Onde o rio beija a floresta habita Logun Edé, divindade de uma dança nada única, num vai e vem entre o verde de Oxóssi e o dourado de Oxum. O filho do silêncio que caça e do reflexo que seduz.
Seu corpo é de contradições harmoniosas.
De seu pai, herdou o arco de galho flexível, a flecha de pena afiada, os pés sem ruído sobre folhas secas. Olhos de falcão veem o que é quase invisível: o rastro do vento, o tremor da folha, a verdade atrás dos troncos.
A mesma mão que empunha o arco ergue o espelho para se admirar. A vaidade lhe é prece. Ele se contempla por reconhecimento. A herança da mãe: elegância, delicadeza, sofisticação que embalam as águas. Autoestima e amor-próprio.
Logun Edé brinca na fronteira dos opostos. Num momento, sua energia é rápida e decisiva, a flecha que parte sem hesitação. No instante seguinte, é banho de rio que cura e acalma.
Ninguém é uma coisa só.
Logun Edé é a encarnação divina desse mistério. Ele ensina que a existência não é uma cela, mas um salão de espelhos. Em cada reflexo, uma faceta diferente se revela. Provedor e artista, lutador e poeta, selvagem e leve.
Assim, canta e dança entre o musgo e o ouro, entre a lança e as joias.
O orixá que é o equilíbrio da multiplicidade. O caçador que conhece o valor do belo é mais sábio. O príncipe que conhece a ferocidade da mata é mais completo.
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