A primavera há muito havia tomado as ruas de Tóquio para si, colorindo o tão monótono mar de prédios cinzentos com suas puras e delicadas flores de cerejeira. Brancas e rosadas, as árvores decoravam os parques e jardins da cidade, conquistando seus moradores com sua beleza efêmera.
No entanto, naquele dia em especial, nem mesmo o encanto etéreo das pétalas que eram símbolo para aquele povo conseguia trazer um pouco de vida à cidade. Um tanto fora de época, uma chuva intensa castigava tudo que se erguia acima da terra, encharcando aqueles que não estivessem devidamente protegidos de sua fúria. A lua, que antes brilhava contra o céu negro aveludado, havia perdido seu lugar para as densas e ameaçadores nuvens cinzentas que insistiam em ofuscar o esplendor da primavera.
Cercado por aquele temporal, Kishitani Shinra era só mais um naquele mar de guarda-chuvas apressados que circulavam pela rua. Em uma das mãos carregava sua maleta de trabalho, repleta de ferramentas pontudas, ataduras e remédios, enquanto a outra erguia a sombrinha acima de sua cabeça para que, principalmente, seus olhos são molhassem.
Ao contrário das pessoas ao seu redor, sua pressa não se devia a vontade de escapar da chuva. O frio que penetrava suas roupas e os sapatos sujos de lama não lhe eram incomodo algum, uma vez que em seus pensamentos a única coisa que havia era a imagem de sua amada. Como sempre acontecia quando passavam ambos o dia todo trabalhando, ansiava por reencontrá-la novamente em seu apartamento e passar o resto daquele dia, que já se encaminhava para seu fim, ao lado dela.
E talvez, por estar com os pensamentos tão completamente imersos em fantasias amorosas, Kishitani Shinra quase não parou na frente daquele beco imundo.
Quase.
Seus passos rápidos inicialmente ultrapassaram o beco, porém foi uma imagem captada por sua visão periférica que o fez parar e retroceder alguns passos até aquele ponto em especial. Um pouco curioso com o que havia conseguido surpreendentemente arrancá-lo de seus devaneios, ele cerrou os olhos castanhos cobertos pelas lentes de seus óculos e tentou ver através da cortina de chuva a sua frente.
O beco era como todos os outros que já havia visto pela cidade; sujo, cheio de lixo e abandonado. Não havia ali nada digno de nota e Shinra logo pretendia retomar sua caminhada. No entanto, no ultimo instante em que seus olhos perscrutavam o local, algo conseguiu chamar a sua atenção.
Primeiro seus passos começaram lentos e hesitantes, quase como se receasse continuar. Até que a compreensão o atingiu com tal intensidade que ele se pôs a correr, largando sua maleta e mesmo o guarda-chuva que o protegia pelo caminho. Quando se ajoelhou ao lado do corpo, suas vestes já estavam empapadas e o frio dominava seu corpo, mas nada disso pareceu alcançá-lo. Naquele momento o mundo a sua volta pareceu deixar de existir e o tempo não mais transcorria. Enquanto esticava os dedos trêmulos para o corpo caído pálido a sua frente, vários pensamentos se misturavam em sua cabeça, todos embebidos por sentimentos de dúvida, confusão e, principalmente, desespero.
Entretanto, embora uma infinidade de coisas passem por sua cabeça e desejasse tomar milhares de atitudes ao mesmo tempo, a única coisa que conseguiu fazer, e ainda sim muito vacilante, foi pronunciar um nome:
Summary: Aquele era o amor deles. Havia nascido há muitos anos, mas depois que aquela criança veio ao mundo, tornou-se tão intenso que nem Mai ou Izaya eram capazes de se conter.
The Way We Are In Love
O carrinho de bebê era azul-escuro, com desenhos de nuvens e estava parado entre a poltrona e o sofá do escritório. Dentro dele, envolto confortavelmente por uma macia manta, estava Kiseki. O pequeno dormia tranquilamente; seu peito subindo e descendo de forma lenta e compassava.
Acomodada na poltrona, usando um vestido branco de mangas curtas, com uma fita vermelha na cintura e meias negras, estava Mai. Com um sorriso gentil, ela observava seu filho cheia de amor, prestando atenção em cada detalhe de sua criança. Com quatro meses, o pequeno Kiseki tinha bochechas coradas, corpinho rechonchudo e um cabelo negro que sempre estava bagunçado. Porém, apesar de inquestionável fofura, o que mais se destacava naquela criança era os olhos azuis brilhantes que herdara da mãe e conquistava quem quer que o colocasse em seu colo.
Porém não eram apenas os dois que se destacavam naquela cena. Uma terceira pessoa, sentada no sofá, também presenciava aquele olhar lindo e materno que Mai direcionava a sua criança. Izaya Orihara analisava aquele momento único com atenção, percebendo o quão difícil era para ele tirar seus olhos de Mai.
Não era naquele instante, havia começado desde que Mai, depois de uma gravidez longa e difícil, dera a luz ao seu filho, mas só nesse momento que Izaya havia percebido como seus sentimentos por sua família, especialmente por sua esposa, haviam mudado de um jeito absurdamente incrível.
Sempre amou Mai, e de um jeito tão forte que achava ser impossível esse sentimento se tornar mais intenso. Entretanto, ao longo do tempo suas suposições haviam se mostrado erradas. Desde que a vira carregando seu filho, olhando-o com imenso carinho e depois fitando Izaya com os olhos marejados, algo no peito de Izaya mudara.
“Esse é o nosso bebê, Izaya. Nossa criança feita com tanto amor finalmente está ao nosso lado”, essas foram as palavras que ela lhe dissera na primeira vez que Shinra colocara a criança em seus braços e foram elas que deram início a uma tempestade de sentimentos intensos dentro do coração de Izaya.
Era difícil para ele explicar, mas o jeito que Mai cuidava de seu filho, seu amor por ele, a forma como o olhava com tanto carinho, o aninhava contra seu seio ou lhe dizia palavras amorosas para fazê-lo dormir, tornava sua pequena cada vez mais linda e irresistível. Mas não era só isso, esse novo amor que havia nascido nela também parecia ter se estendido a Izaya. Talvez também acreditasse que não havia como amar mais o informante e estivesse imersa naquela confusão de sentimentos assim como ele, pensava Izaya, pois a forma como ela o tratava havia igualmente mudado. Olhares mais apaixonados, voz manhosa e cheia de expectativa, carícias inusitadas e palavras de amor sussurradas em seu ouvido. Havia em Mai uma nova necessidade, quase incontrolável, de se ver nos braços de Izaya e a forma intensa com que se envolviam entre suspiros e gemidos adquirira o tom ainda mais profundo e apaixonado.
E tudo isso, somando aos sentimentos que já tinha por Mai, fazia com que ele se sentisse imerso em um oceano de paixão arrebatadora e inebriante. Era incrível e maravilhoso; um amor tão belo que arrancava seu fôlego e fazia seu coração disparar.
Era esse o amor que sentia por Mai e, sabia muito bem, também era o que ela sentia por Izaya. E tudo isso havia passado a existir graças ao seu filho. Seu pequeno e precioso Kiseki. Aquela criança que um dia ele temeu não ser um bom pai, mas que agora havia se tornado, junto de Mai, sua razão de viver.
— Hm, acho que você está com fome.
Ao ouvir a voz doce de Mai romper com delicadeza aquele silêncio que os cercava, Izaya olhou para Kiseki no carrinho. Antes adormecido, o pequeno agora se remexia entre as cobertas, fazendo uma expressão incomodada.
Inclinando-se em direção ao carrinho, Mai então, cheia de cuidado, pegou o embrulho azulado e macio em que se encontrava Kiseki. Ela o trouxe para o seu colo e o abraçou, sorrindo para ele cheia de amor e lhe direcionando palavras doces e singelas. Quando ele pareceu se acalmar um pouco, ela o envolveu apenas com um braço, usando a mão livre para começar a desabotoar os botões de seu vestido.
Izaya viu botão por botão ser aberto, até chegar a metade de sua barriga lisa. Quando se deu por satisfeita, Mai puxou a manga de sua roupa junto do sutiã, expondo seu seio rosado e inchado pelo leite materno.
Incapaz de desviar os olhos daquela cena, o informante observou com um fascínio apaixonado Mai, repleta de um amor puro e sincero, amamentar seu filho. Aquela imagem, para Izaya, era o retrato da perfeição. Era lindo e intocável. Era a forma mais pura de amor que poderia existir naquele mundo.
Enquanto Kiseki mamava lentamente, Mai o aninhou confortavelmente em seus braços. Em seu rosto havia um sorriso tão belo, cheio de tanta felicidade, que era impossível para Izaya descrevê-lo.
— Você está cada vez mais linda.
As palavras deixaram seus lábios em um tom rouco e aveludado, enquanto seus olhos vermelhos estavam tomados por um sentimento intenso e cheio de paixão.
Ouvir aquilo, em meio ao silêncio do recinto, pegou Mai de surpresa. Ela levantou os olhos para o rapaz e o encarou, ao passo que suas bochechas lentamente adquiriam um tom rosado.
— O que disse? — Perguntou ela timidamente.
Um sorriso sensual formou-se nos lábios de Izaya e ele deixou certa malícia refletir em seus olhos. Erguendo-se do sofá, caminhou até Mai. Um joelho apoiou-se sobre a almofada da poltrona em que ela estava sentada, enquanto o informante inclinava-se sobre a jovem. Sua mão foi até o rosto dela, segurando-a com delicadeza e a fazendo encará-lo.
— Eu disse que você fica mais linda a cada dia que passa — falou no mesmo tom sensual de antes. — Mais linda, mais perfeita, mais incrível. Já eu, fico mais apaixonado a cada dia que passo ao seu lado.
Suas palavras tocaram fundo no coração de Mai, pois seu rosto tornou-se muito vermelho e ela desviou seus olhos dos dele. Em seus braços, apertou um pouco mais Kiseki contra seu peito — sem nunca deixar de tomar cuidado para não machucá-lo.
— V-você está e-exagerando…
Izaya sorriu, se divertindo.
— É claro que não estou — continuou. — Você também sente isso, não é? A cada dia que passa as coisas entre nós dois parecem mudar. Sempre para melhor. Esse sentimento… Esse amor, ele tem ficado cada vez mais forte entre nós dois. Sei disso, pois vejo o jeito como me olha, como não quer ficar longe de mim… Como deseja estar em meus braços. E eu também me sinto da mesma forma, Mai.
Mai entreabriu os lábios para dizer algo, mas todas as suas palavras pareceram se perder no ar. Seu coração batia rápido demais, descompassado, seu rosto estava quente e ela sentia um turbilhão de sentimentos intensos tomando-a. Izaya sempre conseguia fazer isso com ela. Suas palavras, seu jeito de falar, a forma como a olhava, tudo isso sempre fazia todo o amor que sentia por ele, toda a paixão avassaladora presa em seu coração, irem a superfície e tragarem-na por completo.
Tão, tão apaixonada…
— Minha pequena Mai — Izaya sussurrou. — Minha linda coelhinha manhosa.
Lentamente ele se abaixou até a jovem. Segurando seu rosto entre as mãos, Izaya juntou seus lábios, fazendo aquilo que desejava desde que haviam se sentado ali na sala.
Com Kiseki em seus braços, Mai não foi capaz de tocar Izaya, mas isso não lhe pareceu um problema. Simplesmente se entregando a vontade do mais velho, ela fechou os olhos, deixando-o beijá-la da forma que desejasse.
Se entregar a Izaya sempre lhe trazia um imenso prazer e naquela ocasião não foi diferente. Mai sentiu seus lábios sendo massageados pelos dele com tanto carinho e ternura que poderia fazê-la chorar. Depois, Izaya usou sua língua para provocá-la, pedindo passagem. No instante que lhe concedeu, o mundo a sua volta pareceu desaparecer e Mai sentiu-se ser inundada pelo desejo e ansiedade.
Era um ato provocante, cheio de necessidade e paixão, mas também continha em cada movimento um puro e inegável desejo de agradar um ao outro e demonstrar os verdadeiros sentimentos que guardavam em seus corações. Suas línguas podiam se mover com sensualidade, roçando uma na outra, brincando juntas e se provocando, mas também havia ali um carinho imensurável e uma vontade de se entregarem de corpo e alma ao amor que os conectava.
Macio, lento, seguro e se derramando em paixão, aquele era o beijo que compartilhavam, fazendo seus corações baterem mais rápido, o sangue esquentar em suas veias e seus corpos se arrepiarem. Mas, principalmente, era um beijo que, no momento em que começavam, nunca mais sentiam vontade de parar.
Entretanto, para a infelicidade do casal, o ar começou a lhes faltar e, puramente por obrigação, eles se separaram.
O rosto de Mai estava vermelho quando se afastou e ela ofegava muito; os lábios rosados entreabertos sugando o ar que anteriormente lhe havia sido negado. Izaya também parecia igualmente sem fôlego. Seu peito descia e subia sob a roupa negra, mas apesar disso, ele parecia extremamente satisfeito com o que havia acabado de acontecer.
— Não disse — falou com a voz rouca.
Aquilo embaraçou Mai, porém o pequeno e singelo sorriso surgiu em seus lábios.
— Sim, você disse… — concordou timidamente.
Entre os dois, então, um baixo e gostoso gemido ecoou. No mesmo instante ambos olharam para os braços de Mai, vendo que Kiseki já havia terminado seu pequeno lanche e se encontrava muito satisfeito. O pequenino soltou um delicioso e contagiante bocejo e aninhou seu rostinho contra o seio descoberto de Mai, entregando-se novamente a sua soneca.
Não houve como se conter, um sorriso sincero e de puro amor surgiu nos lábios de Izaya.
— Posso pegá-lo, Mai? — Ele pediu.
— Claro — respondeu.
Com todo cuidado possível e com ajuda de Mai, Izaya pegou seu filho. O pequeno era um embrulhinho azul, macio e quente, que parecia se encaixar incrivelmente bem nos braços do informante.
— Obrigado, Kiseki — falou em tom afável, sentindo seu coração palpitar com a alegria de ter seu filho nos braços. — Obrigado por ter nascido e trazido todas essas coisas para nós dois. Eu e sua mãe te amamos muito.
Vendo aquela cena, Mai sentiu lágrimas inesperadas surgirem em seus olhos. As duas pessoas que mais amava no mundo estavam ali, juntas, felizes e seguras. Izaya amava aquela criança tanto quanto ela e também sentia por Mai o mesmo sentimento. Não havia felicidade maior para ela do que ver e constatar essas duas coisas. Tal sentimento tragou seu coração com tanta intensidade, que se tornou impossível segurar suas lágrimas, que descerem pelas suas bochechas e pingarem em seu vestido.
Sem conseguir se conter, Mai se levantou da poltrona e caminhou até Izaya, abraçando tanto ele quanto seu filho. Seu pequeno rosto, molhado pelo choro de felicidade escondeu-se contra o peito do mais velho.
— Eu amo muito vocês dois — falou ela com a voz embargada.
Izaya sorriu de um jeito caloroso. Mais uma vez todos aqueles sentimentos intensos e apaixonados se remexeram em seu peito, tragando-o por completo.
Ah, Mai…, ele suspirou inebriado.
Simplesmente não havia palavras para descrever o quanto ele amava sua esposa e seu filho.