Numa tarde pernambucana qualquer, com aquele vento fresco chegando das bandas do atlântico, Alceu resolveu ir caminhar pela praia de Boa Viagem com seu violão atado ao ombro. Ia caminhando pela areia, olhando o balanço das ondas e das moças que andavam por ali. Já estava seco de sede e resolveu tomar uma laranjada no quiosque por perto. Enquanto se aproximava da banca, viu seu amigo Lierson sentado no banco no calçadão, a cara perdida e vermelha, olhos inchados. Ficou confuso e custou acreditar que aquele era o Lierson, mesmo assim, foi em sua direção e diacho, era mesmo o homem.
Conheciam-se desde meninos, juntos apanhavam cajus pelos vizinhos do bairro e apanhavam quando finalmente descobriam suas ladroagens. Cresceram pelas vilas, se encontrando e desencontrando. Vez ou outra via o amigo quando ia em direção ao porto do peixe. Lierson, por sua vez, de quando em quando, via Alceu, seu amigo, passando pelo porto. Achava-o engraçado com aquela cabeleira longa e castanha lhe caindo pelas costas e os ombros. Sempre fora magro, alto, usando a bermuda velha e uma camiseta enrolada que vivia ali na beira do ombro. E Alceu sempre fora metido a poeta, vez ou outra saia pelo mundo cantando suas músicas. Achava graça quando o via bêbado lá pelo Bar do Centro, rodeado das meninas da noite, loucas por mais uma frase graciosa dele, mais até do que pelo dinheiro que carregava no bolso. Sentia um tantinho de inveja, pois não tinha nenhuma cabeleira castanha, não era alto e muito menos sabia conversar com as mulheres. Tudo lhe era pelo contrário, era baixote, atarracado, a pele morena pelo sol e o corpo cheio de mazelas da profissão, tinham a mesma idade, mas ele se parecia no mínimo uns 30 anos mais velho. Mesmo assim gostava de Alceu, ele sempre fora bom e honesto.
Alguns minutos passaram-se até que Lierson finalmente respondesse à pergunta de Alceu sobre o que havia acontecido, na verdade, nem respondeu nada de início, só olhou em direção ao amigo e em meio aos olhos perdidos começou a contar o que lhe afligia.
Olhe Alceu, disse Lierson com a voz embargada, todos os dias eu vou naquele porto e descarrego aqueles barcos. Aqueles porões que passam de minha altura de tanto peixe, caramujo, água-viva e todo tipo de bicho que ou te morde ou te queima ou te espeta. Eu vivo só para me abaixar, levantar caixa, andar, baixar caixa e começar tudo de novo. Até me sinto meio oco, sabe, vazio, de tanta coisa sem coisa, visse?! Deu outra fungada e continuou sua história. Pensar me dói a cabeça, então até que eu não reclamava de ser oco, porque se pensava, havia de pensar em coisa errada e ali era pecado, ou então nas dívidas lá na biqueira do Seu Chico e isso já me deixava era triste. Mas veja, nessa minha vida dessa calejada e oca, eu tinha uma alegria, uma, Alceu, levantou o dedo indicador e olhava com tristeza para ele.
Minha alegria, era quando terminava o sábado e o Juca sem dente me dava uns trocados pela semana, eu colocava na cueca, pois não sou burro e rumava para casa quase sem me aguentar. Nos domingos eu acordo cedo, me sirvo de um balde d’água até a boca lá da bica, me limpo todo que falta a pele cair, limpo até debaixo das unhas, faço esses fiapos de barba que Deus me deu e visto essa camisa aqui que comprei de três vezes de Dona Verinha. Passo um punhado de vaselina nos cabelos para disfarçar esses queimados do sol e outro punhado do perfume Avon que ganhei de minha irmã. Daí me mando para Boa Viagem sem perder um minuto. Sento neste mesmo banco faz quase quatro meses. Sabe por que Alceu? Indagou Lierson.
Alceu levantou os ombros, negou com a cabeça e esperou que o amigo continuasse a história. Por causa de minha namorada. Todo domingo, me sento aqui perto do quiosque e espero ela aparecer. Ela é a moça mais linda de toda a cidade, branca feito uma nuvem, e o vestido dela é sempre de algodão florido, batendo por debaixo dos joelhos. Ela tem os cabelos aloirados, presos em rabo de cavalo e um chapéu de fazenda branca que cobre o rosto rosado. E ela sempre vinha e passava a tarde olhando o mar, num silêncio. Os olhos dela quase pareciam esse azulzinho que está no céu agora. Ele apontou para cima. Ela era perfumada que de longe podia sentir o cheio de rosa açucena.
Mas Lierson, o que há de ter acontecido para você está neste estado, homem? Terminaram? Alceu teimou em interromper. Não, não, me deixe terminar de contar e quem sabe você me ajuda, respondeu Lierson.
Ela chegava e se sentava nesse banco todo domingo e todo domingo eu ficava espiando ela e a mãe, eu acho que era a mãe, que vinha junto lhe fazer companhia. Estava guardando meu dinheiro para comprar logo um anel, pois assim que me apresentasse já ia lhe pedir a mão, pois sou um rapaz direito. Mas veja, Alceu, já faz mais de um mês que ela não me aparece mais aqui. Já não sei mais o que fazer sem o amor de minha vida. Lierson nesse momento caia no choro desolado mais uma vez. Alceu sem saber muito o que fazer, pois as pessoas já se juntavam ao redor olhando o desespero do rapaz, pediu uma água ao rapazinho do quiosque.
A dona do quiosque, já assustada com o choro do rapaz, veio por perto e trouxe água com açúcar. Curiosa, perguntou o que havia de ter acontecido. Alceu lhe explicou com o pouco que sabia e a mulher baixotinha se avermelhou.
A menina? Questionou a mulher. A menina que seu amigo conhece!? Ora pobrezinha! Ela não vem mais aqui mesmo não. A mãe quem a trazia. Veja, a menina sofria de doença da cabeça, não falava com ninguém, vivia em outro mundo, se quebrou pelo meio do caminho, a mãe me contou. Todo domingo trazia a coitadinha para vir aqui, pois a menina era apaixonada pelo mar. Eu via que ela viajava no azul mesmo, tentei conversar com ela, mas nada lhe fazia prestar atenção. A mãe vivia dizendo que ia tentar ir para São Paulo deixar a mocinha num asilo que quem sabe ela podia se curar. No último dia que apareceram, a mãe me agradeceu e disse que iam embora. Sempre lhe vi aqui, apontou para o Lierson, mas nunca tinha notado que o senhor era namorado da menina.
Mas ele não é, Alceu falou. Mas havia de ser, não me importava a doença dela, já guardava dinheiro para ter nossa casa, ia cuidar dela. Lierson completou enquanto se afundava em soluços mais profundos agora que sabia que sua noiva e namorada tinha partido sem nunca conhecer seus sentimentos. A dor em seu coração parecia crescer mais e mais e Lierson chorava sem consolo e já quase sem ar. Alceu, já nervoso com a situação, pediu que a dona do quiosque lhe desse algo para abanar o amigo. O rapazinho que ajudava no quiosque disse que só tinha uma revista por ali para ajudar e a entregou à Alceu, que se pôs a abanar. Num ímpeto Lierson pegou das mãos de Alceu a revista gritou, é ela, Alceu! É a minha menina!
Alceu olhou a capa da revista que o amigo lhe mostrava, havia nela uma atriz de cinema, loira de olhos azuis, olhando pelas costas em direção ao leitor. A La belle de Jour? Alceu perguntou em entender muito bem como que o amigo conhecia a atriz de um filme tão famoso. É ela, é igualzinha à minha menina. Lierson abraçou-se a revista e seus soluços iam passando para um nível mais contido, como se a ferida do coração pela perda, tivesse recebido um pouco aliviada, já que agora, pelo menos, tinha uma lembrança da moça mais bela dali e dona de seu pobre coração.
Vem Lierson, levanta! Vamos pegar um carro para eu lhe levar em casa. Talvez algum dia sua menina volte. Hoje não, que já vai escurecendo. Os dois amigos se despediram da dona do quiosque e agradeceram pela ajuda. Lierson sentado ao lado do amigo no taxi, ainda agarrado na revista, tinha no rosto lagrimas que escorriam silenciosas entre as fungadas do rapaz. E Alceu, com seu violão no colo ia dedilhando-o, comovido pela perda do amigo, ensaiava em sua cabeça uns versos que podiam dar em uma música, enquanto iam para longe da praia de Boa Viagem.
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Nota da Autora: O objetivo da atividade que deu origem ao texto era reescrever uma cena parodiando o que aconteceu de fato.