Tudo leva tempo. A vida é cheia de demoras, ainda que imperceptíveis à espécie humana.
A luz leva milésimos de segundo para refletir a imagem do objeto na tua retina.
Entender o tempo difere de decifrá-lo por completo. É lidar com o que sabemos e moldar para o melhor viver.
O deus do tempo é também o das árvores. Seres que apreciam o passar das coisas. Viram quem chegou e se foi, ir de novato a ancestral. Seres sem se importar com a própria imobilidade, que o corre-corre lhes é dispensável e impensável. Seres que quanto maior o abate, menor o tempo de duração da humanidade.
Iroko é o orixá mais presente. O tempo, intangível e irrefreável, atua em tudo, até na gravidade. Iroko nos desgasta em matéria, nos oportuniza o saber, nos cobra o viver, porque nele estamos transcorrendo, queiramos ou não.
Assim, que possamos desacelerar essa agonia e apreciar o vagar. Ainda que por fiapos de minutos, dar um tempo.
Esticar nossos amanheceres, nossa contemplação do Sol. Aumentar nossa exposição ao luar, aproveitar a magia da luz solar refletida com delicadeza.
Ainda que correndo, usar os entremeios do tempo para apreciar.
Curtir nossos momentos de vida. Vida, cujo tempo em parâmetros do universo, é menos que um fóton, mas que entre nós, gente, deve ser vasto antes da finitude nos alcançar.
Curtir nossos instantes, de acasos e improbabilidades ou de combinados e previsíveis, para que esse piscar de olhos nos seja gigante.
Partir e deixar trajetória nobre e lembranças saudosas. Se a possibilidade da inexistência do além é a correta, você desaparecerá. Mas viverá na memória de quem permanece, se materializando em uma lágrima após um sorriso singelo.
Será um tempo de vida que transcende a debates entre crentes e céticos. Uma forma de não temer o que vem: seja uma passagem ou o apagar das luzes. De evitar se resumir a um pedaço de carne destinada ao apodrecer e ao gaseificar, que caminha nesse pedaço irrelevante de pedra flutuante no espaço/tempo.
Se recuse a viver em tempos mortos.
Kissilé, Eró, nosso senhor da trajetória.
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