✘ — after the bitter end, comes the sweet epilogue
TASK #07 - WILDFIRE
{ ENTP - EXTRAVERSION, INTUITION, THINKING, PERCEPTION }
Pelo jeito, estava fazendo aquilo de novo. Tudo o que realmente esperava era que tudo corresse bem. Não lhe importava o fato de achar que o que ela mais temia havia começado, só queria que tudo ficasse bem. Allison apenas precisava resolver as coisas com ele, então poderia continuar vivendo em paz, escondendo sua provável situação de todos, e para o bem de todos. Era estranho admitir, mas sentia-se aliviada pelos acontecimentos serem discretos e relativamente normais para qualquer um. Estava conformada, ou quase conformada. Pelo menos era o que pensava, o que queria acreditar.
Allison Yatt era uma completa tagarela, uma mulher que todos diziam falar demais, mas, naquele momento, não conseguia pensar em nada para dizer. E o fato de não pensar a incomodava. Podia falar demais, mas pensava demais também. Sua mente nunca parava, sempre à frente, sempre antecipando as coisas. Tinha muitas coisas a falar e queria se livrar de todo aquele peso, mas não sabia como. Não conseguira pensar em uma única maneira de finalmente fazer o que queria sem parecer ridícula ou se transformar em alguém que não era, ou seja, uma garotinha indefesa e cheia de medos que se esforçava para manter presa dentro de si. Sempre achou que não precisaria falar com ele, apesar de querer muito. Por pensar demais, Allison sempre acabava concordando com seus pensamentos, com a sua intuição — daí vinha o fato de ser tão cabeça dura —, e a sua intuição dizia que tudo aconteceria naturalmente. Daquela vez, sua intuição estava errada e ela agradecia por ter percebido antes que fosse tarde demais.
Seus amigos que a desculpassem — apesar de que não precisariam, já que ninguém tomaria conhecimento de tudo o que havia feito sem contar a eles —, mas mudara-se novamente para Londres sem avisar ninguém. Por enquanto, estava ficando em um hotel. Aquilo mudaria naquela noite, a Yatt sabia. A intuição estava certa naquilo. Estava na frente de dois caminhos e aquela conversa determinaria qual deles ela seguiria. O motivo da coisa toda era ter recebido uma ligação de Elena, que parecia animada e feliz pelo pai da Yatt. O único problema era que Allison, a própria filha do homem, não fazia ideia daquela notícia. Não fazia ideia de que o pai estava planejando passar um tempo em outra cidade. Por isso, estava na porta de sua antiga casa.
A alegria e o calor que preencheram seu corpo ao ver o homem abrir a porta e simplesmente estar ali a surpreendeu. Um sorriso de canto quebrou a expressão séria, preocupada e minimamente hesitante da Yatt e então ela esperou. Esperou até que a voz do homem fizesse o silêncio desaparecer.
“Pensei que estivesse em Milão”, foi o que seu pai disse. Of course you did, foi a resposta que Allison deu em sua mente, mas não expressou em palavras. Depois disso, mais um longo silêncio. Queria saber decifrar seu pai tão bem quanto ele sabia decifrá-la ou quanto ela sabia decifrar as outras pessoas. Porém, Erik era um homem controlado quando o assunto era emoções e de poupas palavras. Enquanto a filha, perto do pai, era um livro aberto, que geralmente despejava palavras em cima do homem. Era uma situação estranha para ambos.
Allison acabou perdendo a conta das vezes que enumerou tudo o que queria falar em sua mente em ordem de importância. Desculpar-se. Falar dos médicos. Dos sintomas. Tentar resolver aquilo. E a lista realmente pareceu que funcionaria. A mulher respirou fundo e deu um passo para frente. “Eu... Eu descobri que mudanças de humor e comportamento impulsivo podem ser, I mean, são sintomas. Sabe, do avanço do Huntington. Você sabia disso? Did mom have that?” Sabia que havia começado do jeito errado, mas agora já estava feito. Que aquela lista idiota fosse para o inferno.
O mais velho apenas balançou a cabeça em negação. Deus, como Allison queria saber o que ele pensava. Não conseguia perceber nada. A mulher mordeu o lábio inferior antes de tentar continuar sua fala. Porém, foi interrompida por uma súbita onda de sentimento — considerando todo o controle do homem para tentar esconder aquilo — vinda de simples palavras. “Allison. Are you sure?” Erik perguntou, já que conhecia o péssimo hábito da filha de confiar demais no que achava e não procurar provas. A garota quase sorriu. Finalmente, alguma coisa. Mas sabia que aquele não era o momento para aquilo. Precisava de foco.
Assentiu levemente e, pelo fato de não conseguir perceber se ele havia entendido o gesto, começou a falar. “I mean, I think so. Eu estive percebendo...muito disso em mim nos últimos meses. Mais do que o normal, to be honest.” Admitiu, sentindo todo aquele peso a esmagando. Mas sabia que era assim. Com esperança, ele ficaria insuportável, para depois ir embora. Era verdade que não havia consultado nenhum médico para saber se a doença havia mesmo começado. Não por confiar demais no que achava, mas por medo. Porém, aquilo não era algo que a mulher admitiria. “Mas está tudo bem, eu só queria que você soubesse e queria resolver tudo com você antes de você se mudar, porque a Elena me ligou e ela teve que me contar porque eu não fazia ideia de nada e eu realmente desejo o melhor para você e acho que nenhum de nós vai ter paz se continuarmos assim...” E ali estava a Allison de sempre. A Allison que falava demais, a Allison que tentava ir devagar, mas nunca conseguia. E ela percebeu aquilo, por isso parou de falar e respirou fundo. Sentiu os olhos queimarem e olhou para o céu escuro, no intuito de dispersar as lágrimas. Pela primeira vez, conseguiu.
Os braços do Yatt mais velho se descruzaram e ele esboçou um misto de emoções. Tristeza. Arrependimento. Culpa. O ato de se aproximar da filha, que não via como filha há muito tempo, e abraçá-la foi tão normal que o homem se arrependeu de não ter feito aquilo antes. Allison, entretanto, estava realmente surpresa. É claro que abraçou o pai, tão forte quanto abraçaria a mãe, se ela pudesse estar ali. Família nunca pareceu ser um assunto tão importante para a grande Allison Yatt, mas aparências realmente podem enganar. Permitiu-se um sorriso em meio ao abraço. Finalmente ficaria tudo bem, finalmente seria livre daquele enorme peso, ainda que ele a deixasse em pequenas doses. Porém, não havia nenhum problema naquilo.
“I'm sorry, kiddo. Você é minha filha e sempre vai ser e agora eu entendo. Sinto muito se alguma vez, de alguma forma, eu matei os seus sonhos. E obrigada por não me deixar matar todos eles.” Começou, sendo sincero em cada palavra. Era, talvez, a primeira vez que tinha uma conversa tão aberta com a filha, e que estava apenas começando. Assim como Allison, Erik não era muito acostumado a mostrar emoções. “Sobre a doença... Você realmente deveria ter certeza antes de tentar me dar um ataque do coração.” Continuou, colocando um pouco de humor na fala e pensando por alguns instantes antes de voltar a falar. Tentou não demonstrar toda a tristeza que sentia, Allison não precisava daquilo. “But there isn’t much to say, uh? Você parece saber o que está fazendo e vai lidar bem com isso, na maioria das vezes.” Defendeu, com um sorriso maior no rosto, feliz ao ver que o mesmo sorriso também aparecia no rosto da filha. “E, quando você precisar, estarei aqui para ajudar e te apoiar em tudo. Agora sabe disso, não sabe?”
Allison murmurou uma simples resposta positiva. Porque sabia. Realmente sabia daquela vez.
















