Este artigo foi publicado originalmente em inglês por John Opsopaus no site Biblioteca Arcana. Como qualquer material do meu arquivo pessoal, ele está disponível para ser enviado na íntegra por e-mail ou discord. Correções, links, itálico e negrito adicionados por mim.
Acredito que o ceticismo quanto à eficácia da magia (Mageia, Magikê, Mageutikêe) advém de três mal-entendidos, que podem ser chamados de falácias do dualismo, individualismo e egoísmo. Estas observações pretendem dissipar essas falácias a partir de uma perspectiva neopitagórica, mas baseiam-se em ideias comuns à maioria das filosofias helênicas antigas.
Nesse contexto, o dualismo é a visão de que existem duas "matérias" essencialmente diferentes: mente e matéria, ou algo semelhante. Como a cosmovisão científica moderna atribui mais realidade à matéria (ou ao físico) do que à mente (ou ao psíquico), há uma tendência a supor que a magia, que é primariamente psíquica, não pode ter efeito no mundo físico.
Por outro lado, o monismo é a visão de que existe uma "matéria" básica no universo, embora ela seja vivenciada de duas maneiras diferentes. Quando é vivenciada de "dentro", é vivenciada como psíquica, como nossos estados e processos mentais. Quando é vivenciada de "fora", é vivenciada como física, como estados e processos materiais fora de nós. Da perspectiva monística, o mental é tão real quanto o material, porque é apenas o outro lado da mesma realidade.
A falácia do individualismo é a suposição de que cada mente é separada de todas as outras, de que somos todos indivíduos. No entanto, muitas das filosofias antigas ensinam que cada um de nós possui uma centelha de Divindade e que as partes divinas de nossas almas nos conectam à totalidade da Divindade. A analogia foi feita com uma estátua de Hécate de Três Faces. Como as faces na estátua, cada um de nossos egos olha através de um par de olhos diferente e supõe que é um ser separado. Mas, no fundo de nossas cabeças (por assim dizer), estamos todos unidos, somos todos um.
Relevo de Hécate triplicada | Mármore, Praga, Palácio Kinský
Em grego antigo, bathus significa alto e profundo, assim como em latim altus. Portanto, sua mente superior, onde você se conecta com a Divindade e, através dela, com todas as outras mentes, é também sua mente mais profunda (o inconsciente coletivo, nos termos de Jung).
À medida que você se move para além do seu ego individual, você chega aos Deuses, que são os mesmos para todos. Prosseguindo, chega-se à mônada, que é a unidade de todas as coisas (ta panta, ta hola). O fluxo do todo é a providência (pronoia) ou destino ao qual todas as coisas estão sujeitas, até mesmo os Deuses. É o fluxo providencial do todo (embora não seja uma predestinação imutável).
Por falácia do egoísmo, refiro-me à suposição de que o ego consciente está no comando. Em vez disso, o ego é o servo das partes superiores/profundas da alma e, em última análise, o servo dos Deuses. O ego tem um papel importante a desempenhar, ou os Deuses não o teriam criado, mas é importante compreender que ele é um meio para os fins dos Deuses e da providência, o movimento divino coletivo. Os Deuses nos deram consciência e livre-arbítrio para que possamos auxiliar na realização de Seus objetivos e no cumprimento do destino universal.
Embora você pense no seu ego como "você", por ser a parte da sua alma mais separada das almas dos outros, ele é, na verdade, a parte mais baixa/superficial da sua psique. Seu eu superior/profundo, que é o verdadeiro "você", está mais intimamente unido aos eus superiores/profundos das outras pessoas.
Na verdadeira magia, que é uma arte sagrada, o mago age para cumprir o destino do todo. Portanto, é importante que o mago seja "iluminado", pelo menos a ponto de servir ao eu superior/profundo em vez do ego. Ou seja, como mago, você emprega seu ego como uma ferramenta para trazer a vontade dos Deuses à consciência, para que, por meio de atos simbólicos, essa Vontade possa ser realizada de forma mais eficaz. (Esta é, presumivelmente, pelo menos parte da razão pela qual os Deuses nos criaram.)
O que são esses atos simbólicos? Assim como no mundo físico as coisas se afetam por meio de forças físicas, no mundo psíquico as Ideias se influenciam por meio de símbolos, signos e simpatias. Essas são as matérias-primas com as quais o mago trabalha. Se a moeda básica do mundo físico é a energia, então a moeda básica do mundo psíquico é o significado. Ao manipular conexões e influências, o mago efetua mudanças no mundo psíquico, que é – lembre-se – tão real quanto o mundo físico, pelo princípio do monismo. Isto é, como a psique é uma perspectiva autêntica da realidade, as conexões simbólicas, percebidas ou construídas na mente, são tão reais quanto as conexões físicas.
A magia funciona mais eficazmente quando o ego está a serviço do eu superior, que por sua vez está a serviço dos Deuses. Portanto, a magia é mais eficaz quando ajuda a cumprir o destino. Como consequência, a magia bem-sucedida muitas vezes parece não ser milagrosa em retrospectiva, porque, em retrospectiva, o resultado parece provável ou mesmo inevitável.
A magia que tenta frustrar o destino universal é menos bem-sucedida. É como tentar remar contra a corrente de um rio caudaloso; pode-se fazê-lo por um tempo, mas o rio vence no final. Da mesma forma, essa magia pode criar vórtices caóticos no fluxo, mas os efeitos são locais e se dissipam em pouco tempo.
O verdadeiro mago não luta contra o rio, mas trabalha com ele, ajudando a canalizá-lo na direção que lhe foi destinada. Portanto, a magia bem-sucedida implica conhecimento da providência e disposição para trabalhar com ela. Felizmente, a magia mal orientada geralmente é ineficaz. A magia sagrada se torna poderosa pela cooperação com a providência divina.
As observações anteriores não implicam que o verdadeiro mago nunca pratique magia em benefício próprio. Em vez disso, você pode praticar magia para o seu próprio bem imediato, se isso facilitar o seu serviço sagrado à providência. Por exemplo, você pode usar magia para se proteger de ladrões ou para proteger sua terra de invasores, se isso o ajudar a cumprir seu encargo sagrado. É claro que, se o destino for melhor cumprido por você ser roubado ou por sua terra ser invadida, então você pode descobrir que sua magia é ineficaz, pelo menos a longo prazo.
Na prática, o mago deve tentar adivinhar a vontade dos Deuses; assim, você pode saber os fins para os quais sua magia deve ser direcionada. Então, você deve colocar seu ego a serviço do seu eu superior e dos Deuses. Ao deixar o resultado de sua magia nas mãos dos Deuses, você garantirá que sua Arte esteja em conformidade com a providência e não a impeça.
O exposto acima pode ser resumido nestes axiomas da magia:
- Saiba que o universo é mente e matéria simultaneamente.
- Saiba que seus eus superiores estão todos unidos na Divindade.
- Seu ego serve ao seu eu superior, que serve devotadamente aos Deuses.
- Que sinais e símbolos sejam transformados para realizar a obra do destino.