Eu era como você não deixou de ser, tenho lembranças mas já não revivo elas como antes, tenho acesso aos seus quadros, mas já não vivo dentro da pintura, mesmo que eu ainda faça minhas artes; nunca foi assim pra mim, nunca provei da vida completamente limpo como estou agora, nunca respirei o ar de maneira tão gratificante, nunca foi estranho ser genuinamente grato, a cada dia dou conta de que nada em mim era mais genuíno do que o apego e prazer que eu tinha em perpetuar minha dor, em não dar final para as histórias, mesmo quando dava fim a uma, dava início a outra que acabaria me causando mais dor, mais confusão, mais insegurança, mesmo conscientemente buscando "uma vida satisfatória" e "acabar com o vazio que sinto, a solidão" era tudo um pano de fundo para o que eu não queria olhar e me responsabilizar realmente.
Era já fui como você ainda é, você vai dizer que eu não te entendo, que eu não sei nada do que estou falando e não posso estar na sua pele, nem dentro do seu coração, vai chorar e me olhar como se seus olhos se tornassem um reservatório sem fim de flechas flamejantes enquanto suas palavras saem como se os raios e trovões se tornassem conscientes de sua natureza podendo destruir tudo a base da sua própria vontade de apenas ser, quando na real a única coisa que tudo isso diz é que você tem pavor de encontrar a solução, porque vai ter que abrir mão da atenção, abrir mão do orgulho, abrir mão da sua "posição de poder" diante a tudo que te aconteceu, abrir mão da narrativa principal onde você busca alinhar a sua maneira o passado, o presente e o futuro, deixando sua mente pré disposta a continuar tornando tudo superficial e caótico, deixando ter de profundo e genuíno somente a capacidade de estimação que você reforça como se não fizesse isso, a de estragar tudo, machucar as pessoas e chamar de "meu jeito", "minha vida", "não é problema meu" e tudo que segue uma corrente lógica agressiva que só faz sentido para quem está realmente necessitando de um amor que insiste em dizer que não precisa ou que não faz diferença nenhuma.
(Continua...)











