Na noite que adentrou no dia de Iemanjá, sonhei contigo.
Do alto de um morro, que quase parecia uma pirâmide, eu te avistava lá em baixo. Mesmo de longe eu podia notar seu olhar tristonho a me chamar para perto. Escorrendo pela descida íngreme do morro sem escadas, fui ao seu encontro. No instante de um abraço-concha, como naquele dia dentro do ônibus voltando do shopping, você me disse que havia acabado de sair de uma entrevista e que tinha conseguido o intercâmbio que você tanto queria. Fiquei imensamente feliz. Você continuou, disse que iria viajar no final do mês, que a gente não tinha muito mais tempo juntas e que por isso precisávamos aproveitar cada minuto. Com o fim da temporada de hibernação, a zona abissal que habita em mim se tornou em polvorosa. Foi impossível não me deixar ser inundada. Não haviam barreiras capazes de conter tamanha intensidade.
Você chorava um misto de alegria com tristeza e na minha cabeça ressoava aquela música “se eu cantar, não chore não, é só poesia, eu só preciso ter você por mais um dia”. Em um lapso mental eu continuei cantando, agora em voz alta: vento solar e estrelas do mar, você ainda quer dançar comigo? Lembrei que o nome dessa música é Mar Azul. Lembrei de Iemanjá. Sorri. Lembrei de nós deitadas na grama daquele dia (quase) azul em frente de Odoyá. Peguei licença poética e adaptei um verso para você: vento solar e estrelas do mar, a terra azul é a cor de seu cabelo?
No sonho seu cabelo era azul, como em um tempo em que eu ainda não tinha te reencontrado. Azul é mesmo a cor mais quente, mas também é a mais transcendental. Se você fosse um tipo de azul, imagino que seria o Ultramar – não só por ter amar no nome. Mas por conta de um além-mar. Sua simples presença – e notável existência – causa um reboliço em minhas águas. Algo mais forte que a influência da lua sobre as marés. Não é matematicamente definido. Mas certamente é um sentimento de um limite que (quase) tende ao infinito.















