Esse texto é sobre perdão. Eu te perdoo pelas dores que me causou, pelos gatilhos que reativou...
Pensei bastante antes de escrever. Arrisco dizer que nunca foi tão dificil tentar colocar no papel o que venho sentindo.
Aquele foi um dia tranquilo e eu jamais imaginei que o final dele seria daquele jeito.
Eu sempre amei nossos momentos juntos e apesar de nunca termos sido irmãos carinhosos (já que não fomos criados recebendo carinho), nossa relação sempe foi de muita parceria, cumplicidade, amizade e claaro, as briguinhas e encrecas sempre estiveram presentes. E do nosso jeito sempre demos o melhor pro outro. Não me recordo de uma só vez que eu tenha precisado de você e que não tenha me ajudado. Por isso sempre fiz questão de ajudá-lo toda vez que me pediu ajuda. Ir a lugares, passar finais de semana, conhecer barzinhos e restaurantes juntos era tão comum que não tinha me dado conta do quão ligados somos. É como se dissêssemos em gestos um ao outro como nos amamos. E bom, desde que me tornei tia, você sabe que a frequência de nossos encontros aumentou. O fato de estarmos casados e cada um em sua casa não diminuiu nossa união e aprego, muito ao contrário, aumentou e se expandiu pro nosso bebê.
Sexta-feira, dia 19 de agosto de 2022, por volta das 21h vocês chegaram, para continuarmos a partida do meu jogo novo de tabuleiro que tínhamos iniciado na quinta. Jogamos até mais de duas horas da manhã e quando cansamos, resolvemos assistir filme comendo pipoca com café. No fim ninguém assistiu nada e quando acordei com o sol entrando na sala já era mais de 06h. Fomos nos acomodar no quarto e dormimos mais até quase 11h. O clima estava gostoso e todos nós estávamos tão em paz.
Depois do café da manhã decidi ir matar o calor banhando de bica com o bebê e aproveitei pra lavar seu carro e minha moto enquanto pegava um bronze. - Pega ali uma cerveja pra mim - eu pedi.
No final do dia já havíamos transfomado um sábado comum em uma folia. Além da cerveja que vocês foram buscar, chamamos os nossos primos e prima com suas esposas.
Eu havia decidido beber até virar a perna, afinal, estava tão feliz e em paz...
A noite havia chegado e passava das 23h quando começou a se despedir, pois precisava dormir porque estaria de serviço cedinho.
Sua esposa e o bebê estavam no carro e infelizmente a nossa prima que estava altinha, insistiu pra que você ficasse um pouco mais. Eu lembro de tranquilizar a minha cunhada, dizendo pra não preocupar-se, pois você estaria aqui e depois te levaríamos em casa.
Dizem que nada acontece por acaso e eu me apeguei muito nisso pra tentar superar aqueles momentos de dor e angústia.
Hoje eu percebo que uma frase pode fazer toda diferença, uma atitude pode mudar para sempre a vida de uma pessoa.
Se você tivesse ido embora quando sua esposa te chamou...
O carro sumiu de nossa vista e entramos em casa novamente. Estava tudo bem, até que as brincadeirinhas começaram e eu saí em defesa de minha cunhada (que nem estava mais lá pra se defender). As meninas ficaram pouco tempo e logo decidiram ir embora também. Foi nesse momento que não te deixei ir com elas e te chamei pra dentro novamente.
O que aconteceu em seguida não parece ter sido você.
Assim que fechamos o portão só estávamos nós quatro: eu, você, Dai e Ro. Eu estava feliz demais, apesar de bêbada e queria que a noite tivesse acabado ali, feliz ainda. Mas, ao te pedir pra esperar pra ir embora com nosso primo, comecei a ouvir palavras escrotas acompanhadas de atitudes machista: "cala a boca e vai dormir, eu mando em você", "você é mais nova e eu quem te controlo"... Nunca fui de me calar e não seria naquele momento que o faria. Respondi cada frase bem na sua cara. Cada vez mais você foi aumentando o tom da sua voz e a minha ia seguindo seu ritmo.
Virei pra entrar e chorar no meu quarto, aquela noite já tinha dado pra mim, quando ouvi falarem que você estava sangrando... corri desesperada pra te ajudar mas o que recebi foram tapas na cara, puxões de cabelo...
De repente eu estava apanhando na minha própria casa.
Me dói muito fechar os olhos, pareço estar revivendo constantemente esse dia.
Por que você tá fazendo isso? Por que tá agindo igual a painho? Não faz igual a ele... eu gritava enquanto te batia tentando te fazer soltar os meus cabelos e os da Dai. Eu chorava desesperada sem entender o porquê meu único irmão estava batendo não só em mim, mas na minha esposa também.
As agressões cessaram depois que fui jogada ao chão e meu joelho machucou feio.
Não posso deixar ele fazer isso comigo e sair impune como nosso pai fazia com nossa mãe e conosco.
Os dias seguintes não foram fáceis. Um joelho machucado, roxos no corpo, cortes profundos na alma e no meu coração.
Me vi de novo num lugar escuro, levei quase uma semana pra sair da cama. Meu coração estava estraçalhado.
Além da situação toda, me culpei por tê-lo prejudicado em seu trabalho, afinal, todos ficaram sabendo depois que os acionei.
Todos os dias eu chorava e perguntava ao Senhor o porquê de tudo isso ter acontecido. Quem me via nem imaginava…
Nossa mãe foi a que mais ficou triste, eu não contei pra mais ninguém além de nossos pais, quem esteve aqui naquele dia e meu amigo. Não tive coragem...
Passaram-se dias até que eu voltasse a sorrir. Você veio até minha casa no dia seguinte ao ocorrido e me pediu pra contar tudo pois não lembrava de nada. Eu consigo enxergar nitidamente se fechar os olhos a sua expressão de vergonha e tristeza. Consigo ouvir minha própria respiração ofegante de angústia, mágoa, decepção, tristeza e medo enquanto te ouvia falar e pedir "desculpas"...
Os dias passaram lentos e mesmo me ligando ou mandando mensagens pra saber como eu estava, não nos encontramos mais. Até que depois de 15 dias sem ver o meu sobrinho, liguei pedindo pra o trazerem pra ficar comigo.
Eu lembro de ir dormir todas noites chorando, tanto pela dor de tudo que havia acontecido como de saudades dele, eu nunca havia ficado tantos dias longe. Mas eu ainda não estava pronta.
Aos poucos tudo foi meio que voltando ao lugar. Eu ainda sofro com tudo, é claro.. as feridas ainda estão abertas. Mas parei de reviver constantemente. Vez ou outra fico tensa, principalmente quando você bebe.
Eu te perdoo, meu irmão, porque mesmo não entendendo tudo que aconteceu, eu sei que você não é assim!
Você é o irmão que ajuda, me protege, faz até o que não pode por mim. No início saber disso foi o que mais me machucou, porque não fazia sentido ter sido machucada por quem mais me protegeu a vida toda... e eu sei que isso não vai mudar.
Algumas coisas mudaram, a principal mudança é que parei de beber.
Tenho um casal de amigos espíritas que sempre me aconselharam a deixar o álcool "porque todo aquele que bebe é acompanhado de espíritos malignos".
Eu já havia tido provas disso, mas nunca tinha dado importância. Depois disso resolvi parar de dar chances ao mal. Sei que sem o álcool, sem o meu pedido por cerveja enquanto lavava o carro e a moto, nada disso teria acontecido. Nosso final de semana incrível teria acabado em paz. Tudo estaria como sempre foi.
Fico feliz por estarmos nos reconectando novamente. Mais datas especiais vieram e virão e nós sempre estaremos juntos. E eu desejo que nunca mais passemos por momentos ruins assim.
Você nunca falou porque é fechado e diferente de mim, esconde bem mais o que sente, mas eu sei (porque a cunhas me falou) que seus dias foram escuros também, que levou um tempo pra voltar a agir normalmente de novo. Sei que dói aí tudo que causou aqui. Sei que se sente mal todo dia quando me vê mancando por causa do joelho ainda machucado.













