Para oferecer o baralho a Ronan, Blue teve de se levantar, pois ele ainda estava de pé perto do vão da porta, próximo de Calla. Eles pareciam prontos para boxear.
Quando Blue abriu em leque as cartas, ele examinou as mulheres na sala e disse:
— Não vou pegar uma carta. Me digam algo verdadeiro primeiro.
— Como é? — disse Calla severamente, respondendo por Maura.
A voz de Ronan era de vidro, fria e quebradiça.
— Tudo que vocês disseram a ele poderia se aplicar a qualquer pessoa.
Qualquer pessoa viva tem dúvidas. Qualquer um já discutiu com o irmão ou com o pai. Me digam algo que ninguém mais pode me dizer. Não me venham com uma carta de jogo e uma besteira junguiana para me enfiar goela abaixo. Me digam algo específico.
Os olhos de Blue se estreitaram. Persephone colocou ligeiramente a língua para fora, um hábito surgido da incerteza, não da insolência. Maura se mexeu na cadeira, incomodada.
— Nós não fazemos uma leitura especí...
— Um segredo matou o seu pai e você sabe qual era.
A sala caiu em um silêncio mortal. Tanto Persephone quanto Maura olhavam fixamente para Calla. Gansey e Adam encaravam Ronan, e Blue olhava fixamente para a mão de Calla.
Maura muitas vezes chamava Calla para fazer leituras de tarô conjuntas, e Persephone às vezes a chamava para interpretar seus sonhos, mas muito raramente alguém pedia a Calla para usar um de seus dons mais estranhos: a psicometria. Calla tinha uma capacidade excepcional de segurar um objeto e sentir sua origem, sentir os pensamentos do dono e ver os lugares onde o objeto havia estado.
Nesse instante, Calla afastou a mão; ela a havia estendido para tocar a tatuagem de Ronan, bem onde ela encontrava o colarinho. O rosto dele estava voltado ligeiramente, olhando para onde os dedos dela haviam estado.
Poderia haver apenas Ronan e Calla na sala. Ele era uma cabeça mais alto que ela, mas parecia jovem ao seu lado, como um gato selvagem magricelo que ainda não ganhara peso. Ela era uma leoa.
O sorriso de Ronan gelou Blue. Havia algo de vazio nele.
— Ronan? — perguntou Gansey, com um tom preocupado na voz.
Sem mais um comentário sequer, Ronan partiu, batendo a porta com tanta força que as louças na cozinha tilintaram.
Gansey voltou um olhar acusador para Calla.
— Eu sei — disse Calla, com os olhos estreitos.
O tom de voz de Gansey era cordial o suficiente para seguir direto do educado ao rude.
— Eu não sei como você descobriu isso, mas que coisa desprezível para jogar em um garoto.
— Em uma cobra, você quis dizer — Calla rosnou de volta. — E para que vocês vieram aqui, se não acreditam que podemos fazer o trabalho pelo qual estamos cobrando? Ele pediu algo específico, eu dei algo específico. Sinto muito se não eram filhotinhos.
— Calla — advertiu Maura, ao mesmo tempo em que Adam disse: