Algo do Luís como uma fã o conhece em um meet and greeting e ele se interessa por ela e por aí vai?
Bastidores e Borboletas. Louis Tomlinson
Sinopse: Um encontro de fãs acaba em borboletas no estômago de Louis, quando ele não entende como uma desconhecida parece, de repente, encaixar-se perfeitamente em sua vida.
Avisos: nenhum. Somente clichê.
Para ser sincera, S/N nunca tinha sido a maior fã da One Direction. Na época da febre mundial, ela era a garota que preferia o indie rock no fone de ouvido e achava que o estilo da One Direction não combinava muito com ela. Em sua concepção, Louis era só mais um rosto bonito estampado em capas de revista que sua prima colava na parede do quarto. Ele era inegavelmente bonito, sim, com aqueles olhos azuis marcantes, mas distante demais da sua realidade para significar alguma coisa.
E além disso, ele não seria o preferido de S/N. Zayn, talvez. Mesmo sendo muito bonito, não chamava tanto a sua atenção ao ponto de venerá-lo e torná-lo o seu cantor favorito.
Anos depois, quando ele seguiu carreira solo e começou a lançar aquele som puxado para o britpop, guitarras pesadas e letras um tanto quanto melancólicas, S/N achou que passaria reto do mesmo jeito. Só que não passou. A música dele, crua, honesta, com um sotaque carregado de Doncaster em cada verso, acabou encontrando espaço nas playlists dela por puro acaso. E foi justamente por isso que, quando a oportunidade de um ingresso VIP surgiu através de um sorteio relâmpago de última hora, ela aceitou ir mais por curiosidade do que por devoção cega.
O problema é que bilhetes de meet and greet têm uma lógica própria. Eles são feitos para serem transações rápidas: abraço cronometrado, pose padrão para a foto, um "muito obrigado" abafado pelo barulho do corredor e tchau. S/N sabia disso. Ela não estava ali esperando uma epifania cósmica, que Louis fizesse a maior cerimônia ao vê-la.
Estava ali porque um ingresso VIP de última hora caiu no colo dela e, bom, ver um show da primeira fila sem pagar uma fortuna não era algo que se recusava.
Mesmo assim, quando a porta do camarim se abriu e o segurança fez um gesto seco para que ela entrasse, o ar na sala pareceu mudar de densidade.
Louis Tomlinson estava sentado na ponta do sofá, distraído, mexendo em uma garrafa de água. Não havia pose de estrela pop ali. Ele vestia uma camisa escura meio amassada e jaqueta de couro, com o cabelo desalinhado de quem tinha acabado de passar o som. Quando ela deu o primeiro passo para dentro, ele ergueu o rosto.
Esperava-se o sorriso protocolar de quem já tinha cumprimentado duzentas pessoas naquele dia. Em vez disso, os olhos azuis dele encontraram os dela e travaram no mesmo segundo.
Louis parou o movimento com a garrafa. Os ombros dele, que estavam relaxados, tensionaram levemente. Ele a encarou com uma curiosidade tão direta que S/N se pegou olhando para trás para ver se havia alguém mais entrando na sala com ela. Não havia. Era só ela.
— Oi — ele disse. A voz saiu um pouco mais baixa e arrastada do que o esperado, carregada daquele sotaque pesado do norte que não combinava com o resto do cenário dos bastidores.
S/N fechou a porta devagar, sentindo o peso daquele olhar de um jeito que a incomodou, não de um jeito ruim, mas de um jeito estranho demais para duas pessoas que nunca tinham cruzado o mesmo fuso horário.
— Oi, Louis — ela respondeu, mantendo a voz firme, embora houvesse uma estranha fricção no ar, como eletricidade estática antes de uma tempestade.
Ele não se levantou de imediato. Apenas continuou ali, avaliando-a com uma testa levemente franzida, como se a sua presença ativasse um arquivo corrompido na memória dele.
Ela nem sequer parecia fã. Louis teve dúvidas disso.
S/N não estava com uma camiseta de turnê, não carregava nenhum pôster enrolado debaixo do braço e tampouco exibia aquela expressão de adoração cega que ele estava acostumado a ver em repeat todos os dias. Ela vestia uma calça jeans comum, uma jaqueta neutra e tinha o cabelo preso de qualquer jeito, com a postura de quem estava ali para bater ponto, ou por uma aposta que tinha dado errado.
Louis estreitou os olhos por uma fração de segundo, avaliando a calmaria que não aparentava ser ensaiada, mas mesmo assim, tinha cuidado pois já tinha presenciado cenas parecidas antes.
— Você não parece muito nervosa — ele comentou, a voz saindo num tom meio de desafio, meio de pura curiosidade genuína. Ele finalmente se ajeitou no sofá, largando a garrafa de água de lado. — Na verdade, tem uma cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar do mundo agora.
S/N soltou uma risada curta, sem graça, mas sem se intimidar.
— Para ser totalmente justa? Eu estava pensando se ia conseguir achar um café decente antes de entrar aqui. Nada contra o seu som, mas os bastidores são meio caóticos.
O silêncio que se seguiu durou um segundo a mais do que o socialmente aceitável. O segurança na porta deu um passo falso, tossindo levemente para lembrar que o relógio estava correndo, mas Louis nem sequer piscou. Ele não se ofendeu, mas o canto da boca dele subiu em um sorriso torto, quase imperceptível.
Aquela resposta crua, sem o filtro da idolatria automática, pareceu oxigenar o ar da sala de um jeito bizarro.
— Um café nos bastidores é praticamente uma loteria — Louis respondeu, balançando a cabeça, o olhar ainda preso nela com aquela insistência irritante. Ele se levantou do sofá, ficando a poucos passos de distância. — Mas já que você teve o trabalho de vir até aqui... quer dizer que pelo menos sabe quem eu sou, né? Ou você só ganhou esse crachá de brinde numa esquina?
S/N cruzou os braços, encarando-o de igual para igual, sem o menor pingo de timidez ensaiada.
— Sorteio relâmpago de última hora. E sim, eu sei quem você é. Ganhei o crachá e pensei: "Bom, pelo menos vou garantir a foto para mandar pra minha prima". Ela sim colecionava pôsteres seus no quarto em 2014. Vai ser o ápice da vida dela.
Louis soltou uma risada genuína, um som curto e soprado que quebrou o resto da tensão que ainda resistia no ar. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça preta, balançando levemente o corpo para frente.
— Ah, entendi. Sou só um brinde de luxo para fazer inveja na sua família — ele provocou, arqueando uma sobrancelha com aquele ar tipicamente irônico de Doncaster. — Que moral incrível a minha.
— Olha, não leve para o lado pessoal. Minha prima te daria um rim se estivesse aqui no meu lugar, então o saldo da sua popularidade continua positivo — retrucou ela, sem perder o ritmo.
— Você chegou um pouco atrasada. Um pessoal deixou isso aqui há um tempo. Então, dá pra entender que, realmente, você não é lá a minha maior fã. — ele riu, como se não se importasse muito com o fato de ela cagar pra ele.
Aquilo era... Familiar. Talvez lhe trouxesse à memória os tempos em que ele era insignificante para todos e passava despercebido facilmente.
— Oh, céus! — S/N procurou o comprovante daquele ingresso, mas não achou. Tinha entregado tudo. Que droga. Ela jurava ter visto exatamente aquele horário. — Eu não acredito. Só pode ser brincadeira, né!
Louis ergueu uma sobrancelha. — Não... Talvez meu segurança tenha lhe deixado entrar por engano. Mas veja, faz pouco tempo que acabou. Você não está tão atrasada assim. — ele deu de ombros. S/N não sabia onde se enfiar, tamanha a vergonha que estava sentindo.
— Olha, me desculpa mesmo, ok? Eu não sabia. Realmente admiro seu trabalho. Não é porque não sou fã que não tenho direito de gostar das músicas. Então, que tal tirar a foto para que eu possa ir embora e te deixar em paz, ein? Me livrar dessa vergonha que estou sentindo agora.
Louis gargalhou mais uma vez, percebendo que aquela cena toda, na verdade, não foi premeditada realmente. Talvez ela tenha se enganado, não é todos os dias que isso acontece, mas quem sabe. Para tudo tem uma primeira vez.
Ele deu um passo mais perto, a expressão mudando de irônica para algo mais curioso, quase desafiador. Ele estreitou os olhos azuis, como se quisesse testar os limites daquela sinceridade toda.
— Não se preocupe! Mas veja... Já que você tem tanta familiaridade assim com a minha pessoa... aposto que nunca ouviu uma música minha na vida. Chuta aí. Duvido que saiba o nome de alguma coisa que eu tenha lançado depois que a banda acabou.
S/N o encarou de volta, sustentando o olhar por alguns segundos antes de suspirar, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Ela não precisou fingir que estava pensando muito.
— Walls — disse ela, o tom saindo calmo e direto. — E não foi por livre e espontânea vontade. Uma amiga minha colocou no repeat o álbum inteiro num dia em que a gente estava dirigindo na estrada. Não é exatamente o meu tipo de som, mas... a faixa-título é decente. Tem uma batida meio melancólica que cola na cabeça.
O sorriso de Louis murchou um segundo, dando lugar a uma expressão de surpresa genuína. Ele piscou, claramente esperando qualquer resposta, menos a citação exata de sua faixa mais pessoal.
O segurança na porta pigarreou de novo, um sinal claro de que o tempo do meet and greet há muito havia estourado, mas Louis ergueu a mão sem olhar para trás, pedindo silêncio com um gesto seco.
— Você não parece gostar muito do meu som. Até que não é tão ruim, vai. Dá um crédito! — S/N deu uma risada alta que deixou Louis um pouco sem graça.
— Eu não disse isso. Cara, eu até gosto de algumas músicas! Não sou fã, mas tem uma ou outra na minha playlist que eu curto ouvir em momentos específicos do meu dia.
A resposta direta pegou Louis de surpresa. Geralmente, ele não gostava que ninguém apontasse os defeitos dele, ou rir de sua cara daquela forma tão natural, mas naquele momento, ele não se importou.
A franqueza dela não soava como afronta; soava como um refresco em meio a tantas pessoas que o tratavam como se ele fosse de vidro.
S/N olhou para o relógio na parede, percebendo o desconforto silencioso do segurança logo atrás, e ajeitou a alça da bolsa.
— Olha, não quero tomar muito do teu tempo — disse ela, com um tom prático e direto — …. então, que tal tirarmos essa foto? Irei embora, sei que você tem muita coisa pra fazer.
Louis piscou, saindo do transe em que estava. A foto. É claro. O motivo principal de ela estar ali. Mas a ideia de vê-la virar as costas e sumir pela porta dali a trinta segundos deixou um gosto estranho e amargo na boca dele.
— Espera. A foto a gente tira — Louis murmurou, passando a mão pela nuca, antes de dar um passo rápido até a mesa onde jogou seu celular e os crachás de acesso. Ele pegou uma credencial laminada diferente, com uma fita preta, e começou a rabiscar algo apressado no verso com uma caneta da mesma cor — Antes de você fugir... Você vai no show hoje à noite, né?
S/N suspirou, cruzando os braços de novo, sem o menor pingo de glamour.
— Nem pensar. O ingresso estava absurdo de caro, totalmente fora do meu orçamento. E, sejamos sinceros, eu nem sei todas as músicas para gastar o dinheiro do meu aluguel nisso.
Louis ergueu os olhos do papel, incrédulo.
— Você ganhou um meet de graça, mas acha caro pagar para ver o show?
— Ganhei no sorteio relâmpago, o que é bem diferente de desembolsar o equivalente a uma semana de compras no mercado — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha com um sorriso irônico.
Ele balançou a cabeça, soltando uma risada abafada. Sem dizer mais nada, Louis terminou de assinar o verso da credencial, arrancou o passe da mesa e deu a volta, parando bem na frente dela.
Ele estendeu o crachá com fita preta, segurando-o na altura do peito dela, a centímetros de distância.
— Pede um momento para o seu bolso e aceita isso aqui — disse ele, com um tom que não aceitava recusa, embora os olhos azuis brilhassem em um desafio brincalhão. — É um acesso livre para o camarote, bem na frente do palco. Dá para ver tudo direitinho e não vai te custar um centavo.
S/N olhou para o crachá, depois para o rosto dele, desconfiada. — O que você está fazendo? Nem nos conhecemos direito.
— Exatamente por isso. Quero provar que você está errada sobre o meu som — Louis deu um sorriso de canto, aquele tipo de sorriso perigoso que costumava estampar capas de revista, mas direcionado apenas a ela. — Vai lá hoje à noite. Eu garanto que você vai gostar muito... das músicas. E, principalmente, de mim.
O segurança deu mais um passo à frente, quase roçando em Louis, mas o cantor nem se moveu. S/N hesitou por um segundo, o cérebro processando a audácia daquele convite, antes de esticar a mão e puxar a credencial dos dedos dele.
Ela deu um sorriso leve, guardando o passe no bolso da jaqueta, e deu as costas em direção à porta.
— Prometo pensar no caso, Tomlinson. Mas não crie muita expectativas.
— Eu não crio expectativas, S/N! — Louis respondeu meio alto, rindo sozinho — Só tenho certeza!
— Ahh, e a foto... — Louis disse antes que ela fosse embora, dando dois passos rápidos na direção dela, com um sorriso vitorioso nos lábios. — Hoje à noite a gente tira. Posso até gravar um vídeo exclusivo para a sua prima, falando o nome dela e tudo mais... mas só se você me prometer que vai vir!
S/N parou no meio do caminho, virando-se lentamente para encará-lo. Ela olhou para o crachá com fita preta que acabara de enfiar no bolso da jaqueta e, depois, para os olhos azuis dele, que brilhavam com um desafio divertido e teimoso. A chantagem emocional com direito a bônus para a prima era golpe baixo, e os dois sabiam disso.
Ela soltou um suspiro derrotado, mas o canto dos lábios inevitavelmente se curvou em um sorriso.
— Você sabe usar as armas certas, hein, Tomlinson? — ela provocou, balançando a cabeça em sinal de rendição. — Tá bom. Promessa é dívida. Eu vou ao show.
— Ótimo! É bom mesmo, porque eu tenho memória boa para quem promete as coisas — Louis respondeu, cruzando os braços com um ar de triunfo irresistível. — E relaxa, o fotógrafo vai caprichar na nossa foto mais tarde.
O segurança, já sem saber se fingia demência ou se arrastava os dois dali a força, pigarreou pela milésima vez. S/N apontou para a porta com o polegar, rindo da situação inteiramente absurda em que tinha se metido por causa de um sorteio relâmpago.
— Combinado, então. Até mais tarde, Louis.
— Até mais tarde, S/N. Não ouse furar comigo! — ele avisou, ainda sorrindo enquanto ela finalmente abriu a porta e desapareceu no corredor dos bastidores.
De repente, o camarim pareceu absurdamente silencioso e vazio de novo. Mas, pela primeira vez em meses de turnê exaustiva, Louis percebeu que as próximas horas até subir no palco não seriam apenas mais um show na agenda. Elas tinham acabado de ganhar um motivo muito específico para acontecer.
O resto da tarde passou num borrão de ansiedade que S/N se recusava a admitir que estava sentindo. No fundo, ela continuava repetindo para si mesma que estava indo apenas pela curiosidade, pelo privilégio de um camarote VIP e, claro, pelo vídeo exclusivo que garantiria o título de prima favorita da década. Mas, enquanto remexia o armário do quarto de cima a baixo, a desculpa da indiferença começou a desabar.
— Cadê? Eu juro que tinha um vestido que prestava aqui... — murmurou sozinha, puxando cabides e jogando blusas na cama em uma bagunça monumental.
Mesmo dizendo que não era fã, a ideia de ficar perto do palco principal, e, pior, de ter o próprio Louis Tomlinson escaneando a multidão para procurá-la, mexeu com os seus nervos de um jeito irritantemente eletrizante. Ela descartou três opções por acharem "chamativas demais" e outras duas por parecerem "simples demais para um camarote". No fim, optou por um vestido tubinho preto, levemente justo, combinando com a jaqueta de couro e coturnos confortáveis. Nada excessivo, mas com atitude suficiente para mostrar que ela não estava ali intimidada.
Enquanto passava um rímel rápido na frente do espelho, ela se pegou dando risada do próprio reflexo.
— Você vai virar fã de carteirinha por causa de um passe livre e um par de olhos azuis debochados, S/N? É sério isso? — balançou a cabeça, ajeitando o cabelo às pressas antes de pegar a bolsa e conferir pela milésima vez se a credencial com fita preta estava lá dentro.
O caminho até a arena parecia mais curto do que de manhã, mas o trânsito e o formigamento no estômago pareciam intensificar a cada quadra. Quando chegou ao setor VIP, o contraste entre o empurra-empurra da pista comum e o espaço reservado e exclusivo do camarote foi imediato. A energia do lugar pulsava forte nas caixas de som de teste, e o cheiro de suor, perfume caro e expectativa tomava conta do ar.
Ela mostrou o crachá especial, passou direto pelos seguranças que pareciam até tratá-la com mais respeito por causa da fita preta, e encontrou um cantinho privilegiado na primeira fileira do camarote.
As luzes da arena começaram a piscar e a multidão foi à loucura, erguendo milhares de celulares como vaga-lumes impacientes. S/N encostou os braços no parapeito metálico, o coração dando um salto estranho no peito enquanto os primeiros acordes da banda começavam a ecoar. Ela respirou fundo, ajeitou a gola da jaqueta e pensou: vamos ver se o Tomlinson realmente entrega o que promete.
Quando as luzes da arena se apagaram de vez e os primeiros acordes estrondosos ecoaram pelo espaço, um grito ensurdecedor subiu da multidão como uma onda eletrizante. E então, Louis entrou no palco.
No segundo exato em que a silhueta dele apareceu sob o facho de luz branca, S/N sentiu o coração errar as batidas no peito. O estômago deu um nó gelado e, por um instante, a ficha finalmente caiu. Ela estava ali, no camarote VIP, assistindo de perto a um dos artistas mais cobiçados do mundo — um privilégio que milhares de garotas daria tudo para ter.
Balançando a cabeça para afastar o transe, ela abriu um sorriso de canto.
Quer saber? Já que estava ali, iria aproveitar cada segundo. Quando as músicas começaram a embalar a noite, S/N se pegou cantando alguns refrões que sabia, balançando a cabeça e curtindo a energia avassaladora do show, descobrindo que, no fim das contas, o som dele ao vivo tinha uma força que nenhuma gravação no fone de ouvido conseguia capturar.
Mas, conforme as músicas passavam e a adrenalina se estabilizava, um incômodo sutil começou a surgir.
Ela olhou para o palco, esperando encontrar aqueles olhos azuis varrendo o perímetro do camarote como ele havia prometido mais cedo. Nada. Louis corria de um lado para o outro da passarela, interagia com a pista, cantava olhando para as primeiras fileiras, mas parecia fazer questão de ignorar completamente o setor elevado onde ela estava.
S/N cruzou os braços apoiados no parapeito, sentindo uma pontada de frustração misturada com um toque de alívio bobo. Claro que ele esqueceu. A conversa no camarim tinha sido só o calor do momento, um flerte passageiro de bastidor que ele provavelmente repetia com dezenas de pessoas.
Promessa de artista em turnê não passava de vento.
Ela riu de si mesma por ter criado qualquer expectativa, ajeitou a alça da bolsa no ombro e decidiu que, quer ele olhasse ou não, o show ainda era bom demais para ser desperdiçado.
O show já caminhava para a metade quando Louis parou no topo da passarela, pegando o microfone com as duas mãos enquanto a banda desacelerava o ritmo para uma música mais cadenciada. A arena inteira iluminou-se com milhares de lanternas de celulares, criando um mar de estrelas artificiais.
S/N respirou fundo, aproveitando a brisa fresca que batia no camarote, certa de que a promessa de camaradagem dos bastidores tinha ficado enterrada no meio do setlist.
Até que Louis ergueu o rosto.
Ele não olhou para a pista. Ele não olhou para as câmeras laterais. Os olhos azuis varreram a multidão com uma precisão cirúrgica até encontrarem o parapeito exato onde S/N estava encostada.
Quando os olhares se cruzaram à distância, o sorriso torto e triunfante brotou nos lábios dele, aquele mesmo sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo o tempo todo. Ele não desviou os olhos nem por um segundo. Enquanto cantava o verso da música, Louis apontou abertamente na direção dela com o indicador, fazendo questão de que toda a equipe de filmagem e quem estivesse por perto percebesse que a atenção dele não estava nos milhares de fãs, mas em uma única garota no camarote.
O estômago de S/N deu um salto violento, e as famosas borboletas voltaram a voar com força total, fazendo-a rir sozinha, balançando a cabeça em sinal de rendição.
O último acorde ecoou pela arena, seguido por uma explosão ensurdecedora de aplausos e gritos enquanto as luzes principais começavam a se acender, sinalizando o fim do show. S/N soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, apoiando as mãos no parapeito metálico com um sorriso inevitável nos lábios. A energia daquele final ainda vibrava na pele.
Enquanto o público começava a se movimentar para as saídas, ela ajeitou a jaqueta e se virou para deixar o camarote. Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo rumo à escada, uma figura conhecida bloqueou o seu caminho.
Era o mesmo segurança de mais cedo, aquele com a expressão eternamente séria e o crachá de equipe colado no peito. Ele a encarou por um segundo, reconhecendo-a imediatamente, e pigarreou de leve.
— S/N? — ele perguntou, com um tom profissional, mas direto ao ponto.
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Sou eu. Aconteceu alguma coisa?
— O Louis mandou te chamar. Ele quer conversar com você lá no camarim — explicou o segurança, já fazendo um gesto discreto com a cabeça para que ela o acompanhasse. — Por aqui, por favor.
S/N sentiu o coração dar mais uma pirueta desnecessária no peito. Ela balançou a cabeça, meio incrédula com o rumo que aquela noite tinha tomado, mas ajeitou a bolsa no ombro e deu de ombros para si mesma. Já tinha chegado até ali mesmo; não ia fugir agora.
— Vamos nessa, então — murmurou, seguindo o segurança pelos corredores de bastidores que agora estavam um pouco mais calmos, mas ainda fervilhando com a equipe de produção desmontando equipamentos.
O corredor dos bastidores parecia muito mais longo agora do que de tarde. O som abafado das conversas entre o pessoal da equipe ecoava pelas paredes de concreto enquanto o segurança a guiava com passos firmes por portas corta-fogo e corredores restritos, até pararem diante daquela mesma porta com o número do camarim de Louis.
O homem bateu duas vezes antes de girar a maçaneta e abrir espaço para ela entrar. — Ela chegou, Louis — avisou o segurança, antes de se retirar e encostar a porta por fora, deixando os dois sozinhos.
O ambiente cheirava a suor de show, água mineral e o mesmo perfume amadeirado de mais cedo. Louis estava sentado na borda do sofá, ainda com a calça preta da apresentação e uma toalha jogada no pescoço, respirando fundo enquanto tomava um gole de água. Ele ergueu o rosto com a chegada dela, e o cansaço visível de quem acabara de entregar duas horas de show intenso sumiu instantaneamente, substituído por aquele brilho divertido nos olhos azuis.
— Olha só quem sobreviveu à multidão — Louis soltou uma risada fraca, colocando a garrafa de lado e se ajeitando para ficar de pé. Ele a avaliou de cima a baixo com um sorriso de canto. — E então, S/N? Conseguiu sobreviver ao meu som ou ainda acha que eu sou apenas um rostinho bonito de uma playlist esquecida?
S/N cruzou os braços, encostando levemente as costas na porta recém-fechada, tentando manter a marra, embora sentisse o calor subir pelas bochechas.
— Tenho que admitir que ao vivo a história muda um pouco de figura, Tomlinson — ela respondeu, arqueando uma sobrancelha com um meio sorriso. — Mas não se empolgue tanto. Ainda faltam alguns pontos para você me convencer totalmente.
Louis deu dois passos à frente, parando a uma distância curta o suficiente para ela sentir a energia eletrizante que ainda irradiava dele. Ele riu nasalado, balançando a cabeça como se achasse graça daquela resistência teimosa.
— Ah, é? Desafio aceito — murmurou ele, dando um passo ainda mais perto antes de se lembrar de algo crucial. Ele deu meia-volta, pegou o celular em cima da mesa e estendeu para ela com a câmera já aberta. — Mas antes de continuarmos esse debate acadêmico sobre a minha genialidade musical... lembra da promessa? O vídeo para a sua prima. É bom você fazer pose, porque se eu sair com cara de cansado, a culpa vai ser inteiramente sua.
— Gravar com o seu celular? — S/N franziu o cenho, recuando um passo enquanto puxava o próprio aparelho do bolso da jaqueta. — Louis, quando eu sair por aquela porta, você vai esquecer da minha existência em cinco minutos. É mil vezes melhor gravarmos com o meu, assim minha prima não acha que é uma montagem de IA muito bem feita.
Louis abriu a boca, parecendo quase ofendido com a acusação, mas antes que pudesse rebater, ela já tinha destravado a tela do próprio telefone e aberto a câmera frontal.
— Ei, não seja dramática — ele murmurou, dando um passo à frente e invadindo o espaço dela com uma proximidade que fez o ar sumir por um segundo. Ele ignorou o celular na mão dela e tocou de leve no ombro de S/N, virando-a ligeiramente para que a luz do abajur do camarim batesse melhor nos dois. — Eu não esqueço tão fácil assim. E, para constar, eu faço questão de tirar uma foto com o meu celular também, para guardar na galeria. Só para me lembrar docemente de quem desprezou o meu trabalho, no meu camarim. Na minha frente.
S/N sentiu as bochechas esquentarem com a audácia, mas não conseguiu desviar o olhar daquele par de olhos azuis tão perto dos seus.
— Tá bom, dramático é você — ela resmungou entre dentes, rindo fraco enquanto se posicionava ao lado dele.
O clique da foto ecoou na salinha. Louis, aproveitando que a cabeça deles estava colada, deu um sorriso largo e sincero para a lente do aparelho dele, enquanto S/N olhava para a tela com um meio sorriso que denunciava o quanto aquela situação toda era bizarra e fascinante.
Logo em seguida, ela abriu o modo de vídeo no telefone dela e estendeu para ele.
— Vai, grava logo o recado antes que eu desista e vá embora comer um hambúrguer.
Louis pegou o celular da mão dela com cuidado, ajeitou o cabelo bagunçado com a outra mão e olhou direto para a câmera, assumindo aquele tom brincalhão e caloroso que deixava qualquer fã à beira de um colapso.
— Oi, aqui é o Louis! — ele começou, sorrindo de leve enquanto olhava para a tela e depois piscava para a própria S/N antes de voltar o foco para o vídeo. — Queria mandar um beijo enorme para você, a prima da S/N. Muito obrigado por todo o carinho de longa data, por aturar minhas músicas e por ter colocado essa figura aqui para me aturar pessoalmente hoje à noite. Significa muito para mim. Espero que você não fique com ciúmes por eu estar aqui com ela, mas não se preocupe. No meu coração, cabem vários fãs, inclusive você.
Ele encerrou a gravação e devolveu o aparelho para S/N, que assistiu ao vídeo rapidamente, balançando a cabeça com um sorriso disfarçado. — Até que você leva jeito para puxa-saco de fã, Tomlinson. Minha prima vai surtar.
— Eu não sou puxa-saco, sou apenas extremamente realista — Louis respondeu, cruzando os braços com um sorriso convencido, embora o olhar que ele lançou para ela carregasse uma suavidade que desmentia qualquer marra de estrela do rock.
S/N guardou o celular no bolso da jaqueta, balançando a cabeça com um sorriso irônico para disfarçar o quão fora do eixo o seu ritmo cardíaco tinha ficado.
— Ótimo, vídeo garantido. Agora, se você me der licença, meus pés estão implorando por um sofá e eu ainda tenho que cumprir a promessa do hambúrguer — ela disse, dando um passo em direção à porta do camarim.
Antes que ela pudesse tocar na maçaneta, Louis deu uma risada curta, mas carregada de uma expectativa genuína. Ele deu dois passos rápidos para fechar o espaço entre eles, bloqueando a saída com o corpo de forma totalmente casual, mas irredutível.
— Espera aí. Quer dizer que você vai mesmo recusar a minha companhia para ir comer sozinha? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha com aquele ar de desafio divertido. — Eu acabei de sair de um show de duas horas, tô faminto e conheço uma lanchonete aqui perto que é o único lugar decente aberto a essa hora. Aceita uma trégua e vem comer comigo.
S/N parou, o cenho franzido em uma mistura de desconfiança e diversão.
— Você quer ir a uma lanchonete normal? Vestido desse jeito? Quer causar um tumulto internacional antes da meia-noite, Louis?
— É para isso que servem capuzes e bonés — ele respondeu piscando, já pegando uma jaqueta de capuz preta em cima da cadeira e jogando nos ombros. — Então, fechado? Hambúrgueres e batata frita por minha conta.
Ela abriu a boca para recusar, avaliando o perigo de aceitar um convite daqueles, mas Louis foi mais rápido. Ele deu mais um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela de um jeito que fez o ar parecer subitamente escasso no camarim. O sorriso brincalhão em seu rosto deu lugar a algo mais calmo, mais direto, enquanto ele estendia a mão aberta, esperando.
— Mas antes... por que não me passa seu número de telefone? — ele pediu, a voz saindo um pouco mais baixa, sem o tom de piada de antes. — Quero te provar que eu jamais vou te esquecer em cinco minutos, S/N.
O silêncio desabou sobre o camarim por um segundo inteiro. As palavras dele bateram em cheio, sem filtro, carregadas de uma sinceridade desconcertante que fez o estômago de S/N dar um salto mortal.
Dentro da sua cabeça, o sinal de alarme disparou imediatamente, acionando todos os mecanismos de defesa possíveis.
Ela repetiu para si mesma, sentindo o rosto esquentar enquanto desviava o olhar por uma fração de segundo.
Não leva pro pessoal, não inventa ilusão. Ele só tá brincando, é charme de artista, ele faz isso com todo mundo na turnê…
Mas, quando ela voltou a encarar os olhos azuis dele, que a aguardavam sem pressa, esperando uma resposta, a voz da razão dentro da sua mente pareceu incrivelmente fraca.
Ela suspirou, derrotada pela própria curiosidade. — Digita aí, então, Tomlinson. Vamos ver se essa sua memória toda é de verdade ou se é só papo furado de turnê — provocou ela, cruzando os braços para esconder o leve tremor nas mãos.
Louis pegou o seu aparelho, digitou os números rapidamente com os polegares e, logo em seguida, fez o próprio celular vibrar no bolso da calça para salvar o contato. Ele devolveu o telefone dela com um sorriso vitorioso, aqueles olhos azuis brilhando sob a luz fraca do camarim.
— Número salvo. Agora você não tem mais como fugir do hambúrguer — ele disse, puxando o capuz da jaqueta preta sobre a cabeça e ajeitando um boné escuro para disfarçar o rosto. — Vamos? Antes que o segurança lembre que a gente já deveria ter saído daqui há meia hora.
Ela riu, guardando o celular de volta e acompanhando-o para fora da sala. Enquanto caminhavam pelos corredores vazios dos bastidores, guiados discretamente para uma saída lateral que evitava o assédio da multidão lá fora, o vento fresco da noite bateu em seu rosto.
S/N olhou de soslaio para o cara ao seu lado, que caminhava com as mãos nos bolsos e um sorriso tranquilo no rosto, parecendo bem longe de ser a estrela pop que acabara de arrastar milhares de pessoas à loucura. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro da rua se misturar com a adrenalina que ainda corria em suas veias, e deixou o pensamento vagar.
É, quem diria que um simples sorteio de última hora me traria a esse momento? Tenho a impressão de que estou vivendo um sonho.
Ficou bem clichêzinho, mas quem não ama? Espero que tenham gostado! 💕