Será que sua empresa sabe o que é consumo consciente?
Em tempos de Olimpíadas, o sentimento de fraternidade entre os povos renova-se, afinal esse é o cerne desse tipo de evento. Por alguns dias, questões sociais relevantes são levantadas e discutidas, é como se a consciência de que somos todos habitantes deste pequeno ponto azul na imensidão do espaço tome sua devida importância em nosso dia a dia.
Ecologia, sustentabilidade, cooperativismo, aproveitamento de recursos, reciclagem, recursos renováveis... tudo isso vem à tona nessas raras oportunidades em que diversos povos, etnias e culturas se unem em um único grande evento. Mas não é de hoje que o mercado discute nesses temas.
CONSUMO CONSCIÊNTE é o ingrediente principal para relacionar mercado, ecossistema e sociedade. O termo acabou perdendo seu significado dentre as centenas de teorias e legislações criadas a respeito e acabou ganhando uma significância restrita, quase pejorativa, um mero “consumir com parcimônia aquilo que, em excesso, pode trazer algum mal”.
O consumidor atual anseia por informação em seu ato de comprar um produto ou contratar um serviço, e poucas são as empresas que se dão conta que saciar essa necessidade de conhecimento pode agregar um valor surpreendente e gerar impacto significativo em seus resultados, e esta sim seria a definição mais simples e completa de consumo consciente!
O bom desenho e uma boa apresentação é uma das formas mais clássicas de agregar valor. Um produto bonito de se ver, uma embalagem chamativa, um PDV bem organizado, um folheto explicativo e de boa legibilidade, tudo isso incrementa um produto, mas já faz algum tempo que apenas isso não satisfaz mais o público em geral, é preciso rever alguns pontos.
Segundo dados da ONU, em 2010 a população mundial beirava os 7 bilhões de pessoas, desses, pouco mais de 15% era responsável por quase 80% do consumo mundial. O crescimento desse número ocorreu na ordem de cerca de 150 milhões de novos consumidores “ingressando” no mercado a cada ano, ou seja, entre 2010 e 2016 temos quase um bilhão de novos consumidores “ativos” no mundo.
Perceba que ainda existe uma parcela absurdamente significativa de pessoas que simplesmente não estão inseridas significativamente no mercado mundial.
E não pense que essas pessoas habitam países mal conhecidos e “obscuros”! A Conferência das nações unidas sobre comércio e desenvolvimento, realizada no mês passado (julho de 2016) em Nairóbi, no Quênia, mostrou que o mercado brasileiro, assim como todos os países ditos “emergentes”, ainda é apenas uma fração de seu verdadeiro potencial.
Mas a cultura de obsolescência programada que muitas empresas ainda utilizam para assegurar a continuidade das vendas, não é compatível com o conceito de consumo consciente. Os recursos naturais exaurem a cada dia, as políticas de reciclagem ainda são ineficazes em reaproveitar as milhares de toneladas de lixo produzidos diariamente, e paralelamente o mercado precisa aumentar vendas, aumentar lucros e gerar novas contratações, um cenário quase apocalíptico que me faz lembrar do Cartel PHOEBUS, bem apresentado pelo documentário “The light bulb conspiracy” dos cineastas Cosima Dannoritzer e Steve Michelson para a TV espanhola, que retrata o cartel formado pelos grandes fabricantes mundiais de lâmpadas entre as décadas de 20 e 40 do século passado para reduzir para menos da metade a vida útil de seus produtos para aumentar as vendas.
Consumo consciente precisa de produção consciente, e o consumidor cada dia mais exige referências e endosso dos produtos que compra. Cada vez mais a origem e os processos deixam de ser segredos industriais para se tornarem argumentos de venda. Ninguém mais quer comprar um produto feito por trabalho escravo, ou que desmate mata nativa para sua produção. A lógica é simples, como pode-se ver no vídeo de menos de dois minutos da fundação alemã Global 2000 “Mude seus sapatos”.
Serviços e mídia não fogem dessa regra, e isso é fácil de ver exemplos sequenciais em nosso dia a dia. Recentemente o cantor Gabriel Araújo Marins Rodrigues, conhecido como MC Biel, um fenômeno no I Tunes que incomodou grandes estrelas internacionais no ano passado, como Adele, “decidiu dar uma pausa em sua carreira” recentemente após a divulgação de comentários preconceituosos e uma denúncia de assedio contra uma jornalista. Goste ou não do gênero (e eu confesso que não me agrada), esta é uma das dezenas de bombas que movimentam o mercado fonográfico de tempos em tempos. Seus números despencaram e sua carreira perdeu a viabilidade comercial.
O fato é que o consumidor sabe que tem opções hoje em dia, e vai sempre preferir o melhor custo benefício, e apesar dessa máxima ser uma verdade antiga, o que mudou é o conceito do que é realmente um benefício. Não basta mais trazer vantagens para um consumidor, é preciso trazer benefícios reais à sociedade a ao planeta.
Faço parte do Lab.K, um escritório de criatividade e inovação que sempre busca trazer retorno não apenas financeiro, mas também de branding e social a seus clientes, e fico impressionado como o mercado ainda está despreparado para aceitar a mudança de perfil dos consumidores que, apesar de crescer a cada dia, não é nenhuma novidade.
Empresas que ainda discutem o conceito de CRM, quando o próprio conceito de Omnichannel já começa a se desgastar e o público começa a exigir experiência de seus produtos e serviços acabam perdendo grandes oportunidades de mercado, e a própria situação do mercado e o afã generalizado de “não ousar para manter seu emprego”, por mais coerente que possa parecer, é um contrassenso na questão estratégica. O próprio colaborador é um consumidor que não compraria um brinquedinho sequer sabendo que há suspeitas do envolvimento de trabalho infantil em sua manufatura. Serve para o indivíduo não serve para a empresa?
Talvez já tenha passado da hora de ampliar os horizontes e compreender que o mundo já mudou, e vai continuar mudando a cada dia. Você quer mesmo perder esse trem?