Yes Sir Capítulo 59
Personagens: Professor! Harry x Estudante! Aurora. (Aurora tem 24 anos e Harry tem 36)
Aviso: O capítulo terá o ponto de vista de Aurora e Harry
NotaAutora: Aí amores me perdoem por demorar tanto para trazer capítulos novos
Aurora
Já haviam se passado alguns dias desde o ocorrido e eu comecei a evitar Harry. Sabia que era uma atitude meio infantil e também sabia que não resolveria nada, mas eu estava confusa demais para conseguir conversar. Eu quase o beijei e esse fato não saía da minha cabeça, nem mesmo quando eu tentava me distrair com qualquer outra coisa.
Eu pensei que ignorá-lo por alguns dias me ajudaria a organizar as coisas dentro de mim, mas só serviu para fazê-las ficar ainda mais intensas. Eu não conseguia parar de reviver a sensação da boca dele no meu pescoço, das mãos dele em mim, de sua voz baixa, da boca perto demais da minha e do jeito como ele parou, como se estivesse esperando que eu finalmente decidisse admitir que o queria.
Aquele Harry não combinava com o homem que dormiu ao meu lado com medo de ultrapassar limites, mas a forma como ele agiu naquela noite despertou em mim coisas que eu tinha esquecido que existiam. Eu nem lembrava quando tinha sido a última vez que algo me fez sentir daquela maneira, no fundo, eu sabia que estava cansada de fugir, cansada de fingir que não sentia nada, mas enfrentar Harry significava admitir que eu estava, mais uma vez, completamente nas mãos dele.
E o que aconteceria se eu parasse de correr e simplesmente aceitasse que o queria por perto?
O que isso faria de nós?
E se a gente tentasse e não desse certo?
E se ele só estivesse carente?
Eu não podia me dar ao luxo de agir por impulso quando havia tanta coisa envolvida e me odiava por imaginar que talvez eu estivesse levando tudo isso a sério demais.
Mesmo sem eu querer, sabia que acabaria encontrando com ele, o dia da visita do Liam tinha chegado e infelizmente ou talvez felizmente, Harry era bom demais como pai para simplesmente ignorar o próprio tempo com o filho, então eu respirei fundo, tentando organizar o turbilhão dentro de mim antes de girar a maçaneta e abrir a porta.
— Oi.
— Oi.
Harry estava parado ali, usando um terno azul-marinho, sem gravata, pela pasta em sua mão, imaginei que tivesse saído mais cedo do trabalho para buscá-lo.
— Ele está pronto? — Ele questionou, meio sem jeito.
— Ainda está dormindo, você chegou um pouco antes do previsto. — Afastei-me, dando espaço para ele entrar. — Mas posso acordá-lo.
— Não precisa, eu espero, deixa ele descansar. — Harry entrou e fechou a porta devagar atrás de si.
Ficamos alguns segundos parados ali, presos naquele silêncio desconfortável que parecia sempre surgir.
— Quer água? Suco? — Perguntei, já caminhando em direção à cozinha antes mesmo de ouvir a resposta.
— Não. — Ele respondeu, deixando a pasta sobre a bancada.
Mesmo assim, fui até a geladeira, peguei a garrafa de água e enchi um copo para mim, tomando quase tudo num gole.
— Aurora. — Ele surgiu atrás de mim quando eu fechava a porta da geladeira. — Você sumiu esses dias. — Seus olhos se fixaram nos meus assim que me virei. — Eu fiz alguma coisa? Por que você está me evitando?
— Eu não estou.
— Você não respondeu minhas mensagens por três dias, eu fiquei esperando você me ligar depois do evento.
— Eu sei, me desculpa.
— A gente já passou da fase de joguinhos, não passou? — Harry ergueu uma sobrancelha, inclinando-se ligeiramente para a frente.
— Eu não estou jogando. — Apoiei a mão no balcão da pia, encarando o chão por um segundo antes de criar coragem para encará-lo. — Eu só… Não sabia como reagir ao que aconteceu.
— Era só ter falado comigo, eu estou aqui, Aurora, você pode me dizer qualquer coisa.
— Eu não sabia o que dizer.
— Você ficou com medo de mim? — Ele estendeu a mão com cuidado e acariciou minha bochecha.
— Não.
— Então, por que me evitou?
— Porque… — Suspirei fundo, sentindo o peso da palavra antes mesmo de dizê-la. — Porque eu gostei. — Admiti, voltando a encarar o chão, mas ele segurou meu queixo com delicadeza, obrigando-me a olhá-lo.
— Gostou do quê, exatamente, Aurora?
— Harry…
— Eu quero ouvir você dizer. — Os olhos verdes dele pareciam mais intensos de perto. — Gostou quando eu toquei em você?
— Sim.
— Gostou quando eu beijei seu pescoço?
— Sim. — O calor subiu pelo meu corpo, traindo qualquer tentativa de manter distância.
— Gostou quando eu flertei com você? — Ele se inclinou um pouco mais.
— Você está me interrogando?
— Estou tentando arrancar a verdade de você. — Ele deslizou a mão da minha bochecha até a minha cintura.
— Que verdade?
— Que você queria aquilo tanto quanto eu.
— H…
— Docinho. — Ele murmurou, afastando uma mecha do meu cabelo e prendendo-a atrás da minha orelha com a mão que ainda estava em meu rosto. — Eu não vou fingir que aquilo não aconteceu e não vou fingir que não te quero, mas também não vou fazer de novo se você não quiser.
— Eu não disse que não quero. — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las e os olhos dele escureceram levemente.
— Então, o que você quer? — Ele baixou o olhar até a minha boca antes de voltar para os meus olhos.
— Eu… Eu não sei...
— Me diz o que está passando pela sua cabeça, seja sincera comigo.
— O que a gente seria, Harry? Você acabou de sair de um casamento… Eu não sei o que isso significa para você. — Estávamos tão perto que eu sentia o calor do corpo dele misturando-se ao meu. — Eu não sei se isso é algo sério… Ou se é carência… Ou se você só está brin...— Minha voz falhou, porque admitir o resto em voz alta parecia muito assustador.
— Você ainda não sabe? Aurora, eu…
— Não… — Interrompi, talvez eu não quisesse ouvir o que ele tinha a dizer.
Eu não queria que ele brincasse com meu coração de novo.
— Não, por favor, me deixa falar. — Dois dos dedos dele pousaram sobre meus lábios, me silenciando. — É humilhante o quanto eu te quero, Aurora, eu não vou fingir que é pouco, porque não é, eu acordo pensando em você e durmo pensando em você e se eu dissesse tudo o que eu sinto, talvez você se assustasse. — Os dedos ainda estavam ali, mas agora acariciavam devagar, quase distraídos. — Então eu não vou fazer isso agora, mas eu quero te pedir uma coisa… — Ele afastou a mão dos meus lábios, deslizando-a até minha bochecha.
— O quê?
— Aurora… Você me daria uma segunda chance?
Aqueles olhos pidões me encaravam com uma vulnerabilidade que desmontou qualquer defesa em que eu estava me forçando a ficar.
— Segunda chance para quê?
— Para poder flertar com você sem parecer errado. — Um sorriso lento surgiu nos lábios dele. — Para te paquerar sem fingir que não estou fazendo isso. — A voz saiu mais leve, mas o olhar continuava intenso. — Para pegar na sua mão, te levar para um encontro de verdade, quero poder te beijar e fazer você ficar vermelha de propósito. — Senti meu rosto esquentar imediatamente. — Tipo agora. — Ele murmurou e eu revirei os olhos, mas não consegui esconder o pequeno sorriso. — Eu não quero ser só o pai do Liam para você, docinho. — A testa dele encostou na minha e a proximidade fez meu coração disparar. — Eu quero ter o direito de fazer tudo isso e muito mais, se você deixar, eu vou devagar, no seu tempo, do jeito que você precisar e quiser.
— H… — Minha voz falhou, eu estava presa entre aqueles olhos verdes e a boca que parecia perigosamente próxima. — Eu tenho medo… — Admiti quase num sussurro. — E se não der certo? Eu não quero me machucar.
— Eu também tenho medo. — A voz dele saiu mais baixa. — Mas, dessa vez, eu quero fazer diferente, quero cuidar de você do jeito que você merece, então, por favor, não me tire a chance de tentar só porque tem medo do que pode acontecer depois, mesmo eu não merecendo tanto assim.
O jeito como ele disse aquilo apertou algo dentro de mim, porque sabia que ele estava falando a verdade e isso me fez finalmente ceder.
— Tudo bem.
— Tudo bem o quê? — Ele franziu a testa, claramente tentando entender se tinha ouvido certo.
— A gente pode tentar. — Engoli em seco.
Ele ainda me observava, como se esperasse que eu voltasse atrás.
— Sério?
— Sim.
— Então isso significa que eu posso te beijar? — O nariz dele roçou de leve no meu.
— Pode…
Fiquei nas pontas dos pés, inclinando-me, acabando com os poucos centímetros que nos separavam, pressionando meus lábios com carinho nos dele, macios e quentes. Seu gosto mentolado era tão familiar que me fez tremer de leve.
O contorno dos seus lábios se ajustou aos meus com uma naturalidade tão grande que parecia que nunca havíamos parado de nos beijar, ainda assim, meu coração disparou como se fosse a primeira vez.
— Você não tem ideia, eu estava louco por isso. — Ele sussurrou contra meus lábios e meu corpo se curvou levemente para ele.
Um arrepio subiu pela minha espinha quando ele apoiou as mãos na minha cintura, puxando-me um pouco mais para perto. Minha mão subiu instintivamente para o cabelo dele, arranhando levemente sua nuca enquanto ele respondia ao meu toque, pressionando mais suas mãos em minha cintura.
Enquanto o beijo se aprofundava, meus dedos encontraram a barra da camisa social dele, puxando para cima, quase sem perceber, querendo sentir mais, Harry gemeu baixinho, rígido sob minha mão quando senti a dureza de seu abdômen.
— Porra, Aurora…
— O que foi? — Soltei uma risadinha, um calor subindo por minhas bochechas e a vontade de tocar mais nele só aumentando.
— Se você continuar assim, vai me matar. — Ele pousou a mão sobre a minha, cobrindo a minha palma que estava no abdômen dele, apertando levemente e com hesitação, a tirou dali.
Ele parecia desesperado por mim, mas ainda assim se segurava.
— Desculpa… Eu não faço mais. — Murmurei, com um sorrisinho.
— Não se desculpe, eu quero, é só que eu quero ir devagar com você.
Ele sendo todo fofo e responsável me deixava ainda mais instigada a provocá-lo, só para ver o que aconteceria.
— Então você está se segurando? — Questionei mesmo sabendo a resposta.
— Pra caralho e você definitivamente não está colaborando.
— Então é melhor a gente parar — provoquei, dando meio passo para trás.
— Nem pensar.
Ele segurou minha cintura com firmeza e me ergueu devagar, sentando-me no balcão da cozinha, um suspiro pequeno e involuntário saiu de meus lábios quando ele se encaixou perfeitamente entre minhas pernas.
— Harry… — Comecei, mas ele me interrompeu com outro beijo.
— Shhh. — A boca dele roçou na minha outra vez. — Eu só quero te beijar, mais um pouco. — Ele sorriu e meus joelhos fraquejaram quando ele me beijou de novo.
...
Harry e eu estávamos... tentando...
Eu não sabia muito bem o que aquilo significava.
Nós éramos namorados?
Ficantes?
O que nós éramos?
Mesmo sem saber, eu aceitei e acordava todos os dias me perguntando se tinha sido a escolha certa.
Será que fomos rápidos demais?
Nós já havíamos ultrapassado o limite seguro há um tempo, mas ainda me perguntava se realmente estava pronta para me entregar de verdade a ele.
— Aurora?! — Ouvi a voz da minha melhor amiga me chamar. — Aurora, está me ouvindo?
— Ah! Sim. — Falei, mentindo que não passei os últimos dez minutos pensando em Harry.
— E então, o que achou desse? — Lily observava o local com atenção.
— É bonito! — Comentei, balançando um pouco o Liam.
Eu e Liam passamos as últimas duas horas visitando lugares para casamento com Lily.
— Você falou isso dos dois últimos lugares.
— Porque eles eram realmente lindos, se eu fosse me casar, com certeza gostaria que fosse no College Club of Boston.
— É só um prédio velho.
— É um hotel histórico vitoriano magnífico. — Retruquei, sentando-me em uma poltrona no hall de entrada. — Tem todo um charme por trás disso. — Com discrição, comecei a amamentar.
— Não vi nada de magnífico! Só fomos ver porque o Josh disse que ele é lindo.
— E ele tem bom gosto. — Soltei um riso baixo, conferindo o Liam. — Mas confesso que gosto de antiguidades, então sou meio suspeita para dar opiniões.
— É… já percebi. — Debochou.
— O que quer dizer com isso?
— Seu gosto por idosos. — Ela ergueu uma sobrancelha, segurando o riso.
— Lily! — Retruquei, revirando os olhos, ela não perdia a chance de me alfinetar.
— O quê? Você tem um padrão bem específico. — Ela deu de ombros. — Aliás… como anda o vovô?
Eu ainda não havia contado nada para ela sobre mim e Harry, talvez estivesse um pouco apreensiva com o julgamento dela. Ela era minha melhor amiga, mas odiava Harry com todas as forças e ele também não tinha muita afeição por ela.
— Está bem.
— “Está bem”? Você chegou bem estranha naquela noite da festa, tem certeza de que nada aconteceu entre vocês?
— Quantas perguntas… — Dialoguei, ajeitando o Liam, que já havia adormecido. — Não aconteceu nada demais e vamos focar no seu casamento antes que você ache um motivo para dizer que o Harry arruinou seu momento de novo.
— Tá, tá! — Ela revirou os olhos. — Que tal almoçarmos e depois irmos naquela mansão à beira-mar, pertinho aqui de Boston?
— Tudo bem. — Concordei, sentindo meu celular vibrar, peguei o telefone discretamente.
H: Oi, docinho, já almoçou?
Sorri sem perceber.
Eu: Oi, H. Ainda não, por quê?
H: Quer almoçar comigo?
Eu: Desculpe, vou almoçar com a Lily, estamos vendo locais para o casamento.
H: Você está livre no sábado à noite?
H: Pensei que poderíamos ir ao cinema… Se você estiver a fim.
Meu coração deu um pulinho ridículo.
Eu: Claro, por mim tudo bem, só tenho que ver alguém para cuidar do Liam.
H: Nós podemos chamar uma babá.
Eu: Não gosto de deixar meu filho com estranhos.
H: Tudo bem se não quiser ir, podemos fazer algo com o Liam.
Eu: Eu quero, não se preocupe, eu dou um jeito, então sábado, umas 19h?
H: Perfeito 😍
Não consegui conter o sorriso.
Nós íamos a um encontro...
— Por que você está sorrindo assim? — Lily estreitou os olhos, desconfiada. — Eu conheço essa cara.
— Que cara? — Bloqueei o celular rápido demais.
— O vovô mandou mensagem, né? Ou foi coincidência você ficar toda brilhando de repente?
— Vamos almoçar, Lily. — Levantei antes que ela continuasse.
— A gente conversa sobre isso no almoço, hein!
— Ah! Não enche. — Ri, empurrando-a para a porta.
Mas realmente talvez eu estivesse mesmo brilhando...
...
Não iria deixar o Liam com uma babá desconhecida, não me sentia confortável com isso, mas a situação em que me encontrava não facilitava muito, meus pais não podiam vir para Boston, minha irmã estava ocupada e eu não tinha coragem de pedir para a Lily ficar com ele de novo, então tive a ideia não tão brilhante de pedir ajuda justamente à última pessoa que deveria ter chamado.
Mas a Isadora disse que queria passar um tempo com o irmão, ela era responsável, vivia cuidando das próprias irmãs, sabia muito bem o que fazia, o Liam ficaria bem com ela, muito melhor do que com qualquer estranho, era só organizar tudo direito, combinar os horários, sair antes, garantir que ela e o pai não se cruzassem.
Não tinha nada para dar errado.
Conferi-me uma última vez no espelho do quarto, o vestido verde floral caía soltinho, um pouco acima do joelho, o tecido parecia realçar ainda mais meus cabelos ruivos espalhados pelos ombros. Passei rímel, só para destacar o olhar e quase nada de batom, vesti a jaqueta jeans por cima, me sentei na cama para calçar o tênis vermelho pensando que, se alguém tivesse me perguntado dias atrás, provavelmente essa seria a última coisa que eu imaginaria estar fazendo num sábado à noite.
— Ele come às sete — falei, pegando a bolsa na mesa, assim que saí do quarto. — A papinha já está pronta, é só esquentar um pouco, a mamadeira eu deixei separada também, caso ele acorde mais tarde.
A Isadora já estava sentada no tapete com o Liam, que batia um brinquedo no chão.
— Claro, não se preocupe
— Ela respondeu, sem tirar os olhos do irmão. — Eu cuido das minhas irmãs, lembra?
— Eu sei. — Forcei um meio sorriso. — É só… a rotina dele é meio específica.
— Não se preocupe, pode aproveitar a noite.
— Eu não vou demorar, tá? — Me aproximei, deixando um beijo no topo da cabeça de Liam. — Eu deixei dinheiro na bancada, caso você queira pedir uma pizza ou qualquer coisa e se ficar com sono pode dormir na minha cama, o berço dele é do lado, então fica mais fácil.
— Tá bom.
— E se acontecer qualquer coisa, me liga. — falei, já recuando em direção à porta.
— Pode deixar.
Antes de sair, lancei um último olhar para os dois, ela parecia genuinamente feliz e Liam estava confortável em seu colo. Fechei a porta com cuidado e já dentro do elevador, aproveitei para mandar uma mensagem rápida para Harry.
Eu: Estou descendo.
Eu pedi para ele me encontrar no estacionamento e fiquei feliz por ele não fazer muitas perguntas. Assim que saí do elevador para o estacionamento o vi parado encostado no carro dele, mexendo no celular, mas levantou o rosto quase no mesmo segundo em que a porta abriu.
Pensei que ele estaria de terno, afinal, ele andava trabalhando demais, inclusive aos sábados, mas Harry estava de camiseta branca, justa o suficiente para deixar claro que ele ainda treinava, jeans escuro, caindo bem demais em sua cintura e Vans preto.
Eu fiquei alguns segundos tentando lembrar se já tinha visto Harry usando tênis alguma vez, talvez ele estivesse tentando parecer mais jovem depois daquele comentário do investidor.
— Oi. — Ele guardou o celular no bolso.
— Oi.
Seus olhos percorreram meu corpo devagar e voltaram para meu rosto como se nada tivesse acontecido.
— Você está muito bonita. — Ele se aproximou e deixou um beijo na minha bochecha.
— Obrigada. — Ajustei a alça do vestido. — Vamos?
O caminho até o shopping foi mais tranquilo do que imaginei conversamos sobre o escritório, minha aula de ioga e terapia, até sobre a senhorinha da floricultura que ainda insistia em me apresentar o neto dela.
— Ele faz o quê mesmo? — Harry perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— Engenharia, ele é muito bem sucedido.
— Quantos anos o pirralho tem?
— 28
— Hm.
— O que foi? Está com ciúmes? — Questionei, rindo de sua expressão séria.
— Não gosto de concorrência. — Ele deu de ombros.
Eu gostei um pouquinho de vê-lo assim, porque eu sabia que no fundo ele não estava brincando. Depois disso, nossa conversa continuou leve e em algum momento, eu estava rindo de verdade, relaxada, esquecendo que aquilo era oficialmente um “encontro”. Nem percebi quando o carro começou a diminuir a velocidade, só me dei conta de que já estávamos entrando no estacionamento do shopping quando ele fez a curva suave para subir a rampa iluminada.
Pensei que estaria mais nervosa, mas talvez a mão firme dele na minha perna tivesse ajudado, eu nem lembrava exatamente em que momento ela foi parar ali, só sabia que era quente e seu polegar fazia círculos quase distraídos.
Ele estacionou, desligou o carro e só então pareceu notar a mão dele ainda ali, ele olhou para mim, eu olhei para a mão dele e então ele tirou, como se tivesse lembrado subitamente que estava tentando ir devagar.
Ele foi um cavalheiro ao abrir a porta para mim e me guiar para dentro, o shopping estava movimentado, mas não era surpresa para um sábado à noite. Parecia que todas as pessoas de Boston tiveram exatamente a mesma ideia que nós e comecei a cogitar que talvez nem conseguíssemos ingressos para o filme que nem havíamos escolhido ainda.
— A gente devia ter comprado online.
— Relaxa — ele respondeu, caminhando ao meu lado. — Se não tiver ingresso, a gente inventa outra coisa.
Caminhamos lado a lado, perto o suficiente para que nossos braços se encostassem de vez em quando, mas não durou muito, os dedos dele deslizaram devagar pelos meus, entrelaçando nossas mãos. Ele não disse nada, eu também não comentei, só segui andando tentando acalmar meu coração estúpido que batia diferente a cada gesto de Harry. A bilheteria estava cheia, uma pequena fila se formava diante do painel.
— Terror ou romance? — Questionou enquanto entrávamos na fila.
— Terror.
— Corajosa.
— Nenhum pouco, você que vai ter que segurar minha mão se eu ficar com medo.
— Não vejo problema nenhum nisso. — Ele se inclinou um pouco para falar perto do meu ouvido, me causando arrepios.
Harry só soltou minha mão quando chegamos perto do balcão e foi só porque precisava tirar a carteira do bolso. A sessão das 19h40 ainda tinha lugares disponíveis. Enquanto ele falava com o atendente, fiquei observando como nós parecíamos um casal normal em um sábado qualquer.
— Pipoca? — Questionou, virando levemente o rosto na minha direção.
— Sim.
— Doce ou salgada?
— Salgada. — Retribui sem hesitar.
Ele acrescentou um refrigerante extra grande ao pedido, como se já soubesse que dividiríamos.
— Posso pedir uma coisa? — Mordi o lábio por um segundo, puxando sua blusa.
— Claro.
— Um pacote de M&M.
— Para colocar na pipoca?
— Sim.
— Adicione um M&M, por favor. — disse ao atendente, já entregando o cartão.
— Harry, eu posso pagar minha parte. — Eu nem tive tempo de abrir a bolsa.
— Eu sei. — Ele me olhou de lado, tranquilo.
E voltou a atenção para a maquininha como se o assunto estivesse encerrado. Após alguns minutos, nosso pedido já estava pronto, Harry vinha em minha direção, equilibrando o balde grande de pipoca em uma mão, o copo enorme de refrigerante na outra e pacote de M&M preso entre os dedos.
— Cuidado — murmurou, entregando a pipoca.
O balde estava quente contra minhas mãos, o cheiro de manteiga subiu imediatamente, eu nem esperei chegarmos à sala, abri o pacote de M&M ali mesmo, despejando metade do pacote dentro da pipoca.
— Você acha estranho, né? — Comentei, sem olhar diretamente para ele.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Fique à vontade para fazer suas experiências gastronômicas, docinho. — Brincou, deixando um beijinho em minha têmpora.
— Quer provar?
— Talvez depois, não sei se tenho mais estômago para isso. — Ironizou, bebendo o refrigerante.
— Então é melhor irmos para nossos lugares, o filme vai começar logo.
A sala estava meio cheia quando entramos, as luzes ainda estavam acesas, Harry foi na frente, eu estava logo atrás, no meio do caminho, percebi onde ele estava indo.
A última fileira.
— Última fileira? Sério? — Parei no corredor, encarando-o.
Ele virou por cima do ombro, uma sobrancelha arqueada, a expressão mais inocente do mundo.
— O quê? A visão é ótima.
— Sei…
A fileira estava vazia, ele me deixou passar primeiro, a mão pousando leve na minha lombar para me guiar até os assentos centrais.
— Aqui — indicou, como se não fosse absolutamente suspeito.
Sentei e apoiando a pipoca no colo, olhei para ele de lado.
— E o que exatamente você pretende fazer aqui atrás?
— Depende de você. — O olhar dele desceu devagar até a minha boca e meu estômago virou. — Relaxa, docinho, só estou brincando. — Ele riu quando meus olhos se arregalaram por um segundo.
Após mais alguns minutos de pessoas se movimentando para encontrar seus lugares e os últimos trailers desaparecendo, o filme finalmente começou.
Eu tentei manter a postura tranquila, mas na primeira aparição repentina do espírito maligno do filme eu me apavorei de leve, soltando um som baixo que eu preferia fingir que não tinha feito.
— Assustada? — murmurou perto do meu ouvido.
— Nem um pouco. — Menti, ainda olhando para frente como se nada tivesse acontecido.
Ele soltou uma risadinha, claramente não acreditando em mim, mas sua mão deslizou até a minha no apoio da poltrona e entrelaçou nossos dedos com cuidado, puxou nossas mãos e com elas, me trouxe um pouquinho mais para perto dele.
— Pronto, agora você está protegida. — Cochichou em meu ouvido, causando arrepios mais uma vez, depois inclinou a cabeça, dando um selinho rápido e desleixado em meus lábios. — Para você ficar mais calma.
Eu fiquei sem reação, então apenas voltei a encarar a tela, sentindo o calor dele ainda ali, impossível de ignorar.
...
Duas horas depois, as luzes começaram a acender, os créditos já estavam subindo na tela, minha mão ainda estava na dele, os dedos dele pressionaram os meus uma última vez antes de soltar devagar.
— Gostou? — Ele se inclinou para pegar o casaco no encosto da poltrona, sua camiseta subiu um pouco quando ele levantou o braço, revelando seu lindo abdômen.
— Foi bom. — Desviei o olhar rápido demais.
Eu me levantei da poltrona e ajustei a jaqueta jeans nos ombros enquanto Harry recolhia o balde vazio de pipoca.
— Quer jantar? — Ele perguntou, parando no corredor da sala de cinema. — Tem várias opções para comer aqui ou podemos procurar outro lugar.
Eu enfiei a mão na bolsa e puxei o celular, a tela brilhou com uma mensagem de Isadora
Isa: Ele está dormindo, tudo sob controle.
— Eu adoraria, Harry, de verdade. — Bloqueei o aparelho e o guardei de volta. — Mas é melhor eu voltar, não quero abusar da sorte com o Liam.
— Aconteceu algo com ele?
— Não, ele está bem, mas não quero demorar mais.
— Tudo bem.
No caminho de volta, o silêncio se estendeu entre nós, enquanto sua mão pousava em minha perna, eu não tirei a mão dele dali, em vez disso, cobri os dedos dele com os meus.
Assim que o carro parou na garagem do nosso prédio, eu soltei o cinto de segurança rapidamente.
— A noite foi perfeita, H. — Me inclinei e dei um beijo rápido no canto da boca dele, já segurando a maçaneta. — Não precisa subir, eu sei que você teve um dia cheio no escritório, pode ir descansar.
— O que foi? — Ele franziu a testa, com um meio sorriso confuso. — Por que essa pressa toda para se livrar de mim agora?
— Não é pressa, eu só... Já está tarde.
— Aurora, não são nem 23:00, é o que, então? A Lily está lá em cima? — Ele perguntou, observando minha reação. — Você ainda está com medo de ela me ver?
Não era bem Lily que eu tinha medo que visse ele...
— Não é isso, Harry. — Eu desviei o olhar para o painel, sentindo meu rosto esquentar. — Eu só não contei para ninguém sobre a gente ainda.
— Aurora. — Ele estendeu a mão e acariciou meu rosto, me obrigando a olhá-lo. — Eu não me importo com quem está lá em cima, se for ela eu resolvo, não vou embora deixando você assim.
— Harry, não... não é ela.
— Então está resolvido, vou te levar até a porta. — Ele interrompeu minha fala com um selinho demorado e saiu do carro antes que eu pudesse inventar outra desculpa.
Ah! Droga!
— Então... Boa noite. — Anunciei assim que as portas do elevador se abriram no meu andar.
— Por que você está tão nervosa? — Harry deu um passo à frente, estreitando o espaço até eu sentir o calor dele, colocando as mãos na minha cintura. — Você está com esse olhar desde que saímos do cinema.
— Eu só... — Engoli em seco, sentindo a proximidade dele bagunçar meus pensamentos. — Eu não quero que a noite acabe mal.
— E por que acabaria? — Ele deu um sorriso de canto, inclinando o rosto para perto do meu. — Eu não pretendo ir a lugar nenhum antes disso.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares acariciando minhas bochechas, pressionando seus lábios contra os meus. Eu ainda não tinha me acostumado com isso e me fez sentir aquela explosão de frio na barriga, a ponto de eu esquecer completamente onde estávamos. Eu sentia as mordidas dele às vezes, a língua quente e era como estar nas nuvens por alguns minutos.
Nem percebi que recuei até meu corpo chocar-se de leve contra a parede ao lado da porta, enquanto ele me puxava para mais perto, por um segundo, eu simplesmente me perdi no toque dele, esquecendo o mundo ao redor, até que o som da tranca girando o fez soltar meu rosto instantaneamente.
— Meu Deus, pai?! — A voz de Isadora ecoou no corredor, carregada de choque.
Harry travou no lugar, enquanto nós dois encarávamos a garota parada diante de nós com olhos arregalados.
Eu deveria ter previsto.
Eu deveria saber que isso iria acontecer no instante que deixei Harry subir comigo.
— Isa, nós podemos explicar — Eu confessei com a voz menos firme do que eu gostaria.
Pelo jeito que ela cruzou os braços e nos lançou um olhar nada paciente, ficou óbvio que a conversa não terminaria tão cedo.
Harry
— Meu Deus, pai?! — A voz da Isadora cortou o corredor.
Dei um passo para trás, com o coração martelando enquanto eu tentava processar o flagrante da minha filha.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei, olhando para Isadora, tentando me recompor. — O que está acontecendo?
— É melhor a gente entrar, Harry, não quero acordar os vizinhos. — Aurora segurou meu braço, me guiando para a porta, não me deixando muita escolha a não ser segui-la, Isadora veio logo atrás. — Agora alguém pode me explicar por que minha filha está aqui? — Encarei as duas sob a luz fraca da cozinha.
— Eu... — Aurora pigarreou ao meu lado. — Ela foi minha babá, hoje.
Babá?
Isadora cuidando do Liam?
Por um instante, achei que tivesse entendido errado, porque essa era a última coisa que eu imaginava ouvir. Minha filha era responsável, eu sabia disso, mas também sabia como ela ficava quando estava brava e depois tudo, ela ali...
O que isso queria dizer?
Por que ela estava tentando se aproximar?
Mas, se Aurora confiou, talvez eu também precisasse confiar ou pelo menos, tentar.
— Por isso você estava estranha daquele jeito, querendo me mandar embora tão rápido. — Vi Aurora desviar o olhar e morder o canto da boca. — Você está usando minha filha de babá escondido de mim? Por quê?
— A Isa veio me ver depois da briga, queria conhecer o Liam e fazer algumas perguntas, mas ela pediu para não contar para você.
— Isso é sério?? — Virei-me para minha filha, controlando a voz para não acordar o Liam. — Você passa semanas me evitando, não atende minhas ligações, some e ainda coloca a Aurora no meio disso?
— Eu coloquei a Aurora no meio? — Ela arqueou a sobrancelha. — Quem começou colocando outra pessoa na nossa vida escondido foi você.
— Isadora Styles, estamos falando de você agora, eu errei, mas isso não lhe dá o direito de agir como se não devesse satisfação nenhuma.
— Eu tive um pouco de culpa, então, por favor, não brigue com ela por vir aqui hoje. — Aurora se colocou entre mim e minha filha. — Eu devia ter te contado, só não queria estragar a relação que ela estava construindo com Liam.
—Eu entendo. — Dei um passo para o lado, contornando Aurora para encarar minha filha. — Mas isso não justifica o resto das coisas que ela anda fazendo.
— Ah, Harry, não vem bancar o meu pai agora. — Ela revirou os olhos. — Você mentiu para mim de novo, eu perguntei naquela manhã, você disse que não tinha nada com a Aurora e eu encontro vocês se agarrando no corredor? — Ela soltou uma risada curta.— Qual é o problema de vocês com privacidade? Sério, é nojento.
— Eu não menti. — Lancei um olhar para Aurora e ela assentiu. — Naquele dia, não tinha nada acontecendo.
— E agora? Vocês são o quê?
— Isa... — Iniciei, mas a mão da Aurora segurou meu braço antes que continuasse.
— Isadora, a minha relação com o seu pai é entre nós dois. — O olhar dela permaneceu fixo em minha filha, mas senti seus dedos um pouco trêmulos. — Você não pode exigir respostas como se precisasse aprovar isso. — Ela me lançou um olhar rápido, como se quisesse saber se tinha ido longe demais.
— Ela tem razão. — Puxei Aurora discretamente para junto de mim. — Eu amo você, mas não preciso te dar explicações sobre cada decisão que eu tomo.
— Então é isso? Você decide o que eu posso saber e o que eu não posso e eu só aceito?
— Você não precisa aceitar, mas quero que respeite.
— Tá bom, então! — Ela virou as costas, indo em direção à porta. — Fica com seus limites, sua privacidade e sua vida que não é da minha conta!
— Espera. — Avancei, segurando seu braço antes que fosse embora. — Não vai a lugar nenhum assim, não terminamos.
— Terminamos, sim. — Ela puxou o braço. — Cansei disso.
— Pois eu também cansei, Isadora. — Impus num tom autoritário, esquecendo que meu filho dormia no quarto. — Se quer ser tratada como adulta que diz ser, pare de fugir toda vez que é contrariada. — Ela abriu a boca para retrucar, mas eu não deixei. — E chega de morar de favor para me punir, você vai voltar para casa.
— Você está me obrigando?
— Sim, eu sou seu pai e a partir de agora as coisas vão ser diferentes, começando pelo fato de que você vai me dar satisfação de onde você está e respeitar minha relação com Aurora.
— E se eu não quiser aceitar? — Me desafiou com aquela olhar que conhecia bem.
— Pode voltar a morar com a sua mãe.
Nossa situação era ruim, mas a dela com Violeta estava em outro nível, então eu tinha certeza de que ela aceitaria.
— Ok. — Bufou.
Não era muito, mas ela tinha finalmente cedido.
— Ótimo! Então vai para casa, eu subo depois.
Para minha surpresa, ela me obedeceu, pegou sua mochila e foi indo para a porta, antes de Aurora estender uma nota de cem dólares.
— Muito obrigada por cuidar do Liam hoje.
— Não precisa... — Minha filha olhou para a nota. — Eu não fiz por isso.
— Eu sei que não, mas me sentiria mal se não fizesse. — Aurora colocou o dinheiro na mão dela.
— Tá. — Um sorriso pequeno surgiu nos olhos dela por um segundo, antes de sair.
Sentei-me um pouco na banqueta da cozinha, sentindo minha cabeça doer.
— Harry...
— Desculpa, não queria que tivesse presenciado tudo isso.
— Eu quem deveria pedir desculpas, eu estraguei a noite, né? —Ela se aproximou, parando em minha frente.
— Aurora...
— Você está bravo comigo? — Os dedos dela deslizaram pelos meus cabelos, acariciando com cuidado.
— Confesso que não gostei de você ter escondido isso de mim... — Admiti, erguendo o rosto para encará-la. — Mas ver você e minha filha se dando bem é muito melhor do que imaginei.
— Eu também não esperava isso dela.
— Ela me surpreendeu muito hoje... — Deslizei as mãos até a cintura dela, puxando-a um pouco mais para mim, enquanto apoiava o queixo de leve contra sua barriga — E você também.
—Eu? Por quê?
— A maneira como você falou com ela, foi até um pouco autoritária.
— Me desculpa se você não gostou, eu só...
— Eu gostei — interrompi, segurando a mão que ainda brincava com meu cabelo, levando-a aos lábios para beijá-la. — Mas acabei de ter um encontro incrível com você e não quero mais pensar nisso.
— O que você quer? — Ela se inclinou só o suficiente para encostar a testa na minha.
— Quero terminar minha noite com você. — Respondi, mantendo minhas mãos firmes em sua cintura. — Do jeito que planejei antes de ser interrompido.
Não esperei resposta, apenas a beijei, a boca dela estava deliciosa como sempre e quando seus lábios se entreabriram num suspiro, fez meu corpo inteiro reagir antes mesmo que eu pudesse pensar.
Porra...
Eu nunca ia me acostumar com os lábios dela.
Eram bons demais.
A língua começou a brincar com a minha, minhas mãos desceram por sua cintura, explorando cada curva até alcançarem suas coxas. Afastei-me para me levantar da banqueta e segurá-la com firmeza. Aurora soltou um gritinho baixo quando a ergui e em poucos passos, a coloquei sentada sobre a ilha da cozinha, mas suas pernas se abriram para mim logo depois e eu me encaixei ali, entre elas.
Caralho...
Eu já estava endurecendo só com aquilo.
— Harry... — Ela murmurou contra minha boca.
— Hum?
— Quer dormir comigo?
— O quê? — parei, afastando o rosto para encará-la.
— É... não desse jeito. — Aurora ficou ainda mais corada. — Só para dormir, como a gente fez antes.
Como a gente fez antes?
Quando eu rezava para não perder o controle e me deixar levar pelos meus sentimentos e desejos?
— Aurora. — Apoiei a testa na dela. — Se eu for para o seu quarto agora, a última coisa que eu vou querer fazer é dormir. — Fechei os olhos por um instante, respirando o cheiro dela. — Então, por enquanto, é melhor eu ficar longe da sua cama.
— Por enquanto? — Ela fez um biquinho tão fofo que quase me fez ceder.
Mas eu não podia.
Pensei nela deitada nua, pensei no corpo dela encaixado ao meu, no som que faria se eu parasse finalmente de me segurar e fizesse com ela tudo que venho imaginando a meses.
Não dava.
— É. — Passei a mão pelos cabelos dela devagar. — Então, é melhor eu ir.
A desci do balcão com cuidado, mas o corpo dela deslizou pelo meu no caminho, quente que por um segundo eu quase desisti da própria decisão.
— Você tem mesmo que ir? — Suas mãos ainda seguravam minha camisa.
— Tchau, docinho. — Inclinei-me e deixei um selinho demorado nos lábios dela.
— Tchau, H...
E eu odiei o fato de estar indo mesmo embora.
...
Olhei para a pilha de contratos sobre a mesa e senti minha vista arder. Ser dono do próprio escritório parecia uma ideia genial quando Anderson me convidou, mas revisar cada vírgula que os estagiários escreviam era um castigo, sem muita paciência, joguei a caneta de lado, me afundando na cadeira e fechando os olhos.
Em dois segundos, minha mente já estava focada em Aurora, minha relação com ela nunca esteve tão boa.
Estávamos vivendo nossa rotina juntos e até tendo encontros que eu deveria ter proporcionado a ela desde o início, mas desde aquela noite em que ela me pediu para dormir na cama dela e eu neguei, eu não parei de pensar nisso. Ela não pediu de novo, mas algo entre nós mudou, eu sentia a guarda dela baixando e o clima ficando mais intenso toda vez que ficávamos sozinhos e também teve aquela noite no corredor do apartamento dela, onde eu quase perdi a linha, quando meus dedos deslizaram e encontraram a textura fina da sua calcinha e a pele quente por baixo do pijama.
Caralho, aquilo me deixou louco, parecia que meu coração ia explodir e eu tive que me forçar a parar, minha mão voltou para a cintura dela, voltei a beijar ela como se nada tivesse acontecido, mas a verdade era que eu não dormi direito depois daquilo.
Ela estava me testando?
Ou ela queria tanto quanto eu?
— Harry? — A voz do Anderson surgiu na porta.
— Oi?
Por um segundo, eu tinha realmente viajado.
— Tava pensando no quê? — Ele entrou, se jogando na poltrona à minha frente.
— Nada. — Revirei os olhos. — Agora fala o que veio fazer aqui, não devia estar trabalhando?
— E estou. — Jogou duas pastas na minha frente.
— O que é isso?
— A sentença do Bryan saiu, oficialmente.
Eu estava esperando por isso desde o dia em que descobri o que aquele filho da puta tentou fazer com Aurora.
— E? — Peguei as pastas, mas estava meio zonzo até para ler.
— Com o flagrante, seu testemunho, o histórico dele, Bryan pegou mais anos do que a gente imaginava, foram trinta e sem chances de sair antes por bom comportamento.
Eu apoiei os cotovelos na mesa, passei as mãos no rosto e deixei o peso sair dos meus ombros, aquele desgraçado não ia mais chegar perto dela.
Ela estava segura.
Ela estava realmente segura.
— E a guarda? — Perguntei, ainda com a mão no rosto, mas olhando para ele por entre os dedos.
— Total para você e Violeta, ele perdeu qualquer direito e parabéns Harry, a filha de vocês é só de vocês agora, Bryan não tem mais como revogar, mesmo que saia.
— Você já falou com a Violeta?
— Falei. — Anderson se inclinou na poltrona. — E era essa a outra coisa que precisava falar, eu liguei hoje cedo para falar do resultado e da sua acusação contra ela.
— Como ela agiu?
— Quando contei sobre os dez mil de indenização e o tempo de guarda extra para você. — Ele riu, balançando a cabeça. — Ela desligou na minha cara.
— É a cara dela.
Violeta devia estar me odiando agora, mas depois de me impedir de ver a Aurora naquele dia, depois de usar minha própria filha daquele jeito, ela merecia isso.
Levantei da cadeira, passei para o outro lado da minha mesa, puxando Anderson pelo braço.
— Levanta.
— Que isso, cara?
— Porra, Anderson. — Estava tão feliz que puxei-o para um abraço. — Você não tem ideia do que isso significa.
— Tenho sim, idiota. — Ele deu uns tapas nas minhas costas. — Estava com você desde o começo, né?
— Se eu não te odiasse tanto, eu te beijaria agora. — Segurei o rosto dele com as duas mãos.
— Sai pra lá, desgraçado! — Ele empurrou meu peito, rindo. — Vai beijar sua namorada, me deixa fora disso.
— Você é um amor, Anderson.
— Amor é o cacete, sai de perto de mim...
Nesse exato segundo, a porta se abriu.
— Senhor Styles? — Minha assistente congelou, com os olhos arregalados. — Ah! Meu Deus! Desculpa! Eu... eu não sabia que o senhor estava... ocupado.
Anderson se afastou de mim imediatamente, mas eu só ri.
— Não é o que você está pensando. — Falei, ajeitando o paletó.
— Eu juro que não é. — Anderson completou, passando a mão no cabelo, claramente mais constrangido do que eu.
— Eu não estou pensando nada! — Ela riu nervosa. — É que sua namorada está na recepção, senhor Styles, a senhorita O'Connor, eu posso mandar ela entrar ou falo que o senhor está ocupado?
— Hmm! Aurora veio te ver, é?
— Cala a boca, Anderson. — Mostrei o dedo do meio para ele sem tirar o sorriso do rosto, depois me voltei para a assistente. — Manda ela entrar, por favor.
— Claro. — Ela assentiu, desviando o olhar de mim. — Vou chamá-la.
— Depois me conta como foi. — Provocou, já saindo junto com ela.
A porta do escritório abriu de novo, eu levantei o rosto e vi Aurora parada na entrada, usando uma jardineira curta jeans, a pele branca quase brilhava contra o tecido azul, cheia de sardinhas espalhadas pelos ombros e descendo pelos braços. Meus olhos desceram antes que eu pudesse evitar, as pernas dela estavam completamente à mostra, precisei me forçar a subir o olhar para não parecer um pervertido.
— Você vai continuar me encarando ou vai me convidar para entrar? — Ela inclinou a cabeça, percebendo que eu estava demorando para dizer qualquer coisa.
— Entra. — Falei, levantando-me.
— Espero não estar atrapalhando. — Ela fechou a porta e veio até mim.
Peguei seu rosto com as duas mãos e a beijei, ela correspondeu na hora, os lábios quentes e macios como sempre.
Eu estava viciado naquela boca.
— Onde está o Liam?
— Meus pais chegaram hoje de manhã. — Ela apoiou as mãos no meu peito. — Eles estão com ele, vão trazer de volta só à noite, aí eu pensei em aparecer e te chamar para almoçar, foi ideia ruim vir sem avisar?
— Claro que não. — Beijei a testa dela. — Sabe que eu amo te ver, estava com saudade.
— A gente se viu ontem.
— Estou sempre com saudade. — Beijei-a de novo.
Porra, como eu amava aquilo.
— Então, onde vamos?
— Baby, eu tenho uma reunião importante em duas horas. — Passei a mão no cabelo dela. — Se a gente sair para almoçar, vai ficar muito corrido, eu não vou conseguir te dar atenção direito e eu quero dar atenção a você. — Brinquei com uma de suas mechas ruivas. — Você se importa se a gente pedir alguma coisa e comer aqui?
— Não, claro que não. — Ela respondeu rápido, como se fosse óbvio. — Pode ser até melhor.
— Ótimo. — Beijei a testa dela antes de me afastar e pegar o celular. — O que você quer?
— Hum... — Ela se sentou no sofá lateral, cruzando as pernas. — Qualquer massa está bom.
— Anotado. — Comecei a digitar o pedido no aplicativo. — Carbonara?
— Ravioli de ricota com espinafre, tem?
— Tem, refrigerante diet?
— Sim.
Finalizei o pedido, joguei o celular na mesa e só então percebi as janelas, meu escritório tinha uma parede inteira de vidro, eu não queria ninguém olhando então caminhei até a janela enorme e puxei as persianas, uma por uma, fechando tudo.
— O que você está fazendo?
— Só para evitar curiosos. — Terminei de fechar a última persiana e me virei.
Tirei o paletó devagar, joguei na cadeira e fui até ela, me sentei no chão, bem entre as pernas dela e as abri com cuidado.
— Harry. — Ela murmurou com os olhos arregalados.
— Calma. — Inclinei e beijei em seu joelho. — Eu nunca faria nada aqui. — Beijei de novo, um pouco mais acima.
— Isso nunca te impediu antes.
Ah! Realmente.
Quantas vezes nós transamos naquele escritório em Harvad?!
Muitas vezes.
— Bem, agora eu não farei nada. — Fui subindo meus lábios devagar pela sua coxa, sentindo ela prender a respiração.
Quando tive espaço suficiente para me encaixar, encostei as costas no sofá, me acomodei entre suas pernas e apoiei a cabeça para trás, perto do joelho dela, rapidamente sua mão encontrou meu cabelo.
— Hum... — Ela murmurou com os dedos afundando devagar em meus cabelos— Macio.
— Você já falou isso.
— E vou falar de novo. — Seus dedos continuavam o movimento lento. — Sempre que puder, é tão bom.
Ri baixinho, nós ficamos assim por um tempo, ela fazendo cafuné em meu cabelo, eu sentindo o calor dela e seu carinho, até a comida chegar e me forçar a levantar. Peguei as sacolas e voltei rápido, abri e deixei em cima da mesinha de centro, nós sentamos no chão e comemos em um silêncio confortável, de vez em quando, nossos olhos se encontravam, ela sorria e eu sorria de volta.
— Harry? — Aurora deitou a cabeça no meu ombro logo depois de terminar.
— Hum?
— Lembra da outra noite? Na minha cozinha?
— Lembro.
— Você ainda não quer... dormir comigo? — Ela ergueu a cabeça e finalmente me olhou.
— Aurora...
— É sério, eu estou perguntando se você ainda acha que não consegue... Só dormir.
— Docinho... — Passei a mão no cabelo dela, tentando organizar os pensamentos. — Não é que eu não queira, é que...
— O quê? — Ela me interrompeu, segurando minha mão que estava em seu cabelo.
— Nós tínhamos combinado de ir devagar.
— Sinto falta de você na minha cama, Harry... — Ela fez aquele biquinho fofo de novo.
Porra.
Aurora.
— Você não pode falar uma coisa dessas. — Inclinei e deixei um selinho demorado em seus lábios.
— Por que não?
Ela sabia, não tinha como ela não saber, o que estava fazendo comigo.
— Você está brincando comigo. — Vi surgir um sorriso em seu rosto quando brinquei. — Tem que estar.
— Não estou brincando, eu só não quero mais ficar escondendo o que sinto. — Os dedos dela encontraram minha nuca, fazendo arrepios surgirem. — Eu passei muito tempo com medo, medo de me machucar, medo de me entregar, medo de falar o que sentia por você. — Meu coração parou por um instante, porque ela não estava mais brincando. — Mas eu quero ser sincera, que sinto sua falta, que quero você por perto e quero você na minha cama para me abraçar no fim do dia. — Suas bochechas estavam corando. — Mas se você não gosta de quando eu sou honesta... Eu prometo não dizer mais tão diretamente.
— Não. — A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. — Nunca faça isso, Aurora, mostre-me sempre o que sente, por favor. — Beijei-a com todo o amor. — Está bem... Você venceu, eu durmo com você hoje.
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PS: Eles como são tudo 😍 não sei qual POV eu mais gosto de escrever.













