrou a minha por cima da mesa, apertando de leve. - Sério, eu estou tentando fazer meu melhor por ele.
Foi nesse exato momento que a garçonete escolheu aparecer com nossos pedidos.
- Nossa, que casal mais fofo! - Falou sorridente, deixando nossos pedidos na mesa.
Não.
De novo, não.
- Não somos um casal! - A correção saiu antes que percebesse, eu puxei minha mão de volta.
- Ah, desculpe! Aproveitem a comida. - Disse antes de sair dali.
- Nossa, seria tão horrível assim? - O sorriso de Harry havia desaparecido, substituído por uma expressão fechada.
- O quê?
- Nada.
- O que foi?
- Do jeito que você nega, parece que a ideia de estar comigo é a pior coisa do mundo. - Ele encarou o hambúrguer. - Ficar comigo foi tão ruim assim?
Droga.
Eu não pensei...
Não imaginei que ele se importasse com isso.
- Harry, não é isso, é só a verdade, eu não quero que as pessoas assumam algo que não é real, você sabe que eu tenho o Gabriel.
- Tudo bem, esquece.
Liam começou a choramingar, esfregando o rosto no meu peito. Ajustei-me para amamentá-lo discretamente. Harry ainda estava visivelmente chateado, mas suspirou e se moveu para o banco ao meu lado.
- Aqui. - Pegou meu hambúrguer com uma mão. - Abre a boca.
- Harry, eu consigo me virar depois.
- Você está com fome agora, ele vai demorar, abre logo.
Ele levou o hambúrguer até meus lábios, um calafrio percorreu minha espinha quando seus dedos encostaram minha pele, depois pegou o refrigerante e posicionou o canudo e eu bebi, sentindo seu braço roçando no meu. Ele comia as batatas dele com a outra mão, tranquilo, como se alimentar a mãe do seu filho fosse a coisa mais normal do mundo.
- Obrigada. - Murmurei entre uma mordida e outra, meu coração batendo forte demais.
Quando terminamos, ele pegou Liam enquanto eu me arrumava. O caminho até o carro foi silencioso mais uma vez, eu não sabia se devia retomar o assunto sobre a Hannah, parte de mim queria evitar, mas outra não conseguia parar de pensar nisso, eu precisava saber.
- Harry? - chamei antes de ele sair do estacionamento.
- O que foi?
- Sobre mais cedo... Aquela conversa... - Não conseguia encará-lo. - Você não terminou o que ia dizer.
-O que mais tem para dizer, Aurora? Você já ouviu o suficiente.
- Ouvi que você não conseguiu beijá-la, mas por quê?
- O que você quer que eu diga? Que fiquei o encontro todo pensando em você? Que cada vez que ela tentou se aproximar, eu lembrava da sua cara naquela farmácia? - Sua voz ainda parecia um pouco irritada, como na lanchonete. - É isso que você quer ouvir?
Meu cérebro parecia uma tela estática, sem conseguir formar um pensamento coerente...
Ele pensou...
Pensou em mim?
Ele estava sendo honesto, eu consegui ver pelos seus olhos, mas o que eu faria com isso?
- Ah... - Foi o único som que consegui emitir. - Sinto muito por aparecer e estragar sua noite.
- Porra, Aurora! - Harry bateu a mão no volante. - Para com isso!
- Com o quê?!
- De fingir que não entende! - Bufou. - Você acha que é sobre o encontro? Que só pensei em você porque você "atrapalhou" minha noite?
- Não foi isso que eu quis dizer...
- Então, o que foi? - Ele virou-se para mim. - Você me faz confessar coisas que eu não queria dizer, me pressiona até eu admitir que não consigo parar de pensar em você e depois vem com "desculpa se atrapalhei"? Isso é algum tipo de jogo pra você?
- Não é um jogo! - Retruquei, me virando também para encará-lo. - Me desculpa, eu não devia ter perguntado nada.
- Mas perguntou.
- Foi uma curiosidade boba, já disse.
- Curiosidade? - Ele repetiu, estreitando os olhos. - Então, se é só curiosidade, você não deve se importar se eu perguntar sobre você e o Gabriel, né?
- Isso é diferente...
-Por quê? Por que é comigo? - Styles insistiu, ficando ainda mais próximo. - Por que você pode perguntar sobre minha vida, mas eu não posso perguntar sobre a sua?
Eu não tinha resposta, pelo menos não uma que fizesse sentido, nesse momento.
- É que... - Comecei, mas as palavras simplesmente travaram.
- O quê, Aurora? - Ele insistiu, sua voz quase num sussurro. - Me explica, por se importa tanto se você tá com outro?
- Eu não me importo! - A mentira saiu da minha boca antes que eu pudesse pará-la.
- Ah, é? - Harry riu, um som baixo e descrente. - Tudo isso porque você não se importa.
Antes que eu pudesse responder, ele se inclinou ainda mais para o meu lado do carro, de repente ele estava próximo, muito próximo, invadindo meu espaço.
Merda.
Ele cheirava tão bem.
- O que você está fazendo? - Minha voz saiu como um sussurro trêmulo.
- Vendo até quando você vai continuar mentindo. - Eu podia sentir seu hálito quente na minha pele.
Meu coração errou uma batida quando seus lábios encostaram minha têmpora e ele cheirou meu cabelo.
- Eu não estou mentindo. - Protestei, mas soou falso até para mim.
Ele levantou a mão lentamente, dando tempo para eu me afastar, mas em vez disso, eu congelei, seus dedos tocaram meu cabelo, acariciando-o, causando arrepios em minha pele.
- Aurora... - Seu polegar traçou a linha da minha têmpora até minha mandíbula. - Por que você faz isso comigo? - Seus olhos verdes pareciam conseguir ver todas as minhas mentiras. - Você diz que não me quer, mas depois age assim... - Seu indicador passou por meus lábios e eu quis mordê-lo. - Como espera que eu acredite em você?
Eu estava tremendo, cada nervo vibrando com sua proximidade, eu deveria me afastar, eu tinha o Gabriel, eu necessitava me afastar, mas meus músculos não obedeciam.
- Harry... - Seu nome saiu como uma súplica em meus lábios.
- Você nem consegue se afastar, não é? - Eu conseguia ver a tensão no pescoço dele, a maneira como seus músculos estavam rígidos. - Vai continuar mentindo pra mim? - Seus olhos estavam escuros, fixos nos meus lábios por um segundo antes de voltarem aos meus olhos.
- O que você quer que eu diga, Harry?
- A verdade!- Seus dedos ficavam passeando por meu rosto.
- Eu... - Eu engasguei, procurando as palavras. - Tá bom! Tá bom, eu fiquei com ciúmes, tá? Fiquei com ciúmes da Hannah, fiquei com ciúmes quando pensei que você poderia ter transado com ela.
- Por quê? - Ele questionou, sua voz mais suave agora, com um sorriso. - Por que você sente ciúmes de mim, Aurora? Você tem um namorado, você não era feliz com ele?
- Porque não consigo controlar! - Admiti, segurando seu pulso. - Não importa o quanto eu tente, não importa o que eu diga a mim mesma, ver você com outra pessoa me deixa... Me deixa...
- Deixa o quê, Aurora? - Ele se inclinou mais perto, seu hálito quente nos meus lábios.
- Confusa! - Eu finalmente consegui empurrá-lo antes que fosse tarde demais. - Me deixa confusa, Harry! E eu não posso ficar confusa, não posso ficar assim, não por você. - Eu respirei fundo, reunindo toda a coragem que tinha. - Acho que precisamos de limites, mais do que temos agora.
- Limites? - Ele repetiu, voltando ao seu lugar. - Que tipo de limites? - Cruzou os braços me encarando.
- Vamos oficializar a guarda do Liam, dias específicos, horários marcados, assim a gente não precisa se ver tanto.
- Você está falando sério? Porra, não! - Eu via que ele tentava se manter calmo, mas não estava funcionando.
- É melhor assim, para todo mundo.
- Melhor? - Ele riu, em ironia - Melhor para quem, Aurora? Para você? Para o seu namorado? Já que só sabe se esconder atrás dele.
- Para todos! - Afirmei mesmo que minha voz não soasse tão firme. - Para o Liam também, ele precisa de estabilidade, de rotina.
- E você acha que nos afastar vai dar estabilidade para ele? - Harry balançou a cabeça em negação. - Você realmente acredita nisso?
- Sim.
- Não! Acha que vou aceitar isso? Como você espera que eu me afaste sabendo que Bryan está por aí? Que ele pode se aproximar de você a qualquer momento?
- Bryan não é problema seu! Eu lido com isso.
- Sozinha? Aurora, você não precisa lidar com nada sozinha, eu estou aqui.
- É exatamente esse o problema! - As palavras escaparam antes que eu percebesse. - Você sempre está aqui! E eu não consigo pensar quando você está por perto.
- Então é isso? Depois de tudo que passamos, depois de tudo que eu... Do que você... - Ele parou, por um instante. - Você vai fingir que nada do que sentimos importa.
- Isso. - Eu virei o rosto para a janela, minhas vistas embaçadas.
-- Tudo bem. - Ele ligou o carro, sem olhar pra mim. - Eu cansei, Aurora, se pra você é mais fácil continuar me afastando que seja, eu não vou mais forçar nada entre a gente. - Ele respirou fundo, continuando a olhar para estrada. - A partir de agora, a gente se vê só quando for sobre o bebê.
Harry não falou mais nada depois daquilo, só dirigiu em silêncio absoluto, sem nem me olhar nenhuma vez. Talvez tenha sido um pouco doloroso perceber que ele finalmente desistiu de tentar me entender.
Quando ele parou na garagem do nosso prédio, eu quase esperei que ele dissesse algo, qualquer coisa, mas ele não disse e eu também não consegui, saí do carro com o coração pesando, eu tinha conseguido o que queria, distância, controle, limites.
Então, por que doía tanto fazer o que era certo?
Harry
Eu nem sabia quanto tempo fiquei ali, parado, deixando a água cair nos ombros, só o som do chuveiro e o eco da voz dela na cabeça.
Ela tinha mesmo dito que ficou com ciúmes?
Porra, Aurora.
Era para eu estar irritado e estava, mas mesmo sem eu querer, aquela sensação idiota de felicidade atravessou meu peito.
Se ela sentiu ciúmes, era porque ainda existia algo ali, não é?
Porque, por mais que negasse, eu ainda mexia com ela...
Só que ela sempre dava um jeito de estragar tudo.
Limites?
Ela tinha falado mesmo em limites?
Depois de tudo?
Como alguém admite sentir e na frase seguinte, decide que não te quer por perto?
Ela dizia que estava confusa, mas era ela quem me confundia, um dia me queria por perto, no outro mal conseguia me olhar.
Eu já estava cansado.
Cansado de correr atrás, de ser o único tentando, já tinha me culpado demais por um passado que eu vinha tentando consertar há tanto tempo e mesmo assim, parte de mim acreditava que quando ela parasse de fugir, quando finalmente encarasse o que sentia, ela iria me procurar e se isso acontecesse, eu ainda estaria ali.
Esperando...
Eu sei que estaria.
Por que eu sempre vou querer ela, e eu sempre vou querer por inteiro...
Sem mais ninguém, sem amarras...
E talvez fosse por isso que eu nunca conseguia seguir em frente.
...
Eu encostei na minha cadeira executiva, fechei os olhos por um minuto, sentindo a exaustão física e mental. Eu e Anderson tínhamos passado o dia afundados na sala de reuniões, entrevistando pessoas, era quase meia-noite e ainda havia uma pilha de currículos intocados sobre minha mesa.
— Porra, eu tinha esquecido de como é cansativo contratar gente. — Anderson entrou no meu escritório segurando duas pizzas e cervejas. — Eu juro, se mais um deles disser que é “proativo e apaixonado por Direito”, eu me jogo pela janela.
— Você que quis abrir uma empresa.
— E você que quis entrar comigo. — Anderson reclamou, mordendo um pedaço de pizza, sentando-se na poltrona à minha frente. — Mas, sério, quatro assistentes de dez que entrevistamos hoje mal sabiam o que era uma petição, acho que a Harvard de hoje em dia não é a mesma.
— A culpa não é da Harvard, a culpa é da sociedade que romantizou demais a área, hoje ninguém quer ler 500 páginas sobre direitos penais. — Suspirei, abrindo uma cerveja.
— Pelo menos a minha viagem a Chicago deu certo. — Tomou um gole da sua própria cerveja. — Os investidores estão fechados.
— Alguma coisa boa, finalmente.
— Então — Anderson largou a pizza, limpando os dedos num guardanapo. — Na correria, esqueci de perguntar, o tal encontro com a Hannah?
— Anderson, não começa.
— Ué, por quê? Foi ideia minha, eu devia ao menos saber se deu certo.
— Péssima ideia, eu não devia dar ouvidos a você.
— Para de falar besteira, vai me dizer, comeu alguém e saiu da fossa?
— Que jeito de falar, desgraçado. — Quase engasguei com a cerveja.
— É uma pergunta simples, Harry, transou ou não transou?
— Não. — Joguei a pizza que tinha pegado de volta na caixa.
— Porra, Styles, ela era gata pra caralho, inteligente, o que houve?
— Não deu.
— Não deu o quê? O equipamento não funcionou? — Ele franziu a testa. — Será que já está precisando de uma ajudinha?
— O que?! Não! — Balancei a cabeça, ofendido. — Não foi isso, Anderson. — Bufei, esfregando a ponte do nariz. — Eu simplesmente não consegui nem beijá-la.
— Você está me dizendo que saiu com uma mulher perfeitamente adorável, com a intenção expressa de transar com você e nem sequer a beijou?
— Fiquei pensando na Aurora.
— Mas o objetivo desse encontro não era esquecer a Aurora? — Anderson bufou, rindo de incredulidade. — Você ao menos se esforçou para isso?
— Depois do que aconteceu, nem dava para não pensar. — Revirei os olhos.
— O que aconteceu?
— Depois do jantar, Hannah machucou o pé com o salto. — Suspirei. — A gente foi a uma farmácia comprar Band-Aids e adivinha quem apareceu lá?
— Não... Cara... você marcou o encontro onde? No raio da esquina da sua casa? — Murmurou, pegando mais um pedaço de pizza.
— Era longe, bem longe, mas ela simplesmente apareceu.
— Puta merda. — Anderson parou de mastigar. — O universo tem um senso de humor realmente perverso quando se trata de você.
— Eu até pensei em tentar, tive a péssima ideia de pegar camisinhas, na verdade foi um momento constrangedor onde Aurora me viu com aquela porra na mão e Hannah resolveu pagar por elas, mas qualquer ânimo que ainda restava sumiu, arranjei uma desculpa e levei a Hannah para casa, paguei de volta o que ela gastou com aquela merda e fui para casa.
— Que deprimente, Styles, lamentável até.
— Obrigado, eu sei, mas infelizmente essa não é a pior parte — acrescentei, sentindo o gosto amargo da cerveja descer pela garganta.
— Nunca é, o que aconteceu depois?
— Aurora me evitou por dias, ficou estranha, como se eu tivesse feito algo de errado, tive que implorar para ver o Liam, e no dia que consegui, ela simplesmente resolveu me perguntar do nada se eu tinha transado com Hannah.
— E você mentiu, né? — Os olhos de Anderson arregalaram. — Disse que teve uma noite incrível.
— Eu disse a verdade. — Interrompi. — Disse que não, que nem a beijei.
— CARALHO, HARRY! Eu desisto de você! — Ele bateu a mão na mesa. — Para de ser tão honesto! Isso não é uma qualidade num momento desses!
— Não dava para mentir! Ela estava me olhando de um jeito... — Tentei me defender. — Mas depois ela admitiu que teve ciúmes e isso mexeu demais comigo.
— Ela tem namorado, Harry. — O olhar de Anderson ficou sério. — Ela não devia estar te falando isso, você nem deveria estar tendo esse tipo de conversa com ela.
— Acha que eu não sei? — Abri mais uma cerveja. — Você acha que eu não me sinto um idiota completo?
— Deveria mesmo, você já sabe como as coisas ficam bem fodidas por se relacionar com outra pessoa quando se está em um relacionamento.
— Aurora nunca faria nada, ela ama aquele merdinha.
— Ama?! Duvido muito. — Ele riu. — Ela claramente ainda tem sentimentos por você, Harry.
— Isso não importa mais de qualquer maneira! Porque cinco segundos depois ela já estava falando em "limites" de novo.
— Limites?
— Ela não quer mais me ver, disse que precisamos ficar longe um do outro, eu não consigo entender ela, uma hora me quer, outra quer me ver longe, não se decide por porra nenhuma!
— Ela tem 24 anos! O que você esperava? Maturidade?
— Sinceramente, não espero mais nada, estou cansado de tentar mostrar que mudei, de provar que ela pode confiar em mim.
— Só agora percebeu? — Anderson riu.
— Porra, será que dá para levar a sério o que estou falando?
— Tá, tá. — Anderson levantou as mãos em rendição. — E o que vai fazer agora? Vai desistir?
— Não - a resposta veio de forma instantânea. — Só vou... esperar.
— Esperar o quê, exatamente?
— Ela finalmente se resolver com ela mesma.
— E se ela nunca vier, vai morrer solteiro?
— Ela vai. — Respondi com convicção. — Só precisa de tempo.
— Convencido demais, não acha? — Anderson balançou a cabeça, rindo.
— Você não viu como ela estava, eu sei que o que ela disse foi real.
— Que homem maduro. — Anderson debochou. — Vai deixá-la livre então? Não era o senhor preocupado com o Bryan e o Gabriel?
— Eu disse que vou deixar livre, não que vou parar de cuidar. — Joguei uma borda de pizza nele. — Já decidi que, já que ela me quer longe, eu vou contratar alguém para ficar de olho no Bryan.
— Isso é saudável? — Perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Provavelmente não, mas é o que eu vou fazer, mas falando sério, vou precisar da sua ajuda.
— Para quê? Já tem o plano de reconquista pronto, não?
— Idiota. — Brinquei. — A Aurora quer oficializar a guarda do Liam.
— Ah, droga, odeio essas coisas.
— Eu também, odeio cada partícula dessa ideia, mas preciso de um bom advogado, alguém que garanta que eu veja meu filho, mas que não a faça se sentir atacada.
— Tá. — Ele assentiu, levantando-se com um gemido. — Já estou me especializando em direitos parentais da sua prole. Quanto é esse, o terceiro?
— O Liam é o quarto, seu idiota.
— Quarto, então — ele estalou as costas. — Vai faltar dinheiro para a pensão, hein?
— Vai para casa, Anderson. — Joguei uma caneta nele.
— Já vou, amanhã temos mais candidatos para entrevistar. — Ele caminhou até a porta e parou, olhando para trás. — E, Harry?
— Hm?
— Toma cuidado, certo? Esse negócio todo parece bem complicado.
Ele saiu, me deixando pensando naquela conversa.
...
O acordo de guarda foi o melhor que eu podia esperar, Aurora não tornou as coisas difíceis, ela era uma mãe boa demais para usar o Liam como moeda de troca, mesmo depois de tudo. Consegui visitas sem supervisão, duas tardes por semana com o Liam, mais os finais de semana alternados, nada de noites ainda por conta da amamentação.
A pensão foi igual à das meninas, assumi todas as despesas médicas e futuras da escola, ela tentou recusar, mas no final realmente não dificultou, ela até sugeriu horários que funcionassem para os dois, era difícil entender como podíamos ser tão funcionais em tudo que envolvia nosso filho e tão desastrados em tudo que envolvia nós dois.
Três semanas do acordo de custódia e eu ainda sentia aquele frio na barriga toda vez que batia naquela porta, com minhas palmas levemente suadas.
— Oi. — Aurora assegurou assim que abriu a porta, seu rosto se iluminou em um sorriso pequeno.
— Oi. — Entrei meio sem jeito, mas meus olhos varreram o lugar à procura do Gabriel. — Oi, campeão. — Deixei um beijinho no topo da cabeça de Liam e estendi os braços, ela o passou para mim, o cheiro doce de bebê envolveu meus sentidos. — Pronto para o nosso passeio?
— Ele já mamou e acabou de tirar sua soneca, então terá bastante tempo. — Aurora informou, seus dedos ajustando a roupinha do bebê sem precisar. — A bolsa está aqui, tem fraldas, a chupeta, a mantinha...
— Aurora. — Interrompi. — Eu sei, você me passou todas as instruções por texto, lembra?
— Certo. — Ela corou levemente, colocando o cabelo atrás da orelha. — Aqui está o sling, vocês vão ao parque, né?
— Sim. — Peguei e ela me ajudou a ajustar no corpo e colocá-lo. — Prometo trazê-lo de volta antes que você sinta falta. — Sem pensar direito, me inclinei e deixei um beijo rápido em sua testa, pensei que se afastaria, mas não fez, só baixou os olhos por um instante. — Até logo. — Falei, me virando antes que eu fizesse algo ainda mais idiota.
A Isadora estava em casa e eu ainda não tinha tido coragem de contar a ela sobre o irmãozinho, então sair com Liam foi a melhor opção. O sol da tarde em Boston estava finalmente com um pouco de calor, Liam estava quieto no sling, só observando o movimento do parque, um casal de velhinhas parou para olhar e conversar um pouco sobre como era um pai dedicado e amoroso, era estranho essa coisa de ser parado na rua, mas aparentemente um homem com um bebê era praticamente um ímã para velhinhas e mulheres solteiras.
Sentei num banco do parque e tirei o celular do bolso, depois de alguns segundos encarando a tela, apertei o botão de chamada, só uma pessoa ia me atender numa terça-feira à tarde.
— Oi, mãe.
— Meu filho! — Ela respondeu, com aquele tom tranquilo de sempre. — Como está meu neto?
— Tá aqui, curioso como sempre. — Virei a câmera para mostrar Liam. — Dê oi para a vovó, cara.
— Harry, ele é a sua cara. — Ela sorriu assim que o viu. — Mesmo com esse cabelo ruivinho, ainda parece muito com você.
— Pois é… — ri. — Ele é lindo, né.
— Já contou para as meninas?
— Ainda não. — Soltei um longo suspiro.
— Filho, você precisa contar logo, elas vão adorar ter um irmãozinho.
— Eu sei… Só que é complicado.
— Tudo é complicado com você. — Riu baixinho. — Só não se esqueça de que ele existe e você não vai conseguir esconder isso por muito tempo, suas filhas merecem saber.
— Eu sei, mãe. — Passei a mão pelo cabelo, tentando disfarçar o incômodo, ela percebeu, pois mudou de assunto.
— Quando vem me ver?
— Logo, só tenho umas coisas para resolver.
— E como está a empresa? Está precisando de dinheiro?
— Não, mãe, tô bem, de verdade.
— Se precisar, sabe que pode contar com a família, não sabe? — Ela franziu o cenho, duvidando.
— Sim, dona Anne.
Do outro lado, ouvi barulho de vozes e risadinhas.
— Filho, vou precisar desligar, a Gem acabou de chegar com as meninas, prometi que íamos fazer cookies.
— Tá bom, manda um beijo para as meninas. — Sorri. — E para Gemma… Só um dedo do meio.
— Harry! — Ela fingiu reprovar, mas riu.
— Tô brincando, amo vocês.
— Nós também te amamos, querido, estamos com saudades, tchau.
— Tchau, mãe.
A ligação terminou, fiquei encarando meu reflexo no celular antes de guardar, eu precisava mesmo contar logo às meninas sobre Liam.
O parque começou a encher mais do que eu esperava, Liam começou a resmungar, caminhei com ele por uns minutos, até que ele se acalmasse de novo. Depois de um tempo, decidi ir até a loja de bebês, Aurora nunca me pediu nada e talvez fosse exatamente por isso que eu me sentia na obrigação de fazer algo.
Eu comprava coisas para minhas filhas o tempo todo, então, por que não com ele?
Entramos numa daquelas lojas de bebê que mais parecia um shopping com infinitas possibilidades, uma moça de uniforme rosa se aproximou assim que passamos o primeiro corredor.
— Posso ajudar o papai hoje?
— Pode sim, preciso de algumas coisas para meu filho. — Respondi, ajustando o sling para mostrar Liam, que dormia.
— Ele é lindo. — Inclinou a cabeça, mexendo no pezinho dele. — Primeira vez sendo pai?
— Quarta. — Soltei sem pensar e vi o susto no rosto dela.
— Uau, então você já é um especialista.
— Eu tento.
— E sua esposa não veio junto?
— Não sou casado.
— Ah. — O sorriso dela se alargou. — Bem, vem comigo, vou te mostrar nossas melhores mercadorias para esse pequeno.
Eu a segui enquanto ela andava pelos corredores, comecei a pegar coisas quase sem pensar, um pacote de bodies, uma manta macia, um móbile com peixinhos coloridos, fraldas, roupas, uma banheira dobrável, mamadeiras extras. Coisas que Aurora provavelmente já tinha, mas eu queria ter um jogo completo no meu apartamento para quando eu finalmente tivesse coragem de ter suas coisas por lá, ao lado dos brinquedos de Aurora e de Amélia.
O carrinho duplo foi a parte que me pegou, assim que a tal vendedora me mostrou, eu me apaixonei, eu conseguia imaginar Liam e Amélia ali, lado a lado, isso bastou para eu passar o cartão sem pensar duas vezes.
Quando saí, estava cercado de sacolas penduradas nos dois braços, o carrinho enorme à frente e Liam ainda no sling, começando a choramingar, cansado do passeio, olhei pro carro e suspirei pensando numa solução, já que não dava pra levar aquilo para casa.
A única solução possível, apesar de patética, era manter as compras em meu escritório. Consegui inserir tudo no porta-malas, menos a caixa grande, que precisei colocar no banco do passageiro, onde ajustei Liam na cadeirinha com cuidado.
Cheguei na empresa uns vinte minutos depois, o estacionamento do prédio comercial estava quase vazio àquela hora da tarde, estacionei perto da entrada e comecei o processo inverso, tirar Liam da cadeirinha, colocá-lo no sling de novo, pegar as sacolas com uma mão e arrastar a caixa com a outra, quando as portas do elevador se abriram no nosso andar, Anderson apareceu com a pasta debaixo do braço.
— Styles? — Ele congelou no lugar ao me ver. — Que diabos é isso?
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa. — Refutei, tentando me equilibrar com as compras. — O que você está fazendo aqui?
— Vim buscar uns arquivos e você? — Seus olhos me analisaram de cima a baixo. — Parece que você assaltou uma loja de bebê.
— Quase isso. — Ri e ele me seguiu até meu escritório. — Só preciso guardar umas coisas.
— A Isadora não sabe ainda sobre o Liam, né? — Perguntou enquanto eu abria a porta.
— Não.
Acendi as luzes e arrastei tudo para dentro, Anderson me ajudou com a enorme caixa, colocando-a no canto da sala, se virou para mim, cruzando os braços.
— E quando ela vai saber? — Ele apontou para o carrinho duplo. — Porque isso aqui não é exatamente discreto.
— Logo. — Soltei Liam do sling, ele estava vermelho e agitado. — Shiu, já acalmo você, pequeno.
— Você sempre diz logo. — Anderson sentou na minha cadeira, balançando a cabeça. — Porém, ela não é tola, provavelmente já percebeu que existe algo de errado com você.
— Eu sei! — Liam começou a chorar mais alto, me forçando a balançá-lo. — Mas eu vou contar... — O som do meu celular cortou nossa conversa, o barulho deixando o Liam ainda mais irritado.
Era Aurora.
Será que aconteceu algo?
—Oi. — A ligação devia estar ruim, pois não ouvi uma resposta. — Aurora?! Ainda temos tempo, eu... Aurora?
— Nossa, ela é controladora, hein? — Anderson sussurrou, rindo baixo.
Eu ignorei, pressionando o telefone contra o ouvido.
—Aurora? — Chamei de novo, tentando ouvir alguma coisa. — Aurora, está me ouvindo?
De repente, veio um barulho abafado, algo como o som de algo caindo e uma respiração rápida do outro lado.
— Aurora! — Chamei mais alto, meu coração disparando. — Fala comigo.
O chiado continuou, no meio dele um som pequeno, curto e engasgado.
Ela estava chorando?!
— Bryan... — A voz dela saiu tão baixa que mal consegui ouvir. — Por favor... Para...
Senti o chão sumir debaixo dos meus pés, isso não poderia estar acontecendo.
— O quê? — Minha voz falhou. — Aurora?! — Nada. — Aurora, me ouve! — Gritei, mas a ligação caiu.
— O que foi? — Anderson levantou preocupado.
— Ele está lá...
— Quem?
— Bryan. — Comecei andar de um lado para o outro.— Bryan tá com ela, eu... Ela precisa de ajuda.
— Porra…
— Eu preciso ir! — Minhas mãos tremiam enquanto pegava Liam. — Cuida dele. — Coloquei meu filho nos braços de Anderson.
— Calma, leva o bebê com você!
— Eu não posso! Se tiver alguma coisa acontecendo, não posso levá-lo para lá, é perigoso.
— Harry, eu não sei cuidar de um bebê.
— Cuida dele, por favor...
— Tá! Porra, ok.
— E liga para a polícia!
— Styles!!! — Ele gritou, mas eu já estava correndo para saída.
Entrei no elevador e bati o dedo no botão do térreo repetidas vezes, como se isso fosse fazer descer mais rápido.
E se ele tivesse encostado nela?
E se ela estivesse machucada?
Quando as portas se abriram, corri ainda mais, entrei no carro e liguei o motor com a mão trêmula, jogando o celular no banco do passageiro, liguei de novo para ela enquanto manobrava, mas a chamada só ia para a caixa postal.
— Atende, Aurora, atende… — Murmurei, acelerando.
Porra!!!
Eu não podia perder o controle, respirei fundo, apertando o volante com força, mas a raiva tomava conta de tudo, um pânico que eu não sentia desde o dia em que soube o que ele fez com ela naquele dia.
Eu ia matar o Bryan se ele tivesse tocado em um único fio de cabelo dela.
Muito obrigado por ler até aqui, se gostou considere deixar seu comentário e um voto, eles são muito importantes para mim😍
Personagens: Professor! Harry x Estudante!Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora e Harry.
NotaAutora: Desculpe a demora, mas aproveitem o capítulo e não se esqueçam de comentar💗
Aurora.
- Tudo bem. - As palavras saíram da minha boca antes que eu tivesse tempo de repensar.
E, no instante seguinte, eu já estava arrependida.
Eu queria mesmo saber?
- Eu conheço o Bryan há muito tempo. - Começou um pouco hesitante. - Ele era meu melhor amigo.
Melhor amigo?
Era a última coisa que eu esperava ouvir.
Bryan e Harry juntos?
Isso não conseguia entrar na minha cabeça.
- Até eu descobrir que ele estava dormindo com a minha esposa.
- O quê? - Senti meu corpo inteiro congelar.
Bryan e Violeta?!
Como?
Porra!
- É...
- Como... Como você descobriu?
- Quando Aurora ainda era um bebê. - Harry ergueu os olhos pela primeira vez, eu desejei que não tivesse feito isso, me senti culpada só por perguntar.
- Eu sinto muito... - Minha voz saiu num sussurro, porque qualquer outra reação seria cruel.
Então, aquela mulher que Bryan disse naquele jantar... Era ela?
Eu quis vomitar.
Como ela pôde trair o Harry?
- Isso não é o pior de tudo. - Ele soltou uma risada breve e sem graça.
- Como poderia piorar?
- Bryan... Bryan é o pai biológico da Aurora.
- O quê?! - Minha mão instintivamente foi para a boca, tentando segurar o choque.
- Humilhante, né? - Eu vi soltar um longo suspiro. - Bryan simplesmente fudeu minha vida.
Meu peito doeu, como se a dor dele tivesse atravessado minha pele e grudado em mim, eu não entendia o porquê, mas sem pensar, segurei sua mão, eu só queria abraçá-lo e quando percebi, já estava fazendo isso. Soltei o cinto, me inclinei e envolvi seu corpo com força, como se fosse possível segurar todas as partes quebradas dele no meu abraço. No começo ele ficou rígido, mas logo seus ombros cederam e Harry simplesmente desmoronou em mim, seu rosto encostou no meu pescoço, o calor da respiração queimando minha pele, os braços dele me apertaram tão forte que doía.
- Eu sinto muito. - Murmurei, em seu ouvido. - Isso não é culpa sua, Harry, eles foram uns escrotos, você não tem culpa.
Ele se afastou devagar, os olhos vermelhos e úmidos.
- Agora... Acho que é a sua vez.
- Harry, eu preciso mesmo fazer isso? - Meu coração gelou.
- Acabei de me abrir com você, foi a coisa mais difícil da minha vida, acho que mereço saber.
- Ok. - Voltei para o meu lugar.
Sem conseguir encará-lo, contei como Bryan se aproximou de mim, como ele me confundia entre ser protetor e invasivo.
Contei sobre às vezes em que ele me chamava de "raposinha" e parte de mim gostava disso, mesmo que me fazia sentir ainda mais suja.
Contei sobre a primeira vez em que ele me tocou, sobre as palavras que usava, sobre a vez em que acordei com ele na minha cama, sobre o Ano Novo, sobre o beijo e sobre aquele maldito dia em que ainda perseguia meus pesadelos.
Contei até onde minha voz aguentou sem desmoronar...E depois um pouco além disso...
- Diz que é mentira, Aurora, diz para mim que aquele filho da puta não encostou em você. - Eu queria negar, mas não consegui. - Ele não fez isso. - Harry repetiu, mais alto, como se tentasse convencer a si mesmo. - Porque, se ele fez... Eu juro por tudo o que é sagrado, eu vou matá-lo.
Nunca vi Harry daquele jeito, com aquele olhar...
O ódio emanando de seu corpo rígido, as veias do pescoço saltadas, o maxilar travado, ele parecia à beira de um colapso.
- Primeiro ele come a minha mulher, engravida ela e agora isso? Eu vou acabar com ele! Eu juro. - Ele respirou fundo, lutando para se conter por causa do Liam dormindo no banco de trás.- Você denunciou ele? Diz para mim que sim.
- Não... - Confessei, encarando meus sapatos. - Eu tenho medo de que ele possa falar que foi tudo uma mentira inventada minha, que eu quis... No fundo, é minha culpa... Eu nunca deveria ter deixado ele se aproximar.
- A culpa nunca vai ser sua, entendeu? Nunca. - Ele se inclinou para frente, pegando minha mão. - Alguém mais sabe disso?
- Só o Gabriel.
- E o que ele fez? Denunciou o tio dele? Saiu daquela casa? Ao menos ficou ao seu lado ou acreditou no tio?
- Nada, mas porque eu pedi para ele não fazer nada.
- Nada? - Ele quase cuspiu a palavra. - Pra que caralho serve esse inútil, então?
- Harry, eu não quero que você faça nada também, eu só te contei isso pela sua confissão, mas não muda o fato de que eu só quero fingir que aquilo nunca aconteceu.
- Como você quer que eu viva sabendo disso? - A voz dele falhou. - Você fala como se eu conseguisse escolher. - Os olhos dele estavam cravados nos meus. - Mas eu não consigo, Aurora.
- Não é sua responsabilidade me proteger, Harry.
Ele me encarou em silêncio por alguns segundos, até que sua mão subiu e segurou meu rosto, firme, obrigando-me a não desviar.
- Nunca mais fale isso... - Ele sussurrou, a respiração quente contra a minha pele. - Você tem noção do que eu faria se ele chegasse perto de você de novo?
- Harry... Não misture as coisas...
- Eu não estou misturando nada... - Os dedos dele deslizaram devagar pelo meu rosto, parando em meus lábios. - Eu sei que já falamos sobre isso, mas depois de tudo, você ainda vai continuar com esse namoro?
- É só isso que importa para você? Se eu continuo ou não com Gabriel? - Afastei seus dedos, segurando sua mão.
- Eu me importo se você está segura e você nunca vai estar enquanto insistir nesse namoro, porque com Gabriel sempre vai existir uma brecha para aquele desgraçado se aproximar de novo.
Como eu ia simplesmente largar Gabriel?
Ele não era só meu namorado...
Era a única parte da minha vida que parecia estável, alguém que nunca me deixou sozinha, alguém que segurou minha mão quando eu pensei que não teria mais ninguém e Harry simplesmente queria que eu arrancasse isso da minha vida.
Ele tinha razão sobre o Bryan, eu sabia disso, mas se eu admitisse, era como se eu tivesse perdido e eu não queria perder para Harry, não quando ele me olhava daquele jeito, como se soubesse exatamente em que parte do meu peito apertar para me fazer ceder.
- Você fala como se tudo fosse tão simples, não é?
- Não é simples, mas é necessário, você sabe disso.
- Gabriel não merece isso - Murmurei. - Ele não tem culpa.
- E você merece viver com medo? - Ele rebateu. - Então pensa nisso, Aurora.
- Eu preciso mesmo pensar... Não vou tomar uma decisão só porque você quer.
- Tudo bem, mas até lá, Liam não fica perto dele.
- Harry...
- Eu fico com ele. - A firmeza dele não deixava espaço para discussão. - Todas às vezes que for preciso.
Fechei os olhos por um instante, eu não tinha forças para pensar em mais nada, muito menos discutir com ele.
- Tá...Tá.
...
Quando entrei no meu apartamento, Gabriel já estava me esperando na sala, o olhar dele veio direto para mim, preocupado.
- Finalmente. - Ele se levantou. - Você demorou, eu achei que tinha acontecido alguma coisa.
- Desculpa, eu acabei ficando mais tempo do que pensei.
- Cadê o Liam?
- Harry quis ficar um pouquinho com ele. - Menti, deixando a bolsa atrás da porta.
Harry tinha praticamente me obrigado a deixar o bebê com ele.
- Então... somos só nós dois? - Ele sorriu.
- É - Forcei um sorriso. - Só nós dois.
Como se eu fosse capaz de esquecer tudo que ainda ecoava da conversa daquele carro.
- Vem. - Beijou minha testa.- Preparei o jantar.
Assim que entrei na cozinha, vi a mesa posta, pizza caseira e refrigerante, Gabriel sempre fazia questão de me lembrar que eu era amada.
- Você fez tudo isso, só para mim?
- Não é nada. - Ele deu de ombros. - Só pensei que devia estar com fome.
Sentamos, comemos devagar, ele falava de coisas bobas, me fazia rir de vez em quando, por alguns minutos eu consegui focar só em nós dois, mas bastava o silêncio vir por um segundo que a voz do Harry voltava na minha cabeça, impossível de ignorar.
Quando terminamos, fomos para a sala e nos jogamos no sofá. Ele pegou o controle da TV, sentou-se colado em mim, o braço por trás do meu ombro, me puxando devagar para o peito dele.
- Você está linda hoje. - A voz dele soou baixa no meu ouvido. - Mas isso não é novidade.
- Obrigado.
- Eu senti a sua falta.- A mão dele subiu para a minha nuca.
- Eu também senti...
Ele puxou devagar meu rosto até que nossos lábios se encontrassem, a língua dele invadiu a minha, quente, firme. Suas mãos começaram a explorar com cuidado minha cintura, subindo devagar até a curva das minhas costas, apertei os dedos na camisa dele, trazendo-o ainda mais para mim.
O corpo dele se inclinou contra o meu, até me fazer deitar, por um instante eu quis esquecer tudo e me perder ali, provar para mim mesma que ainda conseguia, mesmo que minha mente insistisse voltar aquele carro, na maneira como Harry me fez sentir culpada só por estar com Gabriel.
Queria sentir mais o Gabriel, queria apagar aquela voz da minha cabeça, desci meus beijos pelo seu pescoço, ouvi ele gemer baixo quando os lambi aquele ponto sensível logo abaixo da orelha, a mão dele deslizou pela minha coxa, subindo devagar, até que eu a segurei com firmeza.
- Gabi... Espera.
- Desculpa, eu me empolguei. - Ele parou na hora me olhando com um biquinho fofo.
- Tudo bem, é só que ainda não posso, lembra?
- Eu sei, desculpa.
Ele voltou a me beijar, respeitando meus limites e os minutos foram se arrastando assim, beijos longos, respirações misturadas, seu corpo roçando no meu, me deixando tonta.
Gabriel não tinha nada a ver com os erros dos outros, ele era bom e era meu...
Eu queria com todas as forças me convencer de que isso era suficiente, de que o calor do corpo dele sobre o meu apagaria todas as palavras e pedidos de Harry para deixá-lo, mas não consegui.
Aquelas palavras voltavam e voltavam.
"Você nunca vai estar segura enquanto insistir nesse namoro."
Quando finalmente paramos de nos beijar, me acomodei contra o peito dele, apertei os olhos, sentindo a culpa me consumir. Enquanto ele acariciava meu cabelo, eu pensava em como seria impossível continuar esse relacionamento.
Depois daquela conversa no carro, depois do jeito que Harry me olhou, nada ia voltar a ser o mesmo, ele não ia deixar quieto, eu conhecia Harry o suficiente para saber disso.
Um futuro tranquilo com Gabriel tinha deixado de existir no instante em que contei, talvez terminar fosse mesmo o melhor, mesmo que eu não quisesse, mesmo que doesse, mesmo que arrancasse de mim o pouco que ainda restava...
Eu continuei agarrada a Gabriel, como se pudesse adiar o inevitável até eu aceitar que, no fim, eu iria ter que escolher entre insistir ou desistir.
Harry
Eu não conseguia tirar aquilo da cabeça.
Sempre ele.
Não bastava ter fodido minha mulher, me humilhado, roubado o direito de ser pai da minha filha, agora ele tinha colocado as mãos na Aurora.
Minha Aurora.
Era difícil acreditar que as duas mulheres que amei um dia se sentiram atraídas por aquilo...
Eu me perguntava que porra Bryan tinha, o que ele mostrava para elas que fazia parecer impossível resistir?
Parecia que aquele desgraçado precisava provar, de algum jeito, que tudo o que era meu também podia ser dele.
Mas isso não mudava nada, não importava o quanto Aurora se deixou levar, o Bryan passou de todos os limites, ele a machucou e eu queria ir atrás dele, quebrar cada osso do seu corpo, mas não podia, Liam estava acordado no banco de trás, Aurora tinha acabado de amamentá-lo antes de subir, ele me olhava com aqueles olhos enormes, sem saber que o pai estava prestes a explodir.
Voltar para meu apartamento também estava fora de cogitação, Isadora estava lá, eu não estava pronto para apresentar seu o irmão. Então peguei o celular, meus dedos sabiam exatamente qual número discar, Anderson era o único que atenderia numa noite de sábado.
Ele demorou menos de cinco minutos para abrir a porta, deu um passo para o lado, deixando espaço para eu entrar.
- Você não me dá sossego nunca, né? - Resmungou, trancando a porta.
- Bem, ultimamente você é meu único amigo. - Assenti de leve, sem forças para inventar desculpa.
- Você precisa de amizades, então. - Ele se inclinou, os olhos atentos no bebê. - Então esse é o famoso Liam...
- Sim.
- Olha esses olhos verdes, são iguais aos seus. - Anderson estendeu um dedo e Liam agarrou. - Forte, hein? - Brincou com um risinho. - Mas por que você está com ele sozinho? Ele não deveria estar com a mãe?
- É uma longa história.
- Tá, vamos beber alguma coisa e você me conta.
O apartamento estava todo organizado, cheirava a lavanda e havia duas taças de vinho sobre a mesa da sala de jantar, eu tinha realmente interrompido a noite dele.
- Quer beber o quê? - Perguntou, já indo em direção à cozinha.
- Só água. - Me sentei no sofá de couro, ajeitando o Liam em meu colo.
- Bom... Agora me explica. - Ele trouxe o copo, deixou na mesa de centro e se sentou ao meu lado no sofá. - O que aconteceu de tão urgente para você praticamente me obrigar a cancelar meus planos?
- É sobre o Bryan.
- O que aquele merda fez agora?
- Ele encostou na Aurora. - Soltei tentando manter a calma.
- Como assim, encostou?
Contei a ele cada detalhe que Aurora me contou, a vontade de socar a cara de Bryan só aumentando.
- Filha da... - Olhou para mim, ainda boquiaberto. - Cara, o que esse desgraçado tem que ninguém consegue simplesmente denunciá-lo?
- Eu não sei, mas eu não posso ficar aqui sem fazer nada, preciso fazer alguma coisa, Anderson ou eu vou surtar, tem como eu fazer a denúncia, não tem?
- Sim, um processo por assédio sexual, importunação sexual, dependendo do que ela disser na delegacia, pode até ser tentativa de... Bem, você sabe, mas é isso que você quer mesmo?
- Claro! Ele não pode ficar impune! - Bufei.
- Ela te contou isso depois de você praticamente exigir e explicitamente te pediu para não fazer nada, não é? - Ele falou como se fosse óbvio. - Mas é uma decisão da Aurora e você tem que entender isso antes de qualquer outra coisa, você está disposto a trair a confiança dela, só para satisfazer a sua raiva?
- Não é para satisfazer nada, é para a proteção dela.- Rebati rápido demais, balançando Liam em meu colo.
- Você tem que perguntar para si mesmo, você quer que ela faça isso porque você a obrigou ou porque ela se sentiu forte o suficiente para enfrentar isso por ela mesma?
- Eu não posso deixar isso passar, entende? Eu não vou deixar.
- Não precisa, só não seja idiota.
- Então me diz como deixar ela segura? Em?! - Retruquei ironicamente.
- O ideal seria ela se afastar de qualquer um que tem ligação com o Bryan, mas ninguém pode obrigá-la a terminar o relacionamento com o sobrinho dele. - Anderson balançou a cabeça, esfregando a nuca.
- É... sobre isso... - Eu comecei, olhando para as minhas mãos. - Talvez logo aconteça.
- O que você fez, Harry? - Me encarou, levantando a sombrancelha.
- Nada!
- Você exigiu que ela terminasse com ele, não foi?
- Eu só falei a verdade para ela.
- Que verdade?
- Que se ela continuasse com o Gabriel, sempre ia ter uma brecha para o Bryan se aproximar de novo e você sabe disso também, porra, você acabou de confirmar que ela deveria fazer isso!
- Só porque ela deveria, não quer dizer que você tinha o direito de falar isso para ela!
- Mas é o melhor para ela! - Soltei, respirando fundo para me acalmar.
- Porra, Harry, não vem tentar me convencer disso. - Ele apontou um dedo na minha direção. - Você acha que eu não te conheço? Você só não consegue ver ela com ele.
- Já disse que é pela segurança dela e do meu filho também! - Revidei, me levantando do sofá, Liam, um pouco inquieto em meu colo. - Eu não quero eles perto daquela família!
- Espera... - Os olhos dele se estreitaram. - É por isso que você está com o bebê agora? - Ele pareceu genuinamente chocado. - O que mais você andou falando para ela?
- Eu só disse que não quero mais o Gabriel perto do Liam e me ofereci para ficar com ele enquanto ela estiver com Gabriel.
- Você deve mexer muito mesmo com a cabeça dessa Aurora para ela aceitar uma condição tão egoísta dessas.
- Egoísta?! Ele é meu filho!- Afirmei segurando-o mais forte em meu peito.
- Eu sei, mas pelo que você mesmo contou, o Gabriel não é perigoso! Você realmente acha que a Aurora, depois de tudo que passou com o Bryan, deixaria o bebê perto dele? Ela não é idiota!
- Gabriel é da família dele, só para mim isso já basta.
- E a sua filha também é da família dele, vai dizer que ela também é ruim?
- NÃO METE ELA NA HISTÓRIA, PORRA! - Soltei bem mais alto do que deveria, fazendo Liam se começar a chorar.
Comecei a balançar Liam, o acalmando aos poucos, me sentindo o pior pai do mundo, mas ele tinha ido longe demais.
- Tá, desculpa! Desculpa, não devia ter dito isso.
- Realmente não devia!- Cuspi as palavras, ainda embalando Liam, que soluçava baixinho contra o meu peito.
- Tá... Eu já entendi, não vou repetir.
- Melhor mesmo. - Respondi de forma clara. - Acho que vou ir embora. - Peguei a bolsa de Liam em cima do sofá.
- Harry. -Ele puxou a bolsa da minha mão. - Já pedi desculpas e já que você veio até aqui e não tem como voltar para casa agora, fica um pouco, vou pedir uma pizza.
- Não quero nada.
- Se não comer alguma coisa, vai acabar desmaiando com esse menino no colo. - Puxou o celular do bolso, abrindo o aplicativo de comida. - Senta aí, porra, é sábado à noite, a gente pode sei lá, conversar sobre qualquer merda que não seja Bryan, só para variar.
Olhei para Liam, que finalmente tinha fechado os olhos, tranquilo e engoli a raiva com o nó na garganta.
- Tá. - Bufei, mas acabei me sentando.
Anderson digitava no celular e por um momento, o silêncio até pareceu confortável. Até que ele ergueu os olhos para mim com aquele sorriso de canto que eu já conhecia bem.
- Aliás, falando em variar de assunto... O que aconteceu com a Hannah?
- Como assim? - Franzi o cenho.
- Ela me mandou mensagem dizendo que te escreveu e que você simplesmente sumiu.
- Eu não sei se você percebeu, mas eu não tenho cabeça para isso agora. - Revirei os olhos.
- Ah! Isso não é desculpa para ignorar uma mulher bonita daquele jeito. - Ele deu uma risadinha, como se achasse graça da minha irritação.
- Fica com ela, então. - Soltei, impaciente. - Já que é você que parece tão preocupado.
- Eu até tentei, mas não sou o tipo dela.- Anderson bufou, se recostando no sofá.- Você é exatamente o tipo dela, vai mesmo desperdiçar isso? - Fiquei em silêncio, mas ele não perdeu a chance de cutucar um pouco mais. - Você só está se afundando nessa história com a Aurora, está precisando de outra coisa.
- Outra coisa? - Repeti, já sabendo a merda que vinha.
- Você está sem comer ninguém desde que terminou com a Violeta, dê uma chance para Hannah. - Bateu de leve no meu ombro. - O máximo que pode acontecer é você descobrir que não quer nada e o mínimo é você conseguir uma transa decente para aliviar essa tensão toda.
- Tá...Tá bom. - Respirei fundo, sentindo a tensão nos ombros.- Eu mando uma mensagem, só cala a boca, Anderson.
- Assim que eu gosto. - Sorriu satisfeito.
...
Isto realmente era uma péssima ideia, a pior de todas as ideias possíveis que Anderson já teve, eu nunca deveria ter aceitado o convite, mas depois de tudo que tinha acontecido, ficar sozinho em casa parecia sufocante demais.
O trânsito da noite em Boston estava intenso por conta da chuva que caia, meus dedos batucavam no volante em um ritmo nervoso. Eu não lembrava da última vez que havia sentido essa mistura de ansiedade e impaciência por algo tão banal quanto um jantar.
Qual a última vez que estive em um encontro?!
Talvez fosse com Aurora...
Quase meia hora depois de ficar parado no tráfego, cheguei em frente ao prédio de Hannah e enviei uma mensagem curta.
Eu: Estou aqui.
Hannah: Desço em um minuto 😉
Enquanto esperava, eu só conseguia pensar em Aurora e no que ela disse naquele dia em que quase a beijei, em como aquilo me fez sentir, que eu prometi a mim mesmo que não iria procurar mais ninguém, mas no final não estávamos juntos, ela estava com Gabriel, ela tinha a vida dela, eu devia ter a minha e também era só uma noite, umas horas de conversa civilizada com uma estranha atraente, nada demais.
A porta deslizante se abriu e ela saiu, fui até seu encontro com um guarda-chuva. Hannah estava com um vestido preto curto, saltos elegantes demais para apenas um jantar e segurava uma pequena bolsa. Ela era de fato linda, não podia negar e seu sorriso quando me viu era encantadoramente lindo.
Porra, Anderson...
- Oi, Hannah, eu sou o Harry.
- Oi, Harry, obrigada por vir me buscar na chuva. - Ela se inclinou para um beijo no rosto, seu perfume era um pouco doce demais para o meu gosto, mas agradável.
- Sem problemas, é o mínimo.
Por um segundo, Aurora passou na minha cabeça mais uma vez, eu sempre amei o cheiro dela, até mesmo quando não usava nada, era viciante, como se eu precisasse respirar aquilo de novo e de novo.
Merda!
Estava pensando nela de novo.
Sacudi a cabeça discretamente, me livrando de qualquer pensamento e guiei Hannah até a porta do carro abrindo. Assim que fechei, voltei ao meu lado sentindo o espaço no carro de repente menor, ocupado pela sua presença.
Eu não estava animado, não planejei nada especial, o restaurante que eu havia escolhido, se é que podia ser chamado de escolha, era um restaurante italiano. O trajeto até lá até que foi agradável, com pequenas conversas, perguntas óbvias, Hannah parecia ser daquele tipo que nunca ficava sem assunto, eu agradeci por isso.
O restaurante estava movimentado, era um ambiente mais familiar e o mais importante, não tão romântico, perfeito para desencorajar quaisquer expectativas. Conduzi Hannah até a mesa e puxei a cadeira para ela, velhos hábitos de educação que eu não conseguia abandonar, mesmo sem estar no clima.
- Lugar aconchegante. - Comentou ela, olhando ao redor.
- É... - Respondi, evitando seu olhar para estudar o cardápio.
Depois que fizemos nossos pedidos, a conversa voltou a fluir, foi quase como uma entrevista de emprego. Ela era advogada, óbvio, tinha um cachorro, gostava de viajar, foi casada por três anos, sem filhos, focada no trabalho, mas gostava de se divertir às vezes. Contei um pouco sobre mim, sobre meu casamento, mas não as partes vergonhosas e incrivelmente ela não ficou incomodada por eu ter quarto filhos.
Durante o jantar, meu cérebro ficava dividido entre fazer e responder perguntas e se perguntar o que Aurora estaria fazendo.
Será que estava com Gabriel e Liam, mesmo depois de eu dizer que não queria?
Será que estava pensando em mim?
Provavelmente não.
Provalmente eu não deveria estar pensando tanto nela.
Eu deveria focar em Hannah, ela era inteligente, simpática, não tinha culpa de nada e era quase irritante como ela parecia não ter defeitos.
Quando terminamos de comer, pedi a conta e paguei, afinal era um encontro, nos saímos e na calçada, o vento cortante fez Hannah se encolher.
- Ficou mais frio.- Ela comentou, esfregando os braços, tirei meu casaco e a envolvi com ele. Ela sorriu, puxando um pouco mais para se aconchegar. - Obrigada.
- De nada.
- Ouvi falar de uma doceria incrível a algumas quadras daqui. - Ela se aproximou, o braço dela entrelaçando no meu com uma naturalidade que me deixou tenso.- Já que pulamos a sobremesa, que tal irmos experimentar?
A chuva tinha parado, deixando apenas poças espelhadas que refletiam as luzes da cidade. Minha mente gritava "não", mas a outra parte de mim, a parte que estava cansada de pensar em Aurora, cedeu.
- Vamos.
Caminhamos alguns minutos, com o contorno do corpo dela contra o meu braço, era uma presença constante, um peso estranho e não totalmente desagradável.
Na doceria, o lugar era bem Instagramavel, com mesinhas minúsculas, ela pediu um pedaço de bolo de chocolate para dividir.
- Então, Harry... Você quer subir até meu apartamento, quando voltarmos? - A Hannah inclinou-se, o decote de seu vestido mostrando bem mais do que deveria, sua mão descansou na minha coxa. - Podemos conversar um pouco mais.
Ela era bem direta, meu corpo reagiu sozinho, ter ela tão perto fez o sangue correr quente para minha virilha.
Porra.
Fazia séculos que não transava, desde antes do fim do casamento, que meu corpo traidor respondeu rápido e com entusiasmo à proximidade, ao cheiro e um simples toque.
- Hannah... - Meu coração acelerou, uma mistura de desejo físico e uma culpa tão profunda que quase me fez engasgar, que precisei tomar um pouco de água.
- Relaxa, não precisa decidir agora, me leva para a casa e decide na porta, tudo bem? - Ela sorriu, vendo meu nervosismo.
Eu só consegui acenar com a cabeça. A caminhada de volta para o carro foi mais lenta, as falas dela bem mais sugestiva do que ela exatamente queria, mas do nada ela começou a mancar.
- Está tudo bem? - Perguntei quando a senti mancar pela terceira vez.
- Ah! É este salto, ele é lindo, mas um sádico, machucou meu calcanhar.
- Vamos passar em uma farmácia, deve ter alguma aberta por perto. - Falei assim que vi um pouco de sangue.
- Ah, não, Harry, não precisa... Eu nem deveria ter usado eles hoje, não se preocupe.
- Vamos, eu insisto. - A necessidade de fazer algo, qualquer coisa, era maior que a vontade de encarar ela em sua porta e ter que decidir se entrava ou não.
Encontramos uma farmácia 24 horas, que estava praticamente vazia, só um caixa desinteressado que mal nos olhou quando entramos.
- Vou procurar os Band-Aids. - Ela anunciou, sumindo em um corredor.
- Tá. - Eu fiquei parado por um momento, no meio da farmácia.
O que eu faria se ela perguntasse de novo?
E se...
E se eu for?
E se eu aceitar?
Merda! Eu nem tinha camisinhas.
Movido por um impulso de puro nervosismo, caminhei até o corredor indicado e lá estava a prateleira cheia de embalagens prometendo proteção e prazer, me inclinei e fiquei encarando as opções.
Grande ou Extra Grande?
Da última vez, a grande ficou meio apertada, talvez fosse a marca.
Lubrificada ou retardante?
Já fazia um tempo desde a última vez, talvez a retardante fosse mais segura, não queria gozar rápido demais.
Mas que merda eu estava fazendo?
Ali, parado na sessão de camisinhas, fingindo que conseguia fazer aquilo, que era capaz de transar com uma mulher bonita sem pensar na porra da Aurora a cada segundo.
Só que não dava...
Ela estava em tudo...
Soltei o ar frustrado, decidido a largar a maldita camisinha e recusar aquele convite, quando ouvi uma voz me chamando, meu corpo inteiro travou, aquela voz eu conhecia melhor do que a minha própria.
- Harry?
Me virei devagar e encontrei Aurora no meio do corredor, com o Liam no colo e um pacote de lenços umedecidos na mão.
Os olhos dela encontraram os meus, depois desceram até a camisinha que eu ainda segurava e se arregalaram e então, como se o universo gostasse de brincar comigo, Hannah escolheu aquele exato momento para voltar.
- Encontrei os Band-Aids! Vamos?
Não conseguia tirar os olhos de Aurora enquanto ela analisou Hannah, depois seus olhos foram para meu casaco em seu ombro e então voltou para mim.
Parecia que eu tinha sido pego fazendo algo que não devia e o pior, uma parte de mim até que gostou daquilo.
Mas por que ela parecia tão incomodada?
Talvez porque eu tivesse dito a ela que não faria isso, mas que porra importava, já que ela mesma mandou eu sair com outras mulheres, não foi?
Então, por que seus olhos brilharam daquele jeito, como se estivesse prestes a chorar?
Por que parecia que me ver com uma camisinha na mão tinha a machucado?
Talvez ela não esperasse que eu realmente fosse tentar, mas ela tinha Gabriel, acho que eu merecia um pouco de felicidade também.
Ou talvez...
Não...
Não...
Não...
Não era possível...
Talvez, tudo isso era porque ela ainda sentia algo por mim?
Muito obrigado por ler até aqui se gostou considere deixar seu comentário e um voto, é muito importante para mim ❤️
O bar estava barulhento demais, mas o barulho dentro da minha cabeça conseguia ser pior. Eu estava sentado em um banco de couro gasto no fundo do pub, observando o gelo derreter no meu terceiro copo de uísque.
Niall me observava em silêncio do outro lado da mesa, ele sabia que eu estava mal, mas ainda achava que era "só" pelo plano estar dando certo.
Meus olhos não saíam do relógio de parede acima do balcão.
Vinte e duas horas.
Provalmente ela deveria estar com os lábios nos dele ou pior na cama dele...
— Cara, você vai acabar quebrando esse copo — Niall disse, tentando quebrar o gelo. — Eu sei que é uma droga ver ela indo atrás do Zayn, mas você sabia que esse era o objetivo desde o começo, não sabia? Foi você quem sugeriu esse plano no fim das contas.
— Eu sei. — Eu soltei uma risada seca. — Mas tem coisa que você não sabe.
— Tem coisa que você não sabe. — Niall franziu a testa, deixando o copo de cerveja de lado e se inclinando para frente.
— A gente se pegou, Niall, três dias atrás. No chão do meu quarto.
— O quê? Você está brincando?
— Depois daquela briga no pub, ela foi até o meu apartamento, queria se redimir, disse que tinha sido egoísta e aí gente começou a beber... Até que aconteceu.
— Puta merda, Harry... — Niall soltou um suspiro pesado e colocou a mão no meu ombro. — E aí?Foi só pegação ou...
— Não... Quando as coisas começaram a esquentar demais ela travou e meteu aquela desculpa clássica de que "bebemos demais" e que foi um erro. — Niall balançou a cabeça, processando. — Agora ela está lá com Zayn, com o cara que ela realmente quer, depois que de matar sua curiosidade comigo. — Tomei mais um longo gole da minha bebida. — Não duvido que ela deve estar na cama dele agora, Niall e eu estou aqui, parecendo um idiota.
— Cara, se aconteceu isso, ela não está "de boa" com o Zayn, não tem como.
— Você não viu o jeito que ela agiu hoje, Niall, ela entrou lá em casa falando do convite dele como se a gente não tivesse quase transado. — Virei o resto do uísque de uma vez, sentindo o líquido rasgar a garganta. — Ela consegue separar as coisas, eu não.
— Harry, escuta... se o que você sentiu foi tão real assim, ela não esqueceu, ninguém esquece algo intenso desse jeito, ela só deve está com medo de ter que lidar com o que sente agora depois da tudo.
— Não importa mais, Niall, ela faz a escolha dela, se ela quer o Zayn, ela que fique com o Zayn, eu cansei de ser o estepe dela.— Me levantei um pouco cambaleando. — Eu vou embora, não aguento mais imaginar o que está acontecendo naquela casa.
Saí do pub sem olhar para trás, sentindo o ar frio da noite bater no rosto, eu estava puto, estava bêbado e acima de tudo, estava exausto de fingir que não me importava.
...
Eu mal conseguia acertar a chave na fechadura do prédio, minha cabeça latejava e o gosto de uísque ainda estava impregnado na minha boca, tudo o que eu queria era apagar a luz e torcer para não sonhar com ela, o caminho até meu apartamento nunca foi tão longo, mas tê-la parada em frente a minha porta não era um coisa que eu esperava.
— O que você está fazendo aqui? — Minha voz saiu mais alta e mais áspera do que eu pretendia. — Como entrou?
— O porteiro deixou.
— Ah, enganou ele também.
— Harry, eu precisava falar com você, a noite na casa do Zayn, não foi como eu esperava... A gente se beijou, mas não foi nada do que eu imaginei...A gente foi pro quarto, mas... não foi... eu não...
— Zayn! Zayn! Zayn! — Gritei,minha voz ecoou pelo corredor vazio. — É só essa porra de nome que importa pra você? É a única coisa que você sabe dizer? "O Zayn ligou", "O Zayn quer vinis", "O Zayn olhou pra mim" Eu já não aguento mais ouvir esse nome saindo da sua boca!
— Harry, você está me assustando... — Ela sussurrou, as primeiras lágrimas começando a descer.
— Eu estou te assustando? — Soltei uma risada cruel, sentindo o hálito de uísque queimar. - Sabe o que me assusta? É a sua capacidade de ser tão cega, você deitou na cama dele e esperou o milagre acontecer? E agora vem aqui me contar que foi o que esperava? O que você queria, S/n? Que eu te desse um troféu por ter percebido que o cara que você perseguiu por meses é um tédio?
— Não é isso, H... eu só...
— É exatamente isso! Eu cansei de ser o cara que você procura quando o "plano A" decepciona você, o que você achou? Que eu ia abrir a porta, te colocar no colo e dizer que está tudo bem enquanto você ainda tem o cheiro dele em você?
— Por favor, Harry... não fala assim comigo... — Ela sussurrou limpando as lágrimas. — Você ainda está agindo assim por causa do beijo? Olha Harry, eu só falei para nós esquecermos porque achei que você não ligava, que pra você também era só o plano, Harry!
— "Achei que você não ligava"? — Repeti, a voz rouca de raiva. — Eu estou há anos sendo o seu espectador, te vendo se apaixonar por caras que não valem o chão que você pisa, eu ajudei nesse plano maldito porque era a única forma de te ter por perto, de te tocar sem você recuar!Eu sou louco por você, S/n!— Ela arregalou os olhos, o choro travando por um segundo. — Não finja que não sabe, você preferiu acreditar que era "o plano" porque é mais fácil, né?
— Harry, eu não sabia... eu juro...
— Mentira! Você sabia, você só não queria abrir mão do seu troféu Malik, mas agora agora você tem ele, parabéns! — Eu recuei, segurando a maçaneta da porta com força a abrindo. — Acabou, S/n, plano, nossa amizade, tudo, eu não consigo mais olhar pra você.
Fechei a porta, encostei a cabeça na madeira, ouvindo seus soluços desesperados do outro lado, mas o ódio por ela e por mim mesmo não me deixaram abrir.
Agora, não éramos mais nada.
~ 2 meses depois ~
Eu não conseguia olhar para o tapete da sala sem ver nós dois ali. Não conseguia entrar na cozinha sem lembrar dela chorando, mas mesmo com o coração doendo e a saudade dela, eu não cedi, nenhuma vez.
Eu sumi, não respondi suas mensagens, não atendi suas ligações e evitei todos os lugares onde eu sabia que ela estaria.
Mas quando a noite chegava, eu não conseguia evitar de imaginar o quão cruel eu fui por jogar meus sentimentos na sua cara daquele jeito, talvez eu devesse ter dito antes ou de outra forma, mas agora não importava mais.
Eu passei a semana inteira tentando focar nas aulas da faculdade, mas parecia que esses últimos dias tinham sido ainda piores, talvez porque a vi algumas vezes no corredor.
Ela ainda era tão linda.
Na sexta-feira à noite, o Niall me mandou uma mensagem.
"H, comprei aquele jogo novo que você queria testar. Vem aqui em casa hoje? Comprei umas pizzas e a cerveja está gelada, o Louis e o Liam furaram, não se preocupe que não chamei o Zayn, então vai ser só a gente."
Era exatamente o que eu precisava para não enlouquecer sozinho no meu apartamento, peguei meu casaco e fui para lá.
Quando cheguei, a porta estava encostada, o Niall tinha esse costume de deixar aberto quando sabia que eu estava chegando, entrei colocando meu casaco no gancho perto da porta.
— Niall? Já começou a jogar sem mim, seu desgraçado? — Gritei, indo direto para a cozinha buscar uma cerveja.
Quando coloquei o pé na cozinha, meu sangue gelou. S/n estava lá, sentada na bancada, usando o meu moletom cinza que provavelmente tinha esquecido na casa dela e pelas suas olheiras, suas noites não tinham sido melhores que as minhas.
Puta merda.
O Niall é um desgraçado.
— O Niall... — Ela começou com a voz baixa. — Eu implorei para ele me ajudar a fazer você ficar no mesmo lugar que eu. — Dei meia-volta para sair, mas ela correu até mim, me segurando. — Harry, por favor... só cinco minutos.
— Não temos nada para conversar.
— Tem sim. — Ela se afastou o suficiente para olhar em meus olhos. — Então, me deixe dizer tudo bem? — Quando fiquei parado, ela entendeu e continuou. — Eu fui uma idiota! E essa merda de plano foi a pior ideia que a gente já inventou! Eu estava tão focada em provar para o Zayn que eu era "suficiente", que eu não vi que o cara que sempre me achou mais que suficiente estava segurando a minha mão o tempo todo.
— Por que agora? Por que só agora você percebeu o que estava na sua frente?
— Porque eu tive medo, Harry! — Ela exclamou, se segurando para não chorar. — Ter você como amigo era bom, mas desde que a gente começou a fingir, as coisas ficaram confusas, eu comecei a sentir coisas que eu nem sabia que podia sentir por você, eu me assustei, tá legal! Eu fui lá com o Zayn para tentar provar para mim mesma que o que senti com você era coisa da minha cabeça, mas não era, tudo lá com ele parecia errado.
— Eu não quero ser a pessoa que você procura só porque o resto deu errado.
— Eu estraguei tudo, eu sei. — Ela sussurrou, ficando na ponta dos pés para que seu rosto ficasse perto do meu. — Mas eu não aguento mais fingir que eu não quero estar exatamente aqui com você, eu sinto sua falta, Harry... Eu passei essas semanas tentando me convencer de que eu só sentia falta das nossas piadas. Ela colocou suas mãos em meu rosto. — Mas aí eu deitava e lembrava da sua mão em mim, lembrava do jeito que você me olhou no chão do seu quarto e eu percebi que eu não estava sentindo falta do meu "amigo", estava sentindo falta de você por inteiro.
Eu olhei nos seus olhos, a raiva ainda estava lá, em algum lugar em mim, mas a saudade que senti dela...
— Você tem noção do quanto eu te odeio agora? — Baixei o olhar para a sua boca e depois voltei para os seus olhos.
— Tenho — Ela concordou tão próxima que senti sua respiração quente na minha pele. — Mas eu também sei que você não quer que eu vá embora.
— Você tem ideia do que fez comigo quando fala assim? — Comecei a dar passos para frente, fazendo-a recuar. — Você não pode brincar com os meus sentimentos, S/n.
— Eu não estou brincando, Harry. — Ela confessou quando seu quadril bateu na bancada atrás dela. — Eu quero você...
Eu segurei a sua cintura com força, não resistindo a colar meus lábios contra os seus, minha língua invadindo a sua boca com uma possessividade que eu não conseguia mais esconder, e o gemido que ela soltou em meus lábios foi o que acabou com o resto do meu autocontrole.
Minhas mãos desceram para as suas coxas, a suspendendo para envolver minha cintura com as pernas, depois a coloquei sob a bancada, suas pernas se abriram instintivamente, me dando espaço e eu me encaixei ali, sentindo cada curva do seu corpo contra o meu. Minhas mãos desceram pelas suas costas, apertando sua carne, sentindo o tecido fino da sua blusa sob as minhas palmas. Ela soltou uma das mãos da minha nuca e desceu até o meu peito, agarrando minha camiseta, me puxando para ainda mais perto, como se não houvesse proximidade o suficiente no mundo para saciar nossa necessidade agora. Meus lábios desceram trilhando um caminho quente pelo seu maxilar até a curva do seu pescoço, aspirei o seu cheiro, sentindo o pulso acelerado na sua veia e dei uma mordida leve ali, ouvindo-a arfar e cravar as unhas nos meus ombros. — Harry... Ouvir meu nome sair de sua boca fez um calafrio percorrer minha espinha, eu precisava de mais. Voltei para a sua boca, beijando-a ainda mais intensamente, meus dedos encontraram a barra da sua blusa, subindo pela sua pele, revelando seus lindos seios sob o tecido fino do sutiã azul rendado. — Você é tão linda. — Sorri antes de jogar sua blusa em algum lugar da cozinha. — Tem certeza que quer continuar? — Questionei, abaixando e desfazendo o fecho de seu sutiã.
— Sim...
Desci meus lábios até chegar em seu seio direito, minha boca o envolveu por completo, minha língua traçou círculos lentos em seu mamilo, sentindo-a se remexer embaixo de mim, um gemido manhoso saiu dela quando usei os dentes com uma leve pressão, enquanto as pontas dos dedos acariciavam o seio esquerdo, o polegar desenhando espirais até encontrar seu centro e apertar suavemente, em sincronia com o ritmo de minha boca.
— Mas que porra é essa?!! — Ouvimos vindo da porta da cozinha.
Fui rápido ao levantar e puxar contra mim, escondendo seu corpo. S/n colou o rosto no meu pescoço, soltando uma risadinha nervosa enquanto tentava se cobrir com os braços, já que sua blusa estava a dois metros de distância.
— Niall! Saia daqui! — Gritei, sentindo meu rosto esquentar de uma forma que eu não sentia desde os quinze anos.
— Eu moro aqui! — Niall gritou de volta, cobrindo os olhos com uma mão enquanto tateava o ar com a outra. — Eu deixei vocês sozinhos para conversarem, não para transformarem minha cozinha em um set de filme pornô! Styles, eu uso esse balcão para comer, seu idiota!
— Vai embora, Niall! — Repeti sem conseguir esconder minha raiva, mesmo ele estando certo.
— Estou indo! Estou indo! — Ouvimos o barulho dele batendo a porta de novo, mas não antes de ele gritar do corredor — Use o quarto de hóspedes se forem continuar, mas, por favor, depois joguem os lençóis fora!
O som da porta batendo quando o Niall saiu ecoou pelo corredor. A coloquei no chão devagar, mas minhas mãos não queriam lhe soltar. O clima já tinha se dissipado um pouco, abaixei e peguei sua blusa no chão e lhe entreguei.
— Acho que o momento foi oficialmente estragado pelo Niall, né? — Brinquei, puxando-a para um abraço apertado, sentindo seu coração ainda disparado contra o meu peito.
— Bem... — Ela subiu as mãos pelo meu peito até brincar com os cachos da minha nuca. — O quarto de hóspedes não parece uma ideia tão ruim agora...
Segurei o rosto dela entre as mãos, polegares acariciando suas bochechas coradas, eu a queria ali, mas após dois meses de distância, parecia muito pouco.
— Não. — Eu sussurrei, colando nossos lábios em um selinho demorado. — O que eu quero fazer com você vai precisar de mais do que algumas horas escondidas num quarto emprestado.
— Oh, é? E o que exatamente você quer fazer comigo, Harry Styles?
— Quero te levar para o meu apartamento, quero ter você na minha cama onde posso beijar cada centímetro do seu corpo sem pressa, quero fazer você gemer meu nome até perder a voz e depois acordar com você ainda enrolada em mim no dia seguinte. — Minha mão encontrou a dela, os dedos se entrelaçando perfeitamente.
Sinopse: Um final de semana! Uma ilha isolada, meu sugar daddy preferido.
Aviso: Este será uma Short Fic dedicado a Sugar Daddy Styles. +18, incluindo cenas explícitas de sexo em todos os capítulos, álcool e drogas ilícitas, os Hots dessa história estão bem detalhados(muito mesmo) então se esse tipo de conteúdo não for do seu agrado, recomendo que não leia./ Contém cenas de sexo explícito com food play (uso não convencional de alimentos durante o sexo)
NotaAutora: 'cadelinha' é o apelido oficial dela, então se não gostar é só ignorar. Escrevi uma cena de sexo totalmente diferente do que já fiz por aqui, espero que gostem.
Capítulo 1| Capítulo 2 | Capítulo 3
Capítulo 4
O vestido de seda azul deslizava sobre minha pele ainda quente do banho e o plug anal que Harry insistira para eu manter estava fazendo uma pressão a cada movimento enquanto descia as escadas para encontrá-lo para jantar.
Harry já me esperava sentado à mesa com uma taça de vinho nas mãos, seu peito definido à mostra sob a camisa floral aberta, seu shorts bege curto e seus olhos verdes queimando-me enquanto eu me aproximava.
— Você está linda. — Puxou-me para perto, a mão dele deslizou por baixo do meu vestido, os dedos encontrando a marca do plug através do tecido fino da minha calcinha. — Boa garota, continua aí.
— Aproveitou o banho, cadelinha?
— Sim. — Sorri, sentando-me ao seu lado.
— Daddy, o que é isso? — Inclinei a cabeça na direção do balcão da cozinha, onde fileiras de frascos se alinhavam: chantilly, calda de chocolate, tequila, morangos frescos...
— Isso, minha princesa, é o cardápio da sobremesa. — Disse enquanto pousava sua mão grande em minha coxa. — Mas primeiro, você vai jantar, quero você bem alimentada para a noite que preparei.
Ele levantou, começando a servir o jantar que nem vi ser preparado para nós.
— Onde estão os funcionários?
— Mandei eles nos deixarem a sós, voltam só amanhã.
— Ah! E por quê? — Fiz-me de desentendida só para ouvir da boca dele o que iria fazer comigo.
— Por quê? — Repetiu, rindo. — Porque não quero ninguém além de mim ouvindo seus gemidos gostosinhos, a noite toda, baby.
Durante o jantar, Harry não parava de me tocar, sua mão grande acariciando minha nuca, minhas costas, minhas coxas expostas pelo vestido curto. Era delicioso ter esse tempo com ele, sem pressa, sem cobranças, me fazendo até esquecer o que realmente éramos um para o outro.
— Você está especialmente linda hoje, sabia? — Styles murmurou, o hálito quente e doce de vinho contra minha orelha.
— Acho que deve ser o vestido que comprou para mim. — Eu ri, fingindo desdém.
— Não. — Sua mão apertou minha coxa com firmeza. — É você, você é sempre extremamente gostosa, eu não sei como eu pude viver tanto tempo sem te conhecer.
— Você está bêbado, acho que tomou muito vinho durante o jantar. — Ri, deixando um beijo em seu pescoço, tentando afastar os pensamentos conflituosos que me enchiam.
Eu não podia me apaixonar por Harry Styles.
— Não o suficiente. — Ele se levantou, puxando minha cadeira para trás. — Hora da sobremesa, princesa.
Meu coração acelerou quando ele me levou até a ilha da cozinha, onde garrafas de bebidas alcoólicas, caldas, frutas e chantilly nos esperavam.
— Escolhe um. — Ele ordenou.
— Por que?
— Só escolhe. — Suas mãos foram por baixo do meu vestido, apertando minha bunda.
— Chantilly?
— Ótima escolha.
Seus dedos saíram debaixo do meu vestido, encontrando o zíper e puxando devagar, deixando o tecido cair no chão. Eu não usava nada além da calcinha e ao ver meus seios expostos, ele não deixou de aproveitar para prová-los, sua língua quente sugando meu mamilo com intensidade.
— Agora suba. — Ordenou, com as mãos já descendo minha calcinha.
— O que?
— Eu mandei subir no balcão. — Sorriu ao jogar minha última peça de roupa em algum canto da casa.
— Mas nós não íamos comer a sobremesa?
— Você é a sobremesa, cadelinha. — Ele me ajudou a subir na ilha, o mármore era frio contra minha pele quente. — Agora abre.
Seus olhos verdes devoravam-me enquanto abria as pernas, expondo minha boceta pronta para ele brincar.
Ele usou os dedos para me abrir ainda mais, depois cobriu meu clitóris com chantilly, antes de se inclinar e lamber o creme em minha boceta, sugando meu clitóris.
Meus dedos se enrolaram no cabelo dele quando senti sua mão brincando com o plug, enquanto continuava a me chupar, era uma sensação estranha e prazerosa ser estimulada assim.
— Daddy...
— Tá gostoso, né? Pela carinha que você está fazendo, deve estar e porra quando você faz essa cara deixa meu pau ainda mais duro com vontade de meter dentro de você. — Aquele sorriso safado sempre acabava comigo. — Agora escolha o próximo, querida, ainda quero mais.
— Morangos...
— Vamos te decorar direito, cadelinha.
Harry usou o frasco de chantilly mais uma vez, espalhando-o por minha boca, meus seios, minha barriga e minha boceta. Logo depois, segurou um morango vermelho e suculento entre os dedos, passando-o lentamente pelos seios cobertos de chantilly, roçando nos meus mamilos.
Não consegui conter um gemido quando ele mordeu a fruta e o meu mamilo ao mesmo tempo, o suco escorrendo pelo meu seio, formando um fio rosado sobre o chantilly branco, que Harry seguiu o rastro com a língua, limpando cada gota.
— Delicioso. — Murmurou, colocando o que restou do morango na boca.
Ainda insatisfeito, Harry pegou outro morango um pouco maior e começou a descer, passando-o pela trilha de chantilly da minha barriga até o umbigo e quando a ponta do morango encontrou meu clitóris, eu soltei um suspiro trêmulo.
— Porra... — Choraminguei, me contorcendo.
Que sensação era aquela?
Harry usou a fruta para massagear meu clitóris, pressionando e circulando, esfregando o morango para cima e para baixo na minha boceta, me masturbando com ele, era uma fricção diferente de qualquer coisa que eu já tinha sentido.
— Olha como você está deixando o morango molhadinho... Igual a você. — Mordeu os lábios apreciando a vista.
Eu me agarrei às bordas frias do mármore quando ele começou a inserir o morango dentro de mim. Ele não a enfiou todo, deixou metade para fora, então segurando o cabinho, começou a mover a fruta para dentro e para fora.
— Daddy... — Meus olhos arregalaram, era uma sensação tão diferente de seu pau e seus dedos ou qualquer outra coisa que já senti dentro de mim.
— Quer que eu tire? - Ele fez questão de girar o morango.
— Não...
Harry sorriu, continuando a movê-lo dentro de mim, cada movimento fazia o suco do morango se misturar com meus próprios fluidos, um som baixo e molhado ecoava no silêncio da cozinha, juntamente com meus gemidos.
A estranheza inicial começou a se dissipar, dando lugar ao prazer, meus quadris começaram a se mover por vontade própria contra a fruta, buscando mais.
Eu estava perdendo a cabeça com a porra de um morango.
Sua mão livre desceu até o plug anal, pressionando-o suavemente enquanto o morango continuava seu movimento dentro da minha boceta. A dupla estimulação era quase insuportável de tão boa que meu corpo todo começou a tremer, uma onda de calor subindo do meu abdômen.
— Tá perto, né? — Harry sussurrou, os olhos fixos no ponto onde o morango desaparecia dentro de mim.
Ele curvou-se e prendeu meu clitóris entre os lábios, sugando forte enquanto continuava a foder-me com o morango e a brincar com o plug.
Não aguentei mais do que àquilo, longos gemidos começaram a sair da minha boca, altos e descontrolados, quando aquele formigamento prazeroso começou a se espalhar por meu corpo, minha visão escureceu e aquele prazer foi tão intenso que parecia me despedaçar por dentro. Harry não parou de lamber e chupar até o último tremor, até eu estar completamente fraca e derretida sobre o balcão.
Styles deu um sorriso perverso, tirando o morango ensopado e brilhante e levou o morango à boca, chupando, depois comendo todo em uma mordida.
— Ah... Porra... Seu gosto… Misturado com o do morango, é muito melhor do que qualquer doce, princesa.— Harry limpou os lábios com o dorso da mão, um sorriso de pura satisfação estampado no rosto enquanto me observava ainda tremendo.— Vem cá. — Segurou minha mão, guiando-me para fora da bancada.
Seus lábios encontraram o meu com pressa, senti o sabor do morango em sua língua, me deixando estranhamente mais excitada.
— Daddy... Preciso de você...
Harry me levou até a sala, me deixou parada em pé, observando-o tirar seu shorts e a cueca, seu lindo pau saltou para fora me fazendo desejar ainda mais ter ele dentro de mim, quando Harry me puxou para mais perto eu achei que ia me colocar para cavalgar em seu colo até gozarmos de novo, mas ao invés disso, de repente, o mundo ficou de cabeça para baixo, literalmente, ele me virou, me posicionou sobre ele, seu braço forte envolveu minha cintura e o outro segurou minha coxa, antes que eu entendesse eu estava suspensa de ponta-cabeça, com as pernas abertas e minha boceta centímetros de seu rosto e minha boca alinhada com seu pau duro, escorrendo pré-gozo.
— Caralho! — Meu coração disparou, mas as mãos dele estavam firmes, segurando meu quadril como se eu não pesasse nada.
— Nunca fez 69 assim, princesa?
— N-não! — Engoli seco, minhas mãos se agarrando em suas coxas por falta de algo melhor para segurar.
— Bom. — Ele deu um tapa na minha bunda, a pele ardendo sob o impacto. — Sempre tem a primeira vez para tudo, não é?
Já passava da meia-noite, eu estava jogado no sofá, jogando videogame sem nem prestar atenção, a luz da cozinha sendo a única coisa acesa, enquanto eu pensava que a essa hora, ela provavelmente estaria com o Zayn em algum lugar escuro daquele pub.
Foi quando batidas na porta ecoaram me fazendo levantar, me arrastei até lá e quando abri S/n estava parada ali, mas não havia fúria no seu rosto, seus olhos estavam baixos e ela segurava um fardo de cervejas pela alça plástica.
- O que está fazendo aqui? - perguntei, ainda um pouco bravo.- Não deveria estar com o Zayn?
- O Niall me contou... - Ela desviou o olhar por um segundo, parecendo desconfortável.
- O Niall contou o quê? - perguntei, ficando tenso.
Se aquele loiro abriu a boca sobre o que conversamos no pub, eu estava arruinado.
- Ele disse que você teve um dia péssimo e que eu fui uma idiota egoísta, ele tem razão, H, eu só pensei em mim, me desculpe. - Ela foi
entrando antes que eu desse permissão. - Eu quero me redimir, não vamos falar de Zayn, não vamos falar de plano, só nós dois, como sempre fazíamos o que acha?
Aquilo mexeu comigo, vê-la ali, era tudo o que eu precisava, quando eu pensei que ela estava lá se entregando para outro, mas ela estava ali pedindo pra ficar.
- Tudo bem - murmurei, derrotado pelo meu próprio desejo.- Só nós dois.
Fomos para o meu quarto, sentamos no chão, encostados na beira da cama, com as cervejas geladas entre nós.
Pelas próximas duas horas, o relógio pareceu parar, voltamos a ser o Harry e a S/n de antes, rimos, brincamos, relembramos nossas memórias antigas.
- Você está melhor? - Ela se inclinou, apoiando o peso do corpo em uma das mãos, ficando perigosamente perto de mim.
- Sim - respondi, mas meus olhos traíram meu autocontrole e desceram para sua boca.
Talvez eu tenha bebido um pouco demais ou não.
- Harry? - Ela chamou bebendo um pouco mais da cerveja.- Onde você aprendeu a beijar daquele jeito?
Eu travei por um segundo, o gargalo da garrafa ainda encostado nos meus lábios.
- Do que você está falando? - tentei desconversar, soltando uma risada curta e seca.
- Do corredor da festa, H. - Ela se inclinou um pouco mais para o meu lado, o ombro quase roçando o meu. - Eu não esperava aquilo de você, onde aprendeu a beijar assim?
-Por que a pergunta? - provoquei, baixando o tom de voz. - Você gostou, é isso?
Eu senti meu sangue esquentar, recostei minha cabeça na cama, olhando para o teto, deixando um sorriso convencido aparecer.
- Não, claro que não.
Eu me virei de lado, apoiando o cotovelo no chão para ficar de frente para ela.
- Mentirosa - eu disse, a voz num sussurro rouco. - Você Ficou toda fraquinha por mim naquele corredor, admite.
- Você é muito convencido, sabia?- Ela deu um tapa brincalhão no meu peito, me empurrando levemente. - Você que parecia que nunca tinha beijado uma mulher na vida de tão desesperado, estava tentando me provar alguma coisa, Styles?
Eu soltei a garrafa de lado e me aproximei mais, diminuindo o espaço até que nossos joelhos se tocassem, eu conseguia sentir o calor da sua pele, o cheiro doce da cerveja e aquele perfume de baunilha que sempre me perseguia nos meus piores sonhos.
- Desesperado? - repeti, arqueando uma sobrancelha. - Eu não chamaria de desespero, eu chamaria de entrega ao personagem, eu sou um ótimo ator, não sou? - Minha mão, que antes estava no tapete, agora subia lentamente, os nós dos meus dedos roçando a lateral da sua perna, de leve, quase como se fosse um acidente.
- Tá, até que foi convincente. - Ela esticou a mão, em vez de me empurrar, começou a brincar com um dos meus anéis, girando-o no meu dedo de um jeito que me fez prender a respiração.
- Só convincente? Acho que e eu merecia um Oscar.
- Não abusa, Styles, foi tão bom assim.
- Ah, é? - murmurei, me aproximando até que nossas testas quase se tocassem. -Tem certeza?
- Harry... - Ela murmurou, e o som do meu nome na sua voz, naquele tom baixo e arrastado, foi o fim de qualquer resquício de sanidade que eu ainda tentava manter.
Deslizei minha mão para o seu rosto, espalmando minha mão na sua bochecha e forçando-a me olhar, antes de atacar seus lábios com uma urgência que me assustou.No momento em que minha boca encontrou a sua, o mundo lá fora deixou de existir. Seus braços envolveram meu pescoço com uma força desesperada, puxando-me para mais perto, como se ela também estivesse faminta por aquilo.
Eu a puxei para o meu colo, ignorando o desconforto do chão, apenas para sentir o peso do seu corpo contra o meu. Minha outra mão desceu para a sua cintura, apertando o tecido da sua blusa, sentindo a curva da sua pele.
Eu puxei seu corpo para cima, forçando-a sentar no meu colo, apenas para sentir a pressão das suas coxas contra o meu quadril. Minha outra mão desceu para a sua cintura, apertando o tecido da sua blusa, sentindo a curva da sua pele.
Eu sentia suas mãos se enterrando nos meus cachos, puxando-me para mais perto, o que só me fazia querer mais. Cada som que escapava da sua garganta era como um combustível para o incêndio que você tinha acendido em mim
Desci meus beijos pelo seu maxilar, sentindo o pulso acelerado no seu pescoço, dei uma mordida leve, sentindo-a soltar um gemido abafado que me fez perder o resto do juízo.
Eu parei por um segundo, meus lábios roçando os seus, a respiração tão curta que meu peito doía.
- Você não tem ideia - sussurrei contra sua boca. - Do que você fez comigo hoje à tarde...Ficando ali, daquele jeito... de lingerie, na minha frente, você me deixou louco. - Eu a guiei suavemente até que ela estivesse deitada no tapete. - Eu sou um homem, S/n e você estava agindo como se eu fosse invisível, quase nua na minha frente. - Eu me joguei por cima dela, prendendo o seu corpo com o peso do meu, minhas mãos subiram, entrelaçando meus dedos nos seus e prendendo seus braços acima da cabeça, forçando seu peito a arquear contra o meu. - Como se eu não estivesse morrendo de vontade de fazer exatamente o que eu estou fazendo agora.
Eu não estava mais sendo um "bom amigo". Minha mão desceu pela lateral do seu corpo, apertando a curva do seu quadril com uma possessividade que me fez sentir um calafrio. Eu queria que ela sentisse o quanto eu estava reagindo a ela, o quanto estava duro por ela. Queria que ela soubesse que, enquanto pensava no Zayn, eu estava aqui, queimando vivo por causa de cada centímetro seu.
- Harry...
Eu olhei para ela com uma intensidade que eu não conseguia mais esconder. Meus olhos deviam estar escuros, famintos, revelando muito mais do que as minhas palavras de "apenas desejo" tinham dito e foi nesse contato visual prolongado e profundo demais, que a bolha estourou.
S/n piscou e aquela névoa de desejo nos seus olhos pareceu vacilar por um segundo quando ela percebeu a gravidade do que estava acontecendo entre nós dois.
- O que... o que a gente está fazendo,H?- Eu congelei por um segundo, ainda por cima dela, sentindo o calor do seu corpo começar a esfriar contra o meu. - Acho que... acho que a gente bebeu demais.
- É, com certeza - Me afastei, saindo de cima dela.
Sentei-me no chão e apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos enterradas nos cabelos, meu peito ainda subia e descia rapidamente.
- A gente estava aqui, bebendo... - Eu ouvi o som do seu corpo se movendo no tapete, ela se sentando e ajeitando a blusa com movimentos rápidos. - E toda essa coisa de fingir que estamos ficando, acho que nossas cabeças se confundiram um pouco.
Doía ouvi-lá rotular o momento mais real da minha vida como uma "confusão de cabeça" causada por um plano para conquistar outro cara.
- Não precisa se explicar - eu disse, finalmente levantando-me e caminhando até a janela, dando as costas para ela.- Você tem razão, muita cerveja, a gente se perdeu um pouco.
Eu queria gritar que não tinha sido a bebida, queria dizer que eu estava sóbrio o suficiente para saber exatamente o que eu estava fazendo quando a pressionei contra aquele tapete.
- Melhor você ir, não? - perguntei, sem me virar. - Já está tarde.
- Harry, você está bravo?
- Bravo? Por que estaria? Somos amigos, lembra? Amigos que bebem demais e fazem bobagem às vezes. - Cada palavra parecia uma mentira cravada na minha garganta. - Vai lá. A gente se fala depois.
Eu a acompanhei até a porta em um silêncio mortal, quando S/n saiu e a porta se fechou, eu encostei a testa na madeira fria e fechei os olhos. O cheiro de baunilha ainda estava impregnado no corredor, o gosto dela ainda estava na minha língua e o pior de tudo era saber que, para ela tudo aquilo não havia significado nada.
...
Eu sabia que estava sendo um idiota.
Sabia que estava sendo egoísta do caralho evitando olhar para a tela do meu celular toda vez que ele vibrava com o seu nome, mas se eu a visse, se eu sentisse aquele cheiro de baunilha de novo, eu não sabia se conseguiria, eu tinha medo de olhar nos seus olhos e ela me dizer, com toda a naturalidade do mundo que não se lembrava de metade do que aconteceu ou que lembrava, mas que não passava de um erro bobo causado pela cerveja.
"H, está vivo?"
"Podemos conversar?"
"Harry, para de me ignorar."
"O que eu fiz?"
Até que eu não tive escolha, ela batia na minha porta insistentemente e sabia que não iria desistir até eu abrir a batida na porta.
— Ah! Você está vivo. — Ela estava com os braços cruzados seus olhos pareciam estar fervilhando de raiva. — Três dias, Harry, três dias você vem me ignorando, o que está acontecendo? — Ela entrou, e o ar do apartamento pareceu ficar subitamente mais pesado.
— Eu estive ocupado — murmurei, fechando a porta e mantendo uma distância segura.
Eu não podia chegar perto.
— Ocupado demais para a sua melhor amiga? — Ela soltou uma risada amarga. — Se for pelo que aconteceu, Harry, a gente já falou disso, foi a bebida não precisamos transformar isso em um drama, não é?
— Eu não estou fazendo drama. — Eu apertei o maxilar, sentindo a raiva borbulhar sob a pele. — Só precisava de um tempo...
— Tudo bem, já teve seu tempo, agora podemos voltar ao normal?
— Sim, sim.
— Bem, eu vim te avisar uma coisa, o Zayn me ligou. — O nome dele saiu da sua boca e eu senti um gosto de bile. — Ele disse que quer que eu vá na casa dele, ele quer me emprestar uns vinis, disse que lembrou que eu queria ouvir um álbum específico que eu estava há tempo querendo ouvir.
Eu passei três dias me martirizando, três dias sentindo o fantasma das suas mãos no meu corpo, para ela entrar aqui e falar do Zayn em menos de cinco minutos.
Como ela conseguia?
Como ela conseguia agir assim, como se a gente não tivesse quase transado naquele tapete a poucos metros de onde ela estava agora?
— Vinis? — repeti, a palavra saindo carregada de um sarcasmo ácido. — Puxa, o Zayn é mesmo um mestre da sedução, não é? Um convite desses é de tirar o fôlego.
— Harry, não começa, é óbvio que os vinis são só uma desculpa, né? — Ela um passo em minha direção, me observando de perto. — Ele quer que eu vá lá pra gente ficar sozinho, o plano funcionou, Harry, ele finalmente tomou uma atitude real.
Eu olhei para ela por um segundo, o silêncio foi ensurdecedor, o plano funcionou ela tinha o que queria, o Zayn Malik estava a convidando para o território dele, usando a desculpa mais velha do mundo e eu deveria estar comemorando.
Deveria estar orgulhoso do meu papel de cupido, mas tudo o que eu sentia era uma vontade absurda de a segurar pelos ombros e perguntar se ela era cega, se realmente achava que o interesse súbito do Zayn por vinis chegava aos pés do que a gente viveu naquele tapete.
— É, meus parabéns, você conseguiu.— respondi, desencostando do balcão e caminhando lentamente até ela. — Mas é fascinante como você consegue virar a chave tão rápido, uma noite você está... bem, você sabe onde estava e na outra, já está pronta para ir ouvir a coleção de discos do Malik como se nada tivesse mudado.
— Porque nada mudou, Harry! — Ela exclamou, a voz subindo de tom. — A gente concordou, foi um erro, foi a bebida, por que você está tornando tudo tão difícil?
— Difícil? — soltei uma risada seca, dando mais um passo, encurralando –a contra a mesa da sala. — Eu não estou tornando nada difícil, S/n, só estou impressionado com a sua performance, se eu soubesse que você era tão boa em esquecer as coisas, eu não teria me preocupado em te dar espaço para ambos repensarmos no que fizemos.
— Eu não esqueci! — Ela rebateu. — Mas o que você quer que eu faça? Que eu jogue tudo pro alto por causa de um momento de fraqueza? O objetivo sempre foi ele e você sabia disso quando teve a ideia de fazer esse plano.
"Um momento de fraqueza".
Cada palavra dela era como facada na minha pele.
— Claro, o plano — murmurei, recuando e dando as costas para ela, porque se eu continuasse a olhando, eu ia acabar perdendo a cabeça. — Vá lá, então, vá pegar seu objetivo, vá ter o seu momento com o cara que você tanto queria.
— Harry...
— Vai logo — A cortei. — Eu tenho mais o que fazer e avise ao Zayn que, se ele precisar de mais alguma dica de como agir como um homem, ele pode me ligar, já que eu fiz o trabalho pesado por ele, o mínimo que ele pode fazer é me agradecer.
Eu sabia que estava sendo um babaca, mas era a única forma de não cair de joelhos e implorar para ela não ir e quando ouvi o som da porta se fechando, eu sabia que não tinha mais volta.
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