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Yes Sir Capítulo 59
Personagens: Professor! Harry x Estudante! Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora e Harry
NotaAutora: Aí amores me perdoem por demorar tanto para trazer capítulos novos
Aurora
Já haviam se passado alguns dias desde o ocorrido e eu comecei a evitar Harry. Sabia que era uma atitude meio infantil e também sabia que não resolveria nada, mas eu estava confusa demais para conseguir conversar. Eu quase o beijei e esse fato não saía da minha cabeça, nem mesmo quando eu tentava me distrair com qualquer outra coisa.
Eu pensei que ignorá-lo por alguns dias me ajudaria a organizar as coisas dentro de mim, mas só serviu para fazê-las ficar ainda mais intensas. Eu não conseguia parar de reviver a sensação da boca dele no meu pescoço, das mãos dele em mim, de sua voz baixa, da boca perto demais da minha e do jeito como ele parou, como se estivesse esperando que eu finalmente decidisse admitir que o queria.
Aquele Harry não combinava com o homem que dormiu ao meu lado com medo de ultrapassar limites, mas a forma como ele agiu naquela noite despertou em mim coisas que eu tinha esquecido que existiam. Eu nem lembrava quando tinha sido a última vez que algo me fez sentir daquela maneira, no fundo, eu sabia que estava cansada de fugir, cansada de fingir que não sentia nada, mas enfrentar Harry significava admitir que eu estava, mais uma vez, completamente nas mãos dele.
E o que aconteceria se eu parasse de correr e simplesmente aceitasse que o queria por perto?
O que isso faria de nós?
E se a gente tentasse e não desse certo?
E se ele só estivesse carente?
Eu não podia me dar ao luxo de agir por impulso quando havia tanta coisa envolvida e me odiava por imaginar que talvez eu estivesse levando tudo isso a sério demais.
Mesmo sem eu querer, sabia que acabaria encontrando com ele, o dia da visita do Liam tinha chegado e infelizmente ou talvez felizmente, Harry era bom demais como pai para simplesmente ignorar o próprio tempo com o filho, então eu respirei fundo, tentando organizar o turbilhão dentro de mim antes de girar a maçaneta e abrir a porta.
— Oi.
— Oi.
Harry estava parado ali, usando um terno azul-marinho, sem gravata, pela pasta em sua mão, imaginei que tivesse saído mais cedo do trabalho para buscá-lo.
— Ele está pronto? — Ele questionou, meio sem jeito.
— Ainda está dormindo, você chegou um pouco antes do previsto. — Afastei-me, dando espaço para ele entrar. — Mas posso acordá-lo.
— Não precisa, eu espero, deixa ele descansar. — Harry entrou e fechou a porta devagar atrás de si.
Ficamos alguns segundos parados ali, presos naquele silêncio desconfortável que parecia sempre surgir.
— Quer água? Suco? — Perguntei, já caminhando em direção à cozinha antes mesmo de ouvir a resposta.
— Não. — Ele respondeu, deixando a pasta sobre a bancada.
Mesmo assim, fui até a geladeira, peguei a garrafa de água e enchi um copo para mim, tomando quase tudo num gole.
— Aurora. — Ele surgiu atrás de mim quando eu fechava a porta da geladeira. — Você sumiu esses dias. — Seus olhos se fixaram nos meus assim que me virei. — Eu fiz alguma coisa? Por que você está me evitando?
— Eu não estou.
— Você não respondeu minhas mensagens por três dias, eu fiquei esperando você me ligar depois do evento.
— Eu sei, me desculpa.
— A gente já passou da fase de joguinhos, não passou? — Harry ergueu uma sobrancelha, inclinando-se ligeiramente para a frente.
— Eu não estou jogando. — Apoiei a mão no balcão da pia, encarando o chão por um segundo antes de criar coragem para encará-lo. — Eu só… Não sabia como reagir ao que aconteceu.
— Era só ter falado comigo, eu estou aqui, Aurora, você pode me dizer qualquer coisa.
— Eu não sabia o que dizer.
— Você ficou com medo de mim? — Ele estendeu a mão com cuidado e acariciou minha bochecha.
— Não.
— Então, por que me evitou?
— Porque… — Suspirei fundo, sentindo o peso da palavra antes mesmo de dizê-la. — Porque eu gostei. — Admiti, voltando a encarar o chão, mas ele segurou meu queixo com delicadeza, obrigando-me a olhá-lo.
— Gostou do quê, exatamente, Aurora?
— Harry…
— Eu quero ouvir você dizer. — Os olhos verdes dele pareciam mais intensos de perto. — Gostou quando eu toquei em você?
— Sim.
— Gostou quando eu beijei seu pescoço?
— Sim. — O calor subiu pelo meu corpo, traindo qualquer tentativa de manter distância.
— Gostou quando eu flertei com você? — Ele se inclinou um pouco mais.
— Você está me interrogando?
— Estou tentando arrancar a verdade de você. — Ele deslizou a mão da minha bochecha até a minha cintura.
— Que verdade?
— Que você queria aquilo tanto quanto eu.
— H…
— Docinho. — Ele murmurou, afastando uma mecha do meu cabelo e prendendo-a atrás da minha orelha com a mão que ainda estava em meu rosto. — Eu não vou fingir que aquilo não aconteceu e não vou fingir que não te quero, mas também não vou fazer de novo se você não quiser.
— Eu não disse que não quero. — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las e os olhos dele escureceram levemente.
— Então, o que você quer? — Ele baixou o olhar até a minha boca antes de voltar para os meus olhos.
— Eu… Eu não sei...
— Me diz o que está passando pela sua cabeça, seja sincera comigo.
— O que a gente seria, Harry? Você acabou de sair de um casamento… Eu não sei o que isso significa para você. — Estávamos tão perto que eu sentia o calor do corpo dele misturando-se ao meu. — Eu não sei se isso é algo sério… Ou se é carência… Ou se você só está brin...— Minha voz falhou, porque admitir o resto em voz alta parecia muito assustador.
— Você ainda não sabe? Aurora, eu…
— Não… — Interrompi, talvez eu não quisesse ouvir o que ele tinha a dizer.
Eu não queria que ele brincasse com meu coração de novo.
— Não, por favor, me deixa falar. — Dois dos dedos dele pousaram sobre meus lábios, me silenciando. — É humilhante o quanto eu te quero, Aurora, eu não vou fingir que é pouco, porque não é, eu acordo pensando em você e durmo pensando em você e se eu dissesse tudo o que eu sinto, talvez você se assustasse. — Os dedos ainda estavam ali, mas agora acariciavam devagar, quase distraídos. — Então eu não vou fazer isso agora, mas eu quero te pedir uma coisa… — Ele afastou a mão dos meus lábios, deslizando-a até minha bochecha.
— O quê?
— Aurora… Você me daria uma segunda chance?
Aqueles olhos pidões me encaravam com uma vulnerabilidade que desmontou qualquer defesa em que eu estava me forçando a ficar.
— Segunda chance para quê?
— Para poder flertar com você sem parecer errado. — Um sorriso lento surgiu nos lábios dele. — Para te paquerar sem fingir que não estou fazendo isso. — A voz saiu mais leve, mas o olhar continuava intenso. — Para pegar na sua mão, te levar para um encontro de verdade, quero poder te beijar e fazer você ficar vermelha de propósito. — Senti meu rosto esquentar imediatamente. — Tipo agora. — Ele murmurou e eu revirei os olhos, mas não consegui esconder o pequeno sorriso. — Eu não quero ser só o pai do Liam para você, docinho. — A testa dele encostou na minha e a proximidade fez meu coração disparar. — Eu quero ter o direito de fazer tudo isso e muito mais, se você deixar, eu vou devagar, no seu tempo, do jeito que você precisar e quiser.
— H… — Minha voz falhou, eu estava presa entre aqueles olhos verdes e a boca que parecia perigosamente próxima. — Eu tenho medo… — Admiti quase num sussurro. — E se não der certo? Eu não quero me machucar.
— Eu também tenho medo. — A voz dele saiu mais baixa. — Mas, dessa vez, eu quero fazer diferente, quero cuidar de você do jeito que você merece, então, por favor, não me tire a chance de tentar só porque tem medo do que pode acontecer depois, mesmo eu não merecendo tanto assim.
O jeito como ele disse aquilo apertou algo dentro de mim, porque sabia que ele estava falando a verdade e isso me fez finalmente ceder.
— Tudo bem.
— Tudo bem o quê? — Ele franziu a testa, claramente tentando entender se tinha ouvido certo.
— A gente pode tentar. — Engoli em seco.
Ele ainda me observava, como se esperasse que eu voltasse atrás.
— Sério?
— Sim.
— Então isso significa que eu posso te beijar? — O nariz dele roçou de leve no meu.
— Pode…
Fiquei nas pontas dos pés, inclinando-me, acabando com os poucos centímetros que nos separavam, pressionando meus lábios com carinho nos dele, macios e quentes. Seu gosto mentolado era tão familiar que me fez tremer de leve.
O contorno dos seus lábios se ajustou aos meus com uma naturalidade tão grande que parecia que nunca havíamos parado de nos beijar, ainda assim, meu coração disparou como se fosse a primeira vez.
— Você não tem ideia, eu estava louco por isso. — Ele sussurrou contra meus lábios e meu corpo se curvou levemente para ele.
Um arrepio subiu pela minha espinha quando ele apoiou as mãos na minha cintura, puxando-me um pouco mais para perto. Minha mão subiu instintivamente para o cabelo dele, arranhando levemente sua nuca enquanto ele respondia ao meu toque, pressionando mais suas mãos em minha cintura.
Enquanto o beijo se aprofundava, meus dedos encontraram a barra da camisa social dele, puxando para cima, quase sem perceber, querendo sentir mais, Harry gemeu baixinho, rígido sob minha mão quando senti a dureza de seu abdômen.
— Porra, Aurora…
— O que foi? — Soltei uma risadinha, um calor subindo por minhas bochechas e a vontade de tocar mais nele só aumentando.
— Se você continuar assim, vai me matar. — Ele pousou a mão sobre a minha, cobrindo a minha palma que estava no abdômen dele, apertando levemente e com hesitação, a tirou dali.
Ele parecia desesperado por mim, mas ainda assim se segurava.
— Desculpa… Eu não faço mais. — Murmurei, com um sorrisinho.
— Não se desculpe, eu quero, é só que eu quero ir devagar com você.
Ele sendo todo fofo e responsável me deixava ainda mais instigada a provocá-lo, só para ver o que aconteceria.
— Então você está se segurando? — Questionei mesmo sabendo a resposta.
— Pra caralho e você definitivamente não está colaborando.
— Então é melhor a gente parar — provoquei, dando meio passo para trás.
— Nem pensar.
Ele segurou minha cintura com firmeza e me ergueu devagar, sentando-me no balcão da cozinha, um suspiro pequeno e involuntário saiu de meus lábios quando ele se encaixou perfeitamente entre minhas pernas.
— Harry… — Comecei, mas ele me interrompeu com outro beijo.
— Shhh. — A boca dele roçou na minha outra vez. — Eu só quero te beijar, mais um pouco. — Ele sorriu e meus joelhos fraquejaram quando ele me beijou de novo.
...
Harry e eu estávamos... tentando...
Eu não sabia muito bem o que aquilo significava.
Nós éramos namorados?
Ficantes?
O que nós éramos?
Mesmo sem saber, eu aceitei e acordava todos os dias me perguntando se tinha sido a escolha certa.
Será que fomos rápidos demais?
Nós já havíamos ultrapassado o limite seguro há um tempo, mas ainda me perguntava se realmente estava pronta para me entregar de verdade a ele.
— Aurora?! — Ouvi a voz da minha melhor amiga me chamar. — Aurora, está me ouvindo?
— Ah! Sim. — Falei, mentindo que não passei os últimos dez minutos pensando em Harry.
— E então, o que achou desse? — Lily observava o local com atenção.
— É bonito! — Comentei, balançando um pouco o Liam.
Eu e Liam passamos as últimas duas horas visitando lugares para casamento com Lily.
— Você falou isso dos dois últimos lugares.
— Porque eles eram realmente lindos, se eu fosse me casar, com certeza gostaria que fosse no College Club of Boston.
— É só um prédio velho.
— É um hotel histórico vitoriano magnífico. — Retruquei, sentando-me em uma poltrona no hall de entrada. — Tem todo um charme por trás disso. — Com discrição, comecei a amamentar.
— Não vi nada de magnífico! Só fomos ver porque o Josh disse que ele é lindo.
— E ele tem bom gosto. — Soltei um riso baixo, conferindo o Liam. — Mas confesso que gosto de antiguidades, então sou meio suspeita para dar opiniões.
— É… já percebi. — Debochou.
— O que quer dizer com isso?
— Seu gosto por idosos. — Ela ergueu uma sobrancelha, segurando o riso.
— Lily! — Retruquei, revirando os olhos, ela não perdia a chance de me alfinetar.
— O quê? Você tem um padrão bem específico. — Ela deu de ombros. — Aliás… como anda o vovô?
Eu ainda não havia contado nada para ela sobre mim e Harry, talvez estivesse um pouco apreensiva com o julgamento dela. Ela era minha melhor amiga, mas odiava Harry com todas as forças e ele também não tinha muita afeição por ela.
— Está bem.
— “Está bem”? Você chegou bem estranha naquela noite da festa, tem certeza de que nada aconteceu entre vocês?
— Quantas perguntas… — Dialoguei, ajeitando o Liam, que já havia adormecido. — Não aconteceu nada demais e vamos focar no seu casamento antes que você ache um motivo para dizer que o Harry arruinou seu momento de novo.
— Tá, tá! — Ela revirou os olhos. — Que tal almoçarmos e depois irmos naquela mansão à beira-mar, pertinho aqui de Boston?
— Tudo bem. — Concordei, sentindo meu celular vibrar, peguei o telefone discretamente.
H: Oi, docinho, já almoçou?
Sorri sem perceber.
Eu: Oi, H. Ainda não, por quê?
H: Quer almoçar comigo?
Eu: Desculpe, vou almoçar com a Lily, estamos vendo locais para o casamento.
H: Você está livre no sábado à noite?
H: Pensei que poderíamos ir ao cinema… Se você estiver a fim.
Meu coração deu um pulinho ridículo.
Eu: Claro, por mim tudo bem, só tenho que ver alguém para cuidar do Liam.
H: Nós podemos chamar uma babá.
Eu: Não gosto de deixar meu filho com estranhos.
H: Tudo bem se não quiser ir, podemos fazer algo com o Liam.
Eu: Eu quero, não se preocupe, eu dou um jeito, então sábado, umas 19h?
H: Perfeito 😍
Não consegui conter o sorriso.
Nós íamos a um encontro...
— Por que você está sorrindo assim? — Lily estreitou os olhos, desconfiada. — Eu conheço essa cara.
— Que cara? — Bloqueei o celular rápido demais.
— O vovô mandou mensagem, né? Ou foi coincidência você ficar toda brilhando de repente?
— Vamos almoçar, Lily. — Levantei antes que ela continuasse.
— A gente conversa sobre isso no almoço, hein!
— Ah! Não enche. — Ri, empurrando-a para a porta.
Mas realmente talvez eu estivesse mesmo brilhando...
...
Não iria deixar o Liam com uma babá desconhecida, não me sentia confortável com isso, mas a situação em que me encontrava não facilitava muito, meus pais não podiam vir para Boston, minha irmã estava ocupada e eu não tinha coragem de pedir para a Lily ficar com ele de novo, então tive a ideia não tão brilhante de pedir ajuda justamente à última pessoa que deveria ter chamado.
Mas a Isadora disse que queria passar um tempo com o irmão, ela era responsável, vivia cuidando das próprias irmãs, sabia muito bem o que fazia, o Liam ficaria bem com ela, muito melhor do que com qualquer estranho, era só organizar tudo direito, combinar os horários, sair antes, garantir que ela e o pai não se cruzassem.
Não tinha nada para dar errado.
Conferi-me uma última vez no espelho do quarto, o vestido verde floral caía soltinho, um pouco acima do joelho, o tecido parecia realçar ainda mais meus cabelos ruivos espalhados pelos ombros. Passei rímel, só para destacar o olhar e quase nada de batom, vesti a jaqueta jeans por cima, me sentei na cama para calçar o tênis vermelho pensando que, se alguém tivesse me perguntado dias atrás, provavelmente essa seria a última coisa que eu imaginaria estar fazendo num sábado à noite.
— Ele come às sete — falei, pegando a bolsa na mesa, assim que saí do quarto. — A papinha já está pronta, é só esquentar um pouco, a mamadeira eu deixei separada também, caso ele acorde mais tarde.
A Isadora já estava sentada no tapete com o Liam, que batia um brinquedo no chão.
— Claro, não se preocupe
— Ela respondeu, sem tirar os olhos do irmão. — Eu cuido das minhas irmãs, lembra?
— Eu sei. — Forcei um meio sorriso. — É só… a rotina dele é meio específica.
— Não se preocupe, pode aproveitar a noite.
— Eu não vou demorar, tá? — Me aproximei, deixando um beijo no topo da cabeça de Liam. — Eu deixei dinheiro na bancada, caso você queira pedir uma pizza ou qualquer coisa e se ficar com sono pode dormir na minha cama, o berço dele é do lado, então fica mais fácil.
— Tá bom.
— E se acontecer qualquer coisa, me liga. — falei, já recuando em direção à porta.
— Pode deixar.
Antes de sair, lancei um último olhar para os dois, ela parecia genuinamente feliz e Liam estava confortável em seu colo. Fechei a porta com cuidado e já dentro do elevador, aproveitei para mandar uma mensagem rápida para Harry.
Eu: Estou descendo.
Eu pedi para ele me encontrar no estacionamento e fiquei feliz por ele não fazer muitas perguntas. Assim que saí do elevador para o estacionamento o vi parado encostado no carro dele, mexendo no celular, mas levantou o rosto quase no mesmo segundo em que a porta abriu.
Pensei que ele estaria de terno, afinal, ele andava trabalhando demais, inclusive aos sábados, mas Harry estava de camiseta branca, justa o suficiente para deixar claro que ele ainda treinava, jeans escuro, caindo bem demais em sua cintura e Vans preto.
Eu fiquei alguns segundos tentando lembrar se já tinha visto Harry usando tênis alguma vez, talvez ele estivesse tentando parecer mais jovem depois daquele comentário do investidor.
— Oi. — Ele guardou o celular no bolso.
— Oi.
Seus olhos percorreram meu corpo devagar e voltaram para meu rosto como se nada tivesse acontecido.
— Você está muito bonita. — Ele se aproximou e deixou um beijo na minha bochecha.
— Obrigada. — Ajustei a alça do vestido. — Vamos?
O caminho até o shopping foi mais tranquilo do que imaginei conversamos sobre o escritório, minha aula de ioga e terapia, até sobre a senhorinha da floricultura que ainda insistia em me apresentar o neto dela.
— Ele faz o quê mesmo? — Harry perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— Engenharia, ele é muito bem sucedido.
— Quantos anos o pirralho tem?
— 28
— Hm.
— O que foi? Está com ciúmes? — Questionei, rindo de sua expressão séria.
— Não gosto de concorrência. — Ele deu de ombros.
Eu gostei um pouquinho de vê-lo assim, porque eu sabia que no fundo ele não estava brincando. Depois disso, nossa conversa continuou leve e em algum momento, eu estava rindo de verdade, relaxada, esquecendo que aquilo era oficialmente um “encontro”. Nem percebi quando o carro começou a diminuir a velocidade, só me dei conta de que já estávamos entrando no estacionamento do shopping quando ele fez a curva suave para subir a rampa iluminada.
Pensei que estaria mais nervosa, mas talvez a mão firme dele na minha perna tivesse ajudado, eu nem lembrava exatamente em que momento ela foi parar ali, só sabia que era quente e seu polegar fazia círculos quase distraídos.
Ele estacionou, desligou o carro e só então pareceu notar a mão dele ainda ali, ele olhou para mim, eu olhei para a mão dele e então ele tirou, como se tivesse lembrado subitamente que estava tentando ir devagar.
Ele foi um cavalheiro ao abrir a porta para mim e me guiar para dentro, o shopping estava movimentado, mas não era surpresa para um sábado à noite. Parecia que todas as pessoas de Boston tiveram exatamente a mesma ideia que nós e comecei a cogitar que talvez nem conseguíssemos ingressos para o filme que nem havíamos escolhido ainda.
— A gente devia ter comprado online.
— Relaxa — ele respondeu, caminhando ao meu lado. — Se não tiver ingresso, a gente inventa outra coisa.
Caminhamos lado a lado, perto o suficiente para que nossos braços se encostassem de vez em quando, mas não durou muito, os dedos dele deslizaram devagar pelos meus, entrelaçando nossas mãos. Ele não disse nada, eu também não comentei, só segui andando tentando acalmar meu coração estúpido que batia diferente a cada gesto de Harry. A bilheteria estava cheia, uma pequena fila se formava diante do painel.
— Terror ou romance? — Questionou enquanto entrávamos na fila.
— Terror.
— Corajosa.
— Nenhum pouco, você que vai ter que segurar minha mão se eu ficar com medo.
— Não vejo problema nenhum nisso. — Ele se inclinou um pouco para falar perto do meu ouvido, me causando arrepios.
Harry só soltou minha mão quando chegamos perto do balcão e foi só porque precisava tirar a carteira do bolso. A sessão das 19h40 ainda tinha lugares disponíveis. Enquanto ele falava com o atendente, fiquei observando como nós parecíamos um casal normal em um sábado qualquer.
— Pipoca? — Questionou, virando levemente o rosto na minha direção.
— Sim.
— Doce ou salgada?
— Salgada. — Retribui sem hesitar.
Ele acrescentou um refrigerante extra grande ao pedido, como se já soubesse que dividiríamos.
— Posso pedir uma coisa? — Mordi o lábio por um segundo, puxando sua blusa.
— Claro.
— Um pacote de M&M.
— Para colocar na pipoca?
— Sim.
— Adicione um M&M, por favor. — disse ao atendente, já entregando o cartão.
— Harry, eu posso pagar minha parte. — Eu nem tive tempo de abrir a bolsa.
— Eu sei. — Ele me olhou de lado, tranquilo.
E voltou a atenção para a maquininha como se o assunto estivesse encerrado. Após alguns minutos, nosso pedido já estava pronto, Harry vinha em minha direção, equilibrando o balde grande de pipoca em uma mão, o copo enorme de refrigerante na outra e pacote de M&M preso entre os dedos.
— Cuidado — murmurou, entregando a pipoca.
O balde estava quente contra minhas mãos, o cheiro de manteiga subiu imediatamente, eu nem esperei chegarmos à sala, abri o pacote de M&M ali mesmo, despejando metade do pacote dentro da pipoca.
— Você acha estranho, né? — Comentei, sem olhar diretamente para ele.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Fique à vontade para fazer suas experiências gastronômicas, docinho. — Brincou, deixando um beijinho em minha têmpora.
— Quer provar?
— Talvez depois, não sei se tenho mais estômago para isso. — Ironizou, bebendo o refrigerante.
— Então é melhor irmos para nossos lugares, o filme vai começar logo.
A sala estava meio cheia quando entramos, as luzes ainda estavam acesas, Harry foi na frente, eu estava logo atrás, no meio do caminho, percebi onde ele estava indo.
A última fileira.
— Última fileira? Sério? — Parei no corredor, encarando-o.
Ele virou por cima do ombro, uma sobrancelha arqueada, a expressão mais inocente do mundo.
— O quê? A visão é ótima.
— Sei…
A fileira estava vazia, ele me deixou passar primeiro, a mão pousando leve na minha lombar para me guiar até os assentos centrais.
— Aqui — indicou, como se não fosse absolutamente suspeito.
Sentei e apoiando a pipoca no colo, olhei para ele de lado.
— E o que exatamente você pretende fazer aqui atrás?
— Depende de você. — O olhar dele desceu devagar até a minha boca e meu estômago virou. — Relaxa, docinho, só estou brincando. — Ele riu quando meus olhos se arregalaram por um segundo.
Após mais alguns minutos de pessoas se movimentando para encontrar seus lugares e os últimos trailers desaparecendo, o filme finalmente começou.
Eu tentei manter a postura tranquila, mas na primeira aparição repentina do espírito maligno do filme eu me apavorei de leve, soltando um som baixo que eu preferia fingir que não tinha feito.
— Assustada? — murmurou perto do meu ouvido.
— Nem um pouco. — Menti, ainda olhando para frente como se nada tivesse acontecido.
Ele soltou uma risadinha, claramente não acreditando em mim, mas sua mão deslizou até a minha no apoio da poltrona e entrelaçou nossos dedos com cuidado, puxou nossas mãos e com elas, me trouxe um pouquinho mais para perto dele.
— Pronto, agora você está protegida. — Cochichou em meu ouvido, causando arrepios mais uma vez, depois inclinou a cabeça, dando um selinho rápido e desleixado em meus lábios. — Para você ficar mais calma.
Eu fiquei sem reação, então apenas voltei a encarar a tela, sentindo o calor dele ainda ali, impossível de ignorar.
...
Duas horas depois, as luzes começaram a acender, os créditos já estavam subindo na tela, minha mão ainda estava na dele, os dedos dele pressionaram os meus uma última vez antes de soltar devagar.
— Gostou? — Ele se inclinou para pegar o casaco no encosto da poltrona, sua camiseta subiu um pouco quando ele levantou o braço, revelando seu lindo abdômen.
— Foi bom. — Desviei o olhar rápido demais.
Eu me levantei da poltrona e ajustei a jaqueta jeans nos ombros enquanto Harry recolhia o balde vazio de pipoca.
— Quer jantar? — Ele perguntou, parando no corredor da sala de cinema. — Tem várias opções para comer aqui ou podemos procurar outro lugar.
Eu enfiei a mão na bolsa e puxei o celular, a tela brilhou com uma mensagem de Isadora
Isa: Ele está dormindo, tudo sob controle.
— Eu adoraria, Harry, de verdade. — Bloqueei o aparelho e o guardei de volta. — Mas é melhor eu voltar, não quero abusar da sorte com o Liam.
— Aconteceu algo com ele?
— Não, ele está bem, mas não quero demorar mais.
— Tudo bem.
No caminho de volta, o silêncio se estendeu entre nós, enquanto sua mão pousava em minha perna, eu não tirei a mão dele dali, em vez disso, cobri os dedos dele com os meus.
Assim que o carro parou na garagem do nosso prédio, eu soltei o cinto de segurança rapidamente.
— A noite foi perfeita, H. — Me inclinei e dei um beijo rápido no canto da boca dele, já segurando a maçaneta. — Não precisa subir, eu sei que você teve um dia cheio no escritório, pode ir descansar.
— O que foi? — Ele franziu a testa, com um meio sorriso confuso. — Por que essa pressa toda para se livrar de mim agora?
— Não é pressa, eu só... Já está tarde.
— Aurora, não são nem 23:00, é o que, então? A Lily está lá em cima? — Ele perguntou, observando minha reação. — Você ainda está com medo de ela me ver?
Não era bem Lily que eu tinha medo que visse ele...
— Não é isso, Harry. — Eu desviei o olhar para o painel, sentindo meu rosto esquentar. — Eu só não contei para ninguém sobre a gente ainda.
— Aurora. — Ele estendeu a mão e acariciou meu rosto, me obrigando a olhá-lo. — Eu não me importo com quem está lá em cima, se for ela eu resolvo, não vou embora deixando você assim.
— Harry, não... não é ela.
— Então está resolvido, vou te levar até a porta. — Ele interrompeu minha fala com um selinho demorado e saiu do carro antes que eu pudesse inventar outra desculpa.
Ah! Droga!
— Então... Boa noite. — Anunciei assim que as portas do elevador se abriram no meu andar.
— Por que você está tão nervosa? — Harry deu um passo à frente, estreitando o espaço até eu sentir o calor dele, colocando as mãos na minha cintura. — Você está com esse olhar desde que saímos do cinema.
— Eu só... — Engoli em seco, sentindo a proximidade dele bagunçar meus pensamentos. — Eu não quero que a noite acabe mal.
— E por que acabaria? — Ele deu um sorriso de canto, inclinando o rosto para perto do meu. — Eu não pretendo ir a lugar nenhum antes disso.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares acariciando minhas bochechas, pressionando seus lábios contra os meus. Eu ainda não tinha me acostumado com isso e me fez sentir aquela explosão de frio na barriga, a ponto de eu esquecer completamente onde estávamos. Eu sentia as mordidas dele às vezes, a língua quente e era como estar nas nuvens por alguns minutos.
Nem percebi que recuei até meu corpo chocar-se de leve contra a parede ao lado da porta, enquanto ele me puxava para mais perto, por um segundo, eu simplesmente me perdi no toque dele, esquecendo o mundo ao redor, até que o som da tranca girando o fez soltar meu rosto instantaneamente.
— Meu Deus, pai?! — A voz de Isadora ecoou no corredor, carregada de choque.
Harry travou no lugar, enquanto nós dois encarávamos a garota parada diante de nós com olhos arregalados.
Eu deveria ter previsto.
Eu deveria saber que isso iria acontecer no instante que deixei Harry subir comigo.
— Isa, nós podemos explicar — Eu confessei com a voz menos firme do que eu gostaria.
Pelo jeito que ela cruzou os braços e nos lançou um olhar nada paciente, ficou óbvio que a conversa não terminaria tão cedo.
Harry
— Meu Deus, pai?! — A voz da Isadora cortou o corredor.
Dei um passo para trás, com o coração martelando enquanto eu tentava processar o flagrante da minha filha.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei, olhando para Isadora, tentando me recompor. — O que está acontecendo?
— É melhor a gente entrar, Harry, não quero acordar os vizinhos. — Aurora segurou meu braço, me guiando para a porta, não me deixando muita escolha a não ser segui-la, Isadora veio logo atrás. — Agora alguém pode me explicar por que minha filha está aqui? — Encarei as duas sob a luz fraca da cozinha.
— Eu... — Aurora pigarreou ao meu lado. — Ela foi minha babá, hoje.
Babá?
Isadora cuidando do Liam?
Por um instante, achei que tivesse entendido errado, porque essa era a última coisa que eu imaginava ouvir. Minha filha era responsável, eu sabia disso, mas também sabia como ela ficava quando estava brava e depois tudo, ela ali...
O que isso queria dizer?
Por que ela estava tentando se aproximar?
Mas, se Aurora confiou, talvez eu também precisasse confiar ou pelo menos, tentar.
— Por isso você estava estranha daquele jeito, querendo me mandar embora tão rápido. — Vi Aurora desviar o olhar e morder o canto da boca. — Você está usando minha filha de babá escondido de mim? Por quê?
— A Isa veio me ver depois da briga, queria conhecer o Liam e fazer algumas perguntas, mas ela pediu para não contar para você.
— Isso é sério?? — Virei-me para minha filha, controlando a voz para não acordar o Liam. — Você passa semanas me evitando, não atende minhas ligações, some e ainda coloca a Aurora no meio disso?
— Eu coloquei a Aurora no meio? — Ela arqueou a sobrancelha. — Quem começou colocando outra pessoa na nossa vida escondido foi você.
— Isadora Styles, estamos falando de você agora, eu errei, mas isso não lhe dá o direito de agir como se não devesse satisfação nenhuma.
— Eu tive um pouco de culpa, então, por favor, não brigue com ela por vir aqui hoje. — Aurora se colocou entre mim e minha filha. — Eu devia ter te contado, só não queria estragar a relação que ela estava construindo com Liam.
—Eu entendo. — Dei um passo para o lado, contornando Aurora para encarar minha filha. — Mas isso não justifica o resto das coisas que ela anda fazendo.
— Ah, Harry, não vem bancar o meu pai agora. — Ela revirou os olhos. — Você mentiu para mim de novo, eu perguntei naquela manhã, você disse que não tinha nada com a Aurora e eu encontro vocês se agarrando no corredor? — Ela soltou uma risada curta.— Qual é o problema de vocês com privacidade? Sério, é nojento.
— Eu não menti. — Lancei um olhar para Aurora e ela assentiu. — Naquele dia, não tinha nada acontecendo.
— E agora? Vocês são o quê?
— Isa... — Iniciei, mas a mão da Aurora segurou meu braço antes que continuasse.
— Isadora, a minha relação com o seu pai é entre nós dois. — O olhar dela permaneceu fixo em minha filha, mas senti seus dedos um pouco trêmulos. — Você não pode exigir respostas como se precisasse aprovar isso. — Ela me lançou um olhar rápido, como se quisesse saber se tinha ido longe demais.
— Ela tem razão. — Puxei Aurora discretamente para junto de mim. — Eu amo você, mas não preciso te dar explicações sobre cada decisão que eu tomo.
— Então é isso? Você decide o que eu posso saber e o que eu não posso e eu só aceito?
— Você não precisa aceitar, mas quero que respeite.
— Tá bom, então! — Ela virou as costas, indo em direção à porta. — Fica com seus limites, sua privacidade e sua vida que não é da minha conta!
— Espera. — Avancei, segurando seu braço antes que fosse embora. — Não vai a lugar nenhum assim, não terminamos.
— Terminamos, sim. — Ela puxou o braço. — Cansei disso.
— Pois eu também cansei, Isadora. — Impus num tom autoritário, esquecendo que meu filho dormia no quarto. — Se quer ser tratada como adulta que diz ser, pare de fugir toda vez que é contrariada. — Ela abriu a boca para retrucar, mas eu não deixei. — E chega de morar de favor para me punir, você vai voltar para casa.
— Você está me obrigando?
— Sim, eu sou seu pai e a partir de agora as coisas vão ser diferentes, começando pelo fato de que você vai me dar satisfação de onde você está e respeitar minha relação com Aurora.
— E se eu não quiser aceitar? — Me desafiou com aquela olhar que conhecia bem.
— Pode voltar a morar com a sua mãe.
Nossa situação era ruim, mas a dela com Violeta estava em outro nível, então eu tinha certeza de que ela aceitaria.
— Ok. — Bufou.
Não era muito, mas ela tinha finalmente cedido.
— Ótimo! Então vai para casa, eu subo depois.
Para minha surpresa, ela me obedeceu, pegou sua mochila e foi indo para a porta, antes de Aurora estender uma nota de cem dólares.
— Muito obrigada por cuidar do Liam hoje.
— Não precisa... — Minha filha olhou para a nota. — Eu não fiz por isso.
— Eu sei que não, mas me sentiria mal se não fizesse. — Aurora colocou o dinheiro na mão dela.
— Tá. — Um sorriso pequeno surgiu nos olhos dela por um segundo, antes de sair.
Sentei-me um pouco na banqueta da cozinha, sentindo minha cabeça doer.
— Harry...
— Desculpa, não queria que tivesse presenciado tudo isso.
— Eu quem deveria pedir desculpas, eu estraguei a noite, né? —Ela se aproximou, parando em minha frente.
— Aurora...
— Você está bravo comigo? — Os dedos dela deslizaram pelos meus cabelos, acariciando com cuidado.
— Confesso que não gostei de você ter escondido isso de mim... — Admiti, erguendo o rosto para encará-la. — Mas ver você e minha filha se dando bem é muito melhor do que imaginei.
— Eu também não esperava isso dela.
— Ela me surpreendeu muito hoje... — Deslizei as mãos até a cintura dela, puxando-a um pouco mais para mim, enquanto apoiava o queixo de leve contra sua barriga — E você também.
—Eu? Por quê?
— A maneira como você falou com ela, foi até um pouco autoritária.
— Me desculpa se você não gostou, eu só...
— Eu gostei — interrompi, segurando a mão que ainda brincava com meu cabelo, levando-a aos lábios para beijá-la. — Mas acabei de ter um encontro incrível com você e não quero mais pensar nisso.
— O que você quer? — Ela se inclinou só o suficiente para encostar a testa na minha.
— Quero terminar minha noite com você. — Respondi, mantendo minhas mãos firmes em sua cintura. — Do jeito que planejei antes de ser interrompido.
Não esperei resposta, apenas a beijei, a boca dela estava deliciosa como sempre e quando seus lábios se entreabriram num suspiro, fez meu corpo inteiro reagir antes mesmo que eu pudesse pensar.
Porra...
Eu nunca ia me acostumar com os lábios dela.
Eram bons demais.
A língua começou a brincar com a minha, minhas mãos desceram por sua cintura, explorando cada curva até alcançarem suas coxas. Afastei-me para me levantar da banqueta e segurá-la com firmeza. Aurora soltou um gritinho baixo quando a ergui e em poucos passos, a coloquei sentada sobre a ilha da cozinha, mas suas pernas se abriram para mim logo depois e eu me encaixei ali, entre elas.
Caralho...
Eu já estava endurecendo só com aquilo.
— Harry... — Ela murmurou contra minha boca.
— Hum?
— Quer dormir comigo?
— O quê? — parei, afastando o rosto para encará-la.
— É... não desse jeito. — Aurora ficou ainda mais corada. — Só para dormir, como a gente fez antes.
Como a gente fez antes?
Quando eu rezava para não perder o controle e me deixar levar pelos meus sentimentos e desejos?
— Aurora. — Apoiei a testa na dela. — Se eu for para o seu quarto agora, a última coisa que eu vou querer fazer é dormir. — Fechei os olhos por um instante, respirando o cheiro dela. — Então, por enquanto, é melhor eu ficar longe da sua cama.
— Por enquanto? — Ela fez um biquinho tão fofo que quase me fez ceder.
Mas eu não podia.
Pensei nela deitada nua, pensei no corpo dela encaixado ao meu, no som que faria se eu parasse finalmente de me segurar e fizesse com ela tudo que venho imaginando a meses.
Não dava.
— É. — Passei a mão pelos cabelos dela devagar. — Então, é melhor eu ir.
A desci do balcão com cuidado, mas o corpo dela deslizou pelo meu no caminho, quente que por um segundo eu quase desisti da própria decisão.
— Você tem mesmo que ir? — Suas mãos ainda seguravam minha camisa.
— Tchau, docinho. — Inclinei-me e deixei um selinho demorado nos lábios dela.
— Tchau, H...
E eu odiei o fato de estar indo mesmo embora.
...
Olhei para a pilha de contratos sobre a mesa e senti minha vista arder. Ser dono do próprio escritório parecia uma ideia genial quando Anderson me convidou, mas revisar cada vírgula que os estagiários escreviam era um castigo, sem muita paciência, joguei a caneta de lado, me afundando na cadeira e fechando os olhos.
Em dois segundos, minha mente já estava focada em Aurora, minha relação com ela nunca esteve tão boa.
Estávamos vivendo nossa rotina juntos e até tendo encontros que eu deveria ter proporcionado a ela desde o início, mas desde aquela noite em que ela me pediu para dormir na cama dela e eu neguei, eu não parei de pensar nisso. Ela não pediu de novo, mas algo entre nós mudou, eu sentia a guarda dela baixando e o clima ficando mais intenso toda vez que ficávamos sozinhos e também teve aquela noite no corredor do apartamento dela, onde eu quase perdi a linha, quando meus dedos deslizaram e encontraram a textura fina da sua calcinha e a pele quente por baixo do pijama.
Caralho, aquilo me deixou louco, parecia que meu coração ia explodir e eu tive que me forçar a parar, minha mão voltou para a cintura dela, voltei a beijar ela como se nada tivesse acontecido, mas a verdade era que eu não dormi direito depois daquilo.
Ela estava me testando?
Ou ela queria tanto quanto eu?
— Harry? — A voz do Anderson surgiu na porta.
— Oi?
Por um segundo, eu tinha realmente viajado.
— Tava pensando no quê? — Ele entrou, se jogando na poltrona à minha frente.
— Nada. — Revirei os olhos. — Agora fala o que veio fazer aqui, não devia estar trabalhando?
— E estou. — Jogou duas pastas na minha frente.
— O que é isso?
— A sentença do Bryan saiu, oficialmente.
Eu estava esperando por isso desde o dia em que descobri o que aquele filho da puta tentou fazer com Aurora.
— E? — Peguei as pastas, mas estava meio zonzo até para ler.
— Com o flagrante, seu testemunho, o histórico dele, Bryan pegou mais anos do que a gente imaginava, foram trinta e sem chances de sair antes por bom comportamento.
Eu apoiei os cotovelos na mesa, passei as mãos no rosto e deixei o peso sair dos meus ombros, aquele desgraçado não ia mais chegar perto dela.
Ela estava segura.
Ela estava realmente segura.
— E a guarda? — Perguntei, ainda com a mão no rosto, mas olhando para ele por entre os dedos.
— Total para você e Violeta, ele perdeu qualquer direito e parabéns Harry, a filha de vocês é só de vocês agora, Bryan não tem mais como revogar, mesmo que saia.
— Você já falou com a Violeta?
— Falei. — Anderson se inclinou na poltrona. — E era essa a outra coisa que precisava falar, eu liguei hoje cedo para falar do resultado e da sua acusação contra ela.
— Como ela agiu?
— Quando contei sobre os dez mil de indenização e o tempo de guarda extra para você. — Ele riu, balançando a cabeça. — Ela desligou na minha cara.
— É a cara dela.
Violeta devia estar me odiando agora, mas depois de me impedir de ver a Aurora naquele dia, depois de usar minha própria filha daquele jeito, ela merecia isso.
Levantei da cadeira, passei para o outro lado da minha mesa, puxando Anderson pelo braço.
— Levanta.
— Que isso, cara?
— Porra, Anderson. — Estava tão feliz que puxei-o para um abraço. — Você não tem ideia do que isso significa.
— Tenho sim, idiota. — Ele deu uns tapas nas minhas costas. — Estava com você desde o começo, né?
— Se eu não te odiasse tanto, eu te beijaria agora. — Segurei o rosto dele com as duas mãos.
— Sai pra lá, desgraçado! — Ele empurrou meu peito, rindo. — Vai beijar sua namorada, me deixa fora disso.
— Você é um amor, Anderson.
— Amor é o cacete, sai de perto de mim...
Nesse exato segundo, a porta se abriu.
— Senhor Styles? — Minha assistente congelou, com os olhos arregalados. — Ah! Meu Deus! Desculpa! Eu... eu não sabia que o senhor estava... ocupado.
Anderson se afastou de mim imediatamente, mas eu só ri.
— Não é o que você está pensando. — Falei, ajeitando o paletó.
— Eu juro que não é. — Anderson completou, passando a mão no cabelo, claramente mais constrangido do que eu.
— Eu não estou pensando nada! — Ela riu nervosa. — É que sua namorada está na recepção, senhor Styles, a senhorita O'Connor, eu posso mandar ela entrar ou falo que o senhor está ocupado?
— Hmm! Aurora veio te ver, é?
— Cala a boca, Anderson. — Mostrei o dedo do meio para ele sem tirar o sorriso do rosto, depois me voltei para a assistente. — Manda ela entrar, por favor.
— Claro. — Ela assentiu, desviando o olhar de mim. — Vou chamá-la.
— Depois me conta como foi. — Provocou, já saindo junto com ela.
A porta do escritório abriu de novo, eu levantei o rosto e vi Aurora parada na entrada, usando uma jardineira curta jeans, a pele branca quase brilhava contra o tecido azul, cheia de sardinhas espalhadas pelos ombros e descendo pelos braços. Meus olhos desceram antes que eu pudesse evitar, as pernas dela estavam completamente à mostra, precisei me forçar a subir o olhar para não parecer um pervertido.
— Você vai continuar me encarando ou vai me convidar para entrar? — Ela inclinou a cabeça, percebendo que eu estava demorando para dizer qualquer coisa.
— Entra. — Falei, levantando-me.
— Espero não estar atrapalhando. — Ela fechou a porta e veio até mim.
Peguei seu rosto com as duas mãos e a beijei, ela correspondeu na hora, os lábios quentes e macios como sempre.
Eu estava viciado naquela boca.
— Onde está o Liam?
— Meus pais chegaram hoje de manhã. — Ela apoiou as mãos no meu peito. — Eles estão com ele, vão trazer de volta só à noite, aí eu pensei em aparecer e te chamar para almoçar, foi ideia ruim vir sem avisar?
— Claro que não. — Beijei a testa dela. — Sabe que eu amo te ver, estava com saudade.
— A gente se viu ontem.
— Estou sempre com saudade. — Beijei-a de novo.
Porra, como eu amava aquilo.
— Então, onde vamos?
— Baby, eu tenho uma reunião importante em duas horas. — Passei a mão no cabelo dela. — Se a gente sair para almoçar, vai ficar muito corrido, eu não vou conseguir te dar atenção direito e eu quero dar atenção a você. — Brinquei com uma de suas mechas ruivas. — Você se importa se a gente pedir alguma coisa e comer aqui?
— Não, claro que não. — Ela respondeu rápido, como se fosse óbvio. — Pode ser até melhor.
— Ótimo. — Beijei a testa dela antes de me afastar e pegar o celular. — O que você quer?
— Hum... — Ela se sentou no sofá lateral, cruzando as pernas. — Qualquer massa está bom.
— Anotado. — Comecei a digitar o pedido no aplicativo. — Carbonara?
— Ravioli de ricota com espinafre, tem?
— Tem, refrigerante diet?
— Sim.
Finalizei o pedido, joguei o celular na mesa e só então percebi as janelas, meu escritório tinha uma parede inteira de vidro, eu não queria ninguém olhando então caminhei até a janela enorme e puxei as persianas, uma por uma, fechando tudo.
— O que você está fazendo?
— Só para evitar curiosos. — Terminei de fechar a última persiana e me virei.
Tirei o paletó devagar, joguei na cadeira e fui até ela, me sentei no chão, bem entre as pernas dela e as abri com cuidado.
— Harry. — Ela murmurou com os olhos arregalados.
— Calma. — Inclinei e beijei em seu joelho. — Eu nunca faria nada aqui. — Beijei de novo, um pouco mais acima.
— Isso nunca te impediu antes.
Ah! Realmente.
Quantas vezes nós transamos naquele escritório em Harvad?!
Muitas vezes.
— Bem, agora eu não farei nada. — Fui subindo meus lábios devagar pela sua coxa, sentindo ela prender a respiração.
Quando tive espaço suficiente para me encaixar, encostei as costas no sofá, me acomodei entre suas pernas e apoiei a cabeça para trás, perto do joelho dela, rapidamente sua mão encontrou meu cabelo.
— Hum... — Ela murmurou com os dedos afundando devagar em meus cabelos— Macio.
— Você já falou isso.
— E vou falar de novo. — Seus dedos continuavam o movimento lento. — Sempre que puder, é tão bom.
Ri baixinho, nós ficamos assim por um tempo, ela fazendo cafuné em meu cabelo, eu sentindo o calor dela e seu carinho, até a comida chegar e me forçar a levantar. Peguei as sacolas e voltei rápido, abri e deixei em cima da mesinha de centro, nós sentamos no chão e comemos em um silêncio confortável, de vez em quando, nossos olhos se encontravam, ela sorria e eu sorria de volta.
— Harry? — Aurora deitou a cabeça no meu ombro logo depois de terminar.
— Hum?
— Lembra da outra noite? Na minha cozinha?
— Lembro.
— Você ainda não quer... dormir comigo? — Ela ergueu a cabeça e finalmente me olhou.
— Aurora...
— É sério, eu estou perguntando se você ainda acha que não consegue... Só dormir.
— Docinho... — Passei a mão no cabelo dela, tentando organizar os pensamentos. — Não é que eu não queira, é que...
— O quê? — Ela me interrompeu, segurando minha mão que estava em seu cabelo.
— Nós tínhamos combinado de ir devagar.
— Sinto falta de você na minha cama, Harry... — Ela fez aquele biquinho fofo de novo.
Porra.
Aurora.
— Você não pode falar uma coisa dessas. — Inclinei e deixei um selinho demorado em seus lábios.
— Por que não?
Ela sabia, não tinha como ela não saber, o que estava fazendo comigo.
— Você está brincando comigo. — Vi surgir um sorriso em seu rosto quando brinquei. — Tem que estar.
— Não estou brincando, eu só não quero mais ficar escondendo o que sinto. — Os dedos dela encontraram minha nuca, fazendo arrepios surgirem. — Eu passei muito tempo com medo, medo de me machucar, medo de me entregar, medo de falar o que sentia por você. — Meu coração parou por um instante, porque ela não estava mais brincando. — Mas eu quero ser sincera, que sinto sua falta, que quero você por perto e quero você na minha cama para me abraçar no fim do dia. — Suas bochechas estavam corando. — Mas se você não gosta de quando eu sou honesta... Eu prometo não dizer mais tão diretamente.
— Não. — A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. — Nunca faça isso, Aurora, mostre-me sempre o que sente, por favor. — Beijei-a com todo o amor. — Está bem... Você venceu, eu durmo com você hoje.
Muito obrigado por ler até aqui se gostou considere deixar seu comentário e um voto isso é muito importante para mim, também me motiva muito a continuar escrevendo ☺️
PS: Eles como são tudo 😍 não sei qual POV eu mais gosto de escrever.
Yes,Sir Capítulo 58
Personagens: Professor! Harry x Estudante! Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora e de Harry
Aurora
Eu estava louca.
Essa era a única explicação possível para a situação em que eu mesma vinha me colocando.
Porque até o cheiro dele me acalmava.
Porque dormir agarrada a ele fazia os pesadelos desaparecerem, como se o meu corpo tivesse aprendido que, ali, naquele espaço específico, nada de ruim podia acontecer.
Nem à noite.
Nem dentro da minha cabeça.
Harry era como uma droga que eu sabia que precisava largar e ainda assim, continuava usando.
Já fazia duas semanas.
Duas semanas desde a noite em que apareci no apartamento dele com o Liam no colo, tremendo, incapaz de ficar sozinha e causei aquela confusão em sua vida.
Duas semanas desde que tudo saiu do lugar e ao mesmo tempo, pareceu perigosamente confortável.
No começo, era só até eu conseguir dormir de novo.
Depois virou um acordo silencioso.
Uma noite na cama dele.
Outra na minha.
Às vezes, ele dormia do meu lado.
Às vezes eu acordava com ele já acordado, imóvel, como se tivesse passado a noite inteira com medo de me tocar.
Eu queria dizer que tentei ser forte, mas a verdade era que eu estava cansada demais para lutar contra algo que finalmente me dava algumas horas de paz.
Eu tinha parado de chorar todas as noites.
Os pesadelos com o Bryan tinham diminuído.
O vazio que Gabriel deixou não doía mais o tempo todo e foi sendo preenchido por aquela presença intensa e superprotetora de Harry.
E isso me assustava.
— Pegou tudo? — Harry segurava o Liam e sua bolsa de fraldas em um braço e as chaves do carro na mão.
— Peguei — respondi, checando minha bolsa pela terceira vez. — Harry, você realmente não precisa fazer isso todas as vezes.
— Eu sei, mas eu quero ir, quero te apoiar nisso, tudo bem? — Ele me olhou e não parecia ofendido. — Agora vamos, não quero que você perca a hora.
Desde que comecei a fazer terapia, Harry se tornou meu motorista particular, ele me levava, ficava com o Liam no carro ou passeando pelos arredores até a sessão terminar e nos dias em que eu saía em silêncio demais, ele não perguntava nada só me levava para algum lugar calmo, um café ou às vezes só dirigia sem destino até minha respiração normalizar.
Quando chegamos, ele estacionou e desligou o carro antes de olhar para mim.
— Vai dar tudo certo. —
Inclinou-se e deixou um beijo rápido na minha testa. — Volto daqui a pouco e boa sorte lá dentro.
Assenti e saí do carro com o calor dos lábios dele ainda em minha pele enquanto eu o via se afastar com nosso filho.
— Aurora O'Connor? — A secretária chamou, após uns 20 minutos de espera.— A dr vai te atender agora.
Levantei-me e segui pelo corredor, a terapeuta sorriu quando me viu.
— Pode entrar, Aurora.
O nome dela era Dra. Helena, tinha uma voz firme e um jeito calmo que me deixava desconfortavelmente à vontade.
— Como você tem se sentido desde a última sessão? — ela perguntou, depois que me sentei.
— Melhor. — Concordei. — Os pesadelos diminuíram, tenho conseguido dormir.
Ela anotou algo, em seu bloco, mantendo a expressão neutra.
— Isso é um avanço importante.
— Eu sei.
Houve um breve silêncio.
Então ela me observou calmamente por cima dos óculos.
— Você ainda tem dormido com o pai do seu filho?
— Falando assim... soa bem estranho, mas sim. — Eu soltei uma risada nervosa, sentindo o rosto esquentar.
— Você sabe que isso não é bom, não sabe? — Ela não sorriu.
— Sei.
— Aurora, depois de tudo o que você me contou sobre a história de vocês, sobre a traição, a quebra de confiança e o trauma recente que você viveu com o Bryan... o que vocês estão fazendo não é saudável. — Helena foi direta. — Harry claramente ainda tem sentimentos por você e está usando essa proximidade para alimentar isso. — Fechou seu bloco por um instante. — E você está usando o Harry para suprir sua carência, para tentar se livrar do seu trauma e esse emaranhado de sentimentos confusos.
— Eu não tenho sentimentos por ele — rebati rápido demais. — Não assim, não mais.
— Mas você me disse que sentiu ciúmes dele quando ele saiu com outra mulher.
— Sim... Mas...
— Diz que gosta quando ele está por perto e que ainda se sente atraída fisicamente por ele. — Ela inclinou a cabeça levemente.
— Eu sei o que parece, mas... é complicado, ele é o pai do meu filho e também me salvou, é mais como gratidão... Eu acho...
— Você tem que começar a enfrentar seus sentimentos, Aurora. Não é saudável reprimir tudo sob a justificativa de "gratidão". Ambos precisam enfrentar a realidade. — disse com firmeza. — Eu entendo o conforto, entendo esse alívio de dividir a cama com alguém em um momento como esse, mas vocês precisam de um tempo, uma separação emocional e limites.
Limites ...
Fiquei em silêncio, porque ela estava certa e porque a ideia de abrir mão daquilo fazia meu peito apertar de um jeito que eu não queria admitir.
Saí da sala sentindo como se tivesse levado uma surra, as palavras da Dra. Helena ecoavam sem parar...
Não é saudável.
Limites.
Enquanto esperava Harry no saguão, tentei me focar nas pequenas vitórias da semana para não desabar.
Eu estava tentando retomar minha autonomia, tinha me inscrito em uma aula de ioga com bebês toda quarta-feira, era o meu momento com o Liam. Os dias em que o Harry o pegava para cumprir o acordo de visitas eram os mais difíceis, o silêncio do meu apartamento fazia os medos gritarem mais alto.
Mas eu estava me forçando, ia ao mercado sozinha, ao parque, voltei a malhar, meu corpo estava voltando ao eixo e minha mente aos poucos tentava seguir em frente. Eu até tinha feito amizade com a dona da floricultura perto da academia, uma senhora que sempre me dava uma rosa e tentava me empurrar o neto de qualquer jeito.
— Ele é um bom rapaz, Aurora! Você ia adorar! — ela dizia.
Eu apenas ria e recusava, como eu poderia explicar para ela que minha vida era um caos?
Saí na calçada assim que recebi a mensagem de que ele havia chegado, vi o carro de Harry estacionado, ele estava encostado na porta, balançando o Liam enquanto olhava o celular. Ele parecia tão integrado à minha rotina que me assustava.
— Como foi? — ele perguntou, examinando meu rosto.
— Cansativo.
— Imagino.
Entrei no carro sentindo o peso da sessão de terapia, ele percebeu na hora, mas não perguntou nada de imediato, apenas colocou a mão sobre a minha por um segundo antes de dar a partida.
— Quer ir a algum lugar antes de ir para casa? — ele perguntou suavemente. — O dia parece pedir um sorvete no porto.
Olhei para ele, a voz da Dra. Helena estava gritando em minha cabeça.
"Vocês precisam de espaço"
— Só me leva para casa, Harry — pedi, fechando os olhos. — Hoje eu só preciso pensar..
— Tudo bem.
...
No começo, foi difícil.
Muito difícil.
A conversa que tive com Harry depois daquela sessão ainda martelava na minha cabeça, cada palavra. Eu esperava resistência, discussão, talvez até mágoa explícita, mas ele foi gentil.
Gentil demais.
Aceitou e concordou, disse que entendia, como se no fundo já soubesse que aquilo não ia durar e talvez soubesse mesmo, talvez só estivesse aproveitando o tempo que ainda tinha.
Voltamos a ser "apenas" os pais do Liam, quase isso, às vezes escorregava, eu me sentia sozinha demais e chamava ele para ver um filme ou aceitava jantar com ele e a pequena Aurora. Em algumas noites, o peso do cansaço vencia e ele acabava dormindo lá em casa, mas não era mais como antes.
Liam estava no tapete, chutando o ar e tentando agarrar um urso de pelúcia enquanto Geórgia e Jane brincavam com ele na sala. Eu estava na cozinha observando-os enquanto fazia alguns sanduíches quando bateram na porta.
Não estava esperando ninguém, pensei logo no Harry, porque ele era a única pessoa que aparecia assim do nada no meu apartamento, mas quando abri, era a Isadora parada ali, com uma mochila nas costas e um olhar cabisbaixo.
— Oi — ela disse, apertando a alça da mochila.
— Oi, Isa.
— Posso entrar?
— Claro, vem.
Dei passagem e ela entrou, olhando em volta, Geórgia e Jane pararam a brincadeira no mesmo instante, vindo até nós.
— Essa é minha irmã, Geórgia e a namorada dela...
— Jane... quanto tempo — a Isa interrompeu, indo até ela e a abraçando.
Eu tinha esquecido totalmente que a Jane era amiga da Violeta e que, quando elas moravam em Cambridge, Jane às vezes era babá da Isadora.
Ver as duas ali me trouxe a
lembrança daquela noite na cozinha da casa dele, por um instante eu senti um aperto no peito, mas engoli.
Eu escolhi perdoar o Harry, ele não era mais aquele homem e eu também não era a mesma Aurora.
— Aurora? — Geórgia me cutucou.
— Oi, desculpe...
— Eu e a Jane vamos sair um pouco, quer que a gente leve o Liam? — Geórgia perguntou, olhando para a Isa.
— Claro.
— Na verdade... — Isa deu um passo à frente. — Tudo bem se ele ficar? Eu queria que ele ficasse.
Geórgia arqueou a sobrancelha, esperando meu sinal, eu assenti com a cabeça.
— Está bem, vamos deixar vocês. — Minha irmã deu um beijo no topo da cabeça do Liam e o entregou para mim. — Voltamos mais tarde, qualquer coisa, liga.
A porta fechou e o barulho da tranca pareceu ecoar pela sala inteira.
— Desculpe aparecer assim, sem avisar — a Isa começou, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.
— Sem problemas, eu fico feliz em te ver, senta um pouco. — Apontei para o sofá. — Quer beber alguma coisa?
— Água... por favor.
Fui até a cozinha e senti minhas mãos tremendo levemente enquanto pegava o copo.
Eu devia mandar uma mensagem ao Harry de que ela estava ali?
Entreguei para ela e me sentei na poltrona, colocando o Liam na cadeirinha de descanso perto do sofá.
— Obrigada. — Ela tomou um gole longo. — Você já deve saber da briga que tive com meu pai, né?
— Sim, eu sei.
— Eu pensei muito antes de vir aqui, foi muito difícil descobrir mais uma mentira dele e estar aqui... com a amante dele, isso dói.
— Por favor, não me chame assim — a interrompi, a voz saindo mais firme do que imaginei. — Eu não sabia sobre a sua mãe, nem sobre vocês, se eu soubesse que ele era casado, eu nunca teria me envolvido com ele.
— Me desculpe... Eu não queria te ofender, eu só queria que você soubesse o quanto está sendo difícil olhar para você agora.
— Eu sei, acredita em mim, para mim também não é nada simples.
— Eu vim aqui porque queria te fazer umas perguntas, preciso entender algumas coisas e queria muito que você me ajudasse.
— Eu não prometo responder todas, Isa, mas eu prometo ser sincera com você.
Ela colocou o copo na mesinha de centro e se inclinou para frente, me encarando de um jeito que me lembrou muito o Harry.
— Você não sabia mesmo que meu pai era casado? Nem por um segundo?
— Eu fui ingênua, Isa, eu não vi os sinais de alerta porque eu estava completamente apaixonada por ele, eu só via o que ele queria me mostrar.
— E você ainda está? — Ela não desviou os olhos. — Você ainda é apaixonada pelo meu pai?
Que garotinha mais...
— Eu acabei de sair de um relacionamento, Isa. — Rebati, conferindo o Liam.
— Não foi isso que perguntei.
— Eu estou indisponível para o amor agora — respondi, respirando fundo.
— Passei por coisas que você nem imagina e mexer nisso é algo que eu não quero fazer.
— Tem a ver com o motivo de você ter ido dormir na minha casa aquela noite? — Ela franziu a testa.
— Um pouco.
— O que aconteceu? Seu namorado te bateu? Foi por isso que terminou com ele?
Ela era curiosa, direta e não tinha filtro nenhum.
Talvez fosse só pela curiosidade e ela acabou não percebendo, mas o que ela dizia me machucava um pouco.
Senti um arrepio na nuca ao lembrar do que o Bryan tinha tentado fazer.
— Eu sinto muito, mas eu não vou falar sobre esse assunto com você, eu não me sinto à vontade e não acho que seja apropriado dizer isso a você, então me desculpa.
— Tudo bem, eu que fui muito enxerida. — Ela abaixou a cabeça. — Desculpa de novo.
— Sem problemas. — Tentei sorrir, tentando mudar o foco. — Mas vamos falar desse garotinho aqui, é quem mais importa. — Peguei Liam novamente no meu colo.
Ele estava bem animado e sorridente.
— Claro, qual é o nome dele mesmo? Meu pai falou, mas eu estava com raiva.
— Liam, Liam Styles.
— Você é muito fofo, Liam — ela murmurou, estendendo o dedo para ele.
O Liam agarrou o dedo dela com força e deu um daqueles sorrisos banguelas.
— Ele tem os olhos do Harry. — Ela afirmou, observando o bebê. — É bizarro o quanto ele se parece com o meu pai.
— É — concordei, sentindo um calor estranho no peito. — Ele puxou quase tudo do Harry.
— Sabe... Eu cuido das minhas irmãs desde que elas nasceram. — Ela ficou olhando para a mãozinha dele por um tempo. — Eu estou com um ódio mortal do meu pai, mas olhei para esse bebezinho e não faz sentido eu fingir que ele não existe só porque o Harry é um mentiroso de merda. — Ela levantou o olhar. — Se você não se importar, eu queria vir aqui às vezes, ver ele, só não conta para o meu pai, eu não quero que ele ache que perdoei as mentiras dele, porque não perdoei.
— Eu não vou contar, pode vir quando quiser.
Olhei para ela, para o jeito que ela ainda observava meu filho e senti um alívio.
Eu tinha medo de Liam ser o "erro" que a família do Harry talvez fosse ignorar quando descobrissem, mas
ver a Isadora ali, decidindo por conta própria que ia ser irmã dele, tirou um peso enorme de cima de mim.
...
O café estava cheio quando cheguei,Lily já estava sentada perto da janela, mexendo no celular. Assim que me viu, levantou a mão no ar, animada.
— Até que enfim — Reclamou quando me aproximei.
Sentei de frente para ela, um garçom se aproximou, pedimos duas bebidas, bolo de chocolate e cheesecake, assim que ele se afastou, cruzei os braços sobre a mesa.
— Tá. — Inclinei a cabeça. — O que é de tão urgente que me fez deixar o Liam com o Harry em pleno sábado de manhã? — Arregalei os olhos assim que ela estendeu a mão esquerda sobre a mesa, o diamante captando a luz da manhã. — Aí meu Deus! Você está noiva?
— Sim!!! — Lily praticamente gritou, o rosto iluminado por uma felicidade que me deu inveja por um segundo.
— Lily! — Puxei a mão dela para ver o anel de perto. — Eu estou tão feliz por você, amiga!
— Eu sei! O Josh finalmente me pediu! Aí, eu estou tão radiante e quero que você seja minha dama de honra, óbvio!
— É claro! Nunca recusaria. — Apertei a mão dela, sentindo o metal frio do anel. — Já tem data?
— Vamos nos casar daqui a seis meses.
— Seis meses? Não é rápido demais?
— Nós já moramos juntos, estamos juntos há tanto tempo, não quero esperar mais. — Deu de ombros. — Tem muita coisa para fazer, então! Muita! Estou enlouquecendo.
— Vamos conseguir!
Meu celular vibrou sobre a mesa, a luz da tela chamando minha atenção, era Harry, a mensagem não era sobre o Liam, o que já era um alívio, significava que eles estavam bem.
Harry: Só para confirmar: a recepção amanhã começa às 19h. Posso pedir para alguém pegar vocês às 18h30? Se precisar de algo antes, me avise, docinho.
— O que foi? É ele? — Lily fez uma careta quando viu o sorriso de canto que dei sem querer. — O vovô?
— Ah! Sim... — Bloqueei a tela, tentando recuperar a compostura. — Mas não é nada demais, ele só está me lembrando de amanhã.
— O que tem amanhã?
— Não! Esquece, vamos falar do seu casamento. — Tentei mudar de assunto, mas com Lily era impossível.
— Harry Styles já conseguiu acabar com o clima!
— Lily! Não seja assim, estamos aqui por você!
— Vai, fala logo, Aurora, o que ele quer agora?
— É a inauguração do escritório dele. — Suspirei, cedendo. — O novo escritório de advocacia.
— O que aconteceu com Harvard? Fodeu com outra aluna e pegaram ele?
— Para com isso... Ele mudou. — Defendi, sentindo meu rosto esquentar.
— É o que eles sempre dizem! — Ela revirou os olhos.
— Esquece.
Nossos pedidos chegaram e começamos a comer em silêncio por alguns minutos até Lily não se aguentar.
— Agora estou curiosa... Você vai como namorada dele? — Perguntou antes de colocar um pedaço enorme de bolo de chocolate na boca. — Afinal, teve aquele lance de dormirem juntos.
— O quê?! Não!
— Mas ele quer! Nossa, esse homem quer tanto isso que chega a ser nojento, sempre que olho para ele, ele está tipo babando em você!
— Para de falar besteiras, por favor! — Senti meu estômago dar um nó. — Eu só vou porque sou a mãe do filho dele e seria rude depois que ele convidou.
— A Violeta também é mãe das filhas dele e tenho certeza de que ele não convidou ela!
— Talvez ele tenha convidado... — Mordi o lábio, sentindo uma pontada de nervosismo. — Talvez ela esteja lá também!
— Ah, Aurora! Não seja ingênua, esse homem só te convidou com uma desculpa para ter você por perto! — Revirou os olhos. — Duvido muito que ele iria convidar a outra ex para atrapalhar.
— Lily! Vamos voltar ao assunto do casamento, por favor!
— Tá, tá, é que odeio esse homem e você também deveria odiar, mas pelo seu olhar tá mais para "estou caidinha por ele".
— Claro que não! Para de dizer coisas assim, ok?
— Tá, vamos voltar ao meu casamento! — Ela cedeu, mas eu sabia que o assunto não estava encerrado.
— Ótimo, eu vi uma loja de noivas vindo para cá, quer dar uma olhada, tipo agora? Já que estamos perto.
— Vamos!
...
— Como ver vestido de casamento se transformou nisso? — Resmunguei do lado de dentro do provador, encarando mais um cabide.
— Transformou-se nisso porque você estava sendo uma péssima amiga! — A voz da Lily veio lá de fora. — Ao invés de prestar atenção nos meus vestidos, você ficava divagando sobre o que ia vestir amanhã.
— Assim você me faz sentir péssima mesmo. — Abri a cortina, mostrando um vestido azul-marinho. — E esse?
— É para se sentir péssima mesmo! Por me obrigar a procurar vestido para você causar um AVC no vovô. — Falou, depois fez uma careta ao me ver girar para ela. — E esse azul não, próximo!
— Você que me arrastou para cá, lembra? — Retruquei, mas já fechando a cortina. — Agora está reclamando!
— É porque eu odeio ele, mas eu te amo! — Ela gritou. — Experimenta o vermelho!
Revirei os olhos, trocando de roupa pela décima vez, o tecido deslizou pela minha pele, era justo, marcando curvas que eu ainda estava aprendendo a aceitar de novo depois da gravidez.
— E aí? — Falei, saindo do provador.
Lily parou, seus olhos percorreram o vestido de cima a baixo.
— Esse é perfeito.
— Tem certeza? Não está exagerado?
— Ele com certeza vai enlouquecer vendo você nesse vestido, se eu fosse um homem, eu iria.
— Eu só quero estar apresentável, Lily... — Murmurei, me olhando no espelho de vários ângulos. — Só isso.
— Você está linda, seu vovô vai amar.
— Para de chamá-lo assim! — Dei um tapinha no ombro dela. — Mas não sei, acho que vai ser difícil cuidar do Liam com esse salto e esse vestido.
— Eu fico com o Liam! Você precisa de uma noite para se divertir um pouco.
— É só uma confraternização de empresa, mas ok, eu agradeço! — Voltei ao provador para trocar de roupa. — Ainda temos mais uma hora até o Harry devolver o Liam, o que acha de agora, realmente, vermos vestido de noiva?
— Perfeito!!
...
O dia da recepção havia finalmente chegado, eu estava parada em frente ao espelho do meu quarto, observando atentamente cada detalhe, meus cabelos caíam em ondas pelos ombros, o vestido vermelho que abraçava cada curva minha, o batom, contornando meus lábios no mesmo tom do vestido.
— Você consegue, é só uma festa. — Repeti a mim mesma.
Vesti as sandálias douradas, sentindo o salto me deixar alguns centímetros mais alta, ajustei meus acessórios também dourados, no momento em que pegava a bolsa, Lily entrou no quarto.
— Você está linda.
— Obrigada. — Senti meu rosto corar enquanto conferia se não esquecia nada. — Prometo não demorar, tá bom?
— Ah! Pode demorar sim! E divirta-se. — Antes que eu pudesse fechar a bolsa, ela deixou cair algo lá dentro.
Arregalei os olhos ao ver o envelope prateado da camisinha.
— Lily! — Repreendi, tirando aquilo dali, jogando na cama. — Já falei que não vou para isso, eu nem sequer penso nisso agora.
— Ah, vai que no calor do momento, nunca se sabe! Só quero prevenir que aquele homem coloque mais um filho no mundo, ele já tem demais.
— Não vai rolar nada entre mim e o Harry. — Minha voz saiu firme.
Lily percebeu o meu tom um pouco grosseiro e recuou, levantando as mãos.
— Tá bom! Tá bom, desculpa, só estava brincando, ele vem te buscar?
— Não! Mas mandou alguém vir, aceitei porque quero aproveitar para tomar alguma bebida de adulto depois de séculos — dei um sorriso de canto, indo em direção à porta. — Amo vocês, cuida dele, qualquer coisa me liga que eu venho na hora, tá bom? — Deixei um beijo na testa de Liam, que dormia tranquilamente.
— Tá, tá, já sei! Você passou a lista do que fazer e não fazer umas três vezes já! E ainda tem ela colada na geladeira.
— Só estou sendo prevenida.
— E um pouco maníaca, mas tudo bem! Se divirta.
— Tá bom, tchau.
Quando o carro parou em frente ao prédio moderno onde o escritório de advocacia de Harry estava instalado, minhas mãos suaram, entrei no elevador e, enquanto subia, mandei uma mensagem rápida avisando que havia chegado.
Encarei meu reflexo no espelho do elevador, o vestido justo marcava tudo, o decote parecia mais volumoso, cortesia da amamentação, e meus lábios estavam de um vermelho escandaloso.
Talvez eu devesse tirar aquilo...
E logo em seguida, as palavras da Lily voltaram à minha mente como um eco insistente.
Droga, por que ela tinha que fazer essas brincadeiras ridículas?
Eu não queria pensar em nada disso.
Eu não estava pronta para transar, isso ia demorar muito, talvez meses ou anos para sequer passar pela minha cabeça de novo.
Mas... e se ele me beijasse?
Eu recusaria?
O elevador abriu antes que eu pudesse forçar uma resposta coerente.
Harry estava lá.
Ele parecia ter sido congelado no tempo, parado exatamente em frente às portas. Seus olhos verdes travaram em mim e começaram a passear, lentamente, por cada milímetro do meu corpo. Da ponta das sandálias até o contorno dos meus lábios, senti um calor subir por minha pele, se acumulando no meu ventre de um jeito que me fez perder o fôlego.
Um sentimento que eu tinha enterrado bem fundo, uma sensação que pensei ter morrido já faz um tempo.
O que ele estava fazendo comigo apenas com um olhar?
Harry deu um passo à frente, diminuindo a distância, o olhar ainda vidrado.
— Eu planejei mil coisas para te dizer quando você chegasse, Aurora... — Ele inclinou a cabeça, a voz saindo em um sussurro que me fez estremecer até os ossos. — Mas eu acabei de esquecer cada uma delas.
Harry
Eu ainda me surpreendia todas as noites com a escolha dela, com o fato de Aurora entrar no meu quarto ou me deixar entrar no dela e se deitar ao meu lado e agir como se aquilo não fosse uma imprudência perigosa, mesmo após dias revezando entre nossas camas, toda noite antes de deitar uma ansiedade boba se instalava em meu peito, eu não podia esquecer quem eu era, nem o limite que nos separava.
Para alguém que dizia não conseguir dormir, Aurora apagava fácil ao meu lado, eu gostava disso, mesmo que o preço fosse ficar acordado por horas. Quase todas as noites em que dormimos juntos, eu demorava muito mais a pegar no sono, às vezes de costas, às vezes encarando o teto, o corpo desperto demais para fingir que aquilo era normal e mesmo que tentasse muito, as lembranças de como a gente dormia antes, naquela casa em Boston, de como nunca era só dormir com ela, me atormentava.
Era uma crueldade para meus sentimentos dormir tão perto de Aurora, sentir o calor da sua pele quando ela me abraçava durante o sono, seu cheiro impregnado no meu travesseiro e ter seus pés quase sempre enrolados nos meus.
As manhãs terminavam quase sempre do mesmo jeito, eu acordava duro, levantava antes dela e ia para o banheiro, trancava a porta, ligava o chuveiro e resolvia sozinho o que a noite dormindo com ela tinha provocado, depois eu me vestia, abria a porta e voltava para a cama como se nada tivesse acontecido, aceitando aquela tortura diária porque no fim, passar as noites com Aurora ainda fazia tudo valer a pena, mesmo sabendo que isso não ia durar.
Na sexta-feira de manhã, eu sabia que precisava buscar as meninas para mais um final de semana com elas. Aurora estava do meu lado, amamentando nosso filho enquanto ainda estávamos na cama dela, com preguiça de enfrentar o dia.
— Esse fim de semana… — Comecei, um pouco hesitante de como seria sua reação. — É meu com as meninas de novo.
— As duas? — Murmurou com a voz ainda cheia de sono.
— Sim.
— Tá bom. — Respondeu, se espreguiçando um pouco assim que entregou Liam para mim. — Então a gente fica lá.
A naturalidade da resposta me pegou desprevenido.
— A gente?
— Ué. — Ela deu de ombros. — Se você quiser, se não quiser, eu e ele ficamos aqui.
— Eu quero. — Respondi sem conseguir conter um sorriso. — É lógico que eu quero.
— Então tá bom.
A ideia de Aurora no mesmo espaço que minhas filhas mais uma vez, fazendo coisas juntas, me deixava estranhamente bem, mal-acostumado talvez, como se aquilo estivesse se tornando natural rápido demais e em como estava ficando perigoso achar normal planejar um fim de semana inteiro ao lado dela.
Beijei a testa de Aurora e de Liam antes de sair, peguei a chave com uma sensação meio idiota de expectativa, a cabeça já vagando em tudo o que eu podia fazer, como minha filha provavelmente ia ficar grudada nela, quando me dei conta, já estava em frente à casa das minhas filhas.
— Oi, as meninas estão prontas? — Perguntei assim que a Violeta atendeu a porta.
Mal tive tempo de entender o que estava acontecendo quando senti meu rosto arder com o tapa forte que Violeta me acertou.
— Que porra é essa?! — Levei a mão à bochecha, sentindo arder. — Você enlouqueceu?
— Louca? — Ela riu sem humor. — Louco é você por achar que podia expor minhas filhas às suas merdas sem nem me consultar.
— Do que você está falando?
— Da vadia com quem você dormiu, Harry e pelo visto continua comendo.
— Quem? — Questionei, confuso, eu não estava dormindo com ninguém.
Só se...
Merda!
— Da garotinha que você engravidou, quem mais seria? — Ela se aproximou, me fazendo recuar com receio de levar outro tapa. — Eu não ligo para quem você anda fodendo, mas meter as minhas filhas nisso? Você só pode estar fora da porra da sua cabeça.
— Escuta, as coisas não foram bem assim…
— Não foram? — Ela apontou o dedo na minha cara. — Sabe como eu me senti quando nossa filha me contou da “tia Aurora”? De como ela é legal, de como tem um bebê lindinho como a irmã dela, de como colocou ela para dormir, contou historinha… — Podia ver o nojo estampado em seu rosto. — Mas essa não é nem a pior parte, nossa filha me contou como entrou no seu quarto e pegou você e a tia Aurora dormindo juntos na cama. — Soltou um riso irônico. — Então é isso que você faz quando nossas filhas estão na sua casa? Chama a amante para trepar e nem tem a decência de trancar a porta?
— Para! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Eu sou cuidadoso quando nossas filhas estão comigo, eu nunca prejudicaria elas, mas de qualquer forma elas iam acabar sabendo da Aurora em algum momento, ela faz parte da minha vida agora.
— Você não tinha o direito! — Ela tentou não gritar, mas não estava funcionando.— Ela é a mulher que acabou com o nosso casamento! Eu não quero essa garota perto das minhas filhas.
— Você acabou com o nosso casamento, Violeta! — Rebati, sentindo meus todos os meus nervos tensos. — E você não pode exigir isso.
— Você mentiu por meses para mim e agora enfia essa mulher e o filho dela na vida das minhas filhas sem me dar o direito de saber e eu tenho que ficar calada?
— Eu não planejei isso! — Passei a mão pelo cabelo, frustrado. — Ela apareceu no meu apartamento com o bebê, o que você queria que eu fizesse? Mandasse ela embora? Deixasse ela na rua com o meu filho?
— Sim! — Retrucou sem hesitar. — Você podia ter dito que não era o momento, que suas filhas estavam lá, que elas não deveriam saber das suas merdas.
— Você precisa entender uma coisa. — Respirei fundo, me contendo. — Do mesmo jeito que você é mãe das minhas filhas, Aurora também é mãe do meu filho e eu vou tratar ela com respeito, eu faço o meu máximo por vocês, pelo bem das nossas filhas e porque eu me importo com você e da mesma maneira eu me importo com a Aurora.
Muito mais com a Aurora...
— Você está mesmo comparando eu a ela? — Ela gargalhou. — Aquela garotinha comigo? Ser mãe é ter o mínimo de caráter, coisa que ela não sabe nem o que significa.
Eu tentei me segurar, mas ouvi-la falar daquele jeito da Aurora fez com que eu perdesse o pouco de controle que ainda tinha.
— Quer falar de caráter? — Dei um passo à frente, apontando meu indicador em seu rosto. — Lembra quem abriu as pernas para o meu melhor amigo usando a minha aliança? Lembra que me fez acreditar por dois anos que uma das nossas filhas era minha? — O rosto dela endureceu. — A Aurora entrou na minha vida da forma errada, mas nunca mentiu para mim, nunca me enganou.
— Vai se foder, Harry. — Deu um tapa em minha mão que está apontada para ela. — Você venera tanto essa garotinha, não é? Mas me diz, você tem absoluta certeza de que esse filho é seu?
— O que você está insinuando? Que ela é igual a você? — Meu sangue ferveu. — Você está projetando o seu lixo nela porque não aguenta ver que segui em frente?
— Eu só estou dizendo que uma mulher que aceita ser “a outra” não é exatamente o exemplo de fidelidade que você pensa. — Enfatizou com os dedos. — E reze para que esse bebê seja mesmo seu, porque se não for, eu vou rir da sua cara até o último dia da minha vida.
— Cala a boca! — Não consegui conter minha voz baixa. — Você quer saber o quanto eu confio nela? Eu daria meu cartão, meu sobrenome e todo o meu futuro para Aurora sem pensar duas vezes, apostaria tudo o que eu tenho nela sem piscar, ela é a única pessoa no mundo que nunca me faria duvidar de nada, Aurora me deu a paz que você drenou de mim.
— Você deve estar muito apaixonado para ser tão burro. — Ela gargalhou alto.
Eu estava pronto para simplesmente mandar ela ir se foder, mas passos pequenos e apressados surgiram do jardim vindo em direção à sala!
— Papai!!
Era Aurora, com Rose logo atrás, com Amélia em seu colo.
— Oi, minha princesa… — Forcei um sorriso, me abaixando para abraçá-la.
Mas antes que ela pudesse se aproximar, Violeta se colocou na frente, a mão no ombro dela a segurando.
— Filha, o papai só veio avisar uma coisa — falou, sorrindo para mim. — Ele não vai poder ficar com você neste final de semana, tem coisas mais importantes para fazer.
— Você não vai me levar, papai? — O brilho nos olhos da minha filha se apagou.
— Não é isso, querida, eu vou...
— Dê tchau para o papai. — Violeta, me cortou, já afastando minha filha. — Rose, leve-a para tomar um banho, ok?
— Tchau, papai…
Vi minha filha ser levada e não pude fazer nada, eu queria gritar desmentindo tudo, mas fazer uma cena ali na frente da criança não iria adiantar de nada.
— Você vai pagar por isso. — Sibilei, baixo, só para ela ouvir, enquanto vi minha filha subir as escadas com Rose. — Você não vai me impedir de ver minhas filhas.
— Só saia da minha casa, Harry, não quero mais ver sua cara. — Ela praguejou, me empurrando para fora antes de bater a porta na minha cara.
Fiquei parado por alguns segundos, respirando com dificuldade, o ódio pulsando no peito, até pegar o celular e discar o número do Anderson.
Isso não iria ficar assim.
...
Finalmente, o dia da inauguração havia chegado, eu mal tinha dormido e desde que parei de dividir a cama com Aurora, isso vinha acontecendo com frequência, eu sempre soube que aquilo não iria durar, só não imaginei que sentiria tanta falta dela.
Cheguei cedo ao prédio comercial, depois de cumprimentar a secretária, tranquei-me no escritório, onde passei a manhã resolvendo pendências básicas, assinaturas, papéis, detalhes que ainda precisavam ser ajustados depois da abertura, não era Harvard, claro, mas eu acabaria me acostumando.
Anderson e eu almoçamos juntos em um restaurante japonês perto do trabalho. Voltei para o prédio logo depois e permaneci no escritório até avisar que encerraria o expediente mais cedo, peguei minha bolsa com o outro terno no carro e fui para o banheiro privativo do escritório, tomei um banho rápido, troquei de roupa pensando em como estava um pouco inquieto, talvez fosse a festa ou talvez fosse porque teria Aurora ali comigo.
Quando entrei no salão, a festa já tinha começado, cumprimentei algumas pessoas sem prestar muita atenção, até sentir o celular vibrar no bolso do paletó, era uma mensagem dela, avisando que estava chegando, respondi apenas com um “ok” e me dirigi ao elevador.
As portas do elevador se abriram e eu esqueci como se respirava por alguns segundos, Aurora estava ali, seu cabelo vermelho estava solto e aquele vestido...
Aí meu Deus!
O vestido vermelho era justo suficiente para me fazer desviar o olhar e longo o suficiente para marcar cada curva que eu tentava desesperadamente esquecer que conhecia.
Eu precisava mudar meu foco ou acabaria falando alguma besteira.
— Eu planejei mil coisas para te dizer quando você chegasse, Aurora... — Inclinei a cabeça, minha voz saindo em um sussurro. — Mas eu acabei de esquecer cada uma delas.
Era exatamente isso o que eu não queria ter dito...
— Um oi talvez seria um bom começo. — Me lançou um sorriso.
— Me desculpe... Oi.
— Oi.
— Onde está o Liam? Achei que traria ele.
— Lily ficou com ele, eu queria me divertir um pouco sem ele, sabe? — Ela me encarou, os olhos azuis meio desconfiados. — Por quê? Você me chamou esperando que eu trouxesse o bebê?
— O quê? Não. — Respondi rápido demais. — Eu queria você aqui, por você.— A guiei até o salão principal.
— Quer beber alguma coisa? — Questionei, tentando recuperar a postura. — Champanhe? Vinho? Água?
— Eu quero, sim. — Ela expressou, sorrindo. — Mas não se preocupe, Harry, eu mesma pego, você e o Anderson são os donos da festa, não precisa ficar aqui plantado comigo, eu vou ficar bem, juro.
— Aurora, eu não me importo de...
— Vai lá, Harry, circula. — Ela tocou meu braço levemente e depois se afastou, desaparecendo entre as pessoas em direção ao bar.
Fiquei ali, estático, observando o balanço dos quadris dela sob o cetim vermelho, eu sabia que se continuasse olhando, meu coração simplesmente pararia.
— Cara… — Uma voz familiar quebrou meu transe. — Dá para ver de longe.
— Ver o quê? Anderson.
— Você. — Ele riu. — Nunca te vi assim tão... Sedento? Desesperado?
— Eu sei. — Passei a mão pelo cabelo, bagunçando o que levei meia hora para arrumar. — Estou surtando, Anderson, pareço um adolescente virgem que nunca viu uma mulher na vida.
Anderson olhou por cima do meu ombro, seguindo a direção para onde Aurora tinha ido.
— Bom… — Os olhos dele vagaram por todo o corpo dela. —Ela está muito bonita, se eu fosse você, também estaria agindo assim.
— Isso que está me matando, eu quero tudo dela e não posso tocar em nada. — Confessei, encarando-a. — Eu a respeito, sei o que ela passou por causa das minhas escolhas merdas, sei o que o Bryan fez, eu sei o limite, eu sei o que eu não posso fazer. — Ela estava rindo de alguma coisa que o barman disse enquanto esperava sua bebida e eu não conseguia desviar os olhos. — Mas eu não quero outra pessoa, eu só quero ela e ter que ser paciente assim… É uma tortura.
— Então, é pior do que pensei.
— É. — Respondi, vendo-a se virar e sorrir para mim. — Muito pior.
— Cara, vê se não perde o controle em... — Ele avisou, dando um tapa no meu ombro antes de sair. — Ou essa noite vai ser longa para você.
Eu sabia que ele tinha razão.
Eu precisava beber alguma coisa, caminhei até o bar ignorando alguns cumprimentos pelo caminho, pedi um uísque puro, sem gelo, no momento em que o líquido desceu queimando pela garganta, senti meu corpo dar uma leve relaxada, encostei no balcão e pedi uma taça de vinho branco, o que a Aurora gostava, respirei fundo, ajeitei o paletó e fui até ela.
— Aqui, é para você. — Parei ao seu lado, em frente ao buffet.
— Obrigada, Harry. — Ela pegou a taça, os dedos roçando nos meus.
— Você está bem? Parece... tenso.
— É a inauguração. — Dei um meio sorriso, sentindo o calor do álcool subir pelo pescoço. — E você não está ajudando com esse vestido, docinho...— Saiu antes que eu pensasse.
— Está tentando flertar comigo, Styles?
— Talvez. — Sorri de canto, apoiando a mão na mesa do buffet. — Só o barman pode flertar com você?
— Ele não estava… — Começou, mas parou no meio da frase, as bochechas ficaram levemente rosadas quando percebeu o meu olhar fixo. — Espera, você está me observando esse tempo todo?
— Sim, não consigo tirar os olhos de você desde que saiu daquele elevador.
Ela piscou, surpresa, não esperava aquela honestidade.
— Harry… — Murmurou, desviando o olhar por um segundo. — A Violeta vem também?
Porra.
Eu tinha realmente achado que a gente estava indo bem, mas ela mudou completamente o assunto e o nome da minha ex-mulher no meio daquela conversa foi como uma desilusão em minha pequena esperança.
— Violeta? Por que ela viria?
— Você me convidou… Pensei que talvez tivesse convidado-a também.
Aquilo me frustrou mais do que eu queria admitir.
O que mais eu precisava fazer para ela entender?
— Isso não faz sentido nenhum. — Falei, sem pensar muito. — Eu sei que ela é a mãe das minhas filhas, mas é só.
— E eu estar aqui faz? — Ela me encarou um pouco mais séria. — Eu também sou só a mãe do seu filho, não é…
— Sério? — Balancei a cabeça, desacreditado. — Depois de tudo… Você ainda acha isso?
— Eu não sei bem no que acreditar, as coisas estão sempre meio confusas entre a gente, não estão?
Inclinei meu corpo na direção dela, talvez levado um pouco pela coragem da bebida, eu quase encostei meus lábios em seu ouvido.
— Para mim, nunca foi confuso. — Sussurrei, sentindo o frio de seu brinco tocar minha boca. — Passei aquelas duas semanas dormindo ao seu lado, sentindo vontade de te tocar o tempo inteiro e escolhendo não fazer nada, porque você é importante para mim e porque eu sei que talvez você ainda não esteja pronta, mesmo que não haja outra pessoa ocupando meus pensamentos, nem alguém que eu queira mais do que você... É claro o suficiente para você, docinho? — No instante em que as palavras saíram da minha boca, eu me arrependi.
Eu não devia ter sido tão direto.
Ou deveria?
Antes que ela pudesse responder, uma sombra se projetou ao nosso lado.
— Harry Styles?
Virei o rosto a tempo de ver um homem alto, grisalho, sorrindo para mim.
Merda.
— Sim. — Endireitei o corpo imediatamente.
— Sou Marcos Miller. — Ele estendeu a mão. — Investidor e amigo do Anderson, ele me falou muito de você.
— Prazer. — Apertei a mão dele, ainda sentindo o calor de Aurora perigosamente perto.
Ele então olhou para ela, de cima a baixo, passando os olhos por seu decote mais do que devia.
— Sua filha mais velha? — Perguntou, com uma naturalidade constrangedora. — Anderson me falou que você tinha três, certo?
Filha?
Está de sacanagem?
Eu pareço tão velho assim?
Abri a boca para corrigir, o maxilar travado, já sentindo a irritação subir, quando Aurora se mexeu antes de mim e agarrou meu braço com firmeza.
— Namorada. — Ela disse, sorrindo. —Mas agradeço o elogio.
Meu cérebro levou um segundo inteiro para processar.
Namorada?
O investidor piscou claramente desconcertado e eu também.
— Oh! Me desculpe. — Ele pigarreou, constrangido. — Não quis ser desrespeitoso.
— Tudo bem. — Aurora respondeu, mantendo a mão presa ao meu braço. — Acontece.
— Você é um homem de sorte, Styles.
— Obrigado. — Concordei automaticamente, ainda tentando acompanhar o que estava acontecendo.
— Parabéns pelo escritório. — Ele assentiu. — Falamos depois.
Quando o homem finalmente saiu do nosso campo de visão, Aurora soltou meu braço.
— Que babaca. — Murmurou ela. — Você não é tão velho assim e obviamente eu não pareço uma adolescente de 17 anos.
Eu ainda estava em choque.
Ela disse namorada.
Eu sabia que sua intenção não era essa, mas...
— Você… — Engoli em seco. — Você acabou de dizer que era minha namorada?
— Me desculpe por falar aquilo. — Ela ficou um pouco tímida agora, mexendo na alça do vestido. — Eu não pensei muito antes de falar, ele foi muito inconveniente e eu acabei ficando irritada.
— Tudo bem, eu não me importo nenhum pouco com isso, mas talvez você se importe.
— Você não precisa desmentir nada. — Completou, olhando para os pés. — Mas se quiser, tudo bem, não me importo.
Eu não precisava desmentir?
Olhei para ela por alguns segundos a mais do que devia, depois do que eu disse, eu esperei que ela se fechasse, mas ela não fez e agora aconteceu isso, eu não consegui resistir a mexer com ela um pouco mais.
Até onde iríamos essa noite?
— Então… — Inclinei um pouco o rosto, o sorriso vindo antes que eu pensasse nas consequências. — Quer dizer que eu tenho uma namorada agora?
Ela arregalou os olhos, percebendo finalmente o que acabou de dizer.
— Harry… — Murmurou, já arrependida. — Não foi isso que eu quis dizer, era só que…
— Foi mais ou menos isso que você disse. — Provoquei, sem tirar o sorriso do rosto. — Que posso deixar eles pensarem que você é minha namorada.
— Eu só quis calar aquele cara, depois você pode só fingir que terminou comigo ou sei lá, pode dizer a verdade também.
— Funcionou. — Dei de ombros. — E eu nunca terminaria com você, mas obrigada por isso.
— De nada. — Aurora soltou um ar curto pelo nariz, ainda meio tensa. — Vou tomar mais uma bebida…
— Vai lá. — Respondi, rápido, dando espaço.
Observei enquanto ela se afastava, sem saber exatamente como nós acabamos assim tão rápido, mas não tive muito tempo para pensar naquilo, porque o comentário dela para o investidor se espalhou mais rápido do que eu imaginava. Cada conversa acabava no mesmo lugar, sobre nós, piadinhas, homens curiosos, comentários sobre “minha namorada jovem e bonita”. Eu sorria fingindo naturalidade enquanto sentia o peso daquilo se acumulando, me fazendo sentir ainda mais um idiota por querer que aquilo fosse verdade. Em algum momento, eu realmente comecei a me distrair, beber e conversar com alguns funcionários e amigos, até sentir um toque leve em meu braço.
— Harry... — Aurora me chamou, inclinando-se levemente para perto do meu ouvido por causa da música. — Onde fica o banheiro?
— Vem comigo.
Aproximei-me, a mão pousando levemente na curva das costas dela para guiá-la, tive que lutar contra o impulso de deixar meus dedos deslizarem mais para baixo.
— Ah... Liam está bem, falei com Lily e ele já está dormindo. — Ela comentou enquanto caminhávamos em silêncio pelo corredor.
— Fico feliz que ele esteja bem. — Sorri, parando em frente ao meu escritório. — Chegamos.
— Ué… — Ela franziu a testa. — Eu pedi o banheiro.
— Use o meu particular. — Murmurei, abrindo a porta do escritório e fechando-a atrás de nós. — É mais... tranquilo.
— Tá bom.
Ela entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, eu fiquei parado por um segundo e depois sentei na ponta da minha mesa, o corpo pesado, a cabeça levemente tonta pela bebida.
Ter bebido aquela noite foi uma péssima ideia, beber não ajudou em nada e só piorou as coisas, me fazendo sentir mais ousado e confessar coisas que certamente deviam ter a assustado, mas estar ali com ela sozinho, fazia minha mente vagar em coisas que eu não deveria sequer pensar.
Eu sabia exatamente o que queria fazer com ela ali dentro, meu pau respondeu antes da consciência com as imagens em minha cabeça, duro demais para o que eu sabia que não podia acontecer, como se não soubesse que eu não podia simplesmente puxá-la, me afundar nela e esquecer todo o resto.
Apertei os dedos na borda da mesa, respirando fundo, Anderson tinha razão, eu não podia perder o controle, a porta se abriu e ela saiu, parando bem na minha frente, eu continuava sentado na ponta da mesa, pernas abertas, o corpo ainda tenso.
— H… O que foi?
Merda.
Eu fui bonzinho.
Eu fui, sim.
Não fui?
Fiquei parado, tentando me convencer disso.
Olhei para o rosto dela e pensei que tinha me segurado, que ainda estava me segurando, mesmo com tudo dentro de mim pedindo o contrário.
— Você bebeu demais? — Ela se aproximou. — O que foi? — Senti os dedos dela na minha testa.
Porra.
Por que ela tinha que ser tão fofa?
Tirei a mão dela da minha testa, segurei os dedos dela e puxei-a para mim, Aurora perdeu o equilíbrio por um segundo, veio para frente, eu a segurei pela cintura, impedindo que caísse, ela acabou entre as minhas pernas.
Enterrei o rosto no pescoço dela, respirando fundo, sentindo o cheiro familiar que eu conhecia melhor do que devia, aquilo foi bom demais, bom demais para ser só um abraço, apertei um pouco mais, consciente de que talvez estivesse passando do limite, mas incapaz de soltá-la naquele momento.
— Harry…
— Desculpa… — Murmurei, a voz baixa, abafada no pescoço dela.— Só… — Respirei fundo outra vez. — Me deixa ficar aqui só um pouquinho.
Eu estava dando o meu máximo para ir devagar, para manter a dignidade de um abraço. Queria tocar nela de maneiras que venho imaginando há meses, queria beijá-la até perdermos o fôlego, mas ela não me abraçou, ficou rígida, porém não se afastou e isso foi o suficiente para mim.
— Tá… — Ela respondeu quase num sussurro.
Continuei ali, respirando contra o pescoço dela, sentindo o cheiro, o corpo quente encostado no meu, o coração dela acelerado quase no mesmo ritmo que o meu. Eu sabia que era perigoso, que podia ser demais, mas quando ela levou a mão até meu cabelo, afundando os dedos ali, foi como um sinal verde, se ela estava desconfortável, não teria feito isso.
— Tinha esquecido de como era macio. — Comentou baixinho.
Porra, Aurora...
— Você não sabe o que faz comigo, né? — Levantei o rosto devagar.
Ela não respondeu, só ficou olhando para mim com aqueles olhos azuis tão brilhantes.
Eu precisava saber...
Precisava testar os limites, tanto os dela quanto os meus, então inclinei minha cabeça e deixei meus lábios roçarem a pele quente e macia do seu pescoço, eu queria mais, lentamente movi meus lábios, dando um beijo suave contra a base do pescoço dela.
Puta merda, o que eu estava fazendo?
Minha mente gritava que isso era errado, mas meu corpo não parecia me obedecer agora, eu a desejava com tanta intensidade que me fazia tremer. Eu beijei seu pescoço novamente, um pouco mais firme desta vez, era a coisa mais estúpida que eu já fiz, se ela me batesse agora, eu mereceria, mas ela não fez.
Subi o beijo, movendo meus lábios do pescoço macio para a linha da mandíbula dela, minha língua roçou sua pele, provando o sabor dela, senti sua pele arrepiar e Aurora suspirou fundo, isso me incentivou a chegar perigosamente perto de sua boca, minha respiração quente na boca dela, nossos lábios roçando, mas forcei meu corpo a parar.
Eu queria que ela terminasse a tortura...
Eu queria que ela se inclinasse e acabasse com essa distância mínima entre nós e me beijasse.
Eu era um homem desesperado o suficiente para arriscar tudo por um beijo, mas eu precisava que ela fizesse isso...
Mas quando finalmente senti o corpo dela se inclinar para mim, a porta do escritório se abriu.
— Ei… — Anderson parou na entrada, os olhos indo de mim para ela, entendendo tudo rápido demais. — Porra, foi mal.
Afastei o rosto na hora, xingando-o com todos os palavrões que conhecia em minha cabeça.
— O que foi?
— Desculpa, sério. — Ele disse, já virando o rosto quando viu Aurora se esconder em mim. — Mas é hora do discurso.
— Tá.. Eu já vou.
A porta se fechou e o silêncio que ficou foi pesado, Aurora deu um passo pequeno para trás, se soltando de mim.
— Acho que nós deveríamos ir. — Comentou baixo, ajeitando o vestido.
— Eles podem esperar... — Tentei puxá-la de volta para mim.
— Harry... — Ela tirou minhas mãos dela. — É melhor você ir.
— Tá... Vai na frente… Me dá só um segundo.
Ela me olhou por um instante, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não disse e só saiu.
Será que estraguei tudo?
Fechei os olhos, irritado comigo mesmo, esperando meu corpo se acalmar e minha ereção sumir.
Ela ia me beijar, não ia?
Eu senti seu corpo se mover, então por que ela não quis continuar depois.
Eu não tinha tempo para pensar nisso agora, eu tinha um discurso para fazer, então só forcei minha postura, ajeitei o paletó, respirei outra vez e saí.
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PS: Aí gente eu amei escrever esse capítulo viu!!! Quase todos os momentos escrevi rindo com esses dois🙈😁
my second imagine, but more silly because it's the anniversary.
this one represents how old imagines compilations were made. also, sorry for the choppy text, this editor doesn't have text wrap-
seriously, it was a really good thing that most imagines from popular instagram accounts had watermarks.
posting some of my edits from tt
ִ ࣪ ˖ ࣪ ᨰꫀᥣᥴ᥆ꩇꫀ ! ᰔ ִ ׄ
𝒶𝒷ℴ𝓊𝓉 𝓂ℯ!!--- 𝓈𝒽ℯ/𝒽ℯ𝓇 𝓂ℯ𝓍𝒾𝒸𝒶𝓃 𝓈𝒶𝑔𝒾𝓉𝓉𝒶𝓇𝒾𝓊𝓈 𝒶𝓃𝓉𝒾𝓂𝒶𝑔a😳 |🔞 𝒹ℴ𝓃𝓉 𝒷 𝓌ℯ𝒾𝓇𝒹|
𝒻𝒶𝓃𝒹ℴ𝓂𝓈!!--- ℴ𝓃ℯ 𝒹𝒾𝓇ℯ𝒸𝓉𝒾ℴ𝓃 5𝓈ℴ𝓈 𝓈𝓁𝓊𝓈𝒽𝓎𝓃ℴℴ𝒷𝓏 𝒶𝓇𝒾𝒶𝓃𝒶𝑔𝓇𝒶𝓃𝒹ℯ 𝓈ℴ𝒸𝒸ℯ𝓇 𝒽𝒶𝓇𝓇𝓎 𝓈𝓉𝓎𝓁ℯ𝓈
𝒷𝓊𝓃𝒸𝒽 ℴ𝒻 𝒻𝓇𝒾ℯ𝓃𝒹𝓈
𝓇𝓊𝓁ℯ𝓈!!!--- 𝓃ℴ 𝓇𝒶𝒸𝒾𝓈𝓂/𝒽ℴ𝓂ℴ𝓅𝒽ℴ𝒷𝒾𝒶/𝓈ℯ𝓍𝒾𝓈𝓂/ 𝒶𝓃𝓎𝓉𝒽𝒾𝓃𝑔 𝓂𝒶𝑔𝒶 / 𝓅𝓇ℯ𝒻ℯ𝓇 𝓃ℴ𝒷ℴ𝒹𝓎 𝓌𝒽ℴ 𝒾𝓈 #18+ 𝒷𝓊𝓉 𝒾𝒻 𝓎ℴ𝓊𝓇ℯ 𝓃ℴ𝓉 𝒶 𝒸𝓇ℯℯ𝓅 𝓊𝓇 𝒸ℴℴ𝓁...
my first somewhat legitimate-sounding 1d imagine
y/n (gender-neutral) is getting ready for their first date after meeting one direction at a meet-and-greet with their best friend (also gender-neutral). harry asked y/n to go out with him, which they were very excited about, but they were having doubts about his seriousness. also, 'mum' can be whoever you view as a parental figure.
yeah, y/n can be anyone in my imagines, i don't want to restrict them to just female readers like how all old imagines were. i even put my tumblr url like the old instagram and tumblr users did. and for accessibility, i will always put the imagines in alt text as well.
also, i know i said i wasn't planning on making satirical imagines for this blog, but i do have one in the works from before this blog, and i'm using windows movie maker for it. so far, in that imagine, y/n (as in, an actual character named y/n) has said that she would rather go outside and touch grass than fangirl over her school's band-
next post will be a repost of my cd collection posts from my main, which i will delete from that blog after. i will also repost my harry styles and one direction magazine collection here. a playlist reveal is also coming.
i love corny 2014 imagines






