E destroem meus sonhos. O tempo todo. Quando minha irmã se irrita comigo, eu murcho. Quando minha mãe fica decepcionada e a culpa é minha, eu me sinto pequena. Minúscula: vazia: sem sonhos? É. Acho que é isso. Sem sonhos. Porque a cada vez que diminuo, eu percebo mais o tamanho da minha pequenez. Da minha falta de ambição, da minha falta de opção, e percebo que estas - ao contrário de mim - são gigantes. São gritantes - mais uma vez, ao contrário de mim, tão apagadinha ali no canto. Quisera eu ser como essa gente grande (não de altura, muito menos de velhice) que é feliz mesmo sem as coisas pequenas que a gente tanto dá valor. Porque, bem, elas não dão: aí está o segredo. Dar valor as coisas pequenas? Pra quê? Se eu posso ser grande? Se eu posso não me decepcionar com essa bobagens que essa gente pequena se decepciona. Acontece que eu sou pequena. Acontece que, coitada, eu não tenho ambições. Falta de opção? Também. Falta de força de vontade, principalmente. Falta de coragem pra levantar da cadeira e dizer pra minha irmã pra ela parar de gritar comigo. Falta de coragem pra mostrar pra minha mãe que ela também me decepciona. Falta de coragem pra assumir que sou pequena e que quero ser grande, desculpa. É que eu não sei ser assim. Não sei mesmo. Eu devo ser superficial. É essa, a palavra? Que feio. Deve ser. Desculpa se o que eu vivo dizendo por aí não se aplica ao que eu sinto de verdade. Desculpa se eu não sei ser pequena, se eu não sei valorizar as coisas certas, ou se eu valorizo demais e até esqueço de deixar de lado o fato de que a minha irmã brigou comigo, acontece. O fato de que eu não tenho tantas oportunidades assim, acontece. O fato de que eu não posso escolher muito, mas que eu queria escolher. Acontece. Ignora! Não consigo. Tem gente, ué, que nasce assim mesmo: sendo obrigada a ter isso aí e gostar disso aí e acabou. Acabou, poxa. Esquece: a vida é tão mais que isso! E aí eu digo: eu sei! E é por isso mesmo: a vida é tão mais que isso! A vida é tão grande, meu Deus do céu, e eu sou tão pequena. Cadê meus sonhos? Quem foi que roubou minha coragem? Pára com isso! É sério. Não destrua, seja lá quem for, o pouco que há em mim. Não me faça diminuir - eu não quero perceber minha pequenez. Eu não consigo aceitar que acontece, desculpa. Que destroem meus sonhos e que eles não são os únicos a serem destruídos, para de drama, menina! Mas destroem. O tempo todo. O tem-po to-do. Tic-tac. Tá passando, viu? E você continua sentada, fazendo algo que não te engrandece. Fazendo nada. Sua covarde. Mas acontece, acontece. Desculpa. Não sei ser grande mesmo. Nem ser pequena. Não sei ser. Não sei. Isso aí: acontece.