A odisseia espaciotemporal de Bruno Pernadas | Reportagem
O sucesso do ‘Lufada’ em 2020, ciclo de concertos que marcou no ano passado o regresso aos eventos no pós-desconfinamento, ditou a repetição no presente verão. A iniciativa tem o selo d’ A Oficina, gestora do Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Uma dessas performances ocorreu na passada sexta-feira, 2 de julho, com uma performance de Bruno Pernadas.
A programação desta série de concertos do ‘Lufada’ foi pensada para acontecer ao ar livre nos jardins do Centro Cultural Vila Flor. Dada a previsão de chuva para esta última sexta-feira os planos da organização alteraram-se e o evento teve lugar na Praça Coberta do CCVF. A chuva compareceu durante a tarde e foi caindo a determinados momentos com alguma intensidade.
Essa praça permite-nos ter um teto, porém, é aberta em dois lados. Sinceramente a realização do concerto nestas condições é-me pouco lógica tendo em conta a ausência de programação nos auditórios do CCVF. A menos que haja algum motivo que desconheça não me fez grande sentido. Mais adiante outras considerações sobre o local escolhido…
Os bilhetes ficaram disponíveis para levantamento, um por pessoa, cerca das 18:30 horas nas bilheteiras do palácio. As pessoas começaram a chegar cerca das 18h e tiveram que esperar na fila à chuva até à permissão do levantamento do ingresso. A organização do CCVF podia ter pensado nesta situação e feito esforços para dar outro conforto às pessoas. Infelizmente tal não aconteceu…
Com situações menos boas a registar antes do início, o concerto só podia ter sido um belo momento. Felizmente foi isso a que assisti. Apesar do palco se ter situado numa localização menos agradável para os artistas, estavam mais expostos aos elementos chuva e vento do que o público, apresentaram-se bem-dispostos e deram o seu melhor.
Já o público teve condições muito diversas. As pessoas que tiveram sentadas nas filas da frente até à mesa do som ficaram com uma visão ótima. As restantes ficaram limitadas devido à estranha disposição das cadeiras por entre os pilares que não permitiram uma experiência totalmente conveniente.
Foco agora para o principal desse final de tarde. O lisboeta Bruno Pernadas teve a colaboração de outros 9 músicos, reunindo um ensamble ilustre de músicos à sua volta. Têm tanto de ilustre como de talentosos, como foi perfeitamente percetível, durante toda a performance com um desempenho impecável.
Da maior e mais elementar justiça citar os seus nomes: Margarida Campelo (piano, wurlitzer, sintetizadores e voz); Francisca Cortesão (voz e guitarra); Afonso Cabral (voz e guitarra); Minji Kim (voz); João Correia (bateria, percussão e sampler); Nuno Lucas (baixo elétrico); Diogo Duque (trompete e flugelhorn); João Capinha (saxofones (tenor, alto e soprano)) e Raimundo Semedo (saxofone barítono).
‘Private Reasons’ é o mais recente trabalho discográfico de Bruno Pernadas, lançado em março de 2021, que tem merecido rasgados elogios de vários quadrantes do planeta musical incluindo de publicações estrangeiras famigeradas. Um álbum inovador, fabuloso e diferenciado sem qualquer dúvida. Ao vivo é igualmente uma experiência diferente e enriquecedora.
Bruno entrou em palco com um sobretudo azulado dando-lhe uma proteção extra perante as condições, sendo que, feito o devido aquecimento acabou por tirá-lo. Os restantes elementos mostraram-se com vestimentas mais arrojadas como a de Nuno Lucas ou João Correia e mais sóbrias de Margarida Cabral ou Francisca Cortesão.
Em tempo de apresentação de ‘Private Reasons’, o concerto teve interpretações, na sua larga maioria, temas desse disco. Na parte inicial ouvimos “Family Vows” e “Lafeta Uti”. Mais adiante escutamos “Brio 81” e a deliciosa “Little Seasons 1”, um dos momentos mais incríveis com uma passagem “robótica” de Bruno com a sua guitarra em que parece ganhar uma voz própria.
A convidada especial Minji Kim, de origem coreana, interpretou “Jory II” tal como o fez na versão do disco cantando na sua língua materna.
Houve ainda momento para um momento cómico quando Bruno relembrou que estivera neste mesmo local 2 anos antes (em 2019 para o Festival Manta) dizendo “Estivemos cá há 2 anos. Não sei se estiveram cá…”. Respondeu apenas uma pessoa originando uma gargalhada coletiva.
Após uma breve saída de cena, os músicos ficaram retirados uns segundos perto do palco, regressaram para o tradicional encore por entre os aplausos do público. Foi tempo para regressar ao 2º álbum ‘Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them’ com a interpretação de “Galaxy”. Nesta altura dois pequenos objetos fabricadores de bolas de sabão foram postos a trabalhar, curiosamente só o que estava do lado direito do palco quis colaborar.
Para o final ficou reservado “Theme Vision”, o principal single de ‘Private Reasons’, para um final em beleza. Tratou-se, sem margem para dúvidas, de uma performance bastante bem conseguida e de uma bela maneira de iniciar o fim-de-semana.
O ciclo ‘Lufada’ termina esta sexta-feira, dia 9 de julho, com um concerto de Débora Umbelino mais conhecida pelo seu nome artístico Surma.
Texto: Edgar Silva Fotografia: Jorge Nicolau











