parte 1
Eu estava com um sono terrível que me corroía cada vez mais, não fazia ideia de quanto tempo teria que ficar no aeroporto. Havia todo o tipo de gente ali, umas conversavam em seus celulares, outras corriam para não perder o voo, entre muitas outras pessoas barulhentas que me deixavam em agonia. Admito que nunca gostei de lugares cheios, sempre possuí uma sensibilidade com sons altos e muitas pessoas em um só lugar me deixam extremamente ansioso, estar ali parecia uma tortura. Já estava esperando-a há mais de quarenta e cinco minutos e não havia nem sinal do voo de minha irmã. Tentei mandar mensagem, por mais que fosse idiotice, já que seu celular estaria desligado ou em modo-avião. Para melhorar minha noite, meu celular estava apenas em quinze por cento, ou seja, nem isso eu tinha mais para poder distrair minha mente e não acabar pegando no sono.
Em minha frente havia uma menina em seu vestido azul-marinho, botas pretas e algumas poucas malas. Não parecia perdida, então suponho que deveria estar esperando algo ou alguém, seu rosto era jovem e podia-se dizer que ela teria entre dezoito e vinte e três anos, sua pele é clara, cabelos castanhos escuros e encaracolados. Próximo a ela havia um menino, que deveria ter a mesma idade que a garota quase ao lado. Ele vestia roupas pretas e seus cabelos eram loiros e bem lisos, como os da mulher que o acompanhava, talvez fosse uma tia ou a mãe, julgando pela idade que a moça parecia ter. Desenhei algumas dessas pessoas em meu caderninho de capa preta, com anotações como essas ao lado. Foi o jeito que eu dei para tentar me distrair, mas não nego que dei "graças a Deus" quando finalmente ouvi que o vôo de minha irmã já iria pousar. Quando finalmente ela saiu do portão de desembarque eu pude sentir seus olhos em mim e já sabia o que estaria por vir, aquela cena que eu bem conhecia. Ouvi um grito que vinha dela e a vi correndo em minha direção para me abraçar. Sempre achei bem desnecessário aquilo tudo, mas era ela e ela sempre foi assim.
Eu e Madelaine tivemos duas infâncias bem distintas, ela é a mais velha, a mais animada e sempre escondeu tudo de ruim que sente pra não preocupar ninguém e assim continuar emanando energias positivas a todos a seu redor. Me pergunto até hoje se isso não foi desgastante durante tantos anos. Eu, por outro lado, sempre fui o mais novo, quieto e pessimista. Somos irmãos bem diferentes, não só pelas personalidades distintas, mas nossas fisionomias também. Enquanto minha irmã possuía seus cabelos ruivos lisos, sardas, pele branca pálida e olhos verdes, eu tinha cabelo castanho escuro, olhos verdes e pele morena.
Ela chegou a pegar o pequeno caderno que eu segurava, viu os desenhos, olhou para trás tentando encontrar essas pessoas e viu apenas a menina, que agora estava acompanhada de um menino de "mesma idade", talvez fosse irmão, namorado, primo ou amigo. Nunca saberemos. Minha irmã sabia bem que eu gostava de desenhar pessoas que eu via pela rua, como uma forma de distração, já que era rotineiro que eu esquecesse de carregar o celular antes de sair. Eu nunca fui um adolescente que ficava muito tempo no celular, pelo contrário. Admito que amo videogames e jogos, mas ainda assim, não consigo ficar muito tempo em frente ao telefone. Minha bateria deve durar dois dias ou mais, já a bateria dos meus controles de videogame, se duram seis horas, é muito.
Mads passou apenas uma semana no “Lago da Lama” -um nome nada atraente, admito- desde que ela foi para nossa casa deixar a maior parte de suas malas, não tinha dado tempo de sentir saudade. Eu aconselhei ela a fazer essa viagem, depois que o namorado terminou um namoro de dois anos e trancou-a para fora de casa deixando suas coisas na rua. Depois disso, ela precisava distrair a cabeça e tentar esquecer. Estávamos a caminho do carro quando ela pergunta:
— E ai? Sentiu saudades? — Madelaine perguntou na esperança de uma resposta a qual já sabia que não teria.
— Você só passou uma semana lá, maninha... — Falei fitando o chão em minha frente.
— O que houve? Morreu por dentro? — Ela riu. Não nego, eu sentia falta daquela risada, por mais que fosse bem fácil de associá-la com um ganso engasgando.
— Você está louca? — Ri junto com ela e assim fomos conversando até em casa.
Ela iria ficar um bom tempo morando comigo por conta do ocorrido e eu não poderia recusar sua volta mesmo que não quisesse, o que nunca foi o caso. Eu sentia falta da nossa rotina morando juntos. Mas não admitiria para ela tão fácil assim.
Nunca fomos de brigar, então a convivência era bem tranquila. Moramos um ano e alguns meses juntos, até que ela decidiu morar com o namorado. Nunca tinha achado uma boa ideia, confesso, mas se ela o amava, por que não? Ainda confesso que acho o amor uma grande besteira, principalmente com pouca idade, mas eu não podia dizer se ela o amava ou deixava de amar, eu não sou ela. Assim que chegamos ela foi para seu quarto antigo arrumar suas coisas, eu não toquei em seu quarto em nenhum momento, nem quando ela foi morar longe e nem quando ela trouxe suas coisas de volta para casa. Nós não morávamos em uma casa extremamente grande ou de dar inveja, não. A casa era formada por uma sala aconchegante, nem pequena e nem grande, uma cozinha que por conta dos móveis grandes é pequena, mas ainda dá para se mover, um banheiro para visitas que chegava a ser menor que a cozinha, no andar de cima tínhamos o meu quarto, que era razoavelmente grande e possuía um banheiro, o quarto de minha irmã, que era igual ao meu e um quarto vazio no final do corredor. Não tínhamos porão e nem sótão ou ao menos um jardim.
Se nossa mãe um dia soubesse que morei sem Mads, ela surtaria com toda a certeza. Eu nunca pude ir ao parquinho ou sair para brincar na rua, porque Lucy -nossa mãe- nunca deixou. Parecia que ela acreditava nas lendas de Danvers, por mais que aquela fosse apenas uma “cidadezinha comum. ”Quando morávamos com minha mãe, não íamos à escola, ao invés disso, tínhamos aulas em casa e uma das pouquíssimas coisas legais de estudar em casa era que não estudávamos apenas francês como segunda língua, mas estudávamos outras como Latim e Alemão. Nós podíamos escolher o que queríamos aprender de novo, diferentemente de quando vim morar com minha irmã, onde eu não me adaptei muito bem ao colégio.
Eu tomei um banho e logo fui para o meu quarto, amanhã seria segunda e eu precisava acordar cedo, infelizmente. Joguei-me contra o colchão macio enquanto sentia o sono me sobrecarregar e por mais que eu não quisesse dormir, a tentação era grande. Desde os treze anos eu não gostava de dormir porque era rotineiro ter pesadelos. Pude sentir o arrepio subindo a minha espinha só de lembrar das noites mal dormidas e de cada detalhe que passava em minha mente sobre aqueles pesadelos.
Injustamente, fui vencido pelo sono e adormeço de bruços na cama. Os pesadelos não se manifestaram essa noite, graças a isso eu pude descansar de verdade. Acho que até demais...
(primeira parte do primeiro capítulo “lar doce lar.”, espero que tenham gostado)