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Palácio Vila Flor, Guimarães (by takwing).
#ccvf #centroculturalvilaflor #guimaraes #shadowandlight #portugal #photography #nikon #vmribeiro (em Centro Cultural Vila Flor) https://www.instagram.com/p/Cgoi4spMSfP/?igshid=NGJjMDIxMWI=
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ÁLVARO LAPA NAS SEQUÊNCIAS NARRATIVAS COMPLETAS DO JOÃO SOUSA CARDOSO. Por Afonso Becerra de Becerreá
O sábado 8 de junho de 2019 fui ao Centro Cultural Vilaflor VER Sequências Narrativas Completas do João Sousa Cardoso, programado nos Festivais Gil Vicente de Teatro Contemporâneo de Guimarães.
Ponho em maiúsculas VER, porque Sequências Narrativas Completas é mais uma performance verbal do que um espetáculo de teatro ao uso. Quase me atreveria a afirmar que se trata duma soirée na qual o João nos conta um conto. O relato poliédrico sobre um professor que determinou, de alguma maneira, a sua vida. João Sousa Cardoso conta-nos, sentado a uma mesa sob os focos do teatro, o seu conto sobre o Álvaro Lapa, professor, artista plástico, escritor, pensador... Aquele professor de estética da Faculdade de Belas Artes do Porto, que fumava, lia e refletia diante dos seus alunos e alunas. O professor diferente que representava o conhecimento afastado dos patamares do poder e das classificações académicas estandardizadas. O eremita, o operário da arte e do pensamento, o fugitivo... acompanhado pelo precursor do niilismo e do existencialismo, Max Stirner, mas também por Kafka, Rimbaud, Joyce, Artaud, Brecht... sem ídolos e sem reduzir o movimento vital a categorizações.
O João Sousa Cardoso, que toma Sequências Narrativas Completas do título do último livro do Álvaro Lapa, lê-nos os seus apontamentos sobre o admirado professor e faz-nos viajar pela biografia que, desde um tom objectivo, nos mostra, porem, uma pessoa com um percurso muito peculiar, afastado de grupos de poder ou do afã do marketing. Faz-nos viajar, através do relato, por uma rica seleção de imagens, na descrição de obras pictóricas do Lapa, como, por exemplo, “Insónia”, para estabelecer uma relacionamento com livros, como, por exemplo, o Finnegans Wake de James Joyce. Porque as pinturas e desenhos do Álvaro Lapa saíam das leituras e dos pensamentos, com uma rudeza quase contestatária e, sobretudo, livre.
Com a palavra, o João, também nos faz ver, imaginar, as páginas do último livro de Lapa, Sequências Narrativas Completas, que o acompanha na mesa que está no palco, à beira das folhas de papel de cores, nas quais estão as anotações do dramaturgo-ator, e da esfera prateada e o copo de água. Faz-nos ver a “mise-en-page” através da sua descrição.
As descrições verbais que faz o João desenham, de maneira sintética, com traço muito preciso, as imagens, para que nos resultem visíveis.
O João Sousa Cardoso fica na mesa a falar, às vezes, numa espécie de diálogo com o próprio Álvaro Lapa, outras vezes a ler, como num relatório e, no entanto, há produção de imagens, há produção de pensamento e, por suposto, há produção de subtis emoções.
Sobre a mesa redonda, no meio dum palco no que destaca uma enorme tela branca pendurada no fundo, há uma esfera prateada. À esquerda do espectador um monólito com a inscrição do número 2, como esses monólitos que delimitam distâncias nas estradas. Ao rematar o relato ouve-se uma canção pop em inglês. O João levanta-se da cadeira e vai até o monólito, para manipular os fios que seguram a enorme tela branca, evocação dum estudo de pintor e, à vez, dum teatro. Então tira dos fios, para movimentar essa tela, como se fosse um fantasma, e para faze-la cair, descobrindo o fundo negro do palco e uma esfera prateada, à direita do espectador, similar à que descansa sobre a mesa.
A luz, durante a peça, evolui subtilmente, com mais ou menos intensidade, mais ou menos calidez, segundo se vai desenrolando o relato, para musicalizar as diferentes passagens.
Eu conheci ao Álvaro Lapa, há uns anos, em 2015, através da performance do João Sousa Cardoso, na peça titulada, também, como um livro do Lapa: Barulheira, programada pelo Teatro Nacional São João do Porto, no Mosteiro São Bento da Vitória ( http://www.artezblai.com/artezblai/ascetismo-teatral-y-barulheira-barullo.html )
Depois, tive a oportunidade de assistir à exposição antológica de pinturas e desenhos, titulada “Álvaro Lapa: No tempo todo”, que se celebrou no Museu Serralves do Porto em 2018. Lá pude comprovar que a obra do Lapa é tão magnética como o relato que, sobre ele, constrói o João Sousa Cardoso. Lá pude comprovar que a obra do Lapa é uma espécie de universo, de cosmos, muito abrangente e, ao mesmo tempo, singular.
Nas fotos que fiz nessa retrospectiva do Museu Serralves também se pode apreciar a funda dimensão filosófica dessas frases pintadas, feitas imagem, e a capacidade para o aforismo simples de imensa profundidade.
Em Sequências Narrativas Completas do João Sousa Cardoso, no seu texto e dicção, elocução, há também esta sensação, similar à que produz um haiku, de simplicidade e profundidade, de clareza e mistério, de proximidade e humanidade.
Igual que o Álvaro Lapa, tal qual nos diz o João, lhes ensinava a vitalidade do pensamento em ato, na performance que encena a visão que o João tem do Álvaro, também há essa vitalidade do pensamento em ato. Uma vitalidade que, em certa maneira, ressuscita ao professor Lapa.
Acho que poucas vezes temos a possibilidade de assistir a uma homenagem tão especial a um professor. Uma homenagem isenta de pompa e sentimentalismo, fora de estereótipos ou manipulações tendenciosas que pretendam definir e, por tanto, fechar o retrato da pessoa homenageada. Uma homenagem isenta da grandiloquência beatificadora. Uma homenagem discreta, austera, mas sem rigidez nem frialdade.
Considero que toda pessoa necessita ter um professor ou professora no seu ADN intelectual e mesmo sentimental. Acho que deveríamos valorizar muito mais a figura da/o professor/a, assim como a importância radical da transmissão e da produção de conhecimento. Por isso este espetáculo, que semelha renunciar à espetacularidade igual que o Álvaro Lapa também renunciava aos privilégios dos artistas que estão no topo, se faz tão necessário.
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