Você não pode me acusar de ser injusta ou de não ter sido clara contigo. Afinal, o que eu mais fiz durante todos esses últimos anos foi falar claramente sobre o que não estava sendo legal. Sobre o que estava faltando. Mas a gente cansa né?! Viver exigindo e pedindo algo que deve ser dado e feito naturalmente, por vontade, não é certo, não é justo. Inevitavelmente me tornei a carrasca, a que reclama de tudo. Foram tantas mágoas e frustrações, que o mínimo passou a ser visto e sentido como absurdo. Eu sei que você não acreditou quando falei durante muito tempo sobre essa exaustão sentimental. Eu sei que você acreditou que era só uma fase, que minhas indagações não faziam sentido algum. Eu cheguei a acreditar que era mesmo exagero. Eu quaaaaase acreditei que era bobagem de minha cabeça. Que era seu jeito de demonstrar – ou nesse caso, de não demonstrar –, que não tinha nada a ver com falta de amor e respeito. Eu caí nessa teia de dependência emocional. Eu me agarrei a tudo que construímos materialmente. Mas a cada nova “conquista”, a gente ser perdia um pouquinho mais. E a troco de quê? De minha felicidade?
É difícil enxergar para além da rotina e do sentimento que a gente sente como se fosse suficiente. Mas, infelizmente, tudo sempre esteve bem a minha frente, eu que escolhi não ver. Eu que sempre arrumei as maiores e mais inusitadas desculpas para justificar o injustificável: amor de verdade não dói, não machuca, não sufoca, não é exigido. Amor de verdade queima a pele sem ter fogo nenhum, faz brotar sorrisos só em imaginar ver a pessoa amada. Amor de verdade vem acompanhado de admiração, a gente se torna fã daquele ser humano, até quando ele faz a coisa mais simples e boba do mundo, levantamos e aplaudimos. Amor de verdade vem acompanhado de respeito, de silêncio para não ferir, de cuidado com as palavras, na verdade, quando a gente ama mesmo, é comum que pronunciemos só as mais belas frases e palavras para nosso ser humano preferido.
Não quero te fazer parecer a pior pessoa do mundo. Você não é. Ao contrário, você é uma mulher incrível, uma filha excepcional e uma amiga fiel. Mas, a gente sabe que como companheira, você é uma negação. E tá tudo bem, talvez exista alguém disposto a aceitar suas migalhas. Eu confundi e por muito tempo achei que tudo era minha culpa. Sua impaciência, sua frieza, sua falta de vontade.. era tudo por minha causa. Mas, eu me lembro, lembro do brilho em meus olhos, de meu romantismo e de minha insistência em fazer a gente dar certo. Afinal, como o John havia dito: todos estavam passando, construindo suas vidas e eu ficando para trás. Foi tudo culpa minha mesmo. Eu forcei e aceitei quando deveria ter dado espaço e negado todas as sobras que insistia em me dar. Justificava que entendia como era difícil mesmo para você recomeçar depois de ter entregado seu coração a alguém que só te machucou. Mas e eu? Poxa, quantas vezes tive meu coração partido? Eu vivia de coração partido. Eu havia perdido o amor de minha vida e mesmo assim me entreguei, te cuidei, te amei. Lutei por quem já tinha desistido, te arranquei do fundo daquele poço sujo e lamacento. Te limpei, te vesti, fiz uma idiotice atrás da outra pra te ver sorrir. Eu me diminui para caber em você. Mesmo assim, não foi o suficiente quando ela voltou e você teve dúvidas. Não foi suficiente para te impedir de voltar para ela e me jogar naquele poço do qual te tirei. É, tudo sempre esteve bem na minha frente. Por que diabos eu insisti em um relacionamento assim? Meu Deus! Na verdade, eu lembro de ter argumentado comigo mesma que “tudo que vai, volta” e aquela era a vida me fazendo pagar tudo que fiz. Eu tinha que aguentar. Então, quando você voltou, eu realmente acreditei que nós precisávamos ficar juntas. Você estava me escolhendo. “Amor é construção, Laura.” A voz do John ecoava em minha mente constantemente. Portanto, eu tinha que construir esse amor. Dessa vez eu ia fazer dar certo.
Durante tanto tempo eu me fiz de desentendida. Óbvio que me questionava se era comum a gente viver junto e não existir fogo e desejo só em se olhar. Se era mesmo certo ser tão frio e se a rotina fazia mesmo isso com as pessoas. A vida foi seguindo seu ritmo e quando percebi estava anunciando que dividiríamos o teto e a vida dali para frente.
"Você tem certeza, Laura? Olha, não estou querendo dizer que você não merece ser feliz, mas eu te conheço, sei como você é e já entendi como ela é também, vocês duas não vão dar certo." Essas palavras acompanhadas de um feição de muita preocupação foi a reação de minha melhor amiga. Ora, por quê ela estava sendo tão cruel? Não era justo. Eu merecia ser feliz, ela sabia de tudo que eu já havia passado. Ela sabia como eu tinha sido quebrada. Ela sabia que eu precisava de alguém para me fazer feliz e viver tudo que me foi prometido um dia. Eu tinha que provar para ela que estava enganada, é claro que combinávamos e tudo ficaria bem.
Afinal, você era incrível, exceto pela total falta de sincronia e paciência comigo e vice-versa. Os opostos se atraem. A nossa intensidade era o que fazia tudo ser tão extremo, o amor e as brigas. Não é?! Mas por quê você parecia tão distante a cada dia? Por que não havia mais brilho em meus olhos? Por que eu tinha que chorar, sentir dor e solidão mesmo você estando ao meu lado na cama? Era o primeiro sinal e chance de enxergar com clareza e deixar a teimosia de lado. Chega, decidi que era a hora de partir, eu não havia nascido para viver um amor tão raso, tão frio. Poxa, eu sempre fui puro fogo, era para você ser a gasolina. "Casais brigam e é comum. A gente nasceu uma pra outra, não faz isso e fica comigo”. É, você parecia mesmo certa. Além disso, terminar era admitir que a An tinha razão. Era só uma crise. Dali em diante tudo ficaria bem e ficou por um tempo... nossa casa veio, nosso lugar e oportunidade de construirmos nosso lar. É claro que todo aquele estresse era comum, afinal, o processo de construção é tenso, não é? Tudo bem os gritos e a discordância sobre tudo e qualquer detalhe. Casais brigam e se desentendem, nem sempre têm a mesma opinião, tá tudo bem, você me convencia. Era comum não existir mais tanto carinho, era chato ficar grudado mesmo. Né?! Eu tinha que ser mais compreensiva. O cansaço diário do trabalho é algo que estressa mesmo e tira toda a vontade da pessoa de fazer qualquer coisa. Não era meu corpo que tinha deixado de ser atraente. E mesmo com toda a tensão e desentendimento, eu precisava segurar as pontas. Me afoguei em trabalho, porque logo, logo nossa casa ficaria como a gente sonhava. Eu tinha que ganhar dinheiro. Esse era o problema. Logo o estresse diminuiria e a gente teria uma folga para voltar a sermos mais românticas, carinhosas... Então os móveis vieram, os eletros, o conforto, quase tudo que havíamos sonhado em ter um dia lá trás. Mas, porque aquela casa não havia se transformado em um lar ainda? Porque parecia esforço demais para você zelar e cuidar de tudo comigo? Por que sempre era eu que me envolvia e entrava de cabeça em todo desejo e sonho, mesmo os mais simples? "Eu fico empolgada, só não demonstro como você", esse era seu argumento. Mas será mesmo? Ou você não empolgava-se porque não era comigo que desejava estar realizando aquilo? Não dava mais, então, nossa segunda crise aconteceu e as mesmas reclamações foram feitas: era exaustivo doar-se sempre tanto e receber tão pouco. Não ser vista ou desejada. Não dava mais certo, An tinha razão, mesmo me matando ter que mostrar que ela estava certa, eu não podia mais mendigar e ser a errada. Todos aqueles gritos e o estresse não podiam ser tudo que eu merecia. Eu não podia continuar me transformando na minha pior versão. Estávamos vivendo um relacionamento tóxico. Arrumei as malas e quando estava saindo mais um vez você foi convincente. Nós fomos feitas uma para outra, olha tudo que construímos, olha tudo que a gente já viveu. Não faz isso comigo. E os joelhos e as lágrimas caíram no chão. De novo eu te cuidei, te ajudei, devia ser algum probleminha e o tratamento certo resolveria. De novo eu acreditei que muito de toda aquela sombra que nos seguia era culpa minha. Seguir era preciso, ainda tínhamos muitos sonhos e realizá-los era importante. Mais uma vez arregacei as mangas e mais investimentos e concretizações vieram e junto disso mais frieza, mais falta de parceria, mais sobrecarga.
Mas espera aí!!! Olha que felicidade mesmo em meio ao caos: o tão sonhado pedido de casamento veio!!! Uhul! …Opa! Calma, calma, Laura! Para pra pensar… Foi mesmo um pedido feito de coração? Seu sonho foi me pedir em casamento estando bêbada? Com uma aliança falsa? Sem discurso algum? Sem cenário e eu estando aquele trapo todo depois de um dia bebendo na praia? Ou todos os anos insistindo e deixando claro que queria muito isso te impulsionaram e você fez qualquer coisa só para tentar me agradar e mostrar que se importava? Nada parecia certo. Então eu perdi um pedaço de mim. E me vi refletindo sobre como somos finitos demais para aceitarmos viver sem estar em plenitude e em paz. Acontece que agora tudo era mais difícil. Havia muito sonho dividido, muito investimento feito. Eu tinha que continuar te dizendo com clareza como me sentia, sua chance de me mostrar que eu não era uma muleta, uma coisa qualquer, um trapo usado para remendar seu coração. "A vida real não é como os seus romances, Laura. Você precisa acordar! Nossa relação é real. Não pode ficar triste por eu não agir como espera", foi sua resposta.
O momento de decidir entre viver sendo sufocada e sozinha mesmo estando juntas e arriscar e recomeçar chegou. Eu preciso pensar sobre meus sentimentos, minha felicidade e saúde mental longe de você. Sei que não consegue compreender e parece exagero, mas dessa vez não posso te deixar me manipular mesmo que faça isso sem querer.
Diferente do que você pensa, não foi fácil e simples. Não foi gostoso e indolor decidir abandonar a vida que achei ser estável. Sair de minha casa, do meu conforto e ficar aqui nesse quarto estranho que não tem minhas coisas é doloroso. Mas, é ainda mais triste te ver me perdendo para você mesma. E não pode me dizer que eu fui injusta e silenciosa. Você só não acreditou e achou que me tinha para sempre, independentemente de como agisse ou deixasse agir. Aquela mala pesou uma tonelada, tal qual a dor que está instalada em meu peito. Eu desejo que esse tempo nos mostre o melhor, eu preciso me entender e tomar a decisão que me leva a felicidade. Eu preciso me reencontrar. E desejo que você consiga entender e ser franca consigo mesma.